{"id":57715,"date":"2017-01-13T22:52:27","date_gmt":"2017-01-14T01:52:27","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=57715"},"modified":"2017-01-13T22:52:27","modified_gmt":"2017-01-14T01:52:27","slug":"apa-da-escarpa-devoniana-pode-perder-70-de-sua-area","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/apa-da-escarpa-devoniana-pode-perder-70-de-sua-area\/","title":{"rendered":"APA da Escarpa Devoniana pode perder 70% de sua \u00e1rea"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div id=\"attachment_51112\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 651px;\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-51112\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-1-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-1-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-1-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-1-600x400.jpg 600w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-1-278x185.jpg 278w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-1.jpg 1152w\" alt=\"Rio de lajeado. C\u00e2nion do Guartel\u00e1, localizado entre Tibagi e Castro, no Paran\u00e1. Foto: Zig Koch.\" width=\"641\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Rio de lajeado. C\u00e2nion do Guartel\u00e1, localizado entre Tibagi e Castro, no Paran\u00e1. Foto: Zig Koch.<\/p>\n<\/div>\n<p>Uma especial conjuga\u00e7\u00e3o de processos naturais, ao longo do tempo geol\u00f3gico, permitiu que o atual territ\u00f3rio paranaense fosse brindado com uma riqu\u00edssima express\u00e3o de geodiversidade e biodiversidade. Regi\u00e3o litor\u00e2nea, Serra do Mar, os tr\u00eas planaltos e duas imponentes estruturas de relevo, que s\u00e3o a Escarpa Devoniana (separando o Primeiro e o Segundo Planalto) e a Escarpa da Serra Geral (entre o Segundo e o Terceiro Planalto), todos dom\u00ednios influenciados pela natureza de diferentes tipos rochosos e que, progressivamente, moldaram as nuances de instala\u00e7\u00e3o e desenvolvimento do Bioma Mata Atl\u00e2ntica no Paran\u00e1.<\/p>\n<p>Tamanha excepcionalidade n\u00e3o escapou da aten\u00e7\u00e3o da sociedade e por isso, sob a inspira\u00e7\u00e3o da \u201cConstitui\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3\u201d de 1988, a Constitui\u00e7\u00e3o do Estado do Paran\u00e1 de 1989 dedicou um artigo espec\u00edfico \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o do Estado em criar unidades de conserva\u00e7\u00e3o nessas diferentes regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Um amplo setor do Segundo Planalto Paranaense, os Campos Gerais do Paran\u00e1, sempre chamou a aten\u00e7\u00e3o pela beleza de sua paisagem, conjugando aspectos de seu relevo contrastante e uma hidrografia peculiar, junto com flora e fauna caracter\u00edsticas. Esta regi\u00e3o fitogeogr\u00e1fica, nas palavras do grande naturalista Reinhard Maack, seria constitu\u00edda por campos limpos e campos cerrados naturais e estaria limitada a leste pela borda do Segundo Planalto.<\/p>\n<p>Um espetacular patrim\u00f4nio natural, com rios de \u00e1guas cristalinas em lajeados, cachoeiras imponentes, mananciais de \u00e1guas superficiais e subterr\u00e2neas, cap\u00f5es com arauc\u00e1rias, canyons e despenhadeiros, furnas e cavernas, al\u00e9m de animais como o lobo-guar\u00e1, su\u00e7uarana, tamandu\u00e1-bandeira, seriema, gralha-azul, soma-se a um patrim\u00f4nio cultural que engloba s\u00edtios arqueol\u00f3gicos de diferentes tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas ao registro da rota dos tropeiros e, mais recentemente, \u00e0 instala\u00e7\u00e3o de col\u00f4nias de imigrantes europeus. Elementos que, entrela\u00e7ados, criam uma paisagem \u00fanica no Brasil.<\/p>\n<p><b>A APA da Escarpa Devoniana<\/b><\/p>\n<p>A regi\u00e3o dos Campos Gerais, de modo similar ao que ocorreu em outros setores do Paran\u00e1, passou e ainda passa por um profundo processo de altera\u00e7\u00e3o de suas caracter\u00edsticas originais. A supress\u00e3o da cobertura vegetal (campos, cerrado, florestas) ligada \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o por variedades ex\u00f3ticas dos setores agr\u00edcolas e do florestamento industrial, o represamento ou drenagem de corpos d\u2019\u00e1gua, a diminui\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es de representantes da flora e fauna com consequente inviabilidade gen\u00e9tica das esp\u00e9cies, s\u00e3o algumas dessas modifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Atendendo o dispositivo constitucional j\u00e1 mencionado e buscando garantir \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras sistemas ecol\u00f3gicos saud\u00e1veis, em sintonia com pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis de utiliza\u00e7\u00e3o dos recursos naturais da regi\u00e3o, o governo do Paran\u00e1, por meio de um decreto em 1992, criou a \u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental (APA) da Escarpa Devoniana. Essa unidade de conserva\u00e7\u00e3o tem o objetivo de sua exist\u00eancia especificado no art. 1\u00ba do decreto: \u201c(&#8230;) assegurar a prote\u00e7\u00e3o do limite natural entre o Primeiro e o Segundo Planaltos Paranaenses, inclusive faixa de Campos Gerais, que se constituem em ecossistema peculiar que alterna cap\u00f5es da floresta de arauc\u00e1ria, matas de galerias e afloramentos rochosos, al\u00e9m de locais de beleza c\u00eanica como os \u201ccanyons\u201d e de vest\u00edgios arqueol\u00f3gicos e pr\u00e9-hist\u00f3ricos\u201d.<\/p>\n<p>O mesmo decreto trazia a obriga\u00e7\u00e3o de se estabelecer um zoneamento interno da APA, definindo as atividades permitidas, restringidas e proibidas. Infelizmente, por problemas diversos, o conjunto de zonas da unidade, com as devidas caracteriza\u00e7\u00f5es, objetivos, proibi\u00e7\u00f5es e recomenda\u00e7\u00f5es, s\u00f3 foi publicado em 2004, ano da cria\u00e7\u00e3o de seu Plano de Manejo.<\/p>\n<p>Nunca \u00e9 demais lembrar que, atualmente, o Sistema Nacional de Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza, reunindo unidades federais, estaduais e municipais, \u00e9 regido por lei federal do ano de 2000. Nela ficou estabelecida a exist\u00eancia de duas categorias de unidades, ou seja, as de prote\u00e7\u00e3o integral, de car\u00e1ter mais restritivo como \u00e9 o caso dos parques, e as de uso sustent\u00e1vel, na qual se enquadram as APAs.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o pela implanta\u00e7\u00e3o de uma APA para resguardar os Campos Gerais e o contexto de transi\u00e7\u00e3o representado pela Escarpa Devoniana \u2013 e n\u00e3o de um parque \u2013 provavelmente deveu-se a uma s\u00e9rie de fatores, entre eles, a grande extens\u00e3o da unidade, pr\u00f3xima a 400 mil hectares (a maior unidade de conserva\u00e7\u00e3o estadual do Paran\u00e1), englobando parte dos territ\u00f3rios de 12 munic\u00edpios. S\u00e3o eles: Seng\u00e9s, Jaguaria\u00edva, Pira\u00ed do Sul, Tibagi, Castro, Carambe\u00ed, Ponta Grossa, Campo Largo, Palmeira, Porto Amazonas, Balsa Nova e Lapa. Evitar os problemas jur\u00eddicos e financeiros das desapropria\u00e7\u00f5es \u2013 obrigat\u00f3rias na cria\u00e7\u00e3o de um parque \u2013 tamb\u00e9m esteve entre as raz\u00f5es.<\/p>\n<p><b>D\u00e9cadas de amea\u00e7as e crimes ambientais<\/b><\/p>\n<p>O per\u00edodo compreendido desde a \u00e9poca de cria\u00e7\u00e3o da APA (1992), passando pela publica\u00e7\u00e3o do Plano de Manejo e seu zoneamento ecol\u00f3gico econ\u00f4mico (2004), chegando \u00e0 institui\u00e7\u00e3o de seu Conselho Gestor (2013) foi marcado por intensas press\u00f5es de setores da sociedade pouco afetos \u00e0 relev\u00e2ncia de temas ambientais e do bem-estar p\u00fablico. Em outras palavras, pessoas, grupos, entidades e empresas desprovidos de compromisso com a filosofia de justi\u00e7a social, econ\u00f4mica e ambiental, inerente ao artigo da Constitui\u00e7\u00e3o Federal que garante a todos o acesso a um meio ambiente ecologicamente equilibrado.<\/p>\n<p>Este quadro levou a frequentes viola\u00e7\u00f5es dos apontamentos do Plano de Manejo, numa clara afronta a diversos dispositivos legais, em especial a Lei de Crimes Ambientais (Lei Federal 9.605\/1998). Infelizmente, essas atividades criminosas foram precariamente monitoradas, coibidas e mitigadas pelo poder p\u00fablico, comprometendo seriamente a integridade dos processos naturais operantes na \u00e1rea da APA.<\/p>\n<div id=\"attachment_51113\" class=\"wp-caption alignright\" style=\"width: 649px;\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-51113\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-2-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-2-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-2-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-2-600x400.jpg 600w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-2-278x185.jpg 278w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Coluna-2.jpg 1152w\" alt=\"C\u00e2nion do Guartel\u00e1, localizado entre Tibagi e Castro, no Paran\u00e1. Foto: Zig Koch.\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">C\u00e2nion do Guartel\u00e1, localizado entre Tibagi e Castro, no Paran\u00e1. Foto: Zig Koch.<\/p>\n<\/div>\n<p><b>Tombamento da Escarpa Devoniana<\/b><\/p>\n<p>Tendo em vista a situa\u00e7\u00e3o preocupante acima descrita, um grupo de professores da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) encaminhou \u00e0 Secretaria de Estado da Cultura do Paran\u00e1 (SEEC), em junho de 2012, um pedido de abertura de processo de tombamento, amparado na Lei Estadual 1.211\/1953. O objetivo maior da solicita\u00e7\u00e3o est\u00e1 atrelado \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio natural e cultural dos Campos Gerais, focando-se em setores espec\u00edficos das paisagens de campos naturais e ecossistemas associados \u00e0 Escarpa Devoniana do Paran\u00e1.<\/p>\n<p>A Coordena\u00e7\u00e3o do Patrim\u00f4nio Cultural (CPC) da SEEC abriu o processo de tombamento da \u201cEscarpa Devoniana do Paran\u00e1\u201d (n\u00ba 08\/2012) e, com base na instru\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica de um grupo de trabalho formalmente constitu\u00eddo, o Conselho Estadual do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico do Paran\u00e1 (CEPHA) acolheu este processo em 20 de agosto de 2014.<\/p>\n<p><b>Projeto de Lei 527\/2016: um golpe fatal aos Campos Gerais<\/b><\/p>\n<p>No entanto, os mesmos setores de parte da sociedade anteriormente citados, donos de uma percep\u00e7\u00e3o de mundo socialmente excludente, centrada em um utilitarismo econ\u00f4mico predat\u00f3rio e atrelada a uma miopia ambiental e cultural, levantaram forte oposi\u00e7\u00e3o aos movimentos em prol da prote\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio natural e cultural dos Campos Gerais e da Escarpa Devoniana, intensificando suas a\u00e7\u00f5es nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>A partir da press\u00e3o de entidades de classe empresariais, o governo estadual publicou recentemente o Decreto 2445\/2015, que restringe fortemente as a\u00e7\u00f5es da CPC\/SEEC em futuros processos de tombamento, que passaram a necessitar da anu\u00eancia do governador do estado para serem abertos. Al\u00e9m disso, por determina\u00e7\u00e3o da Casa Civil em abril de 2016, foram suspensas as reuni\u00f5es do grupo de trabalho dedicado \u00e0 defini\u00e7\u00e3o do per\u00edmetro da \u00e1rea de tombamento da Escarpa Devoniana.<\/p>\n<p>O mais recente ataque ao patrim\u00f4nio da sociedade paranaense e brasileira presente nos Campos Gerais veio na forma do Projeto de Lei 527\/2016, apresentado \u00e0 Assembleia Legislativa do Estado do Paran\u00e1 em novembro deste ano. De autoria dos deputados Plauto Mir\u00f3, Ademar Traiano e Luiz Claudio Romanelli, o projeto prev\u00ea a altera\u00e7\u00e3o dos limites da APA da Escarpa Devoniana, reduzindo-a para aproximadamente 32% de sua dimens\u00e3o original.<\/p>\n<p>O texto deste projeto espelha, de forma cristalina, uma total incompreens\u00e3o do significado de uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o de uso sustent\u00e1vel e, em particular, da APA da Escarpa Devoniana. Nas justificativas, os autores consideram \u201cque o objetivo da APA \u00e9 a prote\u00e7\u00e3o da Escarpa Devoniana\u201d, compreendendo assim \u201cn\u00e3o haver justificativa t\u00e9cnica e legal para que o per\u00edmetro da APA em quest\u00e3o ultrapasse expressivamente a pr\u00f3pria Escarpa, objeto da prote\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Entretanto, como se verifica rapidamente na leitura do art. 1\u00ba do decreto de cria\u00e7\u00e3o da unidade, o objetivo da APA n\u00e3o \u00e9 exclusivamente proteger a crista da Escarpa Devoniana, incluindo \u201cfaixa de Campos Gerais\u201d e um conjunto de elementos naturais e culturais.<\/p>\n<p>Outro ponto importante \u00e9 que, ao reduzir expressivamente a \u00e1rea da APA, removendo quase toda a \u00e1rea agricult\u00e1vel, praticamente se desfaz a ess\u00eancia de uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o de uso sustent\u00e1vel. O que, na hip\u00f3tese de aprova\u00e7\u00e3o do projeto, levaria \u00e0 modifica\u00e7\u00e3o do enquadramento da unidade, passando para a categoria de \u201cprote\u00e7\u00e3o integral\u201d, como seria o caso de um parque estadual. Estariam os autores interessados em um amplo processo de desapropria\u00e7\u00f5es na regi\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00c9 surpreendente o desleixo na reda\u00e7\u00e3o do projeto. Nem mesmo houve aten\u00e7\u00e3o de uma descri\u00e7\u00e3o adequada da \u00e1rea abrangida. Em seu art. 2\u00ba, ao listar os munic\u00edpios em que a APA estar\u00e1 localizada, deixou-se de mencionar Campo Largo e Carambe\u00ed. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 uma avalia\u00e7\u00e3o do impacto da redu\u00e7\u00e3o de ICMS ecol\u00f3gico. Assumindo-se como refer\u00eancia o valor destinado em 2015 ao conjunto dos munic\u00edpios e sabendo-se que o mandato das prefeituras \u00e9 de quatro anos, os prefeitos da regi\u00e3o passariam por uma dr\u00e1stica redu\u00e7\u00e3o de recursos, j\u00e1 que um valor agregado de quase R$ 12, 4 milh\u00f5es seria reduzido a algo inferior a R$ 3,5 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Nas justificativas se fala da imprecis\u00e3o dos limites da APA como um aspecto causador de dificuldades na gest\u00e3o da unidade e que sua cria\u00e7\u00e3o teria se baseado em tecnologia pouco avan\u00e7ada da \u00e9poca. Apontam a aus\u00eancia de um memorial descritivo fundamentado em t\u00e9cnicas de medi\u00e7\u00e3o modernas e realizado por equipe especializada. Real\u00e7am tamb\u00e9m que o Plano de Manejo recomenda a revis\u00e3o destes limites com objetivo de retirar as \u00e1reas agricult\u00e1veis de seu per\u00edmetro.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que todo gestor deve buscar o m\u00e1ximo de precis\u00e3o e acur\u00e1cia na delimita\u00e7\u00e3o daquilo que estiver sob sua responsabilidade. Mas n\u00e3o \u00e9 verdade que o posicionamento exato dos v\u00e9rtices do per\u00edmetro da APA, com marcos f\u00edsicos ou n\u00e3o, seja motivo para alterar a ess\u00eancia do objetivo primordial da exist\u00eancia da unidade de conserva\u00e7\u00e3o ou mesmo as bases de seu zoneamento ecol\u00f3gico-econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o tecnol\u00f3gico \u00e9 uma realidade que tem contribu\u00eddo imensamente para quest\u00f5es de ordem fundi\u00e1ria. Cada gera\u00e7\u00e3o de equipes de t\u00e9cnicos especializados, seja dos anos de 1990 ou dos de 2010, tem trabalhado com afinco e compromisso com suas responsabilidades, sendo limitados pelos recursos dispon\u00edveis. Assim, o Decreto 1.231\/1992 possui um memorial descritivo compat\u00edvel \u00e0 sua realidade e o de loca\u00e7\u00e3o de quaisquer outras propriedades de sua \u00e9poca.<\/p>\n<div id=\"attachment_51114\" class=\"wp-caption alignright\" style=\"width: 647px;\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-51114\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/1_Buraco-do-Padre_Gilson-Burigo-1-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/1_Buraco-do-Padre_Gilson-Burigo-1-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/1_Buraco-do-Padre_Gilson-Burigo-1-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/1_Buraco-do-Padre_Gilson-Burigo-1-600x400.jpg 600w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/1_Buraco-do-Padre_Gilson-Burigo-1-278x185.jpg 278w, http:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/1_Buraco-do-Padre_Gilson-Burigo-1.jpg 1152w\" alt=\"Localidade conhecida como Buraco do padre. Foto: Gilson Burigo.\" width=\"637\" height=\"425\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Localidade conhecida como Buraco do padre. Foto: Gilson Burigo.<\/p>\n<\/div>\n<p>Atento \u00e0s necessidades de atualiza\u00e7\u00e3o fidedigna do per\u00edmetro da APA, al\u00e9m de rebater argumentos vazios e oportunistas para a desafeta\u00e7\u00e3o dos limites da unidade, o Estado do Paran\u00e1, a partir dos trabalhos dos t\u00e9cnicos especializados do Instituto de Terras, Cartografia e Geoci\u00eancias (ITCG) e o Instituto Ambiental do Paran\u00e1 (IAP), apresentou em 2014 uma vers\u00e3o da nova base cartogr\u00e1fica da unidade. Este fato n\u00e3o pode ser desconhecido pelos autores do Projeto de Lei 527\/2016, especialmente por serem estes deputados integrantes da base de apoio do governo estadual que divulgou a atualiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Plano de Manejo de 2004 efetivamente sugere a revis\u00e3o dos limites da APA. O que deixa de ser mencionado \u00e9 que isto se d\u00e1 para setores bem espec\u00edficos, com clara indica\u00e7\u00e3o dos argumentos para as poss\u00edveis altera\u00e7\u00f5es. E o principal \u00e9 que existem tanto propostas de remo\u00e7\u00e3o de alguns trechos como de amplia\u00e7\u00e3o da APA da Escarpa Devoniana, basicamente pela necessidade de garantir a conserva\u00e7\u00e3o de setores de alto valor ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um aspecto fundamental que sustenta o car\u00e1ter nocivo deste projeto de lei. \u00a0Ao final da exposi\u00e7\u00e3o dos motivos para sua proposi\u00e7\u00e3o os autores alegam que o mesmo seria necess\u00e1rio, conveniente e oportuno. A quais setores da sociedade ele interessa? A proposta n\u00e3o emergiu de uma discuss\u00e3o ampla e democr\u00e1tica e que tivesse sido conduzida e avalizada pelo Conselho Gestor da APA.<\/p>\n<p>O projeto de lei, em seu art. 2\u00ba, traz ainda um memorial descritivo com base em uma carta topogr\u00e1fica editada pela Funda\u00e7\u00e3o ABC, entidade mantida pelo setor do agroneg\u00f3cio. H\u00e1 aqui uma inconsist\u00eancia formal, pois o documento legal deveria enquadrar o novo per\u00edmetro com base em documentos oficiais, ou seja, cartas topogr\u00e1ficas editadas pelo IBGE ou a Diretoria de Servi\u00e7o Geogr\u00e1fico do Ex\u00e9rcito. Por\u00e9m, sem entrar no m\u00e9rito da qualidade t\u00e9cnica dos respons\u00e1veis pela elabora\u00e7\u00e3o deste memorial e desconsiderando imprecis\u00f5es de nomenclatura ocasionais, \u00e9 claro que esta entidade n\u00e3o pode ser vista como isenta de interesses.<\/p>\n<p>No texto cita-se que al\u00e9m de \u201cproteger\u201d a APA da Escarpa Devoniana o projeto trar\u00e1 \u201caos produtores rurais que est\u00e3o inseridos dentro da atual APA, a seguran\u00e7a jur\u00eddica para produzir sem implicar nas restri\u00e7\u00f5es atribu\u00eddas \u00e0s unidades de conserva\u00e7\u00e3o\u201d. Mais uma vez demonstra-se incompreens\u00e3o ou desprezo pelo significado de uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o de uso sustent\u00e1vel. Mas tamb\u00e9m uma velada proposta de anistia a crimes ambientais.<\/p>\n<p><b>Campos Gerais do Paran\u00e1: haver\u00e1 futuro para este patrim\u00f4nio natural e cultural?<\/b><\/p>\n<p>O estado do Paran\u00e1, mesmo n\u00e3o sendo uma das maiores unidades federativas, possui um territ\u00f3rio com grande diversidade natural. A essa variedade bi\u00f3tica e abi\u00f3tica a sociedade decidiu ser fundamental dedicar um conjunto de artif\u00edcios legais de prote\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o que, mais do que ser entendido como um sin\u00f4nimo de grandes amarras limitadoras e punitivas, presta-se a zelar pela integridade e perenidade de um magn\u00edfico bem coletivo, representado pelo patrim\u00f4nio natural e cultural. Deveria ser tratado como algo do que se orgulhar e n\u00e3o para se temer ou sabotar.<\/p>\n<p>O momento atual de grave crise econ\u00f4mica e de valores \u00e9tico-morais traz o risco de decis\u00f5es precipitadas. Em busca de cifras e maior n\u00famero de postos de trabalho, ou mesmo ao se identificarem \u201cgrandes oportunidades de neg\u00f3cios\u201d, fecham-se os olhos para tradi\u00e7\u00f5es seculares, para a hist\u00f3ria coletiva de grupos minorit\u00e1rios e cuidados de ordem ambiental.<\/p>\n<p>Impedir as futuras gera\u00e7\u00f5es de apreciar o acervo arquitet\u00f4nico inserido na paisagem de uma cidade hist\u00f3rica como Salvador ou flexibilizar a pol\u00edtica de permiss\u00e3o de empreendimentos potencialmente poluidores na \u00e1rea de recarga do aqu\u00edfero Furnas, dentro da APA da Escarpa Devoniana, s\u00e3o decis\u00f5es hediondas, com consequ\u00eancias frequentemente irrevers\u00edveis em m\u00e9dio e longo prazo.<\/p>\n<p>Os moradores de Rio Negro a Seng\u00e9s, passando por Ponta Grossa, Tibagi e outros munic\u00edpios identificam-se como pertencentes a uma regi\u00e3o distinta de outras no estado. Mas at\u00e9 quando existir\u00e3o paisagens com campos naturais que justifiquem esta identifica\u00e7\u00e3o? Apenas em \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o integral, como nos parques estaduais de Vila Velha ou do Guartel\u00e1, em que as pessoas n\u00e3o vivem dentro de seus limites?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 uma amarga e triste ironia se, num intervalo de tempo n\u00e3o muito longo, a ampla regi\u00e3o que encantou naturalistas, poetas e seus habitantes n\u00e3o mais possuir motivos concretos para ser chamada de Campos Gerais do Paran\u00e1, prendendo-se apenas a registros hist\u00f3ricos e da mem\u00f3ria coletiva, gradativamente migrando para o dom\u00ednio de lendas e folclores regionais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de lajeado. C\u00e2nion do Guartel\u00e1, localizado entre Tibagi e Castro, no Paran\u00e1. Foto: Zig<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Rio de lajeado. C\u00e2nion do Guartel\u00e1, localizado entre Tibagi e Castro, no Paran\u00e1. Foto: Zig","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57715"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57715"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57715\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57715"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57715"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57715"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}