{"id":59361,"date":"2017-02-06T15:25:29","date_gmt":"2017-02-06T18:25:29","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=59361"},"modified":"2017-02-06T15:26:30","modified_gmt":"2017-02-06T18:26:30","slug":"a-ecologia-educacional-do-intelectual-e-antropologo-darcy-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/a-ecologia-educacional-do-intelectual-e-antropologo-darcy-ribeiro\/","title":{"rendered":"A ecologia educacional do intelectual e antrop\u00f3logo Darcy Ribeiro"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/a-ecologia-educacional-do-intelectual-e-antropologo-darcy-ribeiro\/darcy\/\" rel=\"attachment wp-att-59362\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-59362\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/darcy-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/darcy-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/darcy.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>\u201cSou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que me comovem. Elas s\u00e3o muitas, demais: a salva\u00e7\u00e3o dos \u00edndios, a escolariza\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, a reforma agr\u00e1ria, o socialismo em liberdade, a universidade necess\u00e1ria. Na verdade, somei mais fracassos que vit\u00f3rias em minhas lutas, mas isso n\u00e3o importa. Horr\u00edvel seria ter ficado ao lado dos que venceram nessas batalhas.\u201d<\/p>\n<p>Foi assim que o pr\u00f3prio <strong>Darcy Ribeiro<\/strong>, antrop\u00f3logo mineiro, nascido no Cerrado exuberante da Montes Claros de 1922, se autodefiniu. Na vida carnal, foi muitos. De escritor a pol\u00edtico, de marido a senador, n\u00e3o teve filhos. Talvez por isso, e pensando naqueles que nascem a cada minuto neste Brasil verde e amarelo, mudou a cara da <strong>educa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds<\/strong>, desenvolvendo projetos pedag\u00f3gicos, sociais e estimulando a cria\u00e7\u00e3o de melhores escolas e institui\u00e7\u00f5es de ensino.<\/p>\n<p>Inquieto como todo intelectual que busca transformar o mundo em um lugar melhor, fez da causa ecol\u00f3gica uma miss\u00e3o. Morou anos na Amaz\u00f4nia, <strong>defendeu os \u00edndios<\/strong>, foi exilado. De volta ao Brasil, foi adotado pela cidade do Rio de Janeiro, onde se elegeu vice-governador e senador. Falecido em 1997, em decorr\u00eancia de um c\u00e2ncer, foi imortalizado. Para os \u00edndios, ficou na mem\u00f3ria. Dos livros, textos e palavras, deixou a li\u00e7\u00e3o de que o Brasil tem voca\u00e7\u00e3o para terra aben\u00e7oada. \u00c9 o que a\u00a0<strong>Revista Ecol\u00f3gico<\/strong>, a fim de rememorar sua obra e seus pensamentos, 20 anos ap\u00f3s sua partida, apresenta a seguir:<\/p>\n<p><strong>Brasil<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO Brasil \u00e9 a melhor prov\u00edncia e o melhor povo do mundo para se fazer um pa\u00eds. Mas \u00e9 muito dif\u00edcil. \u00c9 muito f\u00e1cil fazer uma Austr\u00e1lia. Basta ca\u00e7ar uns ingleses e holandeses, jogar no mato e mandar matar os \u00edndios e pedir que repitam a paisagem inglesa. No caso do Brasil, n\u00e3o. \u00c9 a partir de seis milh\u00f5es de \u00edndios desfeitos, 12 milh\u00f5es de negros desafricanizados e de uns poucos milhares de portugueses que se refaz um povo, um g\u00eanero novo de gente que nunca existiu. (&#8230;) E ainda n\u00e3o encontrou o seu destino.\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de s\u00ea-lo. Um povo mesti\u00e7o na carne e no esp\u00edrito, j\u00e1 que aqui a mesti\u00e7agem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por s\u00e9culos sem consci\u00eancia de si&#8230; Assim foi at\u00e9 se definir como uma nova identidade \u00e9tnico-nacional, a de brasileiros.\u201d<\/p>\n<p>\u201cO Brasil sempre foi, ainda \u00e9, um moinho de gastar gentes. Constru\u00edmo-nos queimando milh\u00f5es de \u00edndios. Depois, queimamos milh\u00f5es de negros. Atualmente, estamos queimando, desgastando milh\u00f5es de mesti\u00e7os brasileiros, na produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o do que eles consomem, mas do que d\u00e1 lucro \u00e0s<br \/>\nclasses empresariais.\u201d<\/p>\n<p><strong>Deus<\/strong><\/p>\n<p>\u201cDeus \u00e9 minucioso. A obra dele \u00e9 acabada, perfeita. As criaturas mais reles desse mundo, como os cupins, s\u00e3o maravilhas da perfei\u00e7\u00e3o. Cada partezinha articulada com as outras, todas compondo um bicho completo, perfeito, capaz at\u00e9 de se refazer, multiplicado. Se em tudo Deus foi assim t\u00e3o detalhado, que dir\u00e1 na criatura preferida, racional, criada assim perfeita para louvar o Criador? Somos a perfei\u00e7\u00e3o das perfei\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>\u201cAssim Deus nos fez para sofrer e durar, pecar e purgar. Mat\u00e9ria mais dura que o mais duro ferro \u00e9 o nosso ser. Minha carne apodrec\u00edvel, quando se liquefaz e escorre, deixando uma cinza de ossos para durar e depois se acabar, n\u00e3o est\u00e1 finando n\u00e3o. Est\u00e1 \u00e9 parindo minha alma, livre, afinal, para durar eternamente.\u201d<\/p>\n<p><strong>Alma<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEspero em Deus \u00e9 que a alma dure sem doer dores da carne, nem ang\u00fastias do esp\u00edrito. Chega j\u00e1 de achaques de peito podre e pesadelos de esp\u00edrito desvairado.\u201d<\/p>\n<p>\u201cO que importa n\u00e3o \u00e9 o corpo corrupto, corrupt\u00edvel, \u00e9 a alma. Esbugalhado ou n\u00e3o, vou apodrecer para liberar meu outro eu, espiritual, minha alma eterna. Nela serei outro. N\u00e3o como os outros eus que fui. Ela \u00e9 o outro que me habita. Sou sua morada, onde ela cresceu, envelheceu, amadureceu, como um parasita. A alma \u00e9 um bicho-de-p\u00e9 que habita nosso corpo? N\u00e3o, \u00e9 ela que, eterna, me d\u00e1 continuidade.\u201d<\/p>\n<p>\u201cNela permaneci sempre eu, n\u00e3o igual, porque vim acumulando as experi\u00eancias dos eus que fui: aprimorando, me aperfei\u00e7oando. A alma \u00e9 a\u00e7o fino, inoxid\u00e1vel. Incorrupt\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p>\u201cAlma \u00e9 a roupa que a gente veste, que nos protege e com a gente padece. Quando resta, no fim, \u00e9 a gente mesmo, resumida.\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.revistaecologico.com.br\/esite\/kcfinder\/upload\/images\/noticias\/frase-darcy-ribeiro.jpg\" alt=\"Frases de Darcy Ribeiro\" width=\"639\" height=\"373\" \/><\/p>\n<p><strong>Indigna\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 h\u00e1 duas op\u00e7\u00f5es nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu n\u00e3o vou me resignar nunca.\u201d<\/p>\n<p><strong>Mulo<\/strong><\/p>\n<p>\u201cMulo at\u00e9 que n\u00e3o \u00e9 nome ruim demais, ou n\u00e3o seria, se n\u00e3o fosse por essa qualidade de bicho est\u00e9ril que tamb\u00e9m \u00e9 minha. O mulo animal, cria de \u00e9gua com jumento, ou de jegue com cavala, \u00e9 bicho enxuto de carnes, de pouco luxo no comer, duro no trabalho, bom.\u201d<\/p>\n<p><strong>Sil\u00cancio<\/strong><\/p>\n<p>\u201cMeu mundo \u00e9 sil\u00eancio. Quando desligo o r\u00e1dio e volto ao natural, o que fica \u00e9 o sil\u00eancio. T\u00e3o silencioso que ou\u00e7o o pio de uma saracura a meia-l\u00e9gua, piando. Meu ouvido fino nesse sil\u00eancio ouve o vento zunindo na copa das jaqueiras ou das mangueiras, conforme vente do nascente ou do poente. Se, por um instante, tudo cala, o sil\u00eancio grita. A\u00ed durmo.\u201d<\/p>\n<p><strong>Chuvas<\/strong><\/p>\n<p>\u201cNessas alturas planas, suspensas, de ares leves, apenas sobrevivo. \u00c0s vezes, a chuva exagera e chove dias sem parar. \u00c0s vezes, s\u00e3o as ventanias que ventam sem sossego. \u00c0s vezes, caem raios, dia e noite, como se o mundo fosse acabar. Os aguaceiros, as ventanias e as tempestades me atormentam demais. Eu me sinto um inseto, sem ar, no meio de um mundo aguado, ventoso, desatinado. S\u00f3 n\u00e3o me entrego ao desespero porque n\u00e3o \u00e9 de homem desandar.\u201d<\/p>\n<p><strong>Viajar<\/strong><\/p>\n<p>\u201cViajar montado, com tropa pr\u00f3pria, \u00e9 ver tudo l\u00e1 de cima. \u00c9 reger os homens, os bichos, as coisas. \u00c9 ter o mundo submisso. Meu mundo viajei, tropeiro comandei, montado firma na besta e mais firma na vida. \u00d4 estradas tantas deste mundo que j\u00e1 n\u00e3o verei. Caminhos de terra, na seca s\u00e3o regos de p\u00f3, poeirentos. Nas \u00e1guas, lodosos passos de barro mole, atoleiros. Rios de gente caminhante, cortando retos as planuras do Cerrado ou subindo tortos, \u00edngremes morrarias de pedrais.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEstradas do meu mundo, terrosas, batidas de tanto andar por elas. Viajar \u00e9 trotar pelos poeirais, nas secas; pelos loda\u00e7ais, nas \u00e1guas. Viajar estradeiro, no meio dos homens, que encabe\u00e7am cada lote de tropa, \u00e9 viver vivendo vendo viver, convivendo. N\u00e3o se pode \u00e9 parar. Parei. A estrada que tenho agora, diante de mim, \u00e9 s\u00f3 do retorno, por palavras, aos idos meus que n\u00e3o est\u00e3o mais nesse mundo. Est\u00e3o s\u00f3 no meu peito.\u201d<\/p>\n<p><strong>Autorretrato<\/strong><\/p>\n<p>\u201cObras, escritos, cargos, fiz, tentei e exerci muitos. Nisto gastei minha vida. Uns poucos deles ficaram com a minha marca nos mundos que passei, enquanto passava: um samb\u00f3dromo, um parque ind\u00edgena, museus, muitas bibliotecas, demasiados ensaios, quatro romances, muit\u00edssimas escolas, algumas universidades. N\u00e3o \u00e9 pouco, quisera mais. Muito mais. Sou um homem de fazimentos.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o sou ruim nem bom. N\u00e3o nego que exista gente melhor que eu. Conheci alguns. Digo \u00e9 que esse mundo de Deus n\u00e3o \u00e9 dos bons, nem pode ser. Um mundo cheio de compaix\u00e3o pelos fracos seria um mundo fraco. Um mundo com muita aten\u00e7\u00e3o com os tristes e desenganados seria um mundo triste, no m\u00e1ximo resignado.\u201d<\/p>\n<p>\u201cPor minha m\u00e3o o mundo melhorou. Por onde passei ficou o sinal do trabalho de um homem. A\u00ed \u00e9 que est\u00e1 onde e no que tenho de ser julgado.\u201d<\/p>\n<p><strong>Igreja<\/strong><\/p>\n<p>\u201cQual \u00e9 a minha igreja? Acho que \u00e9 o fazimento do mundo. \u00c9 continuar brigando pro mundo funcionar. \u00c9 cair feito doido em cima dos outros, para ajudarem o mundo a se erguer.\u201d<\/p>\n<p><strong>Mundo<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO mundo \u00e9 como \u00e9: lugar de briga. Assim \u00e9, e a gente que cai nele nua e desamparada que nem eu, ent\u00e3o, o que tem de fazer n\u00e3o s\u00e3o bondades. \u00c9 o que for preciso pra sair da lama. Os donos da vida que nem eu, agora, podiam, talvez, mudar as regras do mundo pra fazer dele um para\u00edso geral.\u201d<\/p>\n<p><strong>\u00c1gua<\/strong><\/p>\n<p>\u201cMuita \u00e1gua minha foi dar no Velho Chico, buscando mais \u00e1gua em que se dissolver, purificar. Outras sujas \u00e1guas daquelas minhas, descendo o Tocantins, foram ferver na boca do Amazonas, l\u00e1 por Bel\u00e9m do Par\u00e1. S\u00f3 l\u00e1, no maior agual do mundo, repousaram.\u201d<\/p>\n<p><strong>Homem<\/strong><\/p>\n<p>\u201cCoitado do homem que tem pena de si mesmo. Eu n\u00e3o. Tenho \u00e9 ressentimento. Amargura. Infelicidade n\u00e3o \u00e9 comigo.\u201d<\/p>\n<p><strong>Mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>\u201cMeu viver \u00e9 essa especula. Rememorar. Reviver, de cora\u00e7\u00e3o pesado em palpita\u00e7\u00f5es, ou leve, vibrante, idos da vida vivida.\u201d<\/p>\n<p>\u201cComi a vida. Agora, rumino meus recordos de curraleiro, carreiro, soldado, muleiro, tropeiro fazendeiro. Tudo isso fui. Hoje, pastoreio essa fazenda da mem\u00f3ria.\u201d<\/p>\n<p><strong>Envelhecer<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEnvelhecer \u00e9 isso. \u00c9 ir restringindo o mundo da gente, reduzindo a conviv\u00eancia. \u00c9 ir-se resumindo at\u00e9 caber, inteiro, dentro da gente mesmo. Quando o recolhimento se completa, s\u00f3 resta morrer, e, enquanto n\u00e3o morrer, viver como eu vivo, pra dentro enrustido. Ruminando idos vividos.\u201d<\/p>\n<p><strong>Morte<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA morte bem que podia ser o fim do mundo. Fim total, de n\u00e3o ficar nada. Nem mem\u00f3ria do que foi. Nem necessidade de recome\u00e7ar. A vida, minha vida, o mundo inteiro teria sido um acaso, um equ\u00edvoco: sucedeu e acabou. Ningu\u00e9m soube. Ningu\u00e9m viu. N\u00e3o gosto disso n\u00e3o. Preciso saber de um Deus que tenha mem\u00f3ria de mim, que saiba ajuizar meus feitos, que cobre minhas contas.\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o pedi para nascer, mas n\u00e3o quero ter sido carrapato \u00e0 toa, que viveu e morreu ignorado, desprez\u00edvel. N\u00e3o pode ser. Somos a flor da cria\u00e7\u00e3o divina. O esp\u00edrito h\u00e1 de florir na Gl\u00f3ria.\u201d<\/p>\n<p><strong>Trabalhadores do campo<\/strong><\/p>\n<p>\u201cDo mundo l\u00e1 de fora, n\u00e3o sei nada. Suponho que seja igual. Mas desse mund\u00e3o brasileiro, goiano, mineiro, baiano, sei de sobra. Nele sou mestre. Aqui temos gastado gente sem conta, nos s\u00e9culos da cristandade. Aqui, civilizamos os \u00edndios ou acabamos com eles, pondo fim naquela exist\u00eancia in\u00fatil que levavam, \u00e0 toa, \u00e0 toa. Tamb\u00e9m negros sem conta, ca\u00e7ados na \u00c1frica e trazidos para c\u00e1, n\u00f3s metemos no trabalho e gastamos na produ\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>\u201cNosso servi\u00e7o est\u00e1 a\u00ed para quem quiser ver? L\u00e9guas de matas derrubadas a poder de fogo ou de punho de homem, convertidas em fazendas de lavoura e criat\u00f3rio. A\u00ed est\u00e1, nossa obra debaixo da luz do sol, para a gl\u00f3ria de Deus. O diabo \u00e9 que mesmo gastando tanta gente, o povo cresce sem parar, se multiplica que \u00e9 um horror nas fazendas, nas cidades. Para qu\u00ea?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Queimadas<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u201c<em>V\u00e3o do Paran\u00e1. A mata florestal maior desse mundo. Sa\u00edda virgem da m\u00e3o de Deus. Tanto verde. Um mundo imenso de l\u00e9guas de mata; da mata mais alta e espessa. Eu fiz aquela mata tremer, urrar, ardendo inteira debaixo do meu fogo, aceso na maior fogueira que jamais se viu.<\/em>\u201d<\/p>\n<p>\u201c<em>Aquele mundo verde, entroncado, poderoso, aberto em palmas, esgalhado, l\u00e1 no alto, debaixo do meu fogo escureceu. Acinzentou. De repente, o que vimos foi o ar grosso, recheado de fuma\u00e7a, estremecer animado como se ganhasse vida. Era o turbilh\u00e3o de abelhas, marimbondos, cigarras, besouros que rodopiavam enlouquecidos.\u201d <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u201cMe lembro, corno hoje, o ch\u00e3o do outro lado tremer e remexer fervendo de cobras rastejando em desespero no meio de tatus, tamandu\u00e1s, caxinguel\u00e9s desnorteados. On\u00e7as de todo pelame saltavam n&#8217;\u00e1gua esturrando. Vi, at\u00e9 com pena, um veado atado no ch\u00e3o, querendo fugir sem poder: tinha os p\u00e9s queimados.<\/em>\u201d<\/p>\n<p>\u201c<em>Dias e dias, semanas e semanas durou o fogar\u00e9u queimando. (&#8230;) Por fim, o fogar\u00e9u cessou e o mundo morreu. L\u00e1 ficou a terra aberta, exposta como uma ferida, debaixo do c\u00e9u escaldado, arfante. (&#8230;) Aquela queimada minha, dissolvida, foi um purgante que dei ao mundo.\u201d<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSou um homem de causas. 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