{"id":60420,"date":"2017-02-21T09:24:15","date_gmt":"2017-02-21T12:24:15","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=60420"},"modified":"2017-02-21T09:24:15","modified_gmt":"2017-02-21T12:24:15","slug":"segue-o-seco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/segue-o-seco\/","title":{"rendered":"Segue o seco"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"create\">Por Alexandre Costa<\/span><\/p>\n<div class=\"post-content\">\n<div id=\"attachment_51593\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 649px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-51593\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Seca_em_Sobradinho_07-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Seca_em_Sobradinho_07-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Seca_em_Sobradinho_07-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Seca_em_Sobradinho_07-600x400.jpg 600w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Seca_em_Sobradinho_07-278x185.jpg 278w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Seca_em_Sobradinho_07.jpg 1152w\" alt=\"Carca\u00e7a de vaca no interior da Bahia durante a seca recorde. Foto: Marcelo Casal Jr.\/Ag\u00eancia Brasil.\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Carca\u00e7a de vaca no interior da Bahia durante a seca recorde. Foto: Marcelo Casal Jr.\/Ag\u00eancia Brasil.<\/p>\n<\/div>\n<p>As carca\u00e7as de c\u00e1gados no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-38735657\">piso seco do Cedro<\/a>, primeiro grande a\u00e7ude do Cear\u00e1, constru\u00eddo ainda no s\u00e9culo 19, s\u00e3o uma imagem triste e impactante desta que j\u00e1 \u00e9 a maior seca do registro hist\u00f3rico no Estado, iniciado em 1910 (e provavelmente na regi\u00e3o Nordeste como um todo). Com efeito, o per\u00edodo de 2012 at\u00e9 2016 igualou-se ao de 1979 a 1983 como a mais prolongada sequ\u00eancia de anos com chuvas abaixo do normal em territ\u00f3rio cearense e a m\u00e9dia de cinco anos \u00e9 a menor jamais registrada (521 mm, contra 566 mm para 1979-1983). No Nordeste como um todo, segundo a Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas, a seca excepcional, de categoria m\u00e1xima (a mais intensa da classifica\u00e7\u00e3o, com perdas generalizadas na agropecu\u00e1ria, comprometimento dos corpos h\u00eddricos e impactos de longo prazo sobre o ecossistema) se alastrou por todos os Estados, do Maranh\u00e3o \u00e0 Bahia.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 combina\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es de conviv\u00eancia com o semi\u00e1rido (como o programa de cisternas), programas sociais e interven\u00e7\u00f5es de infraestrutura h\u00eddrica, os maiores dramas hist\u00f3ricos do Nordeste, a migra\u00e7\u00e3o em massa e os saques, ainda n\u00e3o se manifestaram, pelo menos n\u00e3o na escala vista at\u00e9 mesmo h\u00e1 poucas d\u00e9cadas. Mas isso n\u00e3o quer dizer que a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja grave. A economia tem sido brutalmente afetada, com perdas acumuladas, s\u00f3 de 2012 a 2015, da ordem de R$ 104 bilh\u00f5es e um\u00a0<a href=\"http:\/\/epocanegocios.globo.com\/Economia\/noticia\/2017\/01\/epoca-negocios-seca-e-recessao-derrubam-economia-do-nordeste-apos-anos-de-avanco.html\">recuo m\u00e9dio no PIB de 4,3% ao ano<\/a>. O colapso h\u00eddrico j\u00e1 atingiu n\u00e3o apenas comunidades rurais, mas in\u00fameras cidades do interior, como foi o caso de Crate\u00fas, onde filas intermin\u00e1veis se formaram para que as fam\u00edlias tivessem acesso \u00e0 \u00e1gua de um po\u00e7o com dessalinizador, no limite de 40 litros por fam\u00edlia por dia, quantidade bastante\u00a0<a href=\"http:\/\/www.who.int\/water_sanitation_health\/publications\/2011\/WHO_TN_09_How_much_water_is_needed.pdf?ua=1\">aqu\u00e9m da recomenda\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade<\/a>\u00a0para beber, cozinhar e fazer higiene<\/p>\n<p>Hoje, o colapso ronda as metr\u00f3poles da regi\u00e3o. O monitoramento do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.insa.gov.br\/olhonagua\/#\/mapa\">Instituto Nacional do Semi\u00e1rido<\/a>\u00a0(Insa) e do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.hidro.ce.gov.br\/\">Portal Hidrol\u00f3gico do Cear\u00e1<\/a>\u00a0mostra que a maior parte dos a\u00e7udes encontra-se abaixo dos 10% em volume, incluindo os reservat\u00f3rios de grande porte, cr\u00edticos para o abastecimento urbano em larga escala. \u00c9 o caso do Castanh\u00e3o, principal fonte de abastecimento para a Regi\u00e3o Metropolitana de Fortaleza, cujo estoque de \u00e1gua corresponde a meros 4,9% do seu volume, assim como do Banabui\u00fa, terceiro maior reservat\u00f3rio cearense (0,4%) e do Boqueir\u00e3o (4,1%), importante a\u00e7ude paraibano. Em situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o muito melhor est\u00e3o o Armando Ribeiro Gon\u00e7alves (Rio Grande do Norte, com 13,7%), e o Or\u00f3s (Cear\u00e1, 11,6%).<\/p>\n<p>Para recompor os estoques h\u00eddricos da regi\u00e3o, seria necess\u00e1ria uma sequ\u00eancia de anos de chuva acima da m\u00e9dia (al\u00e9m de medidas restritivas ao uso na ind\u00fastria e grande agricultura) Como se n\u00e3o fosse o bastante, os progn\u00f3sticos para a esta\u00e7\u00e3o chuvosa de 2017 n\u00e3o est\u00e3o se mostrando favor\u00e1veis. Pelo contr\u00e1rio: segundo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.mcti.gov.br\/noticia\/-\/asset_publisher\/epbV0pr6eIS0\/content\/previsao-climatica-do-mctic-indica-agravamento-da-seca-no-nordeste-entre-fevereiro-e-abril\">dados divulgados nesta semana<\/a>\u00a0pelo Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia (MCTIC), a probabilidade de chuva abaixo do normal entre fevereiro e abril no Nordeste \u00e9 de 40%, contra 35% para chuvas na m\u00e9dia e 25% para chuvas acima da m\u00e9dia. Segue o seco.<\/p>\n<p>Eventos extraordin\u00e1rios como esse dificilmente podem ser associados a uma \u00fanica causa. \u00c9 verdade que o Nordeste setentrional \u00e9 particularmente sens\u00edvel \u00e0 variabilidade clim\u00e1tica natural, com as chuvas tendendo a diminuir ou aumentar de acordo com os padr\u00f5es de temperatura oce\u00e2nica no Pac\u00edfico e Atl\u00e2ntico. No momento, os modos de variabilidade de longo prazo em ambos os oceanos est\u00e3o em fase desfavor\u00e1vel para as chuvas na regi\u00e3o. Embora a chamada variabilidade interanual permane\u00e7a, essa variabilidade de mais longo prazo (decadal a multidecadal) a modula, aumentando probabilidades maiores de ocorr\u00eancia de eventos de El Ni\u00f1o, no Pac\u00edfico, e de aquecimento an\u00f4malo na por\u00e7\u00e3o norte da bacia do Atl\u00e2ntico, em ambos os casos contribuindo para a redu\u00e7\u00e3o das precipita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A degrada\u00e7\u00e3o ambiental na escala local, com o desmatamento comprometendo matas ciliares e nascentes e assoreando rios e reservat\u00f3rios tamb\u00e9m precisa ser colocada nessa contabilidade. Uma inadequada e insuficiente pol\u00edtica de res\u00edduos e saneamento contribui tamb\u00e9m para o comprometimento da qualidade da \u00e1gua na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 preciso dizer que a vulnerabilidade da regi\u00e3o \u00e9 amplificada por conta das escolhas dos modelos de desenvolvimento. A multiplica\u00e7\u00e3o das obras h\u00eddricas n\u00e3o levou em conta em geral as necessidades da maioria da popula\u00e7\u00e3o e visou essencialmente ao favorecimento de determinadas atividades econ\u00f4micas, como o agroneg\u00f3cio e setores industriais hidrointensivos.<\/p>\n<p>\u00c9 particularmente gritante a instala\u00e7\u00e3o de termel\u00e9tricas f\u00f3sseis na regi\u00e3o que tem a maior voca\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o de eletricidade a partir das fontes solar e e\u00f3lica. Sugere um misto de irresponsabilidade, ignor\u00e2ncia e, sobretudo, atendimento a lobbies corporativos e interesses econ\u00f4micos escusos. A maior dessas usinas, localizada no Complexo do Pec\u00e9m, no Cear\u00e1, \u00e9 capaz de consumir at\u00e9 800 litros de \u00e1gua por segundo, o equivalente ao consumo de uma cidade de meio milh\u00e3o de habitantes, al\u00e9m de emitir mais CO<sub>2<\/sub>\u00a0do que todo o setor de transportes do Estado, conforme\u00a0<a href=\"http:\/\/seeg.eco.br\/\">dados do SEEG<\/a>\u00a0(Sistema de Estimativas de Emiss\u00f5es de Gases de Efeito Estufa). O pesadelo s\u00f3 se amplia, com a chegada de uma sider\u00fargica (a CSP, Companhia Sider\u00fargica do Pec\u00e9m) e os planos de implanta\u00e7\u00e3o de uma refinaria e uma mina de ur\u00e2nio.<\/p>\n<p>Por fim, mas n\u00e3o menos importante, j\u00e1 que mencionamos as emiss\u00f5es de di\u00f3xido de carbono, precisamos falar das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Uma lei f\u00edsica muito simples (conhecida por n\u00f3s, cientistas, como a equa\u00e7\u00e3o de Clausius-Clapeyron) diz que uma atmosfera mais quente \u00e9 capaz de armazenar mais vapor d\u2019\u00e1gua e que a implica\u00e7\u00e3o direta disso \u00e9 que, em mundo mais quente, as secas extremas, assim como as tempestades severas, se tornar\u00e3o mais intensas e mais frequentes. As proje\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas para o Nordeste brasileiro apontam em geral para um clima mais seco,\u00a0<a href=\"http:\/\/oquevocefariasesoubesse.blogspot.com.br\/2016\/10\/um-nordeste-mais-arido-outro-provavel.html\">mesmo que a precipita\u00e7\u00e3o total m\u00e9dia n\u00e3o se reduza<\/a>, com a evapora\u00e7\u00e3o e evapotranspira\u00e7\u00e3o acompanhando a escalada das temperaturas. Embora ainda n\u00e3o se tenha o conhecimento cient\u00edfico necess\u00e1rio para estabelecer isso, \u00e9 poss\u00edvel que estejamos em plena altera\u00e7\u00e3o da \u201cnormal climatol\u00f3gica\u201d para a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel at\u00e9 que a perda acelerada de gelo no hemisf\u00e9rio norte, que j\u00e1 come\u00e7a a alterar as correntes do Atl\u00e2ntico, interferindo na distribui\u00e7\u00e3o de calor, tenha alguma conex\u00e3o com condi\u00e7\u00f5es recorrentes de seca, j\u00e1 que a posi\u00e7\u00e3o da Zona de Converg\u00eancia Intertropical \u2013 principal sistema das chuvas na por\u00e7\u00e3o setentrional do Nordeste \u2013 \u00e9 fortemente ditada pelos padr\u00f5es t\u00e9rmicos oce\u00e2nicos.<\/p>\n<p>O Nordeste precisa se preparar para enfrentar as mudan\u00e7as globais do clima e os desafios locais de justi\u00e7a socioambiental. Precisa cuidar de seus aspectos mais vulner\u00e1veis: preservar o bioma singular da caatinga, fundamental para manter solo e rios; zelar pelos seus estoques h\u00eddricos em todas as escalas (das cisternas aos maiores reservat\u00f3rios) e utiliz\u00e1-los de forma parcimoniosa; reavaliar o modelo de desenvolvimento, privilegiando a agricultura familiar e cadeias industriais de baixo impacto ambiental e h\u00eddrico.<\/p>\n<p>E pode tamb\u00e9m fazer valer suas virtudes e voca\u00e7\u00f5es: fortalecer a resili\u00eancia das comunidades, aprendendo n\u00e3o apenas com o conhecimento acad\u00eamico, mas tamb\u00e9m pela sabedoria dos povos tradicionais; aproveitar as fontes energ\u00e9ticas renov\u00e1veis, especialmente a solar, aliando seu potencial de gera\u00e7\u00e3o de empregos (atestada pelo\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2jPIalG\">relat\u00f3rio do Departamento de Energia dos EUA<\/a>\u00a0que mostra que a solar responde por nada menos que 43% da m\u00e3o-de-obra empregada naquele pa\u00eds em gera\u00e7\u00e3o de eletricidade) com a economia de \u00e1gua e corte nas emiss\u00f5es de CO<sub>2<\/sub>.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Alexandre Costa Carca\u00e7a de vaca no interior da Bahia durante a seca recorde. 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