{"id":66436,"date":"2017-05-27T13:02:27","date_gmt":"2017-05-27T16:02:27","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=66436"},"modified":"2017-05-27T13:02:27","modified_gmt":"2017-05-27T16:02:27","slug":"pesquisa-investiga-marcas-do-racismo-em-familias-inter-raciais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/pesquisa-investiga-marcas-do-racismo-em-familias-inter-raciais\/","title":{"rendered":"Pesquisa investiga marcas do racismo em &#8220;fam\u00edlias inter-raciais&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/racismo.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-66437\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/racismo-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/racismo-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/racismo.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Cento e vinte e nove anos depois da aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, e a despeito do mito da democracia racial, o preconceito de ra\u00e7a continua bastante disseminado na sociedade brasileira \u2013 t\u00e3o disseminado que se manifesta at\u00e9 mesmo no interior de \u201cfam\u00edlias inter-raciais\u201d. Esta foi a conclus\u00e3o de uma pesquisa realizada pela psic\u00f3loga social Lia Vainer Schucman.<\/p>\n<p>O estudo foi tema de p\u00f3s-doutorado realizado na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) com apoio da FAPESP,\u00a0colabora\u00e7\u00e3o de Felipe Fachim\u00a0e supervis\u00e3o de Belinda Mandelbaum, coordenadora do Laborat\u00f3rio de Estudos da Fam\u00edlia do Instituto de Psicologia da USP.<\/p>\n<p>\u201cNosso objetivo foi verificar se e como as hierarquias raciais da sociedade se reproduzem no interior de fam\u00edlias cujos integrantes se autoclassificam diferentemente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u2018ra\u00e7a\u2019: como \u2018brancos\u2019, \u2018negros\u2019 ou \u2018mesti\u00e7os\u2019. E como essas hierarquias coexistem e interagem com os afetos\u201d, disse Schucman \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de esgotar a literatura especializada, a pesquisa, que se estendeu por tr\u00eas anos, valeu-se de entrevistas presenciais com 13 fam\u00edlias de diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds. Os resultados foram reunidos no livro <i>Fam\u00edlias Inter-raciais: tens\u00f5es entre cor e amor<\/i>, com lan\u00e7amento previsto para 2017.<\/p>\n<p>\u201cO tema configurou-se a partir de minha intera\u00e7\u00e3o com pessoas dessas fam\u00edlias \u2013 pessoas que, por assim dizer, vivenciavam as \u2018contradi\u00e7\u00f5es raciais\u2019 em suas pr\u00f3prias peles. Isso aconteceu no final da minha pesquisa de doutorado, que tratou da quest\u00e3o da \u2018branquitude\u2019 [leia a respeito dessa pesquisa anterior em http:\/\/agencia.fapesp.br\/20628]. Nessa \u00e9poca, em fun\u00e7\u00e3o do estudo que estava realizando, comecei a ser bastante convidada para dar palestras. E, frequentemente, depois das palestras, pessoas se aproximavam para contar casos de sofrimento decorrentes do racismo em suas pr\u00f3prias fam\u00edlias. Isso ocorreu muitas e muitas vezes. A partir dessas conversas, percebi que as fam\u00edlias poderiam ser uma chave para entender as rela\u00e7\u00f5es \u2018inter-raciais\u2019 no contexto maior da sociedade\u201d, disse a pesquisadora.<\/p>\n<p>Schucman partiu do pressuposto de que \u201cra\u00e7a\u201d n\u00e3o \u00e9 um dado biol\u00f3gico, mas uma constru\u00e7\u00e3o social. Trata-se, segundo ela, de uma constru\u00e7\u00e3o, baseada no fen\u00f3tipo, que engendra e mant\u00e9m profundas desigualdades materiais e simb\u00f3licas na sociedade, e impacta o cotidiano de milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>\u201cSe a exist\u00eancia de \u2018ra\u00e7as humanas\u2019 n\u00e3o encontra qualquer comprova\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito das ci\u00eancias biol\u00f3gicas, elas s\u00e3o, contudo, plenamente existentes no mundo social, como afirmou o soci\u00f3logo Antonio S\u00e9rgio Alfredo Guimar\u00e3es\u201d, disse Schucman. Com base nesse crit\u00e9rio, ela selecionou, para o estudo, fam\u00edlias nas quais pelo menos um dos integrantes reconhecia que o grupo familiar era composto por pessoas de diferentes ra\u00e7as.<\/p>\n<p>\u201cUma mesma fam\u00edlia pode ser considerada \u2018inter-racial\u2019 para um de seus integrantes e n\u00e3o ser para outro. Al\u00e9m disso, uma fam\u00edlia tida como \u2018inter-racial\u2019 no Rio Grande Sul pode ser classificada como \u2018branca\u2019 na Bahia. Diante da fluidez das classifica\u00e7\u00f5es, decidi que s\u00f3 consideraria uma fam\u00edlia como \u2018inter-racial\u2019, e portanto objeto do estudo, se minha impress\u00e3o subjetiva fosse corroborada por um dos membros da pr\u00f3pria fam\u00edlia. Se algu\u00e9m me dissesse \u2018eu sou negro e minha irm\u00e3 \u00e9 branca\u2019, ou \u2018meu pai \u00e9 negro e minha m\u00e3e \u00e9 branca\u2019, ou qualquer outra afirma\u00e7\u00e3o desse tipo, a fam\u00edlia se enquadraria no escopo da pesquisa\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Segundo a literatura especializada, as rela\u00e7\u00f5es inter-raciais iniciaram-se no Brasil, no \u00e2mbito da vida privada, desde os prim\u00f3rdios da coloniza\u00e7\u00e3o \u2013 principalmente a partir do estupro e de outras formas de viol\u00eancia cometidas por \u201chomens brancos\u201d portugueses contra \u201cmulheres negras\u201d ou \u201cind\u00edgenas\u201d. O censo de 1960 apontou que, naquele ano, 8% dos casamentos eram \u201cinter-raciais\u201d no pa\u00eds. Em 2010, esse percentual saltou para 31%. Ou seja, quase um ter\u00e7o das uni\u00f5es matrimoniais realizadas no Brasil acontece entre pessoas que se autoclassificam como sendo de \u201cra\u00e7as diferentes\u201d. \u201cO fen\u00f4meno \u00e9 muito comum entre as classes mais pobres, por\u00e9m rar\u00edssimo entre as classes ricas\u201d, comentou Schucman.<\/p>\n<p>\u201cAtualmente, a configura\u00e7\u00e3o predominante \u00e9 a do casamento do \u2018homem negro\u2019 com a \u2018mulher branca\u2019, ou do \u2018homem pardo\u2019 com a \u2018mulher mais clara\u2019. Alguns estudos, como os de Elza Berqu\u00f3 e Ana Claudia Lemos Pacheco, sugerem que tal predomin\u00e2ncia decorre de uma sobreposi\u00e7\u00e3o de sexismo e racismo, produzindo uma hierarquia na qual o \u2018homem branco\u2019 \u00e9 a principal escolha e a \u2018mulher negra\u2019 \u00e9 a grande preterida\u201d, prosseguiu a pesquisadora.<\/p>\n<p>De acordo com Schucman, uma peculiaridade da forma\u00e7\u00e3o cultural do Brasil \u00e9 o \u201cracismo de intimidade\u201d. Ao contr\u00e1rio do racismo segregacionista, que prevaleceu na \u00c1frica do Sul ou no sul dos Estados Unidos, o que temos aqui \u00e9 um tipo de racismo que pressup\u00f5e a intera\u00e7\u00e3o entre \u201cbrancos\u201d e \u201cnegros\u201d. E essa rela\u00e7\u00e3o pode eventualmente ser mediada pelo afeto, sem deixar de ser racista. \u201cMeu prop\u00f3sito foi analisar como as \u2018fam\u00edlias inter-raciais\u2019, na sua intimidade, vivenciam, negociam, constroem ou descontroem o racismo\u201d, disse.<\/p>\n<p>Com base nessa diretriz, suas entrevistas mostraram que a quest\u00e3o racial pode assumir, no contexto intrafamiliar, uma ampla gama de configura\u00e7\u00f5es: desde o racismo expl\u00edcito e brutal, com manifesta\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia f\u00edsica, at\u00e9 nega\u00e7\u00f5es extremamente sutis, mediadas pelo afeto.<\/p>\n<p>O racismo nu e cru<\/p>\n<p>\u201cA hist\u00f3ria mais dura que recolhi foi a de uma jovem universit\u00e1ria que me procurou quando eu j\u00e1 havia dado por encerrada a fase de entrevistas. Ela era fenotipicamente \u2018negra\u2019, filha de m\u00e3e \u2018branca\u2019. E me contou que, quando pequena, sua m\u00e3e cantava assim: \u2018Plantei uma cenoura no meu quintal \/ Nasceu uma negrinha de avental \/ Dan\u00e7a negrinha \/ N\u00e3o sei dan\u00e7ar \/ Pega no chicote, ela dan\u00e7a j\u00e1\u2019. A can\u00e7\u00e3o de ninar da m\u00e3e n\u00e3o s\u00f3 era racista, mas tamb\u00e9m escravista\u2019, disse Schucman.<\/p>\n<p>Conforme a pesquisadora, essa \u201cm\u00e3e branca\u201d, empregada dom\u00e9stica, de olhos azuis, nordestina de Recife, tinha casado v\u00e1rias vezes sempre com homens \u201cnegros\u201d. E chamava os ex-maridos de \u201cmacacos\u201d. O pai da jovem, pedreiro, nascido na Bahia, e classificado pela filha como \u201cpreto retinto\u201d, foi o segundo deles.<\/p>\n<p>\u201cEles haviam se conhecido em S\u00e3o Paulo. E, quando entrevistei a jovem universit\u00e1ria, estavam separados h\u00e1 muito tempo. O pai j\u00e1 tinha 80 anos; e a m\u00e3e, 70\u201d, detalhou a pesquisadora. A jovem relatou a ela que \u201csoube que era negra desde pequena\u201d, devido \u00e0s viol\u00eancias que sofria por parte da m\u00e3e. Quando brigava com ela, a m\u00e3e a chamava de \u201cmacaca\u201d e \u201cpreta fedida\u201d. Dizia que seu cabelo era \u201cruim\u201d como o do seu pai e batia nela quando chorava ao ser penteada. \u201cEu olhava para o meu pai, e aquele homem, que tinha uma identidade negra extremamente negativa, se colocava como inferior mesmo\u201d, contou a entrevistada.<\/p>\n<p>Na interpreta\u00e7\u00e3o de Schucman, essa m\u00e3e, uma mulher pobre, ignorante, humilhada, com a autoestima muito baixa, usava sua \u201cbranquitude\u201d como \u00fanico valor e instrumento de poder. \u201cSeu racismo n\u00e3o era do tipo meio disfar\u00e7ado, meio jocoso, que \u00e9 t\u00e3o comum encontrar no Brasil. Era um racismo cruel, violento, em um contexto de extrema pobreza. Quando estava desempregada e n\u00e3o tinha um marido para ajudar, a m\u00e3e e os filhos se transformavam em pedintes, e precisavam bater nas portas de pessoas conhecidas para conseguir comida. A \u2018branquitude\u2019 foi a \u00fanica coisa que lhe restou e ela a usava de maneira muito tosca, muito b\u00e1sica\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cUm dos precursores da \u00e1rea de pesquisas que hoje chamamos de \u2018estudos cr\u00edticos da branquitude\u2019, o norte-americano William Du Bois, nomeou, \u00a0no in\u00edcio do s\u00e9culo passado, como \u2018sal\u00e1rio p\u00fablico e psicol\u00f3gico\u2019 aquilo que que confere \u00e0 pessoa branca acessos e privil\u00e9gios simb\u00f3licos, por pior que seja sua situa\u00e7\u00e3o. Eu parti desse conceito e percebi que, na fam\u00edlia em quest\u00e3o, a \u2018ra\u00e7a\u2019 era, de fato, um modulador dos v\u00ednculos afetivos. Porque os irm\u00e3os \u2018mais claros\u2019 sofriam menos. A jovem era a \u2018mais escura\u2019. E precisava dormir com um pregador de roupa no nariz, porque a m\u00e3e achava que, assim, ele iria afinar\u201d, disse Schucman.<\/p>\n<p>A despeito de uma inf\u00e2ncia t\u00e3o adversa, a jovem conseguiu chegar \u00e0 universidade, e entrou em contato com o movimento social negro. Foi por meio da atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e do rap que come\u00e7ou a reconstruir sua identidade. Mais tarde, buscou tamb\u00e9m a psicoterapia.<\/p>\n<p>\u201cEla me disse que h\u00e1 duas pessoas dentro dela: uma que participa do movimento, que \u00e9 militante, que assume o cabelo crespo; outra que ainda \u00e9 aquela crian\u00e7a massacrada. Afirmou que acredita firmemente que um dia vai encontrar a reden\u00e7\u00e3o. Mas, por enquanto, essa crian\u00e7a continua l\u00e1. E d\u00f3i\u201d, disse Schucman.<\/p>\n<p>O outro lado da nega\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Outras entrevistas mostraram \u00e0 pesquisadora formas bem mais sutis de nega\u00e7\u00e3o, levando-a a concluir que o racismo das pessoas n\u00e3o necessariamente impede o afeto. \u201cNa maioria dos casos, o indiv\u00edduo \u2018negro\u2019 \u00e9 amado por seus familiares. O que ocorre, isto sim, \u00e9 que, por am\u00e1-lo ou para am\u00e1-lo, esses familiares muitas vezes negam sua condi\u00e7\u00e3o de \u2018negro\u2019. Em vez de reelaborarem o seu racismo com o intuito de super\u00e1-lo, os familiares simplesmente retiram a pessoa amada do grupo estigmatizado. Utilizei o conceito de \u2018nega\u00e7\u00e3o\u2019, de Freud, para interpretar esse comportamento\u201d, explicou.<\/p>\n<p>No caso de uma das fam\u00edlias ouvida por Schucman, origin\u00e1ria da Bahia, a m\u00e3e considerava que todos os seus familiares eram \u201cbrancos\u201d. E que, portanto, a pr\u00f3pria entrevista n\u00e3o fazia sentido. Mas um dos filhos se autoconsiderava \u201cnegro, com uma irm\u00e3 branca\u201d, vivendo, assim, em uma \u201cfam\u00edlia inter-racial\u201d. Para a m\u00e3e, essa ideia do filho era \u201cuma bobagem, que ele adotou depois de entrar na universidade\u201d. Esse filho era o que recebia o maior afeto da m\u00e3e, mas, para que pudesse am\u00e1-lo, ela, de alguma forma, precisava negar que ele fosse \u201cnegro\u201d. Da\u00ed o conceito de \u201cnega\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Por uma dessas \u201cironias do destino\u201d, que parecem exemplificar o conceito psicanal\u00edtico de \u201cretorno do recalcado\u201d, a irm\u00e3 do rapaz, que nascera \u201cbem clara\u201d, \u201cbem branca\u201d, teve um relacionamento \u201cinter-racial\u201d com um homem que a fam\u00edlia classificava como \u201cmuito preto\u201d. E ficou gr\u00e1vida. A expectativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cor da crian\u00e7a provocou o maior per\u00edodo de tens\u00e3o na din\u00e2mica intrafamiliar. \u201cA m\u00e3e dessa fam\u00edlia, portanto av\u00f3 da crian\u00e7a, me disse uma frase altamente significativa: \u2018Est\u00e1vamos muito nervosos. Mas, quando vimos que minha neta havia nascido branca, todo mundo se apaixonou por ela\u2019\u201d, contou Schucman.<\/p>\n<p>Quando a pesquisadora entrevistou a fam\u00edlia, a menina tinha j\u00e1 14 anos, e se autoclassificava ora como \u201cmorena\u201d ora como \u201cmulata\u201d, dizendo que n\u00e3o era \u201cnegra\u201d porque as \u201cnegras\u201d tinham cabelo crespo e ela alisava o dela. \u201cAssim como seus familiares, ela precisava negar sua \u2018negritude\u2019 para legitimar o afeto que recebia\u201d, disse.<\/p>\n<p>Segundo Schucman os tra\u00e7os fenot\u00edpicos do filho provinham provavelmente de seu pai. Mas este era o grande ausente, o grande desconhecido, cuja presen\u00e7a nenhuma foto documentava e sobre o qual nada se dizia. Por outro lado, a m\u00e3e, apesar da pele clara e dos cabelos alisados, tinha visivelmente ancestrais negros, embora n\u00e3o os reconhecesse como tal.<\/p>\n<p>No caso de outra fam\u00edlia entrevistada, de S\u00e3o Bernardo do Campo, no Estado de S\u00e3o Paulo, o pai n\u00e3o era desconhecido, desaparecido ou ausente. A fam\u00edlia convivia com ele, o amava, mas a m\u00e3e nunca admitiu que seu marido fosse \u201cnegro\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisadora, a filha do casal sofreu ainda outros tipos de nega\u00e7\u00e3o. Quando era crian\u00e7a, e ia passar os finais de semana com suas primas por parte de pai, voltava sempre com os cabelos tran\u00e7ados, no estilo afro. Ao chegar em casa, a m\u00e3e lhe dizia que aquilo estava horr\u00edvel, e imediatamente desmanchava as tran\u00e7as. E, mesmo quando adulta, se colocava brincos muito grandes ou vestia roupas mais coloridas, a m\u00e3e a criticava por \u201cusar coisas de negro\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEla me disse: \u2018Minha m\u00e3e falava que eu era quase branca, mas que meu nariz n\u00e3o era de branco. Quando pequena, sempre tive a sensa\u00e7\u00e3o de tentar ser algo que n\u00e3o era, a sensa\u00e7\u00e3o de ser corporalmente inadequada. Mais tarde, quando tive filho, minha m\u00e3e falou para eu passar bastante a m\u00e3o no narizinho dele enquanto ainda era beb\u00ea, e a cartilagem era molinha, para afinar a forma\u201d, disse Schucman.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o da pesquisadora \u00e9 a de que, no Brasil, \u00e9 poss\u00edvel ser contra o racismo, achar que o racismo \u00e9 um mal a ser combatido, casar com \u201cnegro\u201d, e, mesmo assim, ser racista. Racista no sentido de hierarquizar as pessoas a partir do fen\u00f3tipo, de achar o \u201ccabelo do branco\u201d mais bonito, o \u201cnariz do branco\u201d mais bonito, e assim por diante. \u201cMas, se a \u2018fam\u00edlia inter-racial\u2019 \u00e9, muitas vezes, o l\u00f3cus de viv\u00eancias racistas, ela tamb\u00e9m pode ser um espa\u00e7o privilegiado para o acolhimento e o desenvolvimento de estrat\u00e9gias de enfrentamento do racismo da sociedade envolvente, como pude verificar em mais de uma entrevista\u201d, disse.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cento e vinte e nove anos depois da aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, e a despeito do<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":66437,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/racismo.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/racismo-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/racismo-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/racismo.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/racismo.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/racismo.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/racismo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/racismo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/racismo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/racismo.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Cento e vinte e nove anos depois da aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, e a despeito do","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66436"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66436"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66436\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/66437"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66436"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=66436"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=66436"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}