{"id":65729,"date":"2017-05-15T12:00:52","date_gmt":"2017-05-15T15:00:52","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=65729"},"modified":"2017-05-14T21:55:46","modified_gmt":"2017-05-15T00:55:46","slug":"trabalho-de-pastor-sobrevive-quase-sem-mudar-ha-dez-mil-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/trabalho-de-pastor-sobrevive-quase-sem-mudar-ha-dez-mil-anos\/","title":{"rendered":"Trabalho de pastor sobrevive quase sem mudar h\u00e1 dez mil anos"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?attachment_id=65730\" rel=\"attachment wp-att-65730\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-65730\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/pastor-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/pastor-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/pastor.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Nas andan\u00e7as pelo Brasil e pelo mundo, \u00e9 comum o Globo Rural encontrar gente do campo trabalhando em atividades com origem num passado muito remoto. Esse \u00e9 o caso do N\u00e9lson Ara\u00fajo, que acompanhou a rotina de um pastor na caatinga nordestina e de uma pastora na Cordilheira dos Andes, no Peru. Apesar dos milhares de quil\u00f4metros que separam um do outro, o cotidiano dos dois \u00e9 muito parecido e pouco mudou desde a \u00e9poca em que o ser humano come\u00e7ou a pastorear animais, h\u00e1 dez mil anos.<\/p>\n<p>Nos Andes, o lago de Titicaca \u00e9 um c\u00e9u entre as montanhas. No Serid\u00f3, o c\u00e9u \u00e9 que despeja o azul cristalino na caatinga. O ch\u00e3o \u00e1spero, carrasquento do sert\u00e3o, tem seu semelhante nas encostas secas da cordilheira. Na mata espinhosa brasileira, a palma \u00e9 lembran\u00e7a perene do verde. No altiplano peruano, a aguinha que escoa dos picos nevados mant\u00e9m o vivo do capim.<\/p>\n<p>A dona Anselma Mamoni e seu Maur\u00edcio Santos t\u00eam semblantes iguais. Eles observam, procuram, esperam.<\/p>\n<p>Na Cordilheira dos Andes o homem colocou o pastoreio nas alturas, sem querer fazer trocadilho. Nas montanhas mais elevadas do entorno do lago de Titicaca, divisa do Peru com a Bol\u00edvia, os animais s\u00e3o criados at\u00e9 cinco mil metros acima do n\u00edvel do mar. \u00c9 uma regi\u00e3o seca, recortada por vales verdes, os chamados bofedales, os pantanais de altitude.<\/p>\n<p>O bofetal \u00e9 uma fita de capins e ervas rasteiras serpenteando entre as montanhas. \u00c9 o que animais capazes de sobreviver no altiplano t\u00eam para comer, especialmente as esp\u00e9cies de camelo que se adaptaram aos andes. S\u00e3o quatro esp\u00e9cies: vicunha, guanaco, alpaca e lhama.<\/p>\n<p>A dona Anselma tem um rebanho variado de 80 cabe\u00e7as. Mas a maioria s\u00e3o alpacas. Quem n\u00e3o conhece, confunde a alpaca com a lhama. A alpaca pesa no m\u00e1ximo 90 quilos. J\u00e1 a lhama chega aos 150 quilos. A alpaca \u00e9 mais delicada, mais d\u00f3cil e tem a carne mais palat\u00e1vel e pelagem de fibra mais fina.<\/p>\n<p>A dona Anselma fica sentada debaixo do chapelito de aba curta tricotando l\u00e3 em um ponto do vale que tem o lago e as montanhas ao fundo. No marasmo da tarde, sem nenhum sopro de vento, capim parado, s\u00f3 as m\u00e3os dela pareciam ter pressa.<\/p>\n<p>A dona Anselma \u00e9 uma nativa que n\u00e3o fala espanhol. Nesta regi\u00e3o dos Andes, ainda est\u00e3o ativas duas l\u00ednguas das civiliza\u00e7\u00f5es pr\u00e9-incas: o qu\u00edchua e o aimara. Ela \u00e9 da cultura aimara.<\/p>\n<p>O tradutor \u00e9 Pedro Juan Fuentes, da Aders-Peru, uma ONG que apoia fam\u00edlias isoladas na Cordilheira. Talvez por estar incomodada com a abrupta chegada do grupo, talvez por nunca ter visto uma equipe de televis\u00e3o, talvez por ser mesmo de natureza mais contida, dona Anselma, de pronto, n\u00e3o solta a prosa. Ela fica embara\u00e7ada nas frases.<\/p>\n<p>Mas, vencido o receio, a dona Anselma abre uma conversa a conta-gotas. A pastora \u00e9 casada e tem 40 anos. O marido, que \u00e9 auxiliar de pedreiro, e o casal de filhos, que estudam e trabalham, moram em uma cidade que fica a tr\u00eas horas de viagem de onde pastoreia os animais. A cada m\u00eas, ou ela vai ou o marido vem.<\/p>\n<p>O trabalho de dona Anselma \u00e9 vigiar e tomar conta tanto do bem-estar como da seguran\u00e7a dos animais. Para defender o rebanho dos predadores naturais, como o zorro, que tamb\u00e9m vivem na Cordilheira dos Andeis, a dona Anselma usa uma corda tran\u00e7ada com l\u00e3 de alpaca. No meio tem uma cinta dupla para acomodar uma pedra. O nome da arma \u00e9 guaraca.<\/p>\n<p>\u00c9 uma arma semelhante ao que chamamos de funda, bodoque, atiradeira.<br \/>\n\u00c9 de seis mil quil\u00f4metros a distante entre o entorno do Titicaca e a caatinga do Serid\u00f3. Apesar das diferen\u00e7as de paisagem de altitude, por exemplo, algo em comum une a caatinga nordestina com os bofedales peruanos. \u00c9 a solid\u00e3o no hostil ambiente de pastoreio.<\/p>\n<p>Tal como dona Anselma, o seu Maur\u00edcio Santos caminha s\u00f3 todas as manh\u00e3s liderando o rebanho de ovelhas. A propriedade de 24 hectares fica em um p\u00e9 de serra no sert\u00e3o do Serid\u00f3 do Rio Grande do Norte.<\/p>\n<p>O seu Maur\u00edcio igualmente se resguarda com uma pequena defesa. Nesta parte do sert\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 predadores naturais como nos Andes. Ele n\u00e3o tem cachorros. Mas, leva o estilingue no bolso para proteger o rebanho dos cachorros.<\/p>\n<p>O posto de sentinela lhe cobra esfor\u00e7o redobrado. Por um problema que n\u00e3o pode esclarecer nem resolver, ele praticamente n\u00e3o enxerga do olho esquerdo e \u00e9 obrigado a usar \u00f3culos escuros o tempo todo.<\/p>\n<p>O rebanho \u00e9 recente. Uma mudan\u00e7a de vida, que n\u00e3o vem ao caso, obrigou o seu Maur\u00edcio a come\u00e7ar do zero outra vez. Com orienta\u00e7\u00e3o da Emater, ele fez um Pronaf e comprou 12 cabe\u00e7as. Com a pari\u00e7\u00e3o muito boa da ra\u00e7a, ele j\u00e1 conta com mais de 60 animais.<\/p>\n<p>A dona Anselma tamb\u00e9m vem de uma fase de aprimoramento do rebanho. A alpacada mais nova j\u00e1 apresenta um perfil gen\u00e9tico bem melhor em rela\u00e7\u00e3o ao que tinha h\u00e1 cinco anos. Da monta natural passou \u00e0 insemina\u00e7\u00e3o, com material cedido pelo Instituto Nacional de Inova\u00e7\u00e3o<br \/>\nAgr\u00edcola \u2013 INIA, uma esp\u00e9cie de Embrapa do Peru.<\/p>\n<p>Nas vastas solid\u00f5es da catinga nordestina o cuidado com as cria\u00e7\u00f5es segue id\u00eantica cartilha do que se v\u00ea em zona andina. O pastoreio nos sert\u00f5es se d\u00e1 longe da fam\u00edlia em longas horas de vig\u00edlia.<\/p>\n<p>Pastoreio \u00e9 um encargo manso. Por\u00e9m, o of\u00edcio de ca\u00e7ar art\u00e9rias, buscar forragem, sejam rasteiras ou a\u00e9reas, n\u00e3o concede descanso. Cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o tira f\u00e9rias. A pessoa d\u00e1 a cara ao sol, ao vento, ao frio.\u00a0 Se agarra no alento. Enfrenta o fastio. Vive no enquanto: enquanto o pisoteio do tempo vinca o vazio.<\/p>\n<p>O calor inclemente do sert\u00e3o obriga o pastor Maur\u00edcio a lan\u00e7ar m\u00e3o de um artif\u00edcio para evitar insola\u00e7\u00e3o dele e da cria\u00e7\u00e3o. Nem bem termina a manh\u00e3, traz de volta os castrados, o grupo das marr\u00e3s, as paridas com cria. \u00c9 um modo de proteger a cria\u00e7\u00e3o das horas mortas do dia.<\/p>\n<p>Quem tem fartura de \u00e1gua n\u00e3o faz ideia de como \u00e9 viver com o l\u00edquido contado. O seu Maur\u00edcio coleta a \u00e1gua da chuva. E a cada 42 horas se serve da torneira que a Prefeitura lhe p\u00f4s no quintal.<\/p>\n<p>A rel\u00edquia \u00e9 guardada em recipientes de pl\u00e1stico. Para a fam\u00edlia s\u00e3o destinados 300 litros por dia.<\/p>\n<p>Com a fartura do degelo, \u00e1gua n\u00e3o falta para a dona Anselma. Ela precisa de pouco precisa para manter a casinha. Para os animais, tem \u00e1gua de sobra. Mas, lhe falta horizonte.<\/p>\n<p>\u201cEu, Anselma Mamani Pilco, recebi essas terras do meu pai. N\u00e3o sei por quantas gera\u00e7\u00f5es a propriedade \u00e9 da fam\u00edlia. Meu marido, meus filhos, n\u00e3o veem futuro nenhum aqui. Consideram um trabalho penoso e que d\u00e1 pouco dinheiro perto do que podem ganhar na cidade, embora n\u00e3o seja grande coisa. N\u00e3o suportam o isolamento. Eu tenho pensado em deixar isso aqui de heran\u00e7a para uns primos, pra terra n\u00e3o sair da m\u00e3o da fam\u00edlia&#8221;, disse.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia do seu Maur\u00edcio j\u00e1 se encaminha para levar vida de cidade. Recentemente, depois de conseguir pagar o financiamento do Pronaf, o pastor recebeu do m\u00e9dico a informa\u00e7\u00e3o de que pode perder a outra vista tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Assim como dona Anselma, de quem a dureza da rotina n\u00e3o apagou o sorriso, o seu Maur\u00edcio n\u00e3o se abala. \u201cN\u00e3o tenho reclama\u00e7\u00e3o de nada. Tudo que eu fa\u00e7o eu fico satisfeito. \u00c9 minha vida que eu levo com o maior prazer. Para mim, tudo \u00e9 bom demais\u201d, concluiu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas andan\u00e7as pelo Brasil e pelo mundo, \u00e9 comum o Globo Rural encontrar gente do<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":65730,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/pastor.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/pastor-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/pastor-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/pastor.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/pastor.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/pastor.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/pastor.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/pastor.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/pastor.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/pastor.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Nas andan\u00e7as pelo Brasil e pelo mundo, \u00e9 comum o Globo Rural encontrar gente do","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65729"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=65729"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65729\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/65730"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=65729"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=65729"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=65729"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}