{"id":60295,"date":"2017-02-20T08:51:53","date_gmt":"2017-02-20T11:51:53","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=60295"},"modified":"2017-02-20T08:51:54","modified_gmt":"2017-02-20T11:51:54","slug":"canibalismo-e-mais-comum-do-que-se-pensava-tanto-entre-homens-como-entre-animais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/canibalismo-e-mais-comum-do-que-se-pensava-tanto-entre-homens-como-entre-animais\/","title":{"rendered":"Canibalismo \u00e9 mais comum do que se pensava, tanto entre homens como entre animais"},"content":{"rendered":"<div class=\"imagem-representativa imagem-615x300\">\n<ul>\n<li>\n<div class=\"pinit-wraper\"><img loading=\"lazy\" class=\"imagem pinit-img\" title=\"Divulga\u00e7\u00e3o\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/entretenimento\/f9\/2017\/02\/02\/drew-barrymore-e-sheila-em-santa-clarita-diet-1486064168779_v2_615x300.jpg\" alt=\"Drew Barrymore \u00e9 Sheila, que se alimenta de carne humana, em Santa Clarita Diet\" width=\"639\" height=\"312\" \/><\/div>\n<p>Drew Barrymore \u00e9 Sheila, que se alimenta de carne humana, em Santa Clarita Diet<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<p>\u00c0s vezes, dizemos que &#8220;dois bicudos n\u00e3o se beijam&#8221;, e isso \u00e9 verdadeiro para muitas galinhas e outras aves. A bicada \u00e9 um comportamento normal em um bando, usada por p\u00e1ssaros dominantes (ou &#8220;d\u00e9spotas&#8221;) como maneira de fazer com que os subordinados se lembrem de sua posi\u00e7\u00e3o social mais baixa.<\/p>\n<p>No entanto, a pr\u00e1tica se torna horr\u00edvel quando milhares de aves s\u00e3o colocadas grudadas asa a asa. Ent\u00e3o, as que est\u00e3o bem abaixo na hierarquia s\u00e3o bicadas at\u00e9 a morte \u2013 e comidas. \u00c0 medida que fazendas de frangos e ovos aumentaram de tamanho nos anos 1920 e 1930, o ato de bicar as penas e o canibalismo, conhecido no neg\u00f3cio como &#8220;pick out&#8221;, se tornaram amea\u00e7as s\u00e9rias.<\/p>\n<p>Em 1939, Joseph Haas, fundador da National Band and Tag Co., desenvolveu um m\u00e9todo moderno para lidar com os canibais engaiolados: mini-\u00f3culos de sol equipados com lentes vermelhas de celuloide montadas em arma\u00e7\u00f5es de alum\u00ednio articulado. Os donos de avi\u00e1rios foram informados de que fazer com que as galinhas vissem o mundo por meio de lentes cor-de-rosa &#8220;amansaria as aves mais duronas&#8221;.<\/p>\n<p>At\u00e9 recentemente, <strong>a ideia corrente entre os cientistas era de que o canibalismo acontecia apenas em poucas esp\u00e9cies na natureza, como as aranhas vi\u00favas-negras e os louva-deuses.<\/strong> O canibalismo,\u00a0achavam os pesquisadores, era um comportamento aberrante que resultava da falta de formas alternativas de nutri\u00e7\u00e3o ou de estresse associado a condi\u00e7\u00f5es de cativeiro.<\/p>\n<p>Mas, ao longo de d\u00e9cadas, foram reunidas evid\u00eancias para uma <a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/canibalismo-e-mais-comum-do-que-se-pensava-tanto-entre-homens-como-entre-animais\/canibalismo-2\/\" rel=\"attachment wp-att-60296\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-60296\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/canibalismo-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/canibalismo-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/canibalismo.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>. <strong>O canibalismo, ao que tudo indica, acontece em centenas de esp\u00e9cies, talvez milhares.<\/strong> O comportamento varia em frequ\u00eancia entre os principais grupos de animais \u2013 n\u00e3o existe em alguns e \u00e9 comum em outros. Varia de esp\u00e9cie para esp\u00e9cie e mesmo dentro da mesma esp\u00e9cie, dependendo das condi\u00e7\u00f5es ambientais locais.<\/p>\n<div class=\"mod-foto-embed w615x300\"><span class=\"credito\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/Daily Mail<\/span><\/p>\n<div class=\"figure\">\n<div class=\"pinit-wraper\"><img loading=\"lazy\" class=\"pinit-img\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/bol\/fotos\/8b\/2015\/08\/05\/5ago2015---crocodilo-do-nilo-e-fotografado-em-momento-canibal-comendo-um-filhote-da-mesma-especie-em-um-lago-no-kruger-national-park-localizado-na-africa-do-sul-de-acordo-com-o-daily-mail-o-1438783906160_615x300.jpg\" width=\"640\" height=\"312\" \/><\/div>\n<\/div>\n<p><span class=\"legenda pg-color10\">Crocodilo do Nilo \u00e9 fotografado comento um filhote da mesma esp\u00e9cie<\/span><\/div>\n<h3>Por que existe canibalismo?<\/h3>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 importante notar que o comportamento possui v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es, dependendo do canibal, e algumas delas n\u00e3o t\u00eam nada a ver com estresse ou condi\u00e7\u00f5es de cativeiro. H\u00e1 inclusive alguns casos em que o indiv\u00edduo canibalizado recebe um benef\u00edcio.<\/p>\n<p>Antes de sua morte em um acidente de barco em 1980, Gary Polis, ecologista da Universidade da Calif\u00f3rnia, Davis, produziu uma lista de regras relacionadas ao canibalismo entre os invertebrados. <strong>Animais imaturos s\u00e3o consumidos com mais frequ\u00eancia do que os adultos<\/strong>, descobriu ele, e muitas esp\u00e9cies reconhecem indiv\u00edduos de sua pr\u00f3pria esp\u00e9cie (principalmente ovos e est\u00e1gios imaturos) apenas como comida.<\/p>\n<p>Ele notou que o canibalismo era mais comum em f\u00eameas do que em machos e que, \u00e0 medida que diminu\u00eda a disponibilidade de formas alternativas de nutri\u00e7\u00e3o, os incidentes de canibalismo aumentavam. Por fim, em uma dada popula\u00e7\u00e3o, o canibalismo em geral \u00e9 relacionado diretamente com o grau de superlota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1990, as generaliza\u00e7\u00f5es de Polis haviam sido observadas entre grupos de animais muito divergentes, n\u00e3o apenas invertebrados. Os benef\u00edcios de se consumir algu\u00e9m da pr\u00f3pria esp\u00e9cie, ao que parece, podem superar os custos.<\/p>\n<p>Esse pre\u00e7o, no entanto, pode ser substancial. Os canibais que consomem seus pr\u00f3prios parentes removem aqueles genes da popula\u00e7\u00e3o, reduzindo o que \u00e9 chamado pelos cientistas de aptid\u00e3o inclusiva. Mas a desvantagem mais significativa parece ser a maior chance de adquirir parasitas ou agentes patog\u00eanicos particularmente nocivos \u00e0 esp\u00e9cie.<\/p>\n<div class=\"mod-foto-embed w615x300\"><span class=\"credito\">Getty Images<\/span><\/p>\n<div class=\"figure\">\n<div class=\"pinit-wraper\"><img loading=\"lazy\" class=\"pinit-img\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/entretenimento\/1c\/2016\/11\/24\/ilustra-cerebro-comida-1480028262675_v2_615x300.jpg\" width=\"640\" height=\"312\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>No exemplo mais famoso, o povo de Fore, na Nova Guin\u00e9, chegou quase \u00e0 extin\u00e7\u00e3o por causa de seu consumo ritual\u00edstico de c\u00e9rebros e outros tecidos cortados dos corpos de parentes falecidos.<\/p>\n<p>Muitos morreram de kuru (doen\u00e7a de Creutzfeldt-Jakob), uma condi\u00e7\u00e3o neurodegenerativa parecida com a doen\u00e7a da vaca louca, e seu tecido continha o pat\u00f3geno, o que espalhava ainda mais a doen\u00e7a.<\/p>\n<h3>Menu das Crian\u00e7as<\/h3>\n<p>\u00c0 medida que uma nova gera\u00e7\u00e3o de pesquisadores somava descobertas ao trabalho de cientistas como Polis e Laurel Fox, bi\u00f3logo evolucion\u00e1rio da Universidade da Calif\u00f3rnia, Santa Cruz, o canibalismo na natureza come\u00e7ou a parecer quase normal.<\/p>\n<p>Agora <strong>sabemos que uma quantidade significativa de canibalismo acontece entre os moluscos, os insetos e os aracn\u00eddeos<\/strong>. Al\u00e9m disso, milhares de invertebrados aqu\u00e1ticos, como vieiras e corais, botam pequenos ovos e larvas que s\u00e3o frequentemente uma importante fonte de alimenta\u00e7\u00e3o para os adultos que se alimentam por filtragem \u2013 em si uma forma de canibalismo indiscriminado.<\/p>\n<p>Em muitas esp\u00e9cies de peixes, os adultos podem ser um milh\u00e3o de vezes maiores do que seus pr\u00f3prios ovos. Ovos de peixe, larvas e girinos existem em grande n\u00famero, s\u00e3o pequenos e t\u00eam alto valor nutricional.<\/p>\n<p>Isso faz com que sejam uma fonte n\u00e3o amea\u00e7adora e facilmente colet\u00e1vel de alimentos. \u00c9 por isso que icti\u00f3logos consideram a aus\u00eancia de canibalismo em peixes, e n\u00e3o sua presen\u00e7a, como sendo o caso excepcional.<\/p>\n<p>Embora tanto ovos fertilizados como n\u00e3o fertilizados sejam provavelmente comidos por milhares de esp\u00e9cies<strong>, a pr\u00e1tica de consumir ovos da mesma esp\u00e9cie levou a uma abordagem interessante do &#8220;menu para crian\u00e7as&#8221;.<\/strong><\/p>\n<div class=\"mod-foto-embed w615x300\"><span class=\"credito\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/neoperceptions<\/span><\/p>\n<div class=\"figure\">\n<div class=\"pinit-wraper\"><img loading=\"lazy\" class=\"pinit-img\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/bol\/fotos\/81\/2016\/06\/09\/25-nao-existem-cobras-vegetarianas-algumas-especies-se-alimentam-de-ovos-mas-a-maioria-prefere-uma-boa-carne-1465486590689_615x300.jpg\" width=\"640\" height=\"312\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Os chamados ovos tr\u00f3ficos, produzidos por alguns tipos de aranhas, besouros e carac\u00f3is, funcionam somente como comida e frequentemente superam em muito os ovos fertilizados em uma ninhada.<\/p>\n<p>Mas uma esp\u00e9cie de aranha, a <em>Amaurobius ferox<\/em>, leva o conceito de refei\u00e7\u00f5es pr\u00e9-prontas um passo adiante. Um dia depois do nascimento dos filhotes, as novas mam\u00e3es p\u00f5em uma ninhada de ovos tr\u00f3picos, que s\u00e3o doados a seus beb\u00eas famintos.<\/p>\n<p>Isso os mant\u00e9m satisfeitos pelos tr\u00eas dias seguintes, depois do que, os filhotes est\u00e3o prontos para seu pr\u00f3ximo est\u00e1gio de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s sua primeira muda, os filhotes dessa aranha ficam muito grandes para serem cuidados pelas m\u00e3es, embora ainda precisem muito de alimentos adicionais. Em um ato de sacrif\u00edcio materno, ela chama os beb\u00eas batendo na teia e oferece seu pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>Os filhotes vorazes pulam sobre ela e a comem viva.<\/p>\n<p>Entre tubar\u00f5es-cinza (<em>Carcharias taurus<\/em>), os beb\u00eas que praticam o canibalismo nem nasceram ainda.<\/p>\n<p>Os jovens tubar\u00f5es, como os tubar\u00f5es-martelo lisos (<em>Sphyrna zygaena<\/em>) e os tubar\u00f5es azuis (<em>Prionace glauca<\/em>), desenvolvem-se dentro dos ovidutos das f\u00eameas, uma estrat\u00e9gia conhecida por viviparidade histotr\u00f3fica.<\/p>\n<p>Os <strong>cientistas que primeiro estudaram os embri\u00f5es de tubar\u00f5es-cinza em 1948 perceberam que eram bem desenvolvidos anatomicamente, com a boca cheia de dentes afiados<\/strong> \u2013 um ponto (ou v\u00e1rios) enfatizado quando um pesquisador foi mordido na m\u00e3o enquanto examinava o oviduto de um esp\u00e9cime gr\u00e1vido.<\/p>\n<p>Estranhamente, esses embri\u00f5es tardios tamb\u00e9m tinham as barrigas inchadas, o que a princ\u00edpio se pensou ser ves\u00edculas vitelinas, uma maneira de armazenar alimento. Isso deixou os pesquisadores intrigados, j\u00e1 que a maior parte dessa subst\u00e2ncia rica em nutrientes deveria ter sido consumida nessa fase tardia do desenvolvimento.<\/p>\n<p>Uma investiga\u00e7\u00e3o mais profunda mostrou que as sali\u00eancias abdominais n\u00e3o eram sacos vitelinos \u2013 eram est\u00f4magos cheios de pequenos fetos de tubar\u00e3o. Esses embri\u00f5es haviam sido v\u00edtimas da rivalidade entre irm\u00e3os, uma forma de canibalismo intrauterina conhecida como adelfofagia (do grego antigo para &#8220;alimentar-se do irm\u00e3o&#8221;) \u2013 ou canibalismo entre irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Esse comportamento \u00e9 poss\u00edvel porque o oviduto do tubar\u00e3o-cinza cont\u00e9m embri\u00f5es em diferentes est\u00e1gios de desenvolvimento (uma caracter\u00edstica que tamb\u00e9m evoluiu nas aves). Assim que o embri\u00e3o maior acaba com seu suprimento de alimento, come\u00e7a a consumir os ovos.<\/p>\n<p>E, quando os ovos acabam, o voraz feto de tubar\u00e3o passa a consumir os irm\u00e3os mais novos. No final, apenas dois filhotes se salvam, um em cada oviduto.<\/p>\n<p>O mesmo acontece com a &#8220;estrat\u00e9gia do bote salva-vidas&#8221; vista em aves como abutres e gar\u00e7as. Nesse caso, o canibalismo \u00e9 frequentemente o resultado de uma eclos\u00e3o ass\u00edncrona: dois ovos s\u00e3o postos, mas um nasce v\u00e1rios dias antes do outro. O que nasceu primeiro usa seu tamanho extra para ganhar a luta pelo alimento de seu irm\u00e3o ou irm\u00e3 mais novo.<\/p>\n<p><strong>Quando os pais n\u00e3o conseguem fornecer alimentos suficientes, o mais velho pode matar e consumir o irm\u00e3o mais novo.<\/strong> Nos per\u00edodos de estresse, essa \u00e9 uma maneira eficiente de produzir filhotes bem nutridos \u2013 embora em menor n\u00famero.<\/p>\n<p>Exemplos de canibalismo entre os animais s\u00e3o t\u00e3o numerosos quanto interessantes, das larvas de sapo-castanho que comem seus pr\u00f3prios companheiros de ninhada a anf\u00edbios sem pernas, chamados apodas, cujos filhotes descascam e consomem a pele de suas m\u00e3es. E acontecem entre os mam\u00edferos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Ursos polares consomem outros ursos polares e faziam isso muito antes das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas impactarem suas pr\u00e1ticas de ca\u00e7a. E o le\u00e3o, depois de se tornar o rei da matilha, come os filhotes nascidos de outros machos. S\u00e3o dois exemplos de heterocanibalismo \u2013 alimentar-se de n\u00e3o parentes.<\/p>\n<p>Nos le\u00f5es, <strong>os machos que chegam querem acabar com o investimento das m\u00e3es em filhotes que n\u00e3o s\u00e3o seus<\/strong>. Mais importante ainda, a leoa com filhotes n\u00e3o vai entrar no cio por um ano e meio depois de dar a luz.<\/p>\n<p>Mas, como foi visto em outros mam\u00edferos, como ursos, a leoa que perde os filhotes se torna sexualmente receptiva quase que de imediato.<\/p>\n<h3>N\u00e3o \u00e9 apenas para os animais<\/h3>\n<p>Existem casos em que, como no mundo animal, o canibalismo entre humanos faz sentido? E, se a resposta for sim, esse comportamento pode ressurgir no futuro? O canibalismo pode ser horr\u00edvel e repugnante para nossas sensibilidades atuais, mas tem sido amplamente praticado por v\u00e1rias raz\u00f5es.<\/p>\n<p>O canibalismo funer\u00e1rio foi praticado por grupos como os Fore da Nova Guin\u00e9 e os Wari&#8217; do Brasil. Esses povos ind\u00edgenas ficavam t\u00e3o mortificados com a ideia de enterrar seus mortos quanto os mission\u00e1rios e antrop\u00f3logos rec\u00e9m-chegados com o fato de que eles consumiam os entes queridos.<\/p>\n<p><strong>De reis a plebeus, os europeus tamb\u00e9m comiam rotineiramente sangue, ossos, pele, tripas e partes do corpo humano. E faziam isso sem culpa, como uma forma de canibalismo medicinal. Praticaram por centenas de anos e ent\u00e3o nos fizeram acreditar que nunca aconteceu.<\/strong><\/p>\n<p>Ao longo de sua hist\u00f3ria, as partes do corpo eram ingredientes t\u00e3o importantes no canibalismo culin\u00e1rio chin\u00eas que o historiador e autor Key Ray Chong dedicou um cap\u00edtulo de 13 p\u00e1ginas de seu livro &#8220;<em>Cannibalism in China<\/em>&#8221; aos &#8220;M\u00e9todos de Cozinhar a Carne Humana&#8221;.<\/p>\n<div class=\"mod-foto-embed w615x300\"><span class=\"credito\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/Daily Mail<\/span><\/p>\n<div class=\"figure\">\n<div class=\"pinit-wraper\"><img loading=\"lazy\" class=\"pinit-img\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/bol\/fotos\/d0\/2015\/07\/24\/24jul2015---como-e-feito-um-banquete-da-familia-real-britanica-por-meio-de-uma-exposicao-o-palacio-de-buckingham-abriu-suas-portas-convidando-o-publico-a-entrar-no-local-e-ter-uma-ideia-da-1437762907016_615x300.jpg\" width=\"640\" height=\"312\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Ao inv\u00e9s de uma ra\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia consumida como \u00faltimo recurso, h\u00e1 v\u00e1rios relatos de que pratos ex\u00f3ticos com base humana eram preparados para a realeza e para cidad\u00e3os das altas classes chinesas.<\/p>\n<p><strong>Canibalismo humano tamb\u00e9m tem sido um instrumento de terror. <\/strong>A pr\u00e1tica foi usada para incutir o horror e o medo intenso em dissidentes durante a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural da China, e soldados japoneses canibalizaram prisioneiros durante a Segunda Guerra Mundial (um destino do qual o presidente George H. W. Bush escapou por pouco depois que seu avi\u00e3o foi abatido).<\/p>\n<p>Apesar de a piedade filial ser encarada como uma virtude confucionista altamente conceituada, tamb\u00e9m \u00e9 a base para um ato extremo de autossacrif\u00edcio relacionado ao canibalismo. Segundo Chong, da China antiga at\u00e9 o s\u00e9culo XIX, as pessoas forneciam partes de seus pr\u00f3prios corpos (coxas e bra\u00e7os eram os mais usados) para o consumo e benef\u00edcio m\u00e9dico de seus parentes mais velhos.<\/p>\n<div class=\"mod-foto-embed w615x300\"><span class=\"credito\">Hiroshima Peace Memorial Museum\/Reuters<\/span><\/p>\n<div class=\"figure\">\n<div class=\"pinit-wraper\"><img loading=\"lazy\" class=\"pinit-img\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/68\/2016\/05\/25\/25mai2016---a-abobada-da-bomba-atomica-de-hiroshima-ou-genbaku-domu-o-mais-famoso-monumento-memorial-cidade-bombardeada-em-6-de-agosto-de-1945-foi-declarado-patrimonio-da-humanidade-pela-unesco-em-1464180581083_615x300.jpg\" width=\"638\" height=\"311\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>E h\u00e1 as narrativas mais familiares de canibalismo humano nascido da fome. <\/strong>Por toda a hist\u00f3ria e em muitas culturas, quando as pessoas precisam encarar condi\u00e7\u00f5es extremamente estressantes como cercos (por exemplo, Stalingrado durante a Segunda Guerra Mundial), fomes (China) ou a impossibilidade de sair de onde est\u00e3o (como aconteceu com os pioneiros da Expedi\u00e7\u00e3o Donner durante uma nevasca), muitos eventualmente consumiram os mortos \u2013 e mesmo seus parentes.<\/p>\n<p>Em um procedimento que ficou conhecido pelos marinheiros como &#8220;o costume do mar&#8221;, aqueles que estavam \u00e0 deriva sorteavam fios de palha. O marinheiro que tirasse o mais curto desistia da vida para que os outros pudessem comer.<\/p>\n<p>No que talvez seja o caso mais famoso, em 1765 uma tempestade desmantelou o saveiro americano Peggy, deixando-o \u00e0 deriva no meio do Oceano Atl\u00e2ntico com seu capit\u00e3o, nove tripulantes e um \u00fanico escravo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s consumir o gato do navio, os bot\u00f5es de seus uniformes e uma bomba de \u00e1gua de couro, e depois de o capit\u00e3o se refugiar em sua cabine com uma pistola, a tripula\u00e7\u00e3o decidiu fazer um sorteio. O perdedor seria servido no jantar. Por uma coincid\u00eancia incr\u00edvel, o escravo tirou a palha mais curta.<\/p>\n<p>Apesar de o homem implorar por sua vida, o capit\u00e3o foi incapaz de evitar seu assassinato, escrevendo depois que, quando a tripula\u00e7\u00e3o estava pronta para cozinhar o corpo, um marinheiro se adiantou, arrancou o f\u00edgado do escravo e o comeu cru. Essa \u00e9 a origem horr\u00edvel do termo &#8220;estrat\u00e9gia do bote salva-vidas&#8221;, usado mais de dois s\u00e9culos depois por ornit\u00f3logos para descrever o destino de filhotes desafortunados.<\/p>\n<p>Como os cientistas acabaram descobrindo, fatores como superpopula\u00e7\u00e3o e falta de formas alternativas de nutri\u00e7\u00e3o s\u00e3o respons\u00e1veis pelo canibalismo entre os animais, e est\u00e1 claro que mesmo humanos modernos t\u00eam sido levados a esse comportamento em v\u00e1rias ocasi\u00f5es. O que ser\u00e1, ent\u00e3o, do futuro?<\/p>\n<p>As popula\u00e7\u00f5es est\u00e3o crescendo. Os recursos est\u00e3o diminuindo. Os desertos continuam aumentando. E as regras da sociedade que nos mant\u00e9m unidos v\u00eam se provando mais fr\u00e1geis do que imaginamos. Talvez fosse s\u00e1bio lembrar que o canibalismo humano, impens\u00e1vel hoje, n\u00e3o era t\u00e3o incomum pouco tempo atr\u00e1s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Drew Barrymore \u00e9 Sheila, que se alimenta de carne humana, em Santa Clarita Diet \u00c0s<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":60296,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/canibalismo.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/canibalismo-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/canibalismo-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/canibalismo.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/canibalismo.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/canibalismo.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/canibalismo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/canibalismo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/canibalismo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/canibalismo.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Drew Barrymore \u00e9 Sheila, que se alimenta de carne humana, em Santa Clarita Diet \u00c0s","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60295"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60295"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60295\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/60296"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60295"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60295"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60295"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}