{"id":6360,"date":"2014-09-08T15:49:50","date_gmt":"2014-09-08T15:49:50","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=6360"},"modified":"2014-09-08T15:50:40","modified_gmt":"2014-09-08T15:50:40","slug":"precisamos-construir-instrumentos-para-um-ciclo-de-incerteza-adverte-o-pesquisador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/precisamos-construir-instrumentos-para-um-ciclo-de-incerteza-adverte-o-pesquisador\/","title":{"rendered":"\u201cPrecisamos construir instrumentos para um ciclo de incerteza\u201d, adverte o pesquisador"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"contentheading\"><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/ciclo_incerteza.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-6361\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/ciclo_incerteza.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" \/><\/a>Eco-92 e Rio+20 em discuss\u00e3o. Entrevista especial com Luiz Oosterbeek<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Andriolli Costa<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os dias 03 e 14 de junho de 1992, a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas Sobre o Ambiente e o Desenvolvimento reuniu mais de uma centena de chefes de Estado para debater, propor e estabelecer metas que levassem em conta uma rela\u00e7\u00e3o mais harmoniosa entre o homem e a natureza. Um marco internacional para as discuss\u00f5es sobre ambientalismo, a Eco-92 (ou Rio-92, como tamb\u00e9m \u00e9 conhecida) estabeleceu conven\u00e7\u00f5es importantes sobre o clima (Protocolo de Kyoto), a biodiversidade e a sustentabilidade (Agenda 21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vinte anos depois, uma nova confer\u00eancia da ONU foi realizada no Rio de Janeiro, a Rio+20.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o pesquisador do Instituto Polit\u00e9cnico de Tomar (Portugal), Luiz Oosterbeek, no entanto, \u00e9 \u201cmetodologicamente incorreto\u201d comparar os dois eventos em termos absolutos. Assim, mais do que avaliar se o novo evento foi t\u00e3o representativo como o primeiro, \u00e9 preciso entender: por que a Eco-92 falhou? Afinal, \u201co mundo est\u00e1 inegavelmente pior em 2014 do que estava em 1992\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista concedida por e-mail \u00e0 IHU On-Line, Oosterbeek reflete que h\u00e1 duas possibilidades para compreender esta falha: ou se considera que todos os agentes e governos s\u00e3o incompetentes e mal-intencionados, ou se assume que existe um erro te\u00f3rico na primeira confer\u00eancia. \u201cA Eco-92 ignorou uma dimens\u00e3o fundamental: a diverg\u00eancia de interesses hist\u00f3ricos das tradi\u00e7\u00f5es culturais do planeta e o diferente entendimento que cada uma delas tem de palavras como sustentabilidade, sociedade ou ambiente. O final do s\u00e9culo XX ignorou as culturas e pensou que elas seriam engolidas pela globaliza\u00e7\u00e3o. O s\u00e9culo XXI est\u00e1 demonstrando, de forma muito dura, que isso foi um erro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o pesquisador, esta dimens\u00e3o, por outro lado, foi reconhecida \u2014 mesmo que timidamente \u2014 pela Rio+20. O evento foi bastante questionado por ter falhado em estabelecer metas mais arrojadas para o enfrentamento das quest\u00f5es ambientais. No entanto, segundo Oosterbeek, acertou \u201cao colocar as pessoas no centro da sustentabilidade e ao assumir que, mais do que metas, precisamos acordar caminhos partilhados\u201d. E finaliza: \u201c\u00c9 pouco? Sim. Por\u00e9m, \u00e9 muito mais do que desejos generosos mas irrealistas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luiz Oosterbeek \u00e9 licenciado em Hist\u00f3ria pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com doutorado em Pr\u00e9-Hist\u00f3ria e Arqueologia pela Universidade do Porto. Atualmente \u00e9 professor do Departamento de Territ\u00f3rio, Arqueologia e Patrim\u00f4nio do Instituto Polit\u00e9cnico de Tomar, Secret\u00e1rio-Geral da Uni\u00e3o Internacional das Ci\u00eancias Pr\u00e9-Hist\u00f3ricas e Proto-Hist\u00f3ricas e Vice-Presidente de HERITY International; integrou a \u00e1rea de Ci\u00eancia e Sociedade do programa CYTED. \u00c9 diretor do Museu de Ma\u00e7\u00e3o e presidente do Instituto Terra e Mem\u00f3ria. \u00c9 autor de diversas obras, entre elas Arqueologia, patrim\u00f4nio e gest\u00e3o do territ\u00f3rio (Erechim: Habilis Editora, 2007) e Arqueologia trans-atl\u00e2ntica (Erechim: Habilis Editora, 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luiz Oosterbeek estar\u00e1 participando do III Congresso Internacional de Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustent\u00e1vel, a ser realizado em Belo Horizonte, nos dias 10 a 12 de setembro, na Escola Superior Dom Helder C\u00e2mara &#8211; ESDHC, organizado pelo Instituto Socioambiental Dom Helder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<table border=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img style=\"margin: 15px; float: right;\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_UeUiHMXL2o0\/TO5jXWUXOII\/AAAAAAAAAVo\/zQPnzZ1GA1I\/s1600\/crise+financeira+e+ambiental.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: xx-small;\">Foto: 1.bp.blogspot.com<\/span><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line \u2013 A Eco-92 \u00e9 tida como um marco hist\u00f3rico nas discuss\u00f5es sobre a cultura socioambiental no cen\u00e1rio internacional. Voc\u00ea acredita que a Rio+20 teve a mesma representatividade? Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Luiz Oosterbeek \u2013<\/strong> \u00c9 sempre anacr\u00f4nico, metodologicamente errado e, sobretudo, intelectualmente fr\u00e1gil, comparar em termos absolutos eventos extra\u00eddos de seus contextos. A Eco-92 foi de fato um evento muito marcante, que culminou mais de duas d\u00e9cadas de crescente afirma\u00e7\u00e3o da chamada \u201cagenda ambiental\u201d e se beneficiou do otimismo, um pouco apressado e ing\u00eanuo, resultante da queda do Muro de Berlim. A confer\u00eancia cuidou de estabelecer metodologias e de estabelecer metas, considerando o planeta no seu todo. Acertou bastante em algumas metodologias (especialmente a Agenda 21, mas importa lembrar que \u00e9 depois de 92 que se generalizam os Minist\u00e9rios de Meio Ambiente em todo mundo) e falhou em grande medida nas metas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que interessa hoje \u00e9 perceber o porqu\u00ea desta falha, pois o mundo est\u00e1 inegavelmente pior em 2014 do que estava em 1992. E aqui ou se considera que todos os agentes e governos s\u00e3o incrivelmente mal-intencionados ou incompetentes, ou se assume que talvez existisse um erro te\u00f3rico na Eco-92, que ali\u00e1s j\u00e1 estava na formula\u00e7\u00e3o anterior do chamado \u201ctrip\u00e9 da sustentabilidade\u201d. Na minha opini\u00e3o, a Eco-92 ignorou uma dimens\u00e3o fundamental: a diverg\u00eancia de interesses hist\u00f3ricos das tradi\u00e7\u00f5es culturais do planeta e o diferente entendimento que cada uma delas tem de palavras como sustentabilidade, sociedade ou ambiente. O final do s\u00e9culo XX ignorou as culturas e pensou que elas seriam engolidas pela globaliza\u00e7\u00e3o. O s\u00e9culo XXI est\u00e1 demonstrando, de forma muito dura, que isso foi um erro. A Rio+20 teve um m\u00e9rito: reconheceu a dimens\u00e3o cultural, ainda que de forma t\u00edmida, ao colocar as pessoas no centro da sustentabilidade, e ao assumir que, mais do que metas, precisamos acordar caminhos partilhados. \u00c9 pouco? Sim. Por\u00e9m, \u00e9 muito mais do que desejos generosos mas irrealistas.<\/p>\n<table style=\"width: 232px; height: 122px; margin: 15px;\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\">\n<h2><span style=\"font-size: medium;\"><img style=\"margin: 1px; vertical-align: bottom;\" src=\"http:\/\/oi59.tinypic.com\/ezo9du.jpg\" alt=\"\" width=\"40\" \/><\/span><\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\">\n<h2><span style=\"font-size: medium;\">\u201cN\u00e3o h\u00e1 um paradigma, h\u00e1 v\u00e1rios em conflito, e infelizmente os que parecem ter mais for\u00e7a agora s\u00e3o os paradigmas anteriores aos acordos do p\u00f3s-2\u00aa Guerra\u201d<\/span><\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line \u2013 O grande tema da confer\u00eancia era \u201cQue futuro queremos?\u201d. No entanto, sem a ades\u00e3o dos Estados Unidos e com a supress\u00e3o de metas mais pol\u00eamicas, quais indicativos s\u00e3o poss\u00edveis de se estabelecer?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Luiz Oosterbeek \u2013<\/strong> Sobre a quest\u00e3o das metas creio j\u00e1 ter deixado claro que n\u00e3o as considero o mais importante nesta fase, que \u00e9 uma fase de constru\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a entre as partes. Vivemos uma nova grande depress\u00e3o (ainda que os governos tenham medo de o admitir) e estamos assistindo a todos os sinais que acompanharam as depress\u00f5es anteriores, de 1873-96 e de 1929-47, incluindo as guerras. Pensar que se pode construir uma agenda de sustentabilidade comum sobre a base de interesses estrat\u00e9gicos divergentes \u00e9 uma ingenuidade cara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os EUA s\u00e3o essenciais neste processo, mas o que Obama disse h\u00e1 uns dias sobre o Estado Isl\u00e2mico, ao confessar que \u201cainda\u201d n\u00e3o tem uma estrat\u00e9gia, \u00e9 algo que muitos governos poderiam dizer, sobre muitos assuntos \u2014 da Ucr\u00e2nia ao sistema monet\u00e1rio internacional \u2014 e que, obviamente, j\u00e1 n\u00e3o funciona. Os recuos da Uni\u00e3o Europeia em muitas mat\u00e9rias, e desde logo o avan\u00e7o da pobreza e da extrema direita no velho continente, v\u00eam ajudar-nos a perceber que o problema n\u00e3o se pode resolver de forma pontual. A Rio+20, ao falar em gest\u00e3o integrada do territ\u00f3rio (GIT), deu um contributo positivo relevante. A quest\u00e3o agora \u00e9 como operacionalizar essa GIT, e, na minha opini\u00e3o, s\u00f3 h\u00e1 uma forma: a partir do reconhecimento da diversidade cultural. A obsess\u00e3o do caminho \u00fanico, que \u00e9 uma variante do pensamento \u00fanico, nunca ajudou a construir nenhuma parceria e est\u00e1 agora a destruir rapidamente a Uni\u00e3o Europeia, por exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Quais s\u00e3o, atualmente, as perspectivas de futuro vislumbradas internacionalmente? Qual o paradigma que norteia estas pol\u00edticas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Luiz Oosterbeek \u2013<\/strong> N\u00e3o h\u00e1 um paradigma, h\u00e1 v\u00e1rios em conflito, e infelizmente os que parecem ter mais for\u00e7a agora s\u00e3o os paradigmas anteriores aos acordos do p\u00f3s-2\u00aa Guerra (Ialta, Bretton Woods, etc.). Vemos renascer a ilus\u00e3o da for\u00e7a dos antigos imp\u00e9rios, completamente a contraciclo do ponto de vista da globaliza\u00e7\u00e3o, mas natural enquanto resposta cultural baseada na desconfian\u00e7a e no medo. H\u00e1 certamente um novo paradigma, que defendo, que \u00e9 o de uma GIT que v\u00e1 integrando as din\u00e2micas e propicie novas formas de governan\u00e7a. Um paradigma que assuma que a incerteza \u00e9 a regra do s\u00e9culo XXI, e que por isso o foco n\u00e3o devem ser as metas (destinadas a falhar) e sim os mecanismos de parceria, envolvendo pa\u00edses, institui\u00e7\u00f5es e pessoas. Especialmente compreendendo o papel decisivo que as pessoas t\u00eam nos momentos de viragem para o desconhecido, que \u00e9 o que vivemos hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; Em tempos em que o pensamento ecol\u00f3gico, sist\u00eamico e conectivo parece ter se fortalecido bastante, tanto emp\u00edrica quanto teoricamente, vemos, por outro lado, que o abismo da desigualdade nunca foi t\u00e3o grande. Como atingir a sustentabilidade se a racionalidade econ\u00f4mica tende \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o e \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Luiz Oosterbeek \u2013<\/strong> N\u00e3o creio que o pensamento ecol\u00f3gico, sist\u00eamico e conectivo seja hoje mais forte do que era, por exemplo, no tempo de Kant. \u00c9 verdade que \u00e9 maior hoje do que era nos anos 1950 ou 1960, mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que j\u00e1 foi maior em 2000 do que \u00e9 agora em 2014. A fome e a guerra s\u00e3o indutores do isolacionismo, da segrega\u00e7\u00e3o. E o niilismo, cultivado por boa parte das elites que fazem opini\u00e3o, \u00e9 hoje um problema dram\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 momentos na hist\u00f3ria em que a racionalidade e a urg\u00eancia n\u00e3o est\u00e3o juntas. Foi assim no in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o industrial, quando a racionalidade promovia a proletariza\u00e7\u00e3o e a ru\u00edna do campesinato, para potenciar o crescimento econ\u00f4mico (ao qual muito devemos hoje, sendo que o pre\u00e7o foi pago pelos milh\u00f5es que na \u00e9poca pioraram de vida). Hoje, a economia cresce quando a tecnologia retira m\u00e3o de obra da produ\u00e7\u00e3o, e por isso vivemos um dilema: os que se op\u00f5em a esse progresso tecnol\u00f3gico n\u00e3o percebem que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel voltar atr\u00e1s sem que morra pelo menos cerca de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o mundial de forma violenta; os que apenas apostam no crescimento n\u00e3o percebem que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mobilizar alegremente milh\u00f5es de pessoas em nome de um progresso de que v\u00e3o se beneficiar, talvez, os seus tataranetos. Especialmente agora que a natalidade diminui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caminho passa de novo pela GIT, integrando a\u00ed um forte investimento social: foi assim que Bismarck criou o Estado Social e superou a 1\u00aa depress\u00e3o, e foi assim com o New Deal e Keynes. Creio que os mais esclarecidos dirigentes do planeta, no Brasil, nos EUA, na China ou no Ir\u00e3, para citar apenas alguns, percebem isto, embora de formas distintas. Creio que grandes empres\u00e1rios, como Warren Buffett ou Bill Gates, tamb\u00e9m o entendem. A escolha, apesar de tudo, \u00e9 simples: ou uma GIT que integre a diversidade cultural e atenda \u00e0 dimens\u00e3o social com mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0 economia e menos espa\u00e7o para a financializa\u00e7\u00e3o, ou a guerra. N\u00e3o h\u00e1 terceiro caminho.<\/p>\n<table style=\"width: 223px; height: 74px; margin: 15px;\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\">\n<h2><span style=\"font-size: medium;\"><img style=\"margin: 1px; vertical-align: bottom;\" src=\"http:\/\/oi59.tinypic.com\/ezo9du.jpg\" alt=\"\" width=\"40\" \/><\/span><\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\">\n<h2><span style=\"font-size: medium;\">\u201cN\u00e3o creio que o pensamento ecol\u00f3gico, sist\u00eamico e conectivo seja hoje mais forte do que era, por exemplo, no tempo de Kant\u201d<\/span><\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Como promover um desenvolvimento para a liberdade, e n\u00e3o um crescimento que aprisiona e separa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Luiz Oosterbeek \u2013<\/strong> A vida tem contradi\u00e7\u00f5es, e as palavras t\u00eam m\u00faltiplos sentidos. H\u00e1 quem entenda que h\u00e1 mais liberdade quando se pode dizer o que se pensa, ainda que 25% da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha emprego; h\u00e1 quem pense que a liberdade \u00e9 essencialmente o direito empresarial de cada um; h\u00e1 quem entenda que a liberdade s\u00f3 existe quando pode ser exercida com base na estabilidade da sua vida e no conhecimento\u2026 O crescimento nunca aprisiona, o que aprisiona \u00e9 a gest\u00e3o que se faz desse crescimento. \u00c9 muito perigoso o discurso do decrescimento, pois h\u00e1 hoje 7 bilh\u00f5es de pessoas que precisam comer, e isso s\u00f3 se consegue com crescimento. Mas o crescimento n\u00e3o basta: \u00e9 preciso uma redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza, que vai ser feita ou por consenso ou de forma violenta. O importante \u00e9 perceber que n\u00e3o se pode reduzir um caminho de dilemas a uma sequ\u00eancia de t\u00edtulos de jornal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; Uma das ressalvas que voc\u00ea faz \u00e0 Rio-92 foi que ela n\u00e3o considerava a diversidade cultural \u2014 visto que \u201ccultura tamb\u00e9m \u00e9 economia\u201d. Qual a import\u00e2ncia de considerar este fator?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Luiz Oosterbeek \u2013<\/strong> H\u00e1 um equ\u00edvoco muito grande quando se separa cultura de economia, porque a economia \u00e9 a regula\u00e7\u00e3o das atividades humanas articulando necessidades com recursos. Ora, as necessidades s\u00e3o culturalmente percepcionadas (no Brasil deve haver poucas pessoas com necessidade de comer arroz no caf\u00e9 da manh\u00e3, por exemplo), os recursos s\u00f3 s\u00e3o \u00fateis se houver conhecimento para reconhec\u00ea-los e utiliz\u00e1-los, e tudo isso forma, ao cabo de s\u00e9culos, o modo de estar de uma comunidade, ou seja, uma cultura. Quando se olha para Ouro Preto ou para a Serra da Capivara, ver s\u00f3 a est\u00e9tica desses lugares n\u00e3o nos ensina quase nada. Importa perceber como se formaram, as raz\u00f5es de colocar as Igrejas ou a arte rupestre em determinados lugares, e isso significa entender os processos econ\u00f4mico-culturais. Hoje \u00e9 a mesma coisa: a op\u00e7\u00e3o de criar uma cidade administrativa em Belo Horizonte, mais perto do aeroporto de Confins, \u00e9 uma escolha econ\u00f4mica (em fun\u00e7\u00e3o do projeto de aerotr\u00f3pole) ou cultural (quando se cria o circuito de museus da Pra\u00e7a da Liberdade ou se busca a assinatura de Niemeyer para o novo complexo)? Uma coisa n\u00e3o se pode distinguir da outra. Quando se separa a economia da cultura (o que \u00e9 um fen\u00f4meno recente), cria-se um gueto para a cultura e reduz-se a economia a uma opera\u00e7\u00e3o de contabilidade e finan\u00e7as. Esta tem sido a escolha depois de 1970\u2026 e o resultado \u00e9 visivelmente mau.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; Como a quest\u00e3o cultural passou a ser vista ap\u00f3s a Rio+20?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Luiz Oosterbeek \u2013<\/strong> Se se perguntar a grande parte dos dirigentes pol\u00edticos o que eles pensam da cultura, talvez eles ainda pensem que s\u00e3o aquelas coisas de que cuidam os Minist\u00e9rios da Cultura: as artes, o patrim\u00f4nio\u2026 Mas na medida em que a Rio+20 percebeu a import\u00e2ncia da diversidade cultural para a sustentabilidade (nas declara\u00e7\u00f5es sobre a centralidade da pobreza, mas tamb\u00e9m em eventos como o Humanidade 2012), deu passos no caminho certo. Falta ainda fazer esse caminho, no entanto, come\u00e7ando por promover projetos integradores de cultura e economia. H\u00e1 setores que s\u00e3o mais sens\u00edveis a isso, como o turismo, claro. Mas se pensarmos na exporta\u00e7\u00e3o de vinhos do Brasil, \u00e9 muito claro que ela s\u00f3 se conseguir\u00e1 consolidar com uma forte afirma\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line &#8211; O que vem a ser a gest\u00e3o integrada e por que ela vem sendo apontada como fundamental para o desenvolvimento sustent\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Luiz Oosterbeek \u2013<\/strong> Durante toda a primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, em Ma\u00e7\u00e3o e em diversos cen\u00e1rios se foram organizando interven\u00e7\u00f5es de GIT, que se apoiam na compreens\u00e3o de que conhecimento (do meio ambiente, da tecnologia e dos processos sociais) e log\u00edstica (que na verdade \u00e9 um conhecimento aplicado \u00e0 equa\u00e7\u00e3o espaciotemporal) s\u00e3o as bases de um processo que deve olhar o futuro enxergando os dilemas de escolha que se oferecem, a cada momento, \u00e0 sociedade, o que por sua vez favorece a defini\u00e7\u00e3o de vis\u00f5es convergentes de m\u00e9dio e longo prazo, e tamb\u00e9m a governan\u00e7a. \u00c9 esse processo que deu origem ao Instituto Terra e Mem\u00f3ria, incialmente constitu\u00eddo na Europa e agora, tamb\u00e9m, no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gest\u00e3o Integrada do Territ\u00f3rio \u00e9 o que faziam as sociedades que no passado foram bem-sucedidas. Num ciclo de mudan\u00e7a sist\u00eamica global, todas as aten\u00e7\u00f5es tendem a se concentrar, alternadamente, em apenas um dos seus vetores: ora o financeiro, ora o social, ora o ambiental, algumas vezes o econ\u00f4mico, raras vezes o cultural. E todas essas aten\u00e7\u00f5es se v\u00e3o deslocando de um para outro \u00e0 medida de suas desilus\u00f5es, constatando que n\u00e3o s\u00e3o mais eficazes e suficientes as solu\u00e7\u00f5es setoriais de problemas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <strong>GIT<\/strong> supera est\u00e9reis debates sobre as op\u00e7\u00f5es entre crescimento e desenvolvimento e constr\u00f3i um quadro de discuss\u00e3o em que a did\u00e1tica dos dilemas \u00e9 o elemento nuclear, para a eleva\u00e7\u00e3o das compet\u00eancias cr\u00edticas dos indiv\u00edduos, para que estes possam decidir sobre nosso futuro coletivo. Neste processo, mais do que ambiente, economia ou cultura, \u00e9 a palavra territ\u00f3rio que se torna nuclear, e, num futuro que se apresenta incerto e inseguro, a concorr\u00eancia entre territ\u00f3rios e a sua poss\u00edvel certifica\u00e7\u00e3o ser\u00e3o certamente realidades.<\/p>\n<table style=\"width: 288px; height: 60px; margin: 15px;\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\">\n<h2><span style=\"font-size: medium;\"><img style=\"margin: 1px; vertical-align: bottom;\" src=\"http:\/\/oi59.tinypic.com\/ezo9du.jpg\" alt=\"\" width=\"40\" \/><\/span><\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\">\n<h2><span style=\"font-size: medium;\">\u201cNum ciclo de mudan\u00e7a sist\u00eamica global, todas as aten\u00e7\u00f5es tendem a se concentrar, alternadamente, em apenas um dos seus vetores: ora o financeiro, ora o social, ora o ambiental, algumas vezes o econ\u00f4mico, raras vezes o cultural\u201d<\/span><\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maioria das teorias econ\u00f4micas defende que o elemento decisivo para o futuro \u00e9 o crescimento, e que este se apoia, sobretudo, nos investimentos para esse futuro, como a educa\u00e7\u00e3o, a tecnologia e as infraestruturas. Por\u00e9m, essa vis\u00e3o n\u00e3o considera suficientemente a dimens\u00e3o humana nos seus dois eixos fundamentais: cognitivo-temporal (cultura) e organizativo-espacial (sociedade). \u00c9 por isso que privilegia uma vari\u00e1vel cont\u00ednua e n\u00e3o personaliz\u00e1vel (o crescimento) sobre uma vari\u00e1vel discreta mas muito mais poderosa e decisiva: a governan\u00e7a. Ora \u00e9 na dimens\u00e3o da governan\u00e7a que de fato se joga o futuro. Precisamos, assim, de uma estrat\u00e9gia que assuma a governan\u00e7a como preocupa\u00e7\u00e3o fundamental, e integre as demais dimens\u00f5es. Falarei com mais detalhe deste processo, e das equa\u00e7\u00f5es que podemos usar nele, durante o III Congresso Internacional de Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustent\u00e1vel, em Belo Horizonte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Deseja acrescentar mais alguma coisa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Luiz Oosterbeek &#8211;<\/strong> O in\u00edcio do terceiro mil\u00eanio est\u00e1 sendo marcado por uma crise global que se exprime em todas as esferas: economia (reorganiza\u00e7\u00e3o dos mercados, dificuldades do sistema monet\u00e1rio internacional), sociedade (quebra acentuada da natalidade no planeta, desemprego estrutural em muitos territ\u00f3rios, crise da classe m\u00e9dia no hemisf\u00e9rio norte), ambiente (crise energ\u00e9tica, desertifica\u00e7\u00e3o) e culturas (crescente mobilidade por motivos econ\u00f4micos e de seguran\u00e7a, consequente questionamento das fronteiras, n\u00e3o apenas socioecon\u00f4micas e pol\u00edticas, mas, tamb\u00e9m, identit\u00e1rias). Precisamos construir instrumentos para um ciclo de incerteza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eco-92 e Rio+20 em discuss\u00e3o. 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