{"id":60465,"date":"2017-02-22T13:30:32","date_gmt":"2017-02-22T16:30:32","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=60465"},"modified":"2017-02-21T20:41:09","modified_gmt":"2017-02-21T23:41:09","slug":"o-pao-branco-e-uma-bomba-que-estamos-dando-as-pessoas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/o-pao-branco-e-uma-bomba-que-estamos-dando-as-pessoas\/","title":{"rendered":"\u201cO p\u00e3o branco \u00e9 uma bomba que estamos dando \u00e0s pessoas\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-60466\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/entrevista-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/entrevista-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/entrevista.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Demora-se menos de dois minutos para se dar conta de que o doutor espanhol Miguel \u00c1ngel Mart\u00ednez-Gonz\u00e1lez ensina pelo exemplo. Ele sobe a p\u00e9 as escadas da faculdade at\u00e9 o segundo andar, onde d\u00e1 aula de bioestat\u00edstica a futuros m\u00e9dicos, toma o caf\u00e9 sem a\u00e7\u00facar e, em um card\u00e1pio de restaurante que oferece como op\u00e7\u00f5es lentilhas, massa e carne, escolhe sem hesitar os gr\u00e3os. Est\u00e1 h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas em busca de evid\u00eancias cient\u00edficas para respaldar as benesses atribu\u00eddas pela tradi\u00e7\u00e3o \u00e0 dieta mediterr\u00e2nea.<\/p>\n<p>O catedr\u00e1tico de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade de Navarra, e desde junho tamb\u00e9m professor visitante de Harvard, \u00e9 um dos c\u00e9rebros do relat\u00f3rio Predimed, o mais amplo realizado at\u00e9 agora sobre os efeitos da dieta mediterr\u00e2nea, origin\u00e1ria do sul da Europa: o acompanhamento de um coorte formado por 7.500 participantes recrutados em toda a Espanha durante uma d\u00e9cada demonstrou que esta reduz em 66% os problemas circulat\u00f3rios, em 30% os infartos e derrames e em 68% o risco de c\u00e2ncer de mama.<\/p>\n<p>No corredor ao lado de sua sala no campus de Pamplona, onde \u00e9 realizada esta entrevista, est\u00e3o pregados em uma corti\u00e7a os trabalhos que seu departamento publicou recentemente em revistas cient\u00edficas. \u201c\u00c9 o muro da autoestima\u201d, brinca. O m\u00e9dico malaguenho, de 59 anos, colabora desde os anos noventa com diversas pesquisas da Escola de Sa\u00fade P\u00fablica de Harvard, refer\u00eancia mundial em nutri\u00e7\u00e3o. Dali tirou a inspira\u00e7\u00e3o e os conhecimentos para contribuir para criar n\u00e3o s\u00f3 o projeto Predimed \u2014suas descobertas j\u00e1 est\u00e3o inclu\u00eddas nos guias nutricionais oficiais dos Estados Unidos\u2014 como tamb\u00e9m o SUN, um programa no qual mais de 22.000 pessoas, 50% delas profissionais de sa\u00fade, colocaram \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos pesquisadores \u2014de forma continuada desde 1999\u2014 dados sobre sua sa\u00fade e estilo de vida que serviram para dezenas de trabalhos de pesquisa. Tamb\u00e9m come\u00e7ou recentemente outro projeto, Predimed Plus, que tenta demonstrar por meio do acompanhamento de quase 7.000 pacientes obesos durante quatro anos que com a dieta mediterr\u00e2nea melhorar\u00e3o sua dieta, aumentar\u00e3o sua atividade f\u00edsica e perder\u00e3o peso.<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 \u00e9 um fato cient\u00edfico: a dieta mediterr\u00e2nea \u00e9 saud\u00e1vel. Ent\u00e3o, por que h\u00e1 tanto sobrepeso nesses pa\u00edses?<\/strong> Muita gente diz que conhece e segue a dieta mediterr\u00e2nea. Mas a realidade \u00e9 que as gera\u00e7\u00f5es jovens incorporaram a dieta norte-americana. Come-se carne vermelha e processada demais. N\u00e3o quero dizer que temos de nos tornar vegetarianos. Mas a evid\u00eancia cient\u00edfica indica que, \u00e0 medida que aumenta a porcentagem de prote\u00ednas vegetais sobre as animais, cai brutalmente a mortalidade cardiovascular e por c\u00e2ncer. A dieta mediterr\u00e2nea, sobretudo o consumo de azeite de oliva extra-virgem, frutas secas, frutas, verduras e legumes, \u00e9 a melhor op\u00e7\u00e3o. Depois, melhor comer peixe do que carne e, esta, preferencialmente de aves ou coelho. Tamb\u00e9m conv\u00e9m reduzir o consumo de a\u00e7\u00facar e sal, e levar uma vida menos sedent\u00e1ria. Usar mais as escadas e menos o elevador.<\/p>\n<p><strong>Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil emagrecer?<\/strong><\/p>\n<p>Primeiro, porque \u00e9 preciso ter muita for\u00e7a de vontade para perder quilos e n\u00e3o recuper\u00e1-los. Mas \u00e9 que, al\u00e9m disso, certa ind\u00fastria aliment\u00edcia exerce grande press\u00e3o para colocar muitos alimentos a nossa disposi\u00e7\u00e3o a toda hora, a um custo muito baixo e em grandes quantidades. O que est\u00e1 mais acess\u00edvel nas prateleiras dos supermercados? Alimentos ultraprocessados, com grande densidade energ\u00e9tica, porque t\u00eam muita gordura, a\u00e7\u00facar e sal, \u00e0s vezes contra a natureza do produto, como acontece com o ketchup. O que ele tem a ver com molho de tomate? E \u00e9 vendido e consumido em quantidades industriais. Al\u00e9m disso, as por\u00e7\u00f5es grandes e baratas incham as pessoas. Vivemos em uma cultura de sobrealimenta\u00e7\u00e3o. As op\u00e7\u00f5es mais saud\u00e1veis deveriam estar mais dispon\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>Por mais que a ind\u00fastria queira tentar as pessoas, elas sabem que tudo isso n\u00e3o \u00e9 muito saud\u00e1vel. Ningu\u00e9m as obriga a comer.<\/strong><\/p>\n<p>A maior parte das escolhas que fazemos n\u00e3o s\u00e3o muito racionais. O economista Richard H. Thaler, refer\u00eancia na teoria das finan\u00e7as comportamentais, e Cass R. Sunstein, outro especialista em economia comportamental, explicam isso muito bem em um de meus livros favoritos, <em>O empurr\u00e3o para a escolha certa<\/em> (Ed. Campus). As pessoas costumam optar pela decis\u00e3o mais f\u00e1cil, e h\u00e1 um certo tipo de ind\u00fastria que lhes d\u00e1 esse empurr\u00e3ozinho. Por isso, acredito que \u00e9 preciso tornar o saud\u00e1vel mais acess\u00edvel, dar pistas de que se deve escolher para comer bem. S\u00e3o estrat\u00e9gias de sa\u00fade p\u00fablica para construir uma sociedade mais saud\u00e1vel. De tal maneira que, como padr\u00e3o, lhe ofere\u00e7am p\u00e3o integral. O suco, sem a\u00e7\u00facar. Thaler e Sustein chamam isso de paternalismo libert\u00e1rio. As pessoas devem ser livres para escolher, mas acredito que \u00e9 preciso informar e proteger contra escolhas impensadas e prejudiciais. Sem for\u00e7ar. Isso \u00e9 o que ensino em medicina preventiva.<\/p>\n<p><strong>O Governo espanhol acaba de anunciar a cria\u00e7\u00e3o de um imposto que penaliza o consumo de refrigerantes. O que o sr. acha?<\/strong><\/p>\n<p>Sou partid\u00e1rio de que se subvencione o azeite de oliva extra-virgem, as frutas e as verduras e que se sobretaxe o consumo de carne vermelha e processada, as <em>trash foods<\/em> e as bebidas a\u00e7ucaradas. Assim se lan\u00e7a uma mensagem clara do que \u00e9 sadio ou n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O sr. falava antes do p\u00e3o. Faz parte da dieta mediterr\u00e2nea?<\/strong><\/p>\n<p>Debatemos muito sobre esse tema. A conclus\u00e3o a que chegamos \u00e9 que o p\u00e3o branco \u00e9 um dos problemas mais graves que temos na Espanha. A grande maioria o consome e assim engorda. \u00c9 preciso saber que \u00e9 fundamentalmente um amido, e nosso corpo \u00e9 super eficiente em transformar amido em a\u00e7\u00facar. \u00c9 como tomar glicose. Basta colocar um pouco de miolo na boca e na hora se sente um gosto doce. E por que a ind\u00fastria se incomoda de tirar o gr\u00e3o integral? Porque as farinhas refinadas aguentam melhor. S\u00e3o muito \u00fateis comercialmente, mas tira-se delas a parte mais nutritiva e que permite que os a\u00e7\u00facares sejam absorvidos mais lentamente. Estamos dando \u00e0s pessoas, com o p\u00e3o branco, um combust\u00edvel de r\u00e1pida absor\u00e7\u00e3o. E isso, especialmente quando j\u00e1 se tem sobrepeso, certa resist\u00eancia a insulina, \u00e9 uma bomba. Seria preciso consumir menos e, preferencialmente, integral.<\/p>\n<p><strong>Proliferam agora os livros sobre as diversas teorias de que alimentos engordam mais ou menos. Que as gorduras n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o ruins como se pensava e o a\u00e7\u00facar \u00e9 a raz\u00e3o da epidemia de obesidade e diabetes. O que \u00e9 pior, o a\u00e7\u00facar ou as gorduras?<\/strong><\/p>\n<p>O a\u00e7\u00facar \u00e9 um grande problema. \u00c9 acrescentado em grandes quantidades aos refrigerantes, sucos e produtos engarrafados. As crian\u00e7as se acostumam a esses sabores super doces e, claro, depois n\u00e3o querem comer uma pera. Mas, ao mesmo tempo, est\u00e1 demonstrado que a gordura saturada tem um efeito negativo sobre a doen\u00e7a cardiovascular. Tanto as gorduras como o a\u00e7\u00facar podem ser problem\u00e1ticos.<\/p>\n<p><strong>A ind\u00fastria diz que n\u00e3o se pode demonizar alimentos, que \u00e9 preciso comer de tudo.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se demonstrou cientificamente que comer uma ampla variedade de alimentos seja melhor do que restringir alguns. Mas o que interessa dizer para o produtor de carne bovina? Que n\u00e3o h\u00e1 que demonizar nenhum alimento. A ind\u00fastria tem muito mais recursos do que as autoridades de sa\u00fade p\u00fablica para lan\u00e7ar essas mensagens. J\u00e1 aconteceu antes. Algumas empresas de alimenta\u00e7\u00e3o usaram t\u00e1ticas similares \u00e0s usadas pela ind\u00fastria de tabaco. Como pagar cientistas para dizer que o tabaco n\u00e3o prejudicava a sa\u00fade tanto quanto se acreditava. Chegou-se a dizer que o c\u00e2ncer de pulm\u00e3o inicial era resultado do desejo de fumar para acalmar a dor. Tamb\u00e9m se usou dinheiro para desprestigiar os epidemiologistas que trabalham em nutri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Comparar a ind\u00fastria aliment\u00edcia \u00e0 de cigarro n\u00e3o \u00e9 um pouco exagerado?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 dois anos publicou-se um relat\u00f3rio na <em>PLoS Medicine<\/em> com os documentos internos da ind\u00fastria do a\u00e7\u00facar nos anos cinquenta e sessenta. Ali se constata que se sabia perfeitamente que era a causa das c\u00e1ries dent\u00e1rias. Naqueles documentos internos se detalha como pagaram a cientistas para que semeassem a d\u00favida, sobretudo o que pudesse prejudic\u00e1-los. Os especialistas em <em>marketing<\/em> que aconselhavam as empresas a\u00e7ucareiras foram contratados depois pelas de tabaco, que imitaram essas estrat\u00e9gias. Em contrapartida, \u00e9 preciso destacar que nos \u00faltimos anos houve movimentos respons\u00e1veis dentro da pr\u00f3pria ind\u00fastria aliment\u00edcia para retirar as gorduras <em>trans<\/em> [as mais prejudiciais] de seus produtos, usar ado\u00e7antes n\u00e3o cal\u00f3ricos e reduzir a quantidade de sal.<\/p>\n<p><strong>O sr. aceitou dinheiro da ind\u00fastria?<\/strong><\/p>\n<p>Duas vezes. A primeira, em um momento em que nos negaram todos os fundos e a coorte SUN dedicada ao estudo dos h\u00e1bitos alimentares correu risco de desaparecer. Aceitamos uma oferta da Danone para analisar os efeitos metab\u00f3licos do iogurte sobre a obesidade. Foram cerca de 40.000 euros em 2013 (cerca de 130 mil reais hoje). Conclu\u00edmos que o consumo de iogurte reduzia o risco de obesidade, mas tamb\u00e9m dissemos que o consumo de frutas reduzia ainda mais. Depois de publicar o estudo, encerramos nossa colabora\u00e7\u00e3o com eles e lhes pedi que n\u00e3o me ligassem mais.<\/p>\n<p><strong>Foi publicado o que se quis, por que recus\u00e1-los?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma press\u00e3o muito sutil. Convidaram-me para um simp\u00f3sio em Boston para falar de nossas descobertas sobre o iogurte. N\u00e3o gosto de aparecer em um congresso de m\u00e3os dadas com uma ind\u00fastria real. Considero que \u00e9 melhor para todos os pesquisadores que sejam independentes.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o recebeu dinheiro dos produtos de azeite de oliva?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. A segunda vez foi o Conselho Internacional de Frutas Secas quem nos pagou. Participamos de uma chamada p\u00fablica competitiva para financiar o Predimed Plus porque distribu\u00edamos frutas secas entre os participantes. Obtivemos um projeto de 50.000 euros (cerca de 164 mil reais) para dois anos, menos de 3% do dinheiro que recebemos nessa \u00e9poca. Agora, o total de nosso financiamento \u00e9 p\u00fablico: fundos norte-americanos, espanh\u00f3is e europeus.<\/p>\n<section id=\"sumario_5|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"\u201cO p\u00e3o branco \u00e9 uma bomba que estamos dando \u00e0s pessoas\u201d\" src=\"http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/02\/20\/ciencia\/1487621216_628466_1487681683_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/02\/20\/ciencia\/1487621216_628466_1487681683_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/02\/20\/ciencia\/1487621216_628466_1487681683_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/02\/20\/ciencia\/1487621216_628466_1487681683_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"\u201cO p\u00e3o branco \u00e9 uma bomba que estamos dando \u00e0s pessoas\u201d\" width=\"638\" height=\"425\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">VANESSA MONTERO<\/span> <\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p><strong>H\u00e1 pesquisadores que aceitam dinheiro da ind\u00fastria.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um assunto delicado. Em 2013, nosso trabalho publicado no <em>PLoS Medicine<\/em> conclu\u00eda que era cinco vezes mais prov\u00e1vel que os estudos realizados com financiamento de certa ind\u00fastria conclu\u00edssem em favor dessas empresas. Tamb\u00e9m \u00e9 interessante contrastar com qualquer estudo que tenha recebido dinheiro de empresas de alimentos com outros independentes e compar\u00e1-los. N\u00e3o se pode confiar apenas em pesquisas financiadas pelos interessados. N\u00e3o se pode ser juiz e parte envolvida. Outra possibilidade seria a ind\u00fastria aportar esse capital a um fundo an\u00f4nimo e que n\u00e3o tivesse capacidade para decidir que projetos ser\u00e3o financiados. Ao mesmo tempo, as ag\u00eancias p\u00fablicas teriam de incrementar seus investimentos em epidemiologia nutricional. A alimenta\u00e7\u00e3o interessa a toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A obesidade j\u00e1 \u00e9 uma epidemia de alcance global.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 a grande pandemia do s\u00e9culo XXI, e vai provocar o fato ins\u00f3lito de que nas sociedades desenvolvidas retrocedamos em expectativa de vida. Nos Estados Unidos acabamos de saber que j\u00e1 aconteceu. Um macroestudo recente realizado em Israel mostra que at\u00e9 as pessoas cujo peso est\u00e1 dentro da normalidade, mas na parte superior, resvalando no sobrepeso, sem ser ainda obesos, t\u00eam um risco maior de mortalidade cardiovascular. A OMS associa a obesidade a 15 tipos de c\u00e2ncer. Isso tem um impacto na qualidade de vida. Por isso estamos fazendo o estudo Predimed Plus, para ver se com a dieta mediterr\u00e2nea n\u00e3o ficamos apenas mais sadios, mas tamb\u00e9m mais magros.<\/p>\n<p><strong>A obesidade \u00e9 gen\u00e9tica?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 heredit\u00e1ria, porque os costumes podem passar de pais para filhos, mas o componente gen\u00e9tico n\u00e3o explica a pandemia atual. Em Harvard foi feito um estudo muito interessante em 2012: pegaram 32 genes relacionados \u00e0 obesidade e viram o que acontecia quando se tomava bebidas a\u00e7ucaradas. Se essas bebidas n\u00e3o eram consumidos, a gen\u00e9tica n\u00e3o previa nada. \u00c9 muito claro. S\u00f3 na presen\u00e7a de uma dieta n\u00e3o saud\u00e1vel a gen\u00e9tica se relaciona com obesidade. Sem d\u00favida, o papel dos pais \u00e9 chave, e tamb\u00e9m o da escola, dos profissionais de sa\u00fade, da m\u00eddia e da cultura de entretenimento.<\/p>\n<p><strong>At\u00e9 onde pode chegar a medicina preventiva?<\/strong><\/p>\n<p>Comecei a me formar como cardiologista, mas logo me dei conta de que gostava de atuar antes, na epidemiologia, nos grandes n\u00fameros. Nos anos noventa, a medicina preventiva era insignificante na Espanha. Foi ganhando prest\u00edgio gra\u00e7as \u00e0 medicina baseada na evid\u00eancia cient\u00edfica. Antes o m\u00e9dico se fiava em sua inspira\u00e7\u00e3o, em seu olho cl\u00ednico, em sua experi\u00eancia. Agora h\u00e1 pesquisas que afirmam que depois de estudar 10.000 pacientes isso \u00e9 o que costuma acontecer. A linguagem da medicina mudou.<\/p>\n<p><strong>Costumava-se dizer que um bom m\u00e9dico era algu\u00e9m mais velho, com experi\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p>Era uma vis\u00e3o subjetiva. Agora h\u00e1 uma base mais objetiva, quantificada, rigorosa, cient\u00edfica, mas nunca deve faltar o afeto humano ao paciente e a aten\u00e7\u00e3o personalizada.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o podemos acabar ficando obcecados com a preven\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>As pessoas confundem a medicina preventiva com os tratamentos precoces e os exames. Mas o principal \u00e9 o estilo de vida e a dieta. A vida \u00e9 simples, pelo menos na teoria: n\u00e3o fumar, permanecer magro, fazer atividades f\u00edsicas, comer de forma saud\u00e1vel e controlar a press\u00e3o arterial, o colesterol e a glicose. Se essas coisas est\u00e3o sob controle, a mortalidade cardiovascular se reduz em 76%.<\/p>\n<p><strong>Hoje em dia, com um simples exame de sangue ou saliva, \u00e9 poss\u00edvel prognosticar um c\u00e2ncer em uma pessoa totalmente saud\u00e1vel.<\/strong><\/p>\n<p>Essa medicina preventiva tem aplica\u00e7\u00f5es que s\u00e3o favas contadas. Mas muito pouca gente que pode se beneficiar atualmente. N\u00e3o h\u00e1 recursos. Ao mesmo tempo, comer mais lentilhas e menos carne est\u00e1 ao alcance de toda a popula\u00e7\u00e3o agora mesmo.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 um empenho em fazer com que as pessoas vivam muito mais anos.<\/strong><\/p>\n<p>A qualidade de vida \u00e9 fundamental. E muito disso se perde com as doen\u00e7as neurodegenerativas. Estamos pesquisando o efeito da dieta mediterr\u00e2nea em dem\u00eancias como Alzheimer e Parkinson e come\u00e7amos a ver que tamb\u00e9m \u00e9 ben\u00e9fico. Calculo que em um anos ser\u00e3o publicados os resultados. Acredito que ser\u00e1 uma bomba.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Demora-se menos de dois minutos para se dar conta de que o doutor espanhol Miguel<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":60466,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/entrevista.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/entrevista-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/entrevista-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/entrevista.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/entrevista.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/entrevista.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/entrevista.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/entrevista.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/entrevista.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/entrevista.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Demora-se menos de dois minutos para se dar conta de que o doutor espanhol Miguel","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60465"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60465"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60465\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/60466"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60465"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60465"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60465"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}