{"id":58685,"date":"2017-01-27T20:58:22","date_gmt":"2017-01-27T23:58:22","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=58685"},"modified":"2017-01-27T21:00:59","modified_gmt":"2017-01-28T00:00:59","slug":"pensar-antes-produzir-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/pensar-antes-produzir-depois\/","title":{"rendered":"Pensar antes, produzir depois"},"content":{"rendered":"<p><strong><em><img loading=\"lazy\" class=\"wide-thumbnail\" title=\"Pensar antes, produzir depois\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/planetaconsumo-630x315.jpg\" alt=\"Pensar antes, produzir depois\" width=\"640\" height=\"320\" \/><\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Por Fernanda Macedo, da P\u00e1gina 22 \u2013<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Um dos criadores do conceito da economia do ber\u00e7o ao ber\u00e7o, o qu\u00edmico alem\u00e3o Michael Braungart, acredita que reduzir o impacto ambiental \u00e9 muito pouco perto do que podemos fazer.<\/p>\n<div id=\"attachment_218186\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 649px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-218186\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Michael-Braungart.jpg\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Michael-Braungart.jpg 800w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Michael-Braungart-300x167.jpg 300w\" width=\"639\" height=\"356\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Foto: Patrick Savalle\/ Flickr Creative Commons<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A inova\u00e7\u00e3o e o design na concep\u00e7\u00e3o dos produtos e servi\u00e7os que criamos podem gerar impacto positivos e esse modelo tem se conectado com o estilo de vida das novas gera\u00e7\u00f5es. \u201cGerar res\u00edduos faz de voc\u00ea um idiota, n\u00e3o se pode ter orgulho disso\u201d, comenta o bem-humorado professor de Engenharia Qu\u00edmica e de Qu\u00edmica da Escola de Neg\u00f3cios Erasmus, em Roterd\u00e3, Holanda, uma das mais respeitadas da Europa.<\/p>\n<p>Acompanhado de L\u00e9a Gejer, arquiteta e representante da Cradle to Cradle\u00ae no Brasil, Braungart concedeu esta entrevista \u00e0 revista P\u00e1gina22 em visita ao Brasil, para abertura do Festival Green Nation, que reuniu entre os dias 23 e 27 de novembro, no Rio de Janeiro, uma intensa programa\u00e7\u00e3o sobre sustentabilidade por meio de filmes, instala\u00e7\u00f5es interativas, palestras, oficinas, competi\u00e7\u00e3o de multim\u00eddias e outras atividades.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 economia circular, nas suas palavras?<\/strong><\/p>\n<p>A economia circular \u00e9 um bom come\u00e7o. N\u00f3s utilizamos as coisas, depois as reutilizamos em produtos e com ela fabricamos novos produtos. Mas apenas isso n\u00e3o \u00e9 suficiente. A economia circular pode ser muito chata, pois \u00e9 um pensamento linear em c\u00edrculos. Primeiramente, \u00e9 preciso refletir sobre o conceito adequado. Por exemplo, quando as garrafas PET s\u00e3o fabricadas n\u00e3o se pensa no seu destino de reciclagem, em fabricar novas garrafas a partir delas. Esse racioc\u00ednio precisa ser feito no come\u00e7o, em vez de ser feito no final. Nesse sentido, a economia circular implica em custos extras.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que prefiro falar em economia ber\u00e7o a ber\u00e7o, que significa que estamos pensando em tudo o que \u00e9 criado para ser consumido, como alimentos, detergentes, solas de sapato, cadernos, precisa ser criado e pensado para entrar nos sistemas biol\u00f3gicos. E at\u00e9 mesmo em servi\u00e7os, como m\u00e1quina de lavar, computador, televis\u00e3o, precisa ser criado de modo a adentrar os sistemas t\u00e9cnicos, para que n\u00e3o haja desperd\u00edcio e tudo se torne nutriente.<\/p>\n<p>E quando se entende o sistema circular como nutriente para a biosfera e a tecnosfera, isso pode ser feito. Devemos querer aprender, transformar, e n\u00e3o apenas reciclar. Adicionar mais intelig\u00eancia, evoluir. Usar informa\u00e7\u00f5es primitivas para fabricar coisas mais bonitas e n\u00e3o a mesma coisa o tempo todo. Isso seria muito chato!<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o papel do Brasil na economia circular? Aqui existe um grande poder de energia renov\u00e1vel, muitos recursos naturais. Como o senhor v\u00ea nosso Pa\u00eds nesse cen\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil precisar usar mais energia solar que h\u00eddrica, porque as hidrel\u00e9tricas provocam efeitos socioambientais muito graves. Hoje, j\u00e1 sabemos que o Brasil pode fabricar energia solar a menos de 10 centavos o quilowatt\/hora. E isso faz muito sentido.<\/p>\n<p>Hoje, n\u00e3o \u00e9 preciso mais comprar coletores solares para a sua casa. Voc\u00ea compra apenas o servi\u00e7o de 20 anos de uso do coletor solar. Com isso, \u00e9 poss\u00edvel usar materiais muito melhores e um servi\u00e7o muito mais barato. A Austr\u00e1lia est\u00e1 desativando termoel\u00e9tricas a carv\u00e3o, pois a energia solar \u00e9 mais barata. O sol n\u00e3o manda conta. Obtemos energia gratuita.<\/p>\n<p>O Brasil, com a excelente concep\u00e7\u00e3o e o vigor daqui, a anima\u00e7\u00e3o, a criatividade e a abund\u00e2ncia de luz solar, certamente \u00e9 um lugar excelente para o in\u00edcio de uma nova mentalidade que celebre a vida, ao inv\u00e9s de sermos apenas \u201cmenos maus\u201d. J\u00e1 somos menos maus com tanta gente. Achamos que estamos fazendo o bem para o ambiente se destruirmos um pouco menos. Mas voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 protegendo seu filho ao bater nele cinco em vez de dez vezes.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que falamos em qualidade, inova\u00e7\u00e3o e beleza. N\u00f3s podemos usar toda essa m\u00e1quina ambiental inovadora do Brasil. E isso cria empregos infinitos, porque a fabrica\u00e7\u00e3o dos produtos ber\u00e7o-a-ber\u00e7o custa 20% menos do que os tradicionais, j\u00e1 que a intelig\u00eancia \u00e9 aplicada no in\u00edcio, e n\u00e3o no fim da cadeia.<\/p>\n<p><em>L\u00e9a Gejer<\/em>: No Brasil, a gente tem v\u00e1rias ind\u00fastrias, tem toda a cadeia. Por exemplo, a ind\u00fastria t\u00eaxtil tem a cadeia inteira aqui no Brasil. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 como nos EUA, em que um peda\u00e7o vem da China, outro da Europa e eles juntam tudo num lugar e fazem a roupa que depois vai para n\u00e3o sei aonde\u2026 Aqui a gente tem v\u00e1rias cadeias numa ind\u00fastria que \u00e9 fechada. Isso \u00e9 um problema, mas ao mesmo tempo a gente tem controle sobre v\u00e1rias etapas dessas cadeias. Na constru\u00e7\u00e3o civil tamb\u00e9m. Tem muita mat\u00e9ria-prima, ent\u00e3o a gente extrai e a gente tem toda a condi\u00e7\u00e3o de conseguir fechar o ciclo internamente.<\/p>\n<p><strong>Como o senhor acha que o Acordo de Paris pode impulsionar a economia circular?<\/strong><\/p>\n<p>O Acordo de Paris serve como base, pois foi a primeira vez na qual todos os pa\u00edses do mundo se uniram para conversar sobre este grave problema. Sendo sincero, o problema da energia s\u00f3 ser\u00e1 resolvido com o ingresso de 20 vezes mais fontes de energia nesse planeta do que jamais foi feito.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o energ\u00e9tica do que vimos em Paris me deixa otimista, mas precisamos aprender a recuperar o carbono da atmosfera. N\u00f3s podemos usar di\u00f3xido de carbono como mat\u00e9ria-prima. Mas \u00e9 preciso haver uma estrat\u00e9gia de recupera\u00e7\u00e3o dos nutrientes, como pot\u00e1ssio, f\u00f3sforo. E isso s\u00f3 em termos org\u00e2nicos.<\/p>\n<p>Eu trabalhei na China por muito tempo e l\u00e1, por exemplo, \u00e9 diferente. Quando voc\u00ea \u00e9 convidado para jantar, espera-se que fique at\u00e9 usar o banheiro, porque n\u00e3o \u00e9 cort\u00eas ir embora e \u201ccarregar os nutrientes\u201d consigo. Afinal, voc\u00ea foi convidado para jantar, e n\u00e3o para carregar nutrientes.<\/p>\n<p>Ou seja, Paris foi um bom come\u00e7o, mas o come\u00e7o real no tratamento de todas essas quest\u00f5es foi na Eco92, aqui neste pa\u00eds [Brasil]. Porque voc\u00eas foram pioneiros e chegou a hora de usar isso como mecanismo de inova\u00e7\u00e3o. Por isso, \u00e9 preciso trabalhar com o mercado, as pessoas diretamente, governos, para que as mudan\u00e7as aconte\u00e7am.<\/p>\n<p>A Europa est\u00e1 usando 21% do solo de agricultura na planta\u00e7\u00e3o de milho. Isso n\u00e3o faz sentido. Ao mesmo tempo, a Europa est\u00e1 importando gr\u00e3os cultivados em terras do Brasil s\u00f3 para alimenta\u00e7\u00e3o animal. Isso n\u00e3o faz sentido.<\/p>\n<p><strong>A Uni\u00e3o Europeia e a China adotaram a economia circular como orienta\u00e7\u00e3o para pol\u00edtica econ\u00f4mica. Quais s\u00e3o os passos que os pa\u00edses latino-americanos teriam de dar para caminharem na mesma dire\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro a se fazer \u00e9 apoiar faculdades de design e de arquitetura para que haja mais programas educacionais e de capacita\u00e7\u00e3o para os alunos. Esse \u00e9 o primeiro passo. O segundo \u00e9 ter metas claras. Por exemplo, \u201cem 2020 todo o papel deve ser compost\u00e1vel\u201d. A\u00ed, sim, seria poss\u00edvel fazer a diferen\u00e7a. Ou, \u201ctoda a madeira que usamos \u00e9 tratada com produtos que podem ser reaproveitados como combust\u00edvel\u201d. A economia circular na Europa n\u00e3o se resume apenas a isso, trata-se de reinventar-se, de renovar o conceito. \u201cM\u00e1quinas de lavar, televis\u00e3o, pain\u00e9is solares s\u00e3o servi\u00e7os e n\u00e3o s\u00e3o mais vendidos [como produtos], vendemos apenas o seu uso\u201d. Ent\u00e3o, podemos facilmente come\u00e7ar por um programa industrial onde desde o in\u00edcio tudo se recupere.<\/p>\n<p>L\u00e9a Gejer: Tamb\u00e9m pode ser interessante para a Am\u00e9rica Latina pensar que um produto tem v\u00e1rios materiais que t\u00eam um valor. Por exemplo, um edif\u00edcio. Um edif\u00edcio \u00e9 um banco de materiais. Se voc\u00ea entender que cada material naquele edif\u00edcio, ou um celular, tem valor e que aquilo pode voltar para voc\u00ea, eu acho que pode ser interessante para economias em desenvolvimento. \u00c9 uma riqueza que a gente n\u00e3o v\u00ea, que a gente joga fora, mas que pode ser resgatado, por meio do design e com qualidade, em vez de ir sempre diminuindo a qualidade. Essa \u00e9 a ideia de valorizar os materiais.<\/p>\n<p><strong>Falando sobre pa\u00edses em desenvolvimento, a economia circular s\u00f3 ocorre quando em um cen\u00e1rio de decrescimento ou aus\u00eancia de crescimento econ\u00f4mico, ou ela pode ocorrer tamb\u00e9m com crescimento econ\u00f4mico?<\/strong><\/p>\n<p>Basicamente, funciona em todas as \u00e1reas de todos os pa\u00edses, porque o que temos por a\u00ed \u00e9 muito primitivo. Apenas nove de 41 elementos dos celulares s\u00e3o reciclados, e s\u00e3o elementos raros como \u00edndio, g\u00e1lio que n\u00e3o s\u00e3o recuperados.<\/p>\n<p>Estamos ainda no come\u00e7o. Um comprovante de estacionamento ou cupom de supermercado faz voc\u00ea absorver 25 produtos qu\u00edmicos na corrente sangu\u00ednea, at\u00e9 porque aquilo n\u00e3o foi fabricado para o contato com a pele. Podemos come\u00e7ar com coisas simples. At\u00e9 mesmo o papel higi\u00eanico n\u00e3o \u00e9 fabricado para sistemas biol\u00f3gicos. Com 1 quilo de papel higi\u00eanico contamina-se at\u00e9 8 milh\u00f5es de litros de \u00e1gua porque as subst\u00e2ncias qu\u00edmicas do papel n\u00e3o foram concebidas para a economia circular.<\/p>\n<p>Os designers podem criar coisas totalmente novas que sejam muito melhores desde o in\u00edcio. Existem tantos designers famosos\u2026 Depende de n\u00f3s fazer a diferen\u00e7a agora, sen\u00e3o n\u00e3o teremos for\u00e7a [depois] porque n\u00e3o haver\u00e1 mais mercado.<\/p>\n<p><strong>Reutilizarmos os mesmos materiais em vez de extra\u00ed-los impactaria o PIB?<\/strong><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio! Voltando aos materiais, s\u00e3o apenas 2% de toda a cadeia de valor. At\u00e9 este celular, todos os materiais internos custam menos de dois d\u00f3lares. S\u00e3o os componentes, n\u00e3o apenas o material. O valor verdadeiro \u00e9 poder reutilizar componentes, conceber de modo a reutilizar os materiais como componentes. Voc\u00ea conecta componentes diferentes e a\u00ed lucra de verdade. Voltar \u00e0 extra\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria-prima n\u00e3o faz sentido, porque o custo ambiental da maioria dessas opera\u00e7\u00f5es de minera\u00e7\u00e3o \u00e9 muito maior para a sociedade do que qualquer lucro obtido.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses mais pobres do mundo s\u00e3o os que mais usam mat\u00e9ria-prima, porque isso leva \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e a todo tipo de relacionamento injusto. Foca-se na extra\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria-prima em vez do apoio \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p>Considerando as desastrosas opera\u00e7\u00f5es de mineradoras nos tr\u00eas \u00faltimos anos no Brasil, isso equivale a 20 anos da renda l\u00edquida desse Pa\u00eds em termos de danos para o futuro, de t\u00e3o enorme que \u00e9. Talvez seja melhor pensar: \u201cVamos parar a minera\u00e7\u00e3o\u201d e as pessoas come\u00e7ariam a pensar no uso diferente de materiais.<\/p>\n<p><em>L\u00e9a Gejer:<\/em> A economia circular pode trazer outras formas de neg\u00f3cio. Ent\u00e3o, por exemplo, empresas que fazem reformas de objetos, que remanufaturam e est\u00e3o dentro daqueles ciclos, s\u00e3o ciclos internos. Voc\u00ea tem novas formas de fazer neg\u00f3cio, de desenvolver a economia local com o que voc\u00ea j\u00e1 tem.<\/p>\n<p><strong>Em uma economia em crescimento, a proposta do ber\u00e7o-a-ber\u00e7o pode interromper o crescimento da extra\u00e7\u00e3o de materiais e a consequente polui\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o estaria apenas desacelerando a uma aproxima\u00e7\u00e3o dos limites biof\u00edsicos do planeta?<\/strong><\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, os humanos s\u00e3o o \u00fanico limite deste planeta. Se viv\u00eassemos apenas da ca\u00e7a, o limite do planeta seria de cinco milh\u00f5es de pessoas. Quando aprendemos a agricultura \u2013 e podemos aprender muito com os Ianom\u00e2mi, que faziam agricultura na floresta tropical \u2013, o limite desse planeta passou para 500 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Com a agricultura industrializada, que \u00e9 o que fazemos, o limite \u00e9 de cinco bilh\u00f5es de pessoas. Ultrapassamos esse limite e estamos destruindo este planeta de modo sistem\u00e1tico.<\/p>\n<p>Mas se tiv\u00e9ssemos uma agricultura baseada em carbono e us\u00e1ssemos nossos nutrientes, poder\u00edamos ser muito mais produtivos e alimentar 20 bilh\u00f5es de pessoas com facilidade. N\u00f3s somos o \u00fanico limite. Se fizermos isso poderemos ter um planeta cinco vezes maior do que temos agora, j\u00e1 que podemos torn\u00e1-lo mais produtivo.<\/p>\n<p>Veja o exemplo da Holanda. A agricultura baseada em carbono \u00e9, depois dos Estados Unidos, o segundo maior exportador de produtos de agricultura, isso com 2% do tamanho da Brasil. Eles s\u00e3o o segundo porque a agricultura baseada no carbono pode ser muito mais produtiva e empregar muito mais pessoas.<\/p>\n<p><strong>A ideia da economia circular depende do uso quase exclusivo de energia renov\u00e1vel. Em um cen\u00e1rio de crescente demanda por energia, \u00e9 realista usar apenas energia renov\u00e1vel o tempo todo? Se for o caso, o uso exclusivo da energia solar, por exemplo, n\u00e3o implica tamb\u00e9m em impactos ecol\u00f3gicos?<\/strong><\/p>\n<p>Os conectores solares podem ser muito produtivos e a energia n\u00e3o \u00e9 nada limitada. Na verdade, \u00e9 at\u00e9 o contr\u00e1rio, n\u00f3s precisaremos de uma sobrecarga de energia renov\u00e1vel porque tamb\u00e9m precisamos de energia quando o vento n\u00e3o \u00e9 forte em algumas \u00e1reas.<\/p>\n<p>N\u00f3s poderemos usar essa sobrecarga de energia renov\u00e1vel para extrair CO2 da atmosfera e usar \u00e1gua como fonte de hidrog\u00eanio e fabricar hidrocarbonos e produtos qu\u00edmicos para todo tipo de mercado, como pl\u00e1sticos.<\/p>\n<p>Podemos usar a atmosfera como fonte ao fazermos bandas de energia. Temos um projeto na Europa onde usamos a sobrecarga da energia para fazer tijolos com pias. Usamos metais, como o magn\u00e9sio, que oxidam no inverno para a calefa\u00e7\u00e3o das casas. Podemos pegar \u00f3xido de magn\u00e9sio ou c\u00e1lcio e deles obter magn\u00e9sio ou c\u00e1lcio novamente. N\u00e3o ser\u00e1 mais preciso isolar as casas porque poderemos usar 300 tijolos para a calefa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Podemos fazer o mesmo com constru\u00e7\u00f5es de arrefecimento, podemos usar o sol para arrefecer constru\u00e7\u00f5es. Usar ar condicionado na eletricidade ser\u00e1 uma idiotice, porque ser\u00e1 poss\u00edvel usar o calor do sol para arrefecer constru\u00e7\u00f5es. Por conta das bandas de energia, a energia em si n\u00e3o \u00e9 um problema, mas o lado material \u00e9 muito mais cr\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>E quanto aos impactos ecol\u00f3gicos da energia solar, por exemplo?<\/strong><\/p>\n<p>O impacto da energia solar depende do que voc\u00ea est\u00e1 fazendo. Se voc\u00ea faz c\u00e9lulas solares que podem ser reutilizadas, elas podem ser concebidas desde o in\u00edcio com um impacto melhor para todos.<\/p>\n<p>Na Europa, n\u00f3s trabalhamos na concep\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es de minera\u00e7\u00e3o que s\u00e3o concebidas desde o in\u00edcio para serem a favor dos habitantes. Planeja-se a pegada de carbono que ser\u00e1 deixada. Fizemos isso na B\u00e9lgica com 34 opera\u00e7\u00f5es mineradoras. E posso garantir que hoje em dia eles s\u00e3o uns dos bi\u00f3tipos mais ricos e diversos que se pode imaginar. Antes, havia um deserto deixado pela agricultura. Agora, existe uma rica terra que abarca todas as esp\u00e9cies. Vimos p\u00e1ssaros raros que haviam sumido h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Podemos fazer telhados verdes na cobertura dos pr\u00e9dios. Fizemos isso em Detroit com quatro fabricantes de ve\u00edculos e elas economizam 30 milh\u00f5es de d\u00f3lares em prote\u00e7\u00e3o contra \u00e1gua de chuvas. Isso permite o retorno de v\u00e1rias esp\u00e9cies de p\u00e1ssaros devido ao est\u00edmulo \u00e0 flora. Com isso, estamos ajudando esses p\u00e1ssaros a fugirem dos predadores tamb\u00e9m. Eles n\u00e3o est\u00e3o mais amea\u00e7ados por estarem protegidos por suspens\u00f5es de flora.<\/p>\n<p>\u00c9 lucrativo para todos n\u00f3s. \u00c9 um trip\u00e9 de sustentabilidade invertido, que \u00e9 bom para a economia, a sociedade e o meio ambiente.<\/p>\n<p>E fazemos v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es pequenas tamb\u00e9m. Nesse momento estamos trabalhando num pr\u00e9dio em Barcelona que est\u00e1 criando borboletas no sagu\u00e3o. Toda sexta-feira elas s\u00e3o soltas para o ambiente. As crian\u00e7as veem e dizem: \u201cAh, ent\u00e3o \u00e9 aqui que o papai e a mam\u00e3e trabalham\u201d!<\/p>\n<p>Isso pode mudar o equil\u00edbrio biol\u00f3gico de Barcelona fazendo com que as borboletas sejam uma popula\u00e7\u00e3o natural e est\u00e1vel, bastando defend\u00ea-las toda semana, deixando-as voar pela cidade de Barcelona. N\u00f3s podemos ser bons para as outras esp\u00e9cies. N\u00e3o precisamos ser menos maus.<\/p>\n<p><strong>Na sua opini\u00e3o, o que impede o maior crescimento da economia circular? Ser\u00e1 o comportamento do consumidor, a cultura do \u201cdescart\u00e1vel\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>Primeiramente, trata-se de uma gera\u00e7\u00e3o jovem de excessos. Esses jovens querem ter orgulho do que fazem. S\u00f3 que gerar res\u00edduos faz de voc\u00ea um idiota, n\u00e3o se pode ter orgulho disso. A vida \u00e9 assim. Temos essa gera\u00e7\u00e3o de jovens onde o reconhecimento na internet e no Facebook \u00e9 mais importante que dinheiro. \u00c9 isso o que impulsiona a juventude de hoje. Trata-se de autoestima. As pessoas querem ter orgulho do que fazem. \u00c9 uma inova\u00e7\u00e3o verdadeira.<\/p>\n<p><strong>Mas n\u00e3o \u00e9 maquiagem verde?<\/strong><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio. N\u00e3o se trata de maquiagem verde pela transpar\u00eancia: d\u00e1 para ver e medir. Gra\u00e7as \u00e0 internet, \u00e9 poss\u00edvel encontrar provas imediatas. Ent\u00e3o n\u00e3o tem como fazer maquiagem verde.<\/p>\n<p>O modelo tradicional \u00e9 perigoso porque a emiss\u00e3o de relat\u00f3rios de sustentabilidade nos Estados Unidos custa US$ 10 bilh\u00f5es por ano. Tem v\u00e1rias empresas vivendo disso, al\u00e9m de consultoria e arquitetura. Elas querem continuar fazendo neg\u00f3cio. Na Europa, s\u00e3o 7 bilh\u00f5es em custos para as empresas.<\/p>\n<p>Com a economia circular, voc\u00ea vende apenas o uso. N\u00e3o h\u00e1 interesses escusos porque o produto continua seu. Em vez de vender o produto \u201cjanela\u201d, voc\u00ea est\u00e1 vendendo o seguro \u201colhar pela janela\u201d, que permanece seu por 25 anos. Por que voc\u00ea teria interesse escuso se continua sendo seu? Voc\u00ea ret\u00e9m o produto. Quando voc\u00ea vende algo e coloca algo t\u00f3xico nele, \u00e9 mais lucrativo trapacear o consumidor e fazer maquiagem verde.<\/p>\n<p>O que n\u00f3s produzimos gera um lucro incr\u00edvel por conta do que o impulsiona. Por exemplo, ao fabricarmos tecidos para esta cadeira. O material \u00e9 t\u00e3o t\u00f3xico\u2026 Isso \u00e9 uma burrice. Se escolh\u00eassemos produtos qu\u00edmicos reutiliz\u00e1veis, o tecido ficaria 20% mais barato. Justamente por n\u00e3o ser preciso tratar a sa\u00fade. Voc\u00ea filtra pelo in\u00edcio, n\u00e3o no final, na gest\u00e3o de res\u00edduos.<\/p>\n<p><em>L\u00e9a Gejer:<\/em> Claro que \u00e9 muito importante tamb\u00e9m n\u00e3o pensar apenas no consumo ou p\u00f3s-consumo, mas sim antes do consumo. O mais importante \u00e9 a quest\u00e3o econ\u00f4mica e ambiental, n\u00e3o ser \u00e9 pautada na gest\u00e3o res\u00edduos, mas sim no desenho. Essa \u00e9 a base desse pensamento. N\u00e3o adianta s\u00f3 voc\u00ea reciclar e reciclar e perder a qualidade. Tem de desenhar sempre pensando no que vem depois.<\/p>\n<p><em>Como o discurso da economia circular poderia ser compatibilizado com a Segunda Lei da Termodin\u00e2mica? A economia circular refuta a tese central da obra do [do economista ecol\u00f3gico] Nicholas Georgescu-Roegen [em que a entropia \u00e9 acelerada pelas atividades humanas]?<\/em><\/p>\n<p>Se utilizarmos alum\u00ednio na economia circular, ele demanda 95% menos energia. Eliminar\u00edamos 95% do que precisamos na economia circular. Esses 5% podem ser facilmente obtidos com bancos de energia externa.<\/p>\n<p>O alum\u00ednio pode ser usado praticamente de modo infinito, economizando-se 95% em compara\u00e7\u00e3o a opera\u00e7\u00f5es em mineradoras. Mas ainda precisa-se de 5% da energia para reprocessamento ou sistemas t\u00e9cnicos. Mas esses 5% podem muito bem ser oriundos de energia renov\u00e1vel porque temos bancos para isso. A economia circular transformar\u00e1 a energia em renov\u00e1vel muito mais r\u00e1pido, sob um consumo no mundo muito menor com o uso de recursos renov\u00e1veis.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que n\u00e3o pode ser apenas economia circular. Sen\u00e3o, voc\u00ea est\u00e1 provocando uma necessidade ainda maior de materiais para ter coisas mais eficientes. \u00c9 por isso que precisamos de efici\u00eancia em vez de efic\u00e1cia. Precisamos ver o que \u00e9 certo, em vez de se fazer sempre a mesma coisa. <em>(P\u00e1gina 22\/ #Envolverde)<\/em><\/p>\n<p><em>* <strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong> Carlos Abelheira.<strong> Colaboraram:<\/strong> Andrei Cechin, Am\u00e1lia Safatle, Ernesto Nunes, Jos\u00e9 Eli da Veiga, Ricardo Abramovay.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fernanda Macedo, da P\u00e1gina 22 \u2013 Um dos criadores do conceito da economia do<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Fernanda Macedo, da P\u00e1gina 22 \u2013 Um dos criadores do conceito da economia do","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58685"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58685"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58685\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58685"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58685"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58685"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}