{"id":60660,"date":"2017-02-25T12:30:25","date_gmt":"2017-02-25T15:30:25","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=60660"},"modified":"2017-02-25T11:56:31","modified_gmt":"2017-02-25T14:56:31","slug":"uma-visita-a-reserva-nacional-paracas-na-companhia-do-seu-criador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/uma-visita-a-reserva-nacional-paracas-na-companhia-do-seu-criador\/","title":{"rendered":"Uma visita \u00e0 Reserva Nacional Paracas na companhia do seu criador"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?attachment_id=60661\" rel=\"attachment wp-att-60661\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-60661\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/reserva-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/reserva-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/reserva.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Em outubro de 2016, fui ao Peru para uma reuni\u00e3o de conselho da <a href=\"http:\/\/www.forest-trends.org\/\"><span style=\"color: #104d36;\">Forest Trends<\/span><\/a>, ONG americana que trabalha pela e para a conserva\u00e7\u00e3o da natureza atrav\u00e9s da promo\u00e7\u00e3o de mecanismos de mercado, como sistemas de pagamento de servi\u00e7os ambientais para prote\u00e7\u00e3o de mananciais, carbono florestal, biodiversidade, desenvolvimento de mecanismos financeiros, certifica\u00e7\u00f5es e outras vias correlatas. Al\u00e9m da pr\u00f3pria reuni\u00e3o, o compromisso oficial inclu\u00eda um evento em Lima sobre \u201cInfraestrutura Verde\u201d e uma visita de campo ao Lago Piuray, nas proximidades de Cusco, respons\u00e1vel por 40% do abastecimento de \u00e1gua da cidade. Na orla expandida desse lago h\u00e1 intensa atividade de controle sanit\u00e1rio e restaura\u00e7\u00e3o de mananciais de abastecimento, promovida pela empresa de \u00e1guas de Cusco e a SUNASS (ag\u00eancia reguladora desse servi\u00e7o no Peru) em conjunto com comunidades rurais locais, via uma nova e excelente pol\u00edtica nacional que imp\u00f4s uma taxa de 1% (um por cento) na fatura da \u00e1gua dos consumidores para <a href=\"http:\/\/www.sunass.gob.pe\/websunassi\/index.php\/es\/noticias\/item\/406-sunass-invertir-en-infraestructura-verde-permitira-conservar-el-agua-y-la-biodiversidad\"><span style=\"color: #104d36;\">custear a manuten\u00e7\u00e3o da chamada \u201cinfraestrutura verde\u201d do pa\u00eds<\/span><\/a>. Um bom exemplo para o Brasil. Por sinal, j\u00e1 escrevi em <a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/colunas\/colunistas-convidados\/28860-legado-das-obras-versus-legado-das-aguas\/\"><span style=\"color: #104d36;\">Legado das obras versus \u201cLegado das \u00c1guas\u201d<\/span><\/a>, sobre custos da infraestrutura cinza (constru\u00e7\u00f5es) em compara\u00e7\u00e3o com a manuten\u00e7\u00e3o da infraestrutura verde.<\/p>\n<p>Programei como livres dois fins de semana, o anterior e o seguinte dos compromisso profissionais, pois nada melhor que aproveitar a oportunidade da viagem para conhecer novas \u00e1reas protegidas. No primeiro, fiquei hospedado na resid\u00eancia <em>Lime\u00f1a<\/em> dos meus diletos amigos <a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/colunas\/marc-dourojeanni\/\"><span style=\"color: #104d36;\">Marc Dourojeanni<\/span><\/a> e <a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/colunas\/maria-tereza-jorge-padua\/\"><span style=\"color: #104d36;\">Maria Tereza Jorge P\u00e1dua<\/span><\/a>, com quem j\u00e1 vivi \u00f3timas aventuras na natureza, como uma <a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/colunas\/marc-dourojeanni\/27599-na-rota-da-grande-migracao\/\"><span style=\"color: #104d36;\">fant\u00e1stica viagem a parques e reservas no Qu\u00eania e Tanz\u00e2nia<\/span><\/a><strong><em>.<\/em><\/strong> No segundo, dediquei-me a visitar Machu Pichu e a desfrutar a incr\u00edvel e inigual\u00e1vel Cusco, com seu fant\u00e1stico patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e arqueol\u00f3gico aflorando a cada passo de qualquer caminho, al\u00e9m da maravilhosa culin\u00e1ria peruana.<\/p>\n<p>Embora eu tenha estado com bastante frequ\u00eancia em Lima nos \u00faltimos anos, sempre a trabalho ou em eventos, aproveitei o s\u00e1bado para conhecer locais que ainda n\u00e3o conhecia e para desfrutar de alguns dos melhores restaurantes e mais tradicionais bares da cidade na sempre agrad\u00e1vel companhia de Marc e Maria Tereza, um privil\u00e9gio para poucos. Domingo e segunda-feira estavam reservados para uma visita \u00e0 <a href=\"http:\/\/www.sernanp.gob.pe\/de-paracas\"><span style=\"color: #104d36;\">Reserva Nacional Paracas<\/span><\/a>!<\/p>\n<p><strong>Na \u201ccarretera\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Partimos cedo de Lima, com tr\u00e2nsito tranquilo, e tomamos a <a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Carretera_Interamericana\"><em><span style=\"color: #104d36;\">carretera interamericana<\/span><\/em><\/a> rumo ao sul. Saindo da metropolitana Lima, densamente ocupada, avista-se o deserto cont\u00ednuo, que a oeste encontra o Pac\u00edfico com seu azul escuro marcante. \u00c9 cont\u00ednuo o contraste das cores da areia seca, com pouca varia\u00e7\u00e3o de\u00a0tons past\u00e9is, com o azul marinho. Aos poucos, as ocupa\u00e7\u00f5es ficam esparsas, rareiam, restando a dupla de deserto e oceano, pelo menos at\u00e9 a proximidade da cidade ou balne\u00e1rio seguinte, quando ent\u00e3o chamam a aten\u00e7\u00e3o, de novo, ocupa\u00e7\u00f5es intensas de barracos. Em geral vazios, sem liga\u00e7\u00f5es de energia e \u00e1gua, nas periferias de cada uma dessas povoa\u00e7\u00f5es, essas ocupa\u00e7\u00f5es s\u00e3o uma clara estrat\u00e9gia de \u201creserva de propriedade\u201d para o futuro, quando um pol\u00edtico populista qualquer vai legalizar ditas invas\u00f5es em troca de votos (mais ou menos como a maioria dos acampamentos de sem-terra que conhe\u00e7o aqui no Brasil).<\/p>\n<p>Mas Paracas, relativamente distante de Lima, est\u00e1 razoavelmente protegida e livre da praga invasora. Distrito do departamento de Ica, na prov\u00edncia de Pisco, faz cerca de tr\u00eas d\u00e9cadas era apenas um pequeno povoado pesqueiro e <strong><em>guanero<\/em><\/strong>, dependente da coleta, processamento e exporta\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Guano\"><span style=\"color: #104d36;\">guano<\/span><\/a>, o esterco super f\u00e9rtil das aves marinhas de mesmo nome. Hoje, a cidadezinha que se desenvolveu pelo turismo associado \u00e0 vizinha Reserva Nacional Paracas, al\u00e9m de contar com v\u00e1rias dezenas de hot\u00e9is e pousadas (quase 80) e restaurantes de todo tipo e porte, que geram empregos, ocupa\u00e7\u00e3o e renda, tamb\u00e9m conta com um terminal mar\u00edtimo de g\u00e1s, resultado de sua localiza\u00e7\u00e3o e do crescimento recente da ind\u00fastria petrol\u00edfera no pa\u00eds. Mas o que conta mesmo, n\u00e3o s\u00f3 para este relato, mas para a s\u00f3cio-economia local, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de polo tur\u00edstico efetivo que Paracas exercita, que decorre e depende da \u00e1rea protegida vizinha.<\/p>\n<div id=\"attachment_51844\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 649px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-51844 \" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/EmParacascomMarc-Rev-Epeg-1.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" alt=\"emparacascommarc-rev-epeg-1\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Cal\u00e7ad\u00e3o da orla da cidade de Paracas. Foto: Miguel Milano<\/p>\n<\/div>\n<p>Chegamos mais ou menos ao meio-dia, e o local borbulhava de carros e gente. Rapidamente, Marc fez nossas reservas de pernoite num pequeno e aconchegante hotel, e fomos \u00e0 luta para o almo\u00e7o. A longa orla urbanizada \u00e9 pontilhada de trapiches de embarque para os passeios \u00e0s <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ilhas_Ballestas\"><span style=\"color: #104d36;\">Ilhas Ballestas<\/span><\/a>, ao longo da qual se espremem restaurante e lojinhas de souvenires. Fervia de gente, turistas estrangeiros e nacionais. O Peru tem mantido um espetacular e invej\u00e1vel crescimento econ\u00f4mico, j\u00e1 por cerca de uma d\u00e9cada, e o peruano m\u00e9dio est\u00e1 fazendo turismo interno. Essa gente toda \u00e9 arduamente disputada pelos gar\u00e7ons dos in\u00fameros restaurantes. Panos de prato e card\u00e1pios em punho, eles buscam os clientes no meio do cal\u00e7ad\u00e3o oferecendo o melhor ceviche acompanhado de <em>pisco sauer<\/em> gr\u00e1tis, uma cortesia da casa. Depois de uma r\u00e1pida investida pesquisando as ofertas e pre\u00e7os, com avalia\u00e7\u00f5es extremamente subjetivas das poss\u00edveis qualidades culin\u00e1rias de cada local, fomos cooptados por um destes batalhadores gar\u00e7ons, que \u201cnos garantiu\u201d, al\u00e9m de boa comida, o melhor pisco da pra\u00e7a! Foi um bom almo\u00e7o, ao ar livre e na sombra de um agrad\u00e1vel pergolado com vista para o mar,\u00a0povoado por barquinhos pesqueiros na enseada protegida.<\/p>\n<p>Fartos do lauto almo\u00e7o de frutos do mar, partimos para a Reserva Paracas. Logo na entrada, na cobran\u00e7a dos bilhetes, uma boa cena: perguntados se j\u00e1 conhec\u00edamos a reserva, Marc, que tamb\u00e9m dirigia o carro, respondeu que sim, agregando que ele a havia criado; ao que o guarda-parque prontamente respondeu com ironia qualquer coisa como \u201ce eu sou o governador do departamento\u201d. Esclarecido que n\u00e3o se tratava de piada, o rapaz se recomp\u00f4s e, profissional e simp\u00e1tico, nos deu as informa\u00e7\u00f5es de praxe e entregou folders e mapas da \u00e1rea. T\u00ednhamos ent\u00e3o \u00e0 frente para explorar um deserto costeiro repleto de dunas e montanhas. E l\u00e1 fomos n\u00f3s. Dunas, pedregulhos pequenos e grandes, areia, montanhas de areia, uma e outra pedra ao lado da estrada, e n\u00f3s l\u00e1, pequenos naquela imensid\u00e3o quase branca sob c\u00e9u azul claro e sol intenso, que nos obrigava a usar \u00f3culos escuros.<\/p>\n<div id=\"attachment_51824\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 650px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-51824 \" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Paracas-4.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" alt=\"paracas-4\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Estrada na Reserva Nacional de Paracas. Foto: Miguel Milano<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Cria\u00e7\u00e3o e desdobramentos<\/strong><\/p>\n<p>A primeira parada foi r\u00e1pida porque t\u00ednhamos muito pela frente: um s\u00edtio arqueol\u00f3gico com uma pequena trilha interpretativa, onde afloravam conchas c\u00f4nicas de <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Turritella\"><span style=\"color: #104d36;\">Turritellas<\/span><\/a> e pain\u00e9is explicativos ao longo do circuito. Depois, uma derivada na rota principal para uma praia, onde desci para caminhar e fotografar. Era pedregosa e cascalhenta \u00e0 primeira vista, que de perto mostrava quase tudo ser resto de conchas de todo tipo e tamanho, al\u00e9m de algas trazidas pela mar\u00e9, numa mostra da incr\u00edvel diversidade biol\u00f3gica marinha. E muitas, muitas e muitas aves marinhas, principalmente Gaivot\u00e3o (<em>Larus dominicanus<\/em>) e a Gaivota-de-Belcher (<em>Larus belcheri<\/em>), al\u00e9m de pelicanos esparsos e mais ariscos. \u00c0 primeira vista, o n\u00famero de esp\u00e9cies parecia maior. Como me ensinou mais tarde o meu amigo <a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/olhar-naturalista\/\"><span style=\"color: #104d36;\">Fabio Olmos<\/span><\/a>, as duas esp\u00e9cies mais comuns\u00a0levam 4 anos para chegar \u00e0 plumagem adulta. Indiv\u00edduos de cores e tamanhos diferentes confundem ornitol\u00f3gos inexperientes como eu.<\/p>\n<p>Seguimos o passeio at\u00e9 a parada seguinte, meio aleat\u00f3ria, ent\u00e3o uma pequena ponta rochosa recortada, dentro de uma tamb\u00e9m diminuta enseada de \u00e1guas calmas. Descemos todos e passamos a contemplar aquela maravilha de local. Fotos e v\u00eddeos n\u00e3o s\u00e3o capazes de captar a beleza da paisagem de cores t\u00e3o contrastantes. Nada, creio, capta e transfere a outros a experi\u00eancia de estar l\u00e1, como de resto em muitos lugares de natureza ic\u00f4nica. S\u00f3 estar l\u00e1 mesmo! Marc n\u00e3o se conteve frente ao que t\u00ednhamos e ao prazer que desfrut\u00e1vamos juntos, como conservacionistas engajados. Provocativo, declarou: \u201c<em>Miguel, te apresento Peru<\/em>\u201d. Rimos todos! Mas n\u00e3o me saem da mem\u00f3ria nem o momento nem a frase. N\u00e3o havia orgulho insano, mas alegria em poder mostrar a um amigo algo t\u00e3o fant\u00e1stico, que em grande medida existia ali, daquela forma, pelo seu pr\u00f3prio trabalho pela conserva\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<div id=\"attachment_51825\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 649px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-51825 \" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Paracas-3.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" alt=\"paracas-3\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Num arroubo, Marc Dourojeanni diz, &#8220;Miguel, te apresento Peru&#8221;. Foto: Miguel Milano<\/p>\n<\/div>\n<p>Mais Paracas! Novas paradas, uma delas junto a um lago para tentativa frustrada de fotografar um belo bando de flamingos, numa lagoa de dif\u00edcil aproxima\u00e7\u00e3o sem ser notado e espantar as aves. Seguimos em frente, ent\u00e3o para \u00e1reas mais desenvolvidas em termos de infraestrutura, pois at\u00e9 aqui est\u00e1vamos em rotas alternativas dominadas por poucos, como Marc. \u00d3timos e novos acessos rodovi\u00e1rios estavam substituindo caminhos antigos de localiza\u00e7\u00e3o, desenho e implanta\u00e7\u00e3o menos adequados.\u00a0 Mirantes em locais chaves, novinhos, bem desenhados, direcionando o visitante para a melhor vista. Sempre com excelentes estacionamentos (pequenos e compat\u00edveis com o p\u00fablico que se quer) e bons sanit\u00e1rios secos, limpos e sem odores desagrad\u00e1veis, com a mesma tecnologia usada em \u00e1reas protegidas dos Estados Unidos, Canad\u00e1 e Europa. Em curso, descobrimos, investimentos significativos decorrentes das atuais pol\u00edticas p\u00fablicas. Nem Marc e Maria Tereza, frequentadores regulares da \u00e1rea nos \u00faltimos anos, quase sempre guiando amigos estrangeiros, conheciam aquela nova realidade. Como brasileiro, uma certa inveja aflorou, felizmente contrabalanceada pela verdadeira alegria de ver uma \u00e1rea protegida como aquela, bel\u00edssima e importante, recebendo merecidos recursos e manejo. O dia acabou sem que not\u00e1ssemos, inebriados pela natureza local e a sensa\u00e7\u00e3o dos avan\u00e7os em sua conserva\u00e7\u00e3o. Hora de voltar e descansar.<\/p>\n<p>A Reserva Nacional de Paracas, uma categoria que permite um limitado grau de uso direto (no caso, a coleta de guano), foi criada por decreto presidencial em 25 de setembro de 1975, dois anos ap\u00f3s Marc Dourojeanni &#8212; que estudava e conhecia bem a \u00e1rea desde os anos 70 e lutava por sua conserva\u00e7\u00e3o &#8212; assumir a dire\u00e7\u00e3o geral do Servi\u00e7o de \u00c1reas Protegidas e Vida Silvestre do Peru. Como me relatou e j\u00e1 escreveu a respeito, foram longas e dif\u00edceis as negocia\u00e7\u00f5es pol\u00edticas intragovernamentais para alcan\u00e7ar esse resultado. Todavia, ainda que contando 335 mil hectares de \u00e1rea, dos quais 120 mil em ambientes costeiros des\u00e9rticos continentais e 215 mil em superf\u00edcie marinha, \u00e0 \u00e9poca, Marc n\u00e3o conseguiu incluir as importantes ilhas Ballestas na \u00e1rea protegida. Isso s\u00f3 ocorreu recentemente, com a cria\u00e7\u00e3o de uma nova reserva nacional adjacente. De qualquer forma, alcan\u00e7ou o objetivo original de conservar uma por\u00e7\u00e3o costeira de desertos e mar do Peru, e proteger \u00e0s diversas esp\u00e9cies de flora e fauna silvestres locais, cuja diversidade e abund\u00e2ncia impressionam. Hoje, a reserva recebe cerca de 200 mil visitantes por ano.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/EmParacascomMarc-Rev-Epeg-3.jpg\" data-rokbox=\"\" data-rokbox-album=\"paracas\" data-rokbox-caption=\"Foto: Miguel Milano\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-51843\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/EmParacascomMarc-Rev-Epeg-3-600x400.jpg\" sizes=\"(max-width: 423px) 100vw, 423px\" alt=\"emparacascommarc-rev-epeg-3\" width=\"640\" height=\"426\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/EmParacascomMarc-Rev-Epeg-5.jpg\" data-rokbox=\"\" data-rokbox-album=\"paracas\" data-rokbox-caption=\"Foto: Miguel Milano\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-51841\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/EmParacascomMarc-Rev-Epeg-5-600x400.jpg\" sizes=\"(max-width: 423px) 100vw, 423px\" alt=\"emparacascommarc-rev-epeg-5\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/EmParacascomMarc-Rev-Epeg-6.jpg\" data-rokbox=\"\" data-rokbox-album=\"paracas\" data-rokbox-caption=\"Foto: Miguel Milano\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-51838\" title=\"Foto: Miguel Milano\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/EmParacascomMarc-Rev-Epeg-6-600x400.jpg\" sizes=\"(max-width: 423px) 100vw, 423px\" alt=\"emparacascommarc-rev-epeg-6\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u201cEl mar\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Segunda-feira, levantamos cedo, tomamos caf\u00e9 e de ingresso em punho, adquiridos na v\u00e9spera, seguimos para os trapiches de embarque para a visita \u00e0s Ilhas Ballestas, agora <a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Reserva_nacional_Sistema_de_Islas,_Islotes_y_Puntas_Guaneras\"><span style=\"color: #104d36;\">Reserva Nacional Sistemas de Islas, Islotes y Puntas Guaneras<\/span><\/a>. Impressionante a quantidade de turistas. Not\u00e1vel tamb\u00e9m a organiza\u00e7\u00e3o do embarque. As visitas devem ser feitas pela manh\u00e3, sem vento ou com pouco vento, pois \u00e0 tarde a situa\u00e7\u00e3o muda e se torna adversa \u00e0 visita\u00e7\u00e3o. Mas tudo \u00e9 eficiente e as filas andam r\u00e1pido, lotando-se cada barco, com capacidade de 70 a 100 pessoas. Completas, as embarca\u00e7\u00f5es partem em fila.<\/p>\n<p>Primeiro visitamos o famoso \u201ccandelabro\u201d \u2013 uma vista panor\u00e2mica a partir do mar, de desenho para o qual os guias d\u00e3o explica\u00e7\u00f5es padr\u00f5es. As melhores que h\u00e1, e que embora tragam algum significado, n\u00e3o s\u00e3o de f\u00e1cil convencimento. Como para as \u201cLinhas e Nazca\u201d, o mais complicado \u00e9 imaginar como foram feitas.<\/p>\n<div id=\"attachment_51826\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 650px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-51826 \" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Paracas-2.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" alt=\"paracas-2\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Barcos de visita\u00e7\u00e3o \u00e0s Ilhas Ballestas. Foto: Miguel Milano<\/p>\n<\/div>\n<p>Novo trajeto marinho, com cerca de 40 minutos, e nos aproximamos das ilhas. A\u00ed a situa\u00e7\u00e3o embaralha um pouco. Mesmo com a ordem poss\u00edvel, pr\u00e9-definida pelas institui\u00e7\u00f5es e acordada entre os comandantes dos barcos, marinheiros e guias, os barcos s\u00e3o muitos e precisam passar perto da costa das ilhas da melhor forma para garantir boas vistas e oportunidades de fotografias aos seus passageiros. Acabam ocorrendo situa\u00e7\u00f5es de abuso \u00e0 natureza. Ainda assim, da minha experi\u00eancia, nada muito grave e que n\u00e3o possa ser corrigido. Mais uma vez, fica a convic\u00e7\u00e3o de que \u00e9 muito melhor gente visitando \u00e1reas protegidas, tornando-as parte do dom\u00ednio coletivo, do que \u00e1reas fechadas e abandonadas, como frequentemente vemos ou temos not\u00edcias, sofrendo todo tipo de invas\u00e3o sorrateira, ou \u00e0s claras, sem a sociedade para defend\u00ea-las.<\/p>\n<p>Os pequenos desconfortos do congestionamento de barcos junto \u00e0s ilhas n\u00e3o tiram dos visitantes o prazer do avistamento da abund\u00e2ncia de vida silvestre que as ilhas oferecem. Pelicanos, pinguins, gaivotas, atob\u00e1s, &#8230; lobos marinhos, lontras marinhas, o passeio enche os olhos (e cora\u00e7\u00f5es) de todos.<\/p>\n<p>\u00c9 admir\u00e1vel a quantidade de aves marinhas guaneiras, seus n\u00fameros sempre na casa dos milh\u00f5es. Toca qualquer um ver tudo aquilo. Por isso, o turismo nessa reserva adjacente a Paracas j\u00e1 alcan\u00e7a cerca de 250 mil visitantes por ano, um n\u00famero expressivo, de enorme significado s\u00f3cio-econ\u00f4mico.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/EmParacascomMarc-Rev-Epeg-8.jpg\" data-rokbox=\"\" data-rokbox-album=\"paracas\" data-rokbox-caption=\"Foto: Miguel Milano\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-51837\" title=\"Foto: Miguel Milano\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/EmParacascomMarc-Rev-Epeg-8-600x400.jpg\" sizes=\"(max-width: 423px) 100vw, 423px\" alt=\"emparacascommarc-rev-epeg-8\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/EmParacascomMarc-Rev-Epeg-7.jpg\" data-rokbox=\"\" data-rokbox-album=\"paracas\" data-rokbox-caption=\"Foto: Miguel Milano\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-51839\" title=\"Foto: Miguel Milano\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/EmParacascomMarc-Rev-Epeg-7-600x400.jpg\" sizes=\"(max-width: 423px) 100vw, 423px\" alt=\"emparacascommarc-rev-epeg-7\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Paracas-5.jpg\" data-rokbox=\"\" data-rokbox-album=\"paracas\" data-rokbox-caption=\"Foto: Miguel Milano\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-51827\" title=\"Foto: Miguel Milano\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Paracas-5-600x400.jpg\" sizes=\"(max-width: 423px) 100vw, 423px\" width=\"638\" height=\"425\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Paracas-6.jpg\" data-rokbox=\"\" data-rokbox-album=\"paracas\" data-rokbox-caption=\"Foto: Miguel Milano\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-51879\" title=\"Foto: Miguel Milano\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Paracas-6-600x400.jpg\" sizes=\"(max-width: 423px) 100vw, 423px\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa visita, segundo Marc, mais do que todas as anteriores, o fez recordar dos anos de 1960, quando em todo distrito de Paracas s\u00f3 existia um antigo hotel que levava o nome do local, al\u00e9m de pequeno conjunto de resid\u00eancias de veraneio que resistiam bravamente ao vento. Ainda que houvesse algumas ind\u00fastrias pesqueiras pequenas, nada se parecia ao vibrante centro urbano atual nem \u00e0 pujante e onipresente atividade econ\u00f4mica baseada no turismo. Para Marc, Paracas \u00e9 prova concreta e irrefut\u00e1vel dos enormes benef\u00edcios econ\u00f4micos e sociais que uma \u00e1rea natural protegida razoavelmente bem manejada pode gerar. \u00c9 um exemplo convincente para calar boca de qualquer economicista desses que se queixam que as \u00e1reas naturais protegidas \u201cs\u00f3 d\u00e3o gastos\u201d e as acusam de ser \u201cterras sem uso, desperdi\u00e7adas\u201d e um entrave ao desenvolvimento e progresso.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 preciso contar, antes de encerrar este relato, que foi longo o percurso para se chegar ao que \u00e9 Paracas hoje. Ainda que no per\u00edodo pr\u00e9-hisp\u00e2nico os incas tenham manejado as aves guaneiras como fonte essencial de nutrientes para ter uma agricultura produtiva capaz de alimentar o poderoso imp\u00e9rio, estimativas populacionais e censo s\u00f3 come\u00e7aram a acontecer bem mais tarde, no per\u00edodo republicano da hist\u00f3ria peruana. Registros indicam que houve um crescimento da popula\u00e7\u00e3o dessas aves de cerca de 12,6 milh\u00f5es em 1950 para cerca de 35 milh\u00f5es em 1956, a partir de quando um decl\u00ednio populacional cont\u00ednuo e grave levou a estimativas a apenas 1,8 milh\u00f5es de aves em 1973, conforme dados da Companhia Administradora do Guano. Concluiu-se \u00e0 \u00e9poca, que essa preocupante redu\u00e7\u00e3o populacional era decorrente da combina\u00e7\u00e3o do desenvolvimento da ind\u00fastria pesqueira peruana, em especial das intensas capturas de anchovetas que reduziram os estoques alimentares das aves, em conjunto com os efeitos clim\u00e1ticos do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/El_Ni%C3%B1o\"><span style=\"color: #104d36;\">El Ni\u00f1o<\/span><\/a>. Do controle da pesca local at\u00e9 atividades intensas de prote\u00e7\u00e3o das \u00e1reas de nidifica\u00e7\u00e3o, a\u00e7\u00f5es de manejo levaram aos poucos a uma recomposi\u00e7\u00e3o dessas popula\u00e7\u00f5es, estimadas na casa de 5,2 milh\u00f5es de aves j\u00e1 em 1981, conforme informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis em <strong>Gran Geografia del Per\u00fa \u2013 vol V: Naturaleza Y Hombre<\/strong>). Note-se que a Reserva Nacional de Paracas foi criada em 1975 como uma medida de prote\u00e7\u00e3o da \u00e1rea, dos ecossistemas e das esp\u00e9cies locais, em particular as aves guaneiras, al\u00e9m de mam\u00edferos marinhos e dos pr\u00f3prios recursos pesqueiros. Desde ent\u00e3o, muito se andou e, hoje, Paracas \u00e9 um exemplo de \u00e1rea protegida e \u00a0tamb\u00e9m motor do desenvolvimento s\u00f3cio-econ\u00f4mico regional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em outubro de 2016, fui ao Peru para uma reuni\u00e3o de conselho da Forest Trends,<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":60661,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/reserva.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/reserva-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/reserva-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/reserva.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/reserva.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/reserva.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/reserva.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/reserva.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/reserva.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/reserva.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Em outubro de 2016, fui ao Peru para uma reuni\u00e3o de conselho da Forest Trends,","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60660"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60660"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60660\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/60661"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60660"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60660"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60660"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}