{"id":60364,"date":"2017-02-21T11:00:55","date_gmt":"2017-02-21T14:00:55","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=60364"},"modified":"2017-02-21T08:41:44","modified_gmt":"2017-02-21T11:41:44","slug":"a-incomoda-historia-da-violencia-entre-os-sexos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/a-incomoda-historia-da-violencia-entre-os-sexos\/","title":{"rendered":"A inc\u00f4moda hist\u00f3ria da viol\u00eancia entre os sexos alimentando posturas ideol\u00f3gicas"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-60365\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/pato-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/pato-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/pato.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Em nossa cultura se comete com certa frequ\u00eancia o erro de identificar o natural com o desej\u00e1vel. Isso ocorre quando se fala da alimenta\u00e7\u00e3o e dos tratamentos m\u00e9dicos, mas tamb\u00e9m com algo t\u00e3o delicado como nosso comportamento sexual. Essa inclina\u00e7\u00e3o leva, em algumas ocasi\u00f5es, a se buscar na natureza exemplos que dotem de legitimidade determinadas posturas ideol\u00f3gicas. \u00c9 o caso do uso de chimpanz\u00e9s e bonobos como refer\u00eancias sobre o que deve ter sido em sua origem a sexualidade humana. Essas duas esp\u00e9cies animais s\u00e3o as que, evolutivamente, se encontram mais pr\u00f3ximas de n\u00f3s. Os primeiros vivem em sociedades controladas pelos machos e s\u00e3o muito mais violentos, tamb\u00e9m no sexo. No caso dos segundos, s\u00e3o as f\u00eameas que se associam entre si para controlar os grupos, seus n\u00edveis de viol\u00eancia s\u00e3o muito menores e o sexo \u00e9 mais uma ferramenta para refor\u00e7ar la\u00e7os.<\/p>\n<p class=\"m_7739354521388347994gmail_msg\">Em seu livro <em class=\"m_7739354521388347994gmail_msg\">Sex at Dusk<\/em>, Saxon Lynn critica a monogamia, os ci\u00fames e o machismo das sociedades atuais argumentando que, em seu estado natural, o ser humano era, como os bonobos, igualit\u00e1rio, pac\u00edfico e desfrutava do sexo sem todos os pesos incorporados pela cultura desde o Neol\u00edtico. Lynn faz uma ampla revis\u00e3o a partir do ponto de vista da biologia evolutiva para explicar porque os diferentes interesses dos genes de indiv\u00edduos de sexo distinto nas mesmas esp\u00e9cies t\u00eam levado a confrontos implac\u00e1veis que, ainda que indesej\u00e1veis para os humanos, s\u00e3o completamente naturais. \u201cTalvez n\u00e3o seja a maneira que preferir\u00edamos pensar no sexo, na reprodu\u00e7\u00e3o e nas rela\u00e7\u00f5es entre os sexos, mas a evolu\u00e7\u00e3o sucede de formas diferentes para diferentes genes, e as caracter\u00edsticas que produzem, n\u00e3o \u00e9 algo que existe para nos agradar\u201d, afirma Lynn.<\/p>\n<p class=\"m_7739354521388347994gmail_msg\">A origem dos conflitos entre sexos se encontra no surgimento do pr\u00f3prio sexo. A exist\u00eancia de c\u00e9lulas grandes e dif\u00edceis de produzir, como os \u00f3vulos, e outras muito mais abundantes e f\u00e1ceis, como os espermatozoides, gerou estrat\u00e9gias diferentes entre os sexos. Os indiv\u00edduos que geram o primeiro tipo de c\u00e9lulas costumam ter a vantagem de que se reproduzem com maior frequ\u00eancia, mas tamb\u00e9m podem ser v\u00edtimas das t\u00e1ticas agressivas dos (quase sempre) machos, que precisam superar uma competi\u00e7\u00e3o muito mais intensa para poder transmitir seus genes.<\/p>\n<p class=\"m_7739354521388347994gmail_msg\">As mostras dessa guerra de sexos est\u00e3o por todos os lados, mas existem alguns casos extremos. Uma esp\u00e9cie de pato, conhecida popularmente como marreca-p\u00e9-na-bunda, \u00e9 famosa por ter o maior p\u00eanis conhecido para uma ave. Segundo Lynn, apesar de a maior parte dos p\u00e1ssaros n\u00e3o ter p\u00eanis, entre os que t\u00eam, a longitude e sua sofistica\u00e7\u00e3o est\u00e3o relacionadas com a frequ\u00eancia de c\u00f3pulas for\u00e7adas. Os estupros em algumas esp\u00e9cies de patos podem chegar a representar um de cada tr\u00eas atos sexuais. No entanto, como ocorre com o pato-real, as f\u00eameas tamb\u00e9m desenvolveram seus mecanismos de defesa. Sua vagina tem forma de espiral, como o \u00f3rg\u00e3o masculino, mas com curvas que avan\u00e7am no sentido contr\u00e1rio. Al\u00e9m disso, conta com voltas que dificultam ainda mais a fecunda\u00e7\u00e3o. Dessa maneira, as f\u00eameas podem decidir quem fertiliza seus ovos. Assim, ainda que 30% das c\u00f3pulas sejam for\u00e7adas, apenas 3% dos ovos que colocam s\u00e3o fertilizados por abusadores.<\/p>\n<p class=\"m_7739354521388347994gmail_msg\">Isso n\u00e3o impede, no entanto, que esses estupros tenham outras consequ\u00eancias nefastas para as f\u00eameas. Entre 7% e 10% da mortalidade feminina se deve a essas tentativas dos machos de copular com as f\u00eameas, um fen\u00f4meno que tamb\u00e9m se observa nas r\u00e3s, nas moscas e no rat\u00e3o-do-banhado. Para completar a boa imagem dos machos de algumas esp\u00e9cies de patos, Lynn recorda que essas aves s\u00e3o capazes de permanecerem vigilantes para que sua parceira n\u00e3o seja abusada por outros como ele, ainda que ao mesmo tempo tentar\u00e3o copular \u00e0 for\u00e7a com outras f\u00eameas.<\/p>\n<p class=\"m_7739354521388347994gmail_msg\">Outro exemplo que mostra como a evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o costuma produzir formas de copula\u00e7\u00e3o ben\u00e9ficas para ambos os sexos \u00e9 o das aranhas <em class=\"m_7739354521388347994gmail_msg\">Harpactea sadistica<\/em>. Em vez de fertilizar os ovos quando s\u00e3o colocados, como ocorre em outras esp\u00e9cies de aranhas, os machos <em class=\"m_7739354521388347994gmail_msg\">sadistica<\/em> agarram as f\u00eameas e injetam o s\u00eamen diretamente nos ov\u00e1rios, realizando v\u00e1rias picadas, com uma estrutura que se parece com uma agulha hipod\u00e9rmica. Assim, asseguram que fecundar\u00e3o a f\u00eamea e que outro macho que chegar depois n\u00e3o poder\u00e1 faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p class=\"m_7739354521388347994gmail_msg\">N\u00e3o muito mais amorosa \u00e9 a copula\u00e7\u00e3o de algumas serpentes do g\u00eanero <em class=\"m_7739354521388347994gmail_msg\">Thamnophis<\/em>. Quando as f\u00eameas abandoam o esconderijo onde passaram o inverno s\u00e3o perseguidas por muitos machos que tentam copular com todas elas. Uma vez que as agarram, empregam seus m\u00fasculos para asfixi\u00e1-las at\u00e9 que n\u00e3o possam respirar. Nessa situa\u00e7\u00e3o de estresse, abrem sua cloaca, como em um \u00faltimo suspiro, e permitem a penetra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"m_7739354521388347994gmail_msg\">Em alguns casos, s\u00e3o os machos as v\u00edtimas das rela\u00e7\u00f5es sexuais, ainda que tamb\u00e9m por algo que parece desespero ante suas menores possibilidades de reprodu\u00e7\u00e3o. Nas aranhas <em class=\"m_7739354521388347994gmail_msg\">Latrodectus hasseltii<\/em>, uma esp\u00e9cie muito venenosa que se encontra na Austr\u00e1lia, os machos s\u00f3 t\u00eam uma probabilidade entre cinco de encontrarem uma f\u00eamea. \u00c9 poss\u00edvel que por isso, quando copula, o macho d\u00e1 a volta para se oferecer e se deixar ser comido pela f\u00eamea. Dessa forma, consegue permanecer mais tempo com ela e pode transferir mais esperma. \u00c9 poss\u00edvel, diz Lynn, que em algum momento de sua hist\u00f3ria evolutiva um dos machos ancestrais dessa esp\u00e9cie mostrasse essa caracter\u00edstica particular que lhe permitiu prolongar a c\u00f3pula e transmitir mais crias para as gera\u00e7\u00f5es posteriores.<\/p>\n<p class=\"m_7739354521388347994gmail_msg\">H\u00e1 um \u00faltimo exemplo retirado de <em class=\"m_7739354521388347994gmail_msg\">Sex at Dusk<\/em> que, sempre evitando o risco de transferir o que ocorre com os animais para os seres humanos, pode parecer dar esperan\u00e7a. As moscas da fruta incorporam um elemento qu\u00edmico no s\u00eamen que atua como antiafrodis\u00edaco. Essa t\u00e1tica de guerra qu\u00edmica tamb\u00e9m consegue aumentar a taxa de produ\u00e7\u00e3o de ovos da f\u00eamea e desativa o esperma de outros rivais. Como ocorre neste e nos casos anteriormente comentados, o que evoluiu para beneficiar um g\u00eanero n\u00e3o tem porqu\u00ea beneficiar o outro. Esses qu\u00edmicos s\u00e3o como o veneno de aranha, t\u00f3xicos para a f\u00eamea, que pode viver menos por causa deles. Mas isso pouco importa ao macho, porque o futuro reprodutivo dela ser\u00e1 com outros. Um dado curioso, e onde se pode ver esperan\u00e7a ante a forma com que uma mudan\u00e7a \u201csocial\u201d pode mudar a biologia, \u00e9 que em experimentos com moscas nos quais elas s\u00e3o feitas monog\u00e2micas, reduzindo essa competitividade agressiva, o esperma dos machos se torna menos t\u00f3xico e, inclusive, o cortejo \u00e9 menos agressivo. O resultado era ben\u00e9fico para ambos os indiv\u00edduos, que tinham mais descendentes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em nossa cultura se comete com certa frequ\u00eancia o erro de identificar o natural com<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":60365,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/pato.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/pato-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/pato-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/pato.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/pato.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/pato.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/pato.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/pato.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/pato.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/pato.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Em nossa cultura se comete com certa frequ\u00eancia o erro de identificar o natural com","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60364"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60364"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60364\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/60365"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60364"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60364"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60364"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}