{"id":68654,"date":"2017-07-06T07:48:58","date_gmt":"2017-07-06T10:48:58","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=68654"},"modified":"2017-07-06T07:48:58","modified_gmt":"2017-07-06T10:48:58","slug":"pesquisa-possibilita-controlar-a-contaminacao-de-castanhas-do-para-por-micotoxinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/pesquisa-possibilita-controlar-a-contaminacao-de-castanhas-do-para-por-micotoxinas\/","title":{"rendered":"Pesquisa possibilita controlar a contamina\u00e7\u00e3o de castanhas-do-par\u00e1 por micotoxinas"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/pesquisa-possibilita-controlar-a-contaminacao-de-castanhas-do-para-por-micotoxinas\/castanha_para\/\" rel=\"attachment wp-att-68655\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-68655\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/castanha_para-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/castanha_para-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/castanha_para.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>A castanha-do-brasil, conhecida popularmente como castanha-do-par\u00e1, pode ser altamente suscet\u00edvel \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o por micotoxinas (subst\u00e2ncias t\u00f3xicas produzidas por fungos), desde o momento em que cai no solo na floresta amaz\u00f4nica, ao despencar da castanheira (<i>Bertholettia excelsa<\/i>), at\u00e9 chegar ao consumidor.<\/p>\n<p>A fim de investigar os pontos cr\u00edticos de contamina\u00e7\u00e3o desse produto por micotoxinas, um grupo de pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), de Campinas \u2013 \u00f3rg\u00e3o vinculado \u00e0 Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de S\u00e3o Paulo \u2013, em colabora\u00e7\u00e3o com colegas da Technical University of Denmark (DTU), rastreou os fungos presentes na castanha-do-par\u00e1 com potencial de produzir essas subst\u00e2ncias t\u00f3xicas, desde a etapa da coleta at\u00e9 a comercializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os resultados do estudo, realizado por meio de um <b><a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/46048\/biodiversidade-das-especies-toxigenicas-de-aspergillus-no-brasil-ocorrencia-taxonomia-polifasica-e\/\">projeto<\/a><\/b> apoiado pela FAPESP, contribu\u00edram para a realiza\u00e7\u00e3o de um diagn\u00f3stico do problema e para o desenvolvimento de estrat\u00e9gias de controle de contamina\u00e7\u00e3o da castanha-do-par\u00e1 por micotoxinas. Al\u00e9m disso, contribu\u00edram para o estabelecimento de regulamentos nacionais e internacionais sobre limites m\u00e1ximos tolerados dessas subst\u00e2ncias t\u00f3xicas no produto.<\/p>\n<p>O estudo foi descrito em dois artigos publicados nas revistas <i>Food Microbiology<\/i> e\u00a0<i>International Journal of Food Microbiology<\/i>.<\/p>\n<p>\u201cA pesquisa possibilitou identificar os pontos cr\u00edticos na contamina\u00e7\u00e3o de castanhas-do-par\u00e1 por aflatoxinas <i>[<\/i>micotoxinas produzidas por esp\u00e9cies de fungos do g\u00eanero Aspergillus] e estabelecer medidas para reduzi-la por meio de melhorias na cadeia produtiva\u201d, disse Marta Hiromi Taniwaki, pesquisadora do Ital e coordenadora do estudo, \u00e0 <b>Ag\u00eancia FAPESP<\/b>.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisadora, o estudo foi motivado por um problema de exporta\u00e7\u00e3o da castanha-do-par\u00e1 para a Uni\u00e3o Europeia em 2003. Naquele ano, o bloco de pa\u00edses europeu passou a rejeitar lotes do produto importado do Brasil sob a alega\u00e7\u00e3o de que apresentavam n\u00edveis de aflatoxinas superiores aos estabelecidos em sua regulamenta\u00e7\u00e3o \u2013 de 4 microgramas (\u00b5g) de aflatoxinas totais por quilo de castanha ou de 2 \u00b5 de aflatoxina B1 (considerada a mais t\u00f3xica) por quilo do produto.<\/p>\n<p>Com isso, o Brasil, o maior produtor mundial desse tipo de castanha, passou a ter dificuldades de exportar o produto para o mercado europeu porque n\u00e3o conseguia atender aos rigorosos limites de contamina\u00e7\u00e3o por aflatoxinas propostos.<\/p>\n<p>\u201cOs limites m\u00e1ximos tolerados de contamina\u00e7\u00e3o de castanhas-do-par\u00e1 por aflatoxinas estabelecidos pela Uni\u00e3o Europeia eram muito baixos. Por outro lado, a cadeia desse produto extrativista \u00e9 muito complexa e os controles de contamina\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram eficientes. O Brasil tamb\u00e9m n\u00e3o possu\u00eda uma norma que estabelecesse os limites m\u00e1ximos tolerados de contamina\u00e7\u00e3o dessas castanhas por micotoxinas\u201d, afirmou Taniwaki.<\/p>\n<p><b>Estrat\u00e9gia de controle<\/b><\/p>\n<p>A fim de definir uma estrat\u00e9gia de controle de contamina\u00e7\u00e3o, os pesquisadores decidiram realizar inicialmente um diagn\u00f3stico da cadeia de produ\u00e7\u00e3o de castanha-do-par\u00e1 para conseguir isolar e identificar os fungos respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o das aflatoxinas encontradas no produto, verificar em qual etapa o fungo tem mais condi\u00e7\u00f5es de produzir a subst\u00e2ncia t\u00f3xica e o que poderia ser feito para minimizar a contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para realizar o estudo, eles coletaram amostras do produto em diferentes fases da cadeia produtiva \u2013 abrangendo a floresta amaz\u00f4nica, comunidades quilombolas, mercados de rua e f\u00e1bricas de processamento nos estados do Par\u00e1 e do Amazonas, al\u00e9m de supermercados no Estado de S\u00e3o Paulo \u2013 a fim de verificar quais amostras apresentavam maiores n\u00edveis de contamina\u00e7\u00e3o e por que isso ocorria.<\/p>\n<p>Os resultados das an\u00e1lises indicaram a presen\u00e7a de uma grande diversidade de esp\u00e9cies de fungos dos g\u00eaneros <i>Aspergillus<\/i> e <i>Penicillium<\/i>, al\u00e9m de <i>Eurotium spp.<\/i>, <i>Zygomycetes<\/i> e fungos demati\u00e1ceos \u2013 conhecidos como \u201cfungos negros\u201d \u2013 e de toxinas produzidas por algumas esp\u00e9cies de <i>Aspergillus<\/i> nas amostras de castanhas coletadas em todos esses lugares.<\/p>\n<p>Os maiores n\u00edveis de contamina\u00e7\u00e3o por aflatoxinas foram encontrados em amostras coletadas, respectivamente, em unidades de processamento \u2013 antes de as castanhas passarem por um sistema de sele\u00e7\u00e3o manual, chamado <i>sorting<\/i> \u2013 e nos mercados de rua no Par\u00e1 e no Amazonas.<\/p>\n<p>\u201cConstatamos que a triagem manual ou mec\u00e2nica e a secagem eliminaram mais de 98% do total de aflatoxinas nas castanhas coletadas\u201d, disse Taniwaki. \u201cA triagem \u00e9 uma maneira muito eficaz de diminuir a contamina\u00e7\u00e3o de castanhas-do-par\u00e1 por aflatoxinas\u201d, avaliou.<\/p>\n<p><b>Fontes de contamina\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Os pesquisadores tamb\u00e9m identificaram que os fungos produtores das aflatoxinas que contaminam as castanhas-do-par\u00e1 prov\u00eam tanto do solo como da vegeta\u00e7\u00e3o rasteira e de abelhas que visitam as castanheiras e espalham esporos desses microrganismos para todo o ambiente. Constataram tamb\u00e9m que a alta temperatura, a elevada umidade e o tempo que as castanhas permanecem na floresta amaz\u00f4nica sob essas condi\u00e7\u00f5es favorecem o crescimento desses fungos produtores de aflatoxinas.<\/p>\n<p>Ao cair da castanheira, de uma altura que pode chegar a 60 metros, em um per\u00edodo de chuva \u2013 entre janeiro e mar\u00e7o \u2013, os ouri\u00e7os das castanhas-do-Par\u00e1, que t\u00eam quase o tamanho de um coco, permanecem no solo molhado por semanas at\u00e9 serem colhidos e transportados para uma unidade de armazenamento.<\/p>\n<p>Durante esse per\u00edodo em que os ouri\u00e7os est\u00e3o \u00famidos, os fungos produtores de aflatoxinas podem se desenvolver, observaram os pesquisadores.<\/p>\n<p>\u201cDependendo do tempo que leva para as castanhas serem transportadas da floresta para uma unidade de processamento para serem secas, elas podem ser contaminadas em maior ou menor grau por esses fungos toxicog\u00eanicos\u201d, disse Taniwaki.<\/p>\n<p>\u201cPor isso, quanto mais cedo as castanhas forem transportadas e secas, em um n\u00edvel que identificamos como o mais seguro, maior a possibilidade de impedir o desenvolvimento dos fungos e a produ\u00e7\u00e3o de toxinas\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Os pesquisadores observaram que algumas comunidades coletoras de castanhas realizam o processo de secagem. A umidade na floresta amaz\u00f4nica \u00e9 t\u00e3o alta, contudo, que elas n\u00e3o conseguem realizar esse processo em um n\u00edvel considerado seguro. Por isso, o processo de secagem mais indicado \u00e9 o realizado em secadoras, nas unidades de processamento.<\/p>\n<p>\u201cCome\u00e7aram a surgir algumas iniciativas ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o da nossa pesquisa para a instala\u00e7\u00e3o de secadoras nas comunidades coletoras. O problema, contudo, \u00e9 que o custo desse equipamento \u00e9 muito alto e a gera\u00e7\u00e3o de energia nesses locais \u00e9 prec\u00e1ria. Por isso, \u00e9 preciso transportar o quanto antes as castanhas da floresta para as unidades de processamento para a realiza\u00e7\u00e3o da triagem e da secagem\u201d, apontou Taniwaki.<\/p>\n<p><b>Reflexos na legisla\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Os resultados do estudo contribu\u00edram para que o Brasil conseguisse que o Codex Allimentarius \u2013 uma colet\u00e2nea de padr\u00f5es sobre alimentos reconhecida pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC) como refer\u00eancia para a solu\u00e7\u00e3o de disputas sobre seguran\u00e7a de alimentos e prote\u00e7\u00e3o do consumidor \u2013 estabelecesse n\u00edveis mais realistas de toler\u00e2ncia m\u00e1xima de contamina\u00e7\u00e3o de castanhas-do-par\u00e1 por aflatoxinas que atendessem aos padr\u00f5es apontados pelos pa\u00edses produtores \u2013 al\u00e9m do Brasil, a Bol\u00edvia e o Peru.<\/p>\n<p>O Codex estabeleceu como limites m\u00e1ximos de aflatoxinas em castanhas 15 \u00b5g de aflatoxinas totais por quilo do produto para posterior processamento e 10 \u00b5g de aflatoxinas totais por quilo do produto pronto para o consumo.<\/p>\n<p>Com isso, a Uni\u00e3o Europeia teve que revisar suas normas e seguir os padr\u00f5es estabelecidos pelo c\u00f3digo internacional, voltando a importar castanhas-do-par\u00e1 do Brasil.<\/p>\n<p>\u201cA partir do estabelecimento desses novos n\u00edveis de toler\u00e2ncia m\u00e1xima pelo Codex, se o Brasil tiver qualquer problema de exporta\u00e7\u00e3o relacionado \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o de castanha por aflatoxinas pode recorrer \u00e0 OMS, que seguir\u00e1 o que determina o c\u00f3digo internacional\u201d, explicou Taniwaki.<\/p>\n<p>Com base nos resultados da pesquisa e de outros estudos realizados no Brasil, em 2011 a Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa) tamb\u00e9m estabeleceu uma norma \u2013 a RDC 7 \u2013 com limites m\u00e1ximos para presen\u00e7a de micotoxinas em alimentos comercializados no Brasil em conson\u00e2ncia com o Codex Allimentarius.<\/p>\n<p>\u201cA norma permitiu diminuir o risco de um lote do produto rejeitado no exterior, por exemplo, eventualmente ser comercializado no mercado brasileiro\u201d, disse Taniwaki. \u201cCom essa legisla\u00e7\u00e3o o consumidor brasileiro tamb\u00e9m passou a ter maior seguran\u00e7a de consumir castanha-do-par\u00e1 comercializada nos supermercados\u201d, avaliou.<\/p>\n<p>As amostras de castanha coletadas em supermercados em S\u00e3o Paulo para realiza\u00e7\u00e3o do estudo, por exemplo, apresentaram um dos n\u00edveis de contamina\u00e7\u00e3o por aflatoxina mais baixos, apontou a pesquisadora.<\/p>\n<p>\u201cTanto as castanhas comercializadas nos supermercados, como as que s\u00e3o exportadas, s\u00e3o as melhores selecionadas\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O maior gargalo hoje est\u00e1 na comercializa\u00e7\u00e3o das castanhas em mercados populares, onde o produto \u00e9 comercializado pelo pr\u00f3prio coletor, sem passar por uma unidade de processamento, comparou a pesquisadora.<\/p>\n<p>\u201cMas, mesmo no caso dessas castanhas, o consumidor \u00e9 capaz de selecionar as que est\u00e3o apropriadas para o consumo e descartar as deterioradas, minimizando os riscos de contamina\u00e7\u00e3o\u201d, ponderou.<\/p>\n<p>O artigo <i>\u201cBiodiversity of mycobiota throughout the Brazil nut supply chain: From rainforest to consumer\u201d<\/i> (doi: 10.1016\/j.fm.2016.08.002), de Taniwaki e outros, pode ser lido por assinantes da revista <i>Food Microbiology<\/i> em <b><a href=\"http:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0740002015301052\" target=\"_blank\">www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0740002015301052<\/a><\/b>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A castanha-do-brasil, conhecida popularmente como castanha-do-par\u00e1, pode ser altamente suscet\u00edvel \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o por micotoxinas 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