{"id":58296,"date":"2017-01-21T20:43:28","date_gmt":"2017-01-21T23:43:28","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=58296"},"modified":"2017-01-21T20:44:04","modified_gmt":"2017-01-21T23:44:04","slug":"quando-o-aquecimento-global-bateu-a-minha-porta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/quando-o-aquecimento-global-bateu-a-minha-porta\/","title":{"rendered":"Quando o aquecimento global bateu \u00e0 minha porta"},"content":{"rendered":"<dl class=\"article-info\">\n<dd id=\"IDShowCommentLink51257\" class=\"comments-count\"><\/dd>\n<\/dl>\n<div class=\"post-content\">\n<div id=\"attachment_51259\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 648px;\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-51259\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-Claudio-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-Claudio-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-Claudio-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-Claudio-600x400.jpg 600w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-Claudio-278x185.jpg 278w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-Claudio.jpg 1152w\" alt=\"Barragem do Descoberto, que abastece dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o do DF. Foto: F\u00e1bio Rodrigues Pozzebom\/Ag\u00eancia Brasil. \" width=\"638\" height=\"425\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Barragem do Descoberto, que abastece dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o do DF. Foto: F\u00e1bio Rodrigues Pozzebom\/Ag\u00eancia Brasil.<\/p>\n<\/div>\n<p>Meus amigos paulistanos riram por \u00faltimo. Durante mais de ano, tiveram de aguentar minhas piadas de mau gosto sobre a crise h\u00eddrica que for\u00e7ou a classe m\u00e9dia da maior cidade do pa\u00eds a escovar os dentes com copinho e tomar banho de balde. Pois bem: nesta segunda-feira (16), Bras\u00edlia iniciou seu primeiro racionamento de \u00e1gua em 56 anos, que afetar\u00e1 60% da popula\u00e7\u00e3o. A decis\u00e3o foi tomada depois que a barragem do Descoberto, a maior do DF, atingiu o menor volume \u00fatil de sua hist\u00f3ria: 18,9%, no auge da esta\u00e7\u00e3o chuvosa.<\/p>\n<p>Se havia um lugar do pa\u00eds onde a perspectiva de racionar \u00e1gua parecia irreal h\u00e1 alguns anos, esse lugar era Bras\u00edlia. A capital do pa\u00eds est\u00e1 sentada no divisor de \u00e1guas das bacias do Paran\u00e1, do Tocantins e do S\u00e3o Francisco. E temos um parque nacional criado de forma presciente para proteger nosso segundo maior reservat\u00f3rio, a barragem de Santa Maria (que est\u00e1 com 41% do volume).<\/p>\n<p>D\u00e9cadas de desperd\u00edcio, de aumento de consumo, desmatamento do cerrado e ocupa\u00e7\u00e3o criminosa de mananciais, tolerada ou estimulada por pol\u00edticos do calibre de Joaquim Roriz e Jos\u00e9 Roberto Arruda, corroeram a seguran\u00e7a h\u00eddrica da regi\u00e3o. Mas o clima se encarregou do empurr\u00e3o decisivo: foram dois anos seguidos de precipita\u00e7\u00e3o muito abaixo da m\u00e9dia e calor intenso, que secou o solo e impediu que os reservat\u00f3rios se recuperassem.<\/p>\n<p>Para mim, que escrevo sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas h\u00e1 mais tempo do que seria saud\u00e1vel, o racionamento e outros eventos recentes marcam uma altera\u00e7\u00e3o de pronome. Sai o \u201celes\u201d solid\u00e1rio, mas condescendente, com que tenho tratado at\u00e9 aqui as v\u00edtimas do clima, e entra o \u201cn\u00f3s\u201d. O aquecimento global bateu \u00e0 minha porta. E n\u00e3o est\u00e1 sendo nada divertido.<\/p>\n<p>\u00c9 n\u00edtido para qualquer brasiliense, em especial os que passaram muito tempo fora e voltaram, que algo mudou por aqui. Para nossa infelicidade, a ci\u00eancia corrobora essa impress\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o consegue mais dormir \u00e0 noite sem ventilador? Pois saiba que o n\u00famero de noites quentes no DF \u2013 nas quais a m\u00ednima da madrugada \u00e9 superior a 20<sup>o<\/sup>C \u2013 decuplicou em 2000-2010 em rela\u00e7\u00e3o a 1962-1970, segundo dados compilados pelo meteorologista Francisco de Assis Diniz, do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).<\/p>\n<p>Torrou na primavera nos \u00faltimos anos? Pois extremos de temperatura tamb\u00e9m est\u00e3o mais frequentes: Bras\u00edlia bateu seis recordes hist\u00f3ricos de calor nos \u00faltimos nove anos \u2013 dois deles em apenas uma semana, no bizarro outubro de 2015. (Muito a prop\u00f3sito, a primeira quinzena de janeiro de 2017 registrou temperaturas m\u00e1ximas quase 4<sup>o<\/sup>C superiores \u00e0 m\u00e9dia.)<\/p>\n<p>Aprendeu na escola que Bras\u00edlia tem a tal \u201camplitude t\u00e9rmica de deserto\u201d? Reveja: a diferen\u00e7a entre a m\u00ednima e a m\u00e1xima no inverno caiu 2,1<sup>o<\/sup>C e, no ver\u00e3o, 2,25<sup>o<\/sup>C.<\/p>\n<p>Informa\u00e7\u00f5es sobre mudan\u00e7a do clima na cidade s\u00e3o escassas. O\u00a0<a href=\"http:\/\/blog.observatoriodoclima.eco.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Dissertac?a?o_Josefa-Morgana-Viturino-de-Almeida.pdf\">\u00fanico trabalho completo<\/a>\u00a0j\u00e1 publicado foi feito pela meteorologista paraibana Morgana Viturino de Almeida, tamb\u00e9m do Inmet, em 2012. Algumas de suas conclus\u00f5es principais est\u00e3o num relat\u00f3rio que a Sema (Secretaria do Meio Ambiente e Recursos H\u00eddricos) do GDF produziu em dezembro, que ser\u00e1 publicado nos pr\u00f3ximos dias na p\u00e1gina da secretaria na internet.<\/p>\n<div id=\"attachment_51261\" class=\"wp-caption alignright\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-51261\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-Claudio2.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-Claudio2.jpg 400w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-Claudio2-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-Claudio2-278x185.jpg 278w\" alt=\"N\u00edvel de \u00e1gua da Barragem do Descoberto est\u00e1 abaixo da m\u00e9dia hist\u00f3rica. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom\/Ag\u00eancia Brasil.\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">N\u00edvel de \u00e1gua da Barragem do Descoberto est\u00e1 abaixo da m\u00e9dia hist\u00f3rica. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom\/Ag\u00eancia Brasil.<\/p>\n<\/div>\n<p>\u201cA popula\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o consegue fazer a liga\u00e7\u00e3o entre os extremos, as enxurradas como a que atingiu Samambaia [cidade-sat\u00e9lite, no fim do ano passado], ondas de calor ou a situa\u00e7\u00e3o de \u00e1gua que temos agora e a mudan\u00e7a do clima\u201d, diz Leila Soraya Menezes, chefe da Unidade Estrat\u00e9gica de Clima da Sema e coautora do relat\u00f3rio. \u201cAs pol\u00edticas p\u00fablicas s\u00e3o baseadas ainda em s\u00e9ries hist\u00f3ricas, s\u00f3 que as m\u00e9dias hist\u00f3ricas n\u00e3o significam muita coisa mais na atual realidade do clima.\u201d<\/p>\n<p>Em seu trabalho, Morgana de Almeida analisou 26 par\u00e2metros climatol\u00f3gicos em todo o Centro-Oeste. O que ela viu foi uma tend\u00eancia semelhante em quase todas elas: noites mais quentes, maior n\u00famero de dias secos consecutivos, maior frequ\u00eancia de ondas de calor. Na capital, as temperaturas m\u00ednimas m\u00e9dias subiram 1,85<sup>o<\/sup>C e as m\u00ednimas m\u00ednimas, ou seja, as menores temperaturas do ano, subiram 2,6<sup>o<\/sup>C desde 1961. O n\u00famero de dias com umidade do ar abaixo de 30% cresceu 50%, e o n\u00famero de per\u00edodos com baixa umidade quase dobrou. Em 2010 havia 48 dias a mais no ano com temperaturas m\u00e1ximas acima de 25<sup>o<\/sup>C do que em 1961.<\/p>\n<p>Curiosamente, as m\u00e1ximas temperaturas m\u00e1ximas cresceram bem menos \u2013 0,85<sup>o<\/sup>C no per\u00edodo. E as m\u00e1ximas m\u00e9dias tiveram uma diminui\u00e7\u00e3o, embora esta n\u00e3o seja estatisticamente significante.<\/p>\n<p>Tampouco \u00e9 poss\u00edvel ver mudan\u00e7as expressivas na quantidade total de chuvas no DF at\u00e9 2010. N\u00e3o h\u00e1 informa\u00e7\u00e3o sobre viol\u00eancia das chuvas, mas elas t\u00eam feito mais estragos \u2013 por consequ\u00eancia da urbaniza\u00e7\u00e3o. No entanto, em novembro de 2014, a capital registrou\u00a0<a href=\"http:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/app\/noticia\/cidades\/2014\/10\/01\/interna_cidadesdf,450002\/inmet-confirma-tornado-em-brasilia-o-primeiro-da-historia-do-df.shtml\">seu primeiro tornado<\/a>.<\/p>\n<p>Almeida pede cautela na interpreta\u00e7\u00e3o dos dados, dizendo n\u00e3o ser poss\u00edvel separar o efeito da mudan\u00e7a clim\u00e1tica do da ilha de calor urbana \u2013 o mais prov\u00e1vel \u00e9 que haja sinergia entre ambos. Outros lugares do Centro-Oeste que observaram tend\u00eancia semelhante \u00e0 de Bras\u00edlia passaram por desmatamento nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o que pode ter influenciado os \u00edndices. Mas o fato permanece que o sinal de aquecimento e aumento de dias com baixa umidade relativa do ar \u00e9 n\u00edtido em toda a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>E esta \u00e9 s\u00f3 a primeira gongada: vem muito mais por a\u00ed.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio da Sema tamb\u00e9m traz proje\u00e7\u00f5es regionais de temperatura e precipita\u00e7\u00e3o para o DF, feitas pelo grupo de Sin Chan Chou, do Inpe. O estudo considera dois modelos clim\u00e1ticos, um mais \u201cseco\u201d e um mais \u201c\u00famido\u201d, e dois cen\u00e1rios de emiss\u00f5es de CO<sub>2<\/sub>, um moderado e um alto. A depender co cen\u00e1rio, o aquecimento adicional no DF entre 2011 e 2040 vai de 1<sup>o<\/sup>C a 3<sup>o<\/sup>C. No fim do s\u00e9culo, pode chegar a 6<sup>o<\/sup>\u00a0C. J\u00e1 a precipita\u00e7\u00e3o, que hoje n\u00e3o aparece com um sinal claro nas observa\u00e7\u00f5es, ganha um imenso vi\u00e9s de baixa em todos os cen\u00e1rios, em especial de dezembro a fevereiro, auge da chuva. A anomalia que fez o DF escorregar na crise h\u00eddrica pode ser, portanto, um aperitivo das pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Como disse de maneira c\u00e9lebre o climatologista americano John Holdren, s\u00f3 h\u00e1 tr\u00eas coisas a fazer a respeito da mudan\u00e7a clim\u00e1tica: mitigar, adaptar e sofrer. O GDF parece pelo menos disposto a discutir as duas primeiras. No ano passado,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.semarh.df.gov.br\/noticias\/item\/3392-sema-abre-consulta-p%C3%BAblica-sobre-f%C3%B3rum-do-clima.html\">iniciou a discuss\u00e3o<\/a>\u00a0para a cria\u00e7\u00e3o de um f\u00f3rum de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas distrital, a ser lan\u00e7ado em julho.<\/p>\n<p>Na popula\u00e7\u00e3o, quem pode vai se adaptando. Eu comprei um aparelho de ar-condicionado logo ap\u00f3s a onda de calor de 2015 e instalei telas mosqueteiras em todas as janelas (afinal, com o calor v\u00eam os mosquitos,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.observatoriodoclima.eco.br\/o-zika-tem-a-ver-com-a-mudanca-do-clima\/\">que tamb\u00e9m est\u00e3o mais numerosos<\/a>).<\/p>\n<p>O problema \u00e9 como fica a maior parte dos moradores do DF e entorno, que tem menos recursos para se adaptar. A essas pessoas parece estar reservada uma fatia desproporcional do sofrimento.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Barragem do Descoberto, que abastece dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o do DF. 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