{"id":59789,"date":"2017-02-12T17:39:14","date_gmt":"2017-02-12T20:39:14","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=59789"},"modified":"2017-02-12T17:39:14","modified_gmt":"2017-02-12T20:39:14","slug":"as-maos-do-homem-sobre-o-paraiso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/as-maos-do-homem-sobre-o-paraiso\/","title":{"rendered":"As m\u00e3os do homem sobre o para\u00edso"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div id=\"attachment_51565\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 649px;\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-51565\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/geoglifos-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/geoglifos-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/geoglifos-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/geoglifos-600x400.jpg 600w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/geoglifos-278x185.jpg 278w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/geoglifos.jpg 1152w\" alt=\"Geoglifos no Acre. Foto: Edison Caetano.\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Geoglifos no Acre. Foto: Edison Caetano.<\/p>\n<\/div>\n<p>Ao lado de impressionantes geoglifos, \u00edndios que viveram h\u00e1 centenas ou milhares de anos onde hoje \u00e9 o estado do Acre deixaram in\u00fameras outras marcas, bem mais sutis. Elas precisaram de olhos e instrumentos de cientistas para serem notadas. Esses registros est\u00e3o ajudando arque\u00f3logos e outros pesquisadores a explicar mudan\u00e7as ocorridas na floresta amaz\u00f4nica de 6 mil anos atr\u00e1s at\u00e9 a chegada dos primeiros europeus.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise de vest\u00edgios fossilizados de plantas, restos de carv\u00e3o e levantamentos flor\u00edsticos em \u00e1reas vizinhas aos <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Geoglifo\">geoglifos<\/a> demonstrou que, al\u00e9m de construir esses misteriosos monumentos (talvez usados em rituais religiosos), os antigos \u00edndios enriqueceram a floresta com esp\u00e9cies \u00fateis. E provocaram bem menos impactos sobre a natureza do que acreditam outros estudiosos. A pesquisa foi publicada nesta segunda-feira na revista <a href=\"http:\/\/www.pnas.org\/content\/early\/2017\/01\/31\/1614359114?tab=author-info\">Proceedings of \u00a0the National Academy of Sciences (PNAS)<\/a>.<\/p>\n<p>Conforme explica a autora principal do artigo, a arque\u00f3loga inglesa Jennifer Watling, pesquisadora da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), antes do colapso provocado pela chegada dos europeus, os \u00edndios abriam clareiras para viver ou plantar, que depois de abandonadas se regeneravam. \u00c0s vezes, podia incrementar um pouco mais a floresta. \u201cEles favoreceram v\u00e1rias plantas econ\u00f4micas, \u00fateis no passado e mesmo hoje em dia\u201d, conta a arque\u00f3loga. \u201cA gente viu que eles favoreceram o crescimento de palmeiras e outras esp\u00e9cies, como a castanha-do-par\u00e1, ao longo de 3 mil anos\u201d, completa.<\/p>\n<p>Vest\u00edgios de carv\u00e3o sugerem que mudan\u00e7as na floresta come\u00e7aram a ser feitas com mais intensidade pelo homem h\u00e1 cerca de 4 mil anos, quando o uso do fogo se tornou mais comum. Antes disso, num per\u00edodo que retrocede 6 mil anos, as altera\u00e7\u00f5es humanas ainda eram muito pequenas. H\u00e1 sinais de popula\u00e7\u00f5es associadas aos geoglifos e essas mudan\u00e7as na floresta at\u00e9 pelo menos a \u00e9poca da chegada dos europeus ao continente americano.<\/p>\n<p><strong>Floresta alterada<\/strong><\/p>\n<p>Estudos em outras regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia tamb\u00e9m tentam descobrir se a floresta encontrada pelos descobridores era diferente da planejada pela natureza. \u201cDe fato eles (os \u00edndios) cultivavam, manejavam. Mas a grande discuss\u00e3o \u00e9 saber se os efeitos disso s\u00e3o vistos at\u00e9 hoje\u201d, afirma a bi\u00f3loga Carolina Levis, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (Inpa), que estuda altera\u00e7\u00f5es deixadas por \u00edndios na composi\u00e7\u00e3o da floresta em uma \u00e1rea pr\u00f3xima a Manaus.<\/p>\n<div id=\"attachment_51566\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-51566\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/geoglifos-2.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/geoglifos-2.jpg 400w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/geoglifos-2-300x201.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/geoglifos-2-278x185.jpg 278w\" alt=\"Foto: Edison Caetano.\" width=\"400\" height=\"268\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Foto: Edison Caetano.<\/p>\n<\/div>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies usadas na alimenta\u00e7\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o de casas, rem\u00e9dios ou veneno, podem indicar mudan\u00e7as na natureza provocadas pelas antigas popula\u00e7\u00f5es amaz\u00f4nicas, afirma a bi\u00f3loga. A castanheira \u00e9 um exemplo citado por ela. A \u00e1rvore \u00e9 encontrada em quase toda a Amaz\u00f4nia, associada \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o humana. Estudos gen\u00e9ticos indicam que a dispers\u00e3o da esp\u00e9cie foi r\u00e1pida, sinal de que pode ter sido espalhada pelo homem. Al\u00e9m disso, eles precisam de clareiras para crescer.<\/p>\n<p>Mas pesquisadores ainda buscam provas mais robustas de que a ocorr\u00eancia de esp\u00e9cies importantes \u00e9 mais do que um capricho da natureza e se deve, pelo menos em parte, \u00e0 a\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria do homem. O artigo publicado esta semana refor\u00e7a a tese de que antigos \u00edndios deixaram uma rica heran\u00e7a plantada na floresta. No Acre, embora as palmeiras dos povos pr\u00e9-colombianos tenham desaparecido com o tempo, outras esp\u00e9cies de \u00e1rvores, mais resistentes, ainda podem ser encontradas na mata.<\/p>\n<p>\u201cExistem evid\u00eancias (de altera\u00e7\u00f5es provocadas pelos \u00edndios) em um peda\u00e7o de floresta que at\u00e9 agora n\u00e3o foi tocada por pr\u00e1ticas modernas, que fica ao lado de um geoglifo\u201d, destaca Jennifer Watling. \u201cA gente fez um invent\u00e1rio bot\u00e2nico e vimos que l\u00e1 tem v\u00e1rias esp\u00e9cies \u00fateis. Essa evid\u00eancia \u00e9 grande para sugerir que as palmeiras talvez declinaram, mas a floresta que ficou l\u00e1 at\u00e9 hoje em dia tem tra\u00e7os de manejo pr\u00e9vio\u201d, completa.<\/p>\n<p>O artigo publicado esta semana traz tamb\u00e9m uma contribui\u00e7\u00e3o a outra controv\u00e9rsia que envolve o impacto da agricultura dos antigos \u00edndios sobre a floresta. H\u00e1 quem diga em vez de serem plantadores eles eram destruidores. Segundo essa hip\u00f3tese, o colapso dos povos pr\u00e9-colombianos permitiu uma grande e extensa regenera\u00e7\u00e3o da floresta. O carbono sequestrado pelo crescimento das \u00e1rvores teria sido suficiente para provocar uma pequena era glacial no planeta nos s\u00e9culos seguintes.<\/p>\n<p>Os estudos de Jennifer Watling indicam que n\u00e3o. Mesmo que em outras \u00e1reas da Amaz\u00f4nia o desmatamento tenha sido intenso, o sistema adotado na floresta acreana oferecia menos impacto. \u201cOs \u00edndios n\u00e3o mantinham o espa\u00e7o aberto por muito tempo, eram espa\u00e7os tempor\u00e1rios que eles abriam para viver ou para a agricultura, ou para o extrativismo\u201d, conta. \u201cEles formaram uma esp\u00e9cie de mosaico, entre \u00e1reas manejadas e \u00e1reas que eles n\u00e3o mexiam\u201d, completa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geoglifos no Acre. Foto: Edison Caetano. 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