{"id":5748,"date":"2014-08-30T14:00:38","date_gmt":"2014-08-30T14:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=5748"},"modified":"2014-08-29T23:35:06","modified_gmt":"2014-08-29T23:35:06","slug":"comer-ou-apenas-nutrir-se-eis-uma-questao-que-mobiliza-educadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/comer-ou-apenas-nutrir-se-eis-uma-questao-que-mobiliza-educadores\/","title":{"rendered":"Comer ou apenas nutrir-se? Eis uma quest\u00e3o que mobiliza educadores"},"content":{"rendered":"<p><small style=\"font-size: 10px; font-family: Tahoma, Geneva, sans-serif;\"><i>Por Juliana Dias*<\/i><\/small><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/140822-Brueguel-485x339.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-120027 \" title=\"Comer ou apenas nutrir se? Eis a quest\u00e3o\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/140822-Brueguel-485x339.jpg\" alt=\"140822 Brueguel 485x339 Comer ou apenas nutrir se? Eis a quest\u00e3o\" width=\"599\" height=\"419\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Alimentar-se e cozinhar n\u00e3o podem ser apenas atos \u201csaud\u00e1veis\u201d. Envolvem autonomias, escolhas culturais, atitudes diante do outro e do mundo<\/em><\/p>\n<p>A abordagem da alimenta\u00e7\u00e3o na escola n\u00e3o deveria se limitar a cultivar h\u00e1bitos saud\u00e1veis, numa vis\u00e3o que coloca o alimento como nutriente e a responsabilidade nos ombros do sujeito que come. A escola \u00e9 o lugar das intera\u00e7\u00f5es sociais, produtora de sentido (CARRANO, 2009) e institui\u00e7\u00e3o cultural (P\u00c9REZ, 1999). Portanto, \u00e9 necess\u00e1rio ampliar os olhares para o valor da Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar. Esta \u00e9 uma poderosa ferramenta para matar a fome de conhecimento, renovando o entendimento sobre a rela\u00e7\u00e3o com a comida, afim de engajar e transformar pessoas, comunidades e sociedades.<\/p>\n<p>Desde 2009, a Lei de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (11.947) oficializa o olhar cultural sobre o comer e inclui a Educa\u00e7\u00e3o Alimentar e Nutricional (EAN) no processo de ensino-aprendizagem, que deve perpassar o curr\u00edculo escolar. Essa pol\u00edtica p\u00fablica estimula o respeito \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es alimentares e \u00e0 prefer\u00eancia alimentar local saud\u00e1vel; o desenvolvimento biopsicossocial; e amplia a presen\u00e7a de outros profissionais na escola, com proposta interdisciplinar e intersetorial. Tamb\u00e9m determina que ao menos 30% dos alimentos comprados para a refei\u00e7\u00e3o escolar venham da agricultura familiar local, preferencialmente produzidos de forma agroecol\u00f3gica ou org\u00e2nica.<\/p>\n<p>A esta legisla\u00e7\u00e3o soma-se uma nova <a href=\"http:\/\/www.fnde.gov.br\/fnde\/legislacao\/resolucoes\/item\/4620-resolu%C3%A7%C3%A3o-cd-fnde-n%C2%BA-26,-de-17-de-junho-de-2013\" target=\"_blank\">Resolu\u00e7\u00e3o<\/a> (N\u00ba26 de 17\/06\/2013) do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o (FNDE). Ela permitir\u00e1 \u00e0 escola colocar a comida no centro do debate sobre os desafios contempor\u00e2neos. O alimento passa a ser considerado \u201cferramenta pedag\u00f3gica\u201d para as a\u00e7\u00f5es de Educa\u00e7\u00e3o Alimentar Nutricional, que deve ser \u201ctransdisciplinar, intersetorial, multiprofissional, de pr\u00e1tica cont\u00ednua e permanente\u201d (art. 13). Nesse sentido, justifica-se a amplia\u00e7\u00e3o do significado desse aprendizado alimentar, em busca de uma articula\u00e7\u00e3o mais integrada com os membros da comunidade escolar e a sociedade civil.<\/p>\n<p>Outro ponto importante da Resolu\u00e7\u00e3o \u00e9 estimular a forma\u00e7\u00e3o de pessoas envolvidas, direta ou indiretamente, com a alimenta\u00e7\u00e3o na escola. Aqui, podemos considerar professores, inspetores, gestores, pais, entre outros. Dinamizar o curr\u00edculo; promover metodologias inovadoras para o trabalho pedag\u00f3gico; e estimular o desenvolvimento de tecnologias sociais, voltadas para o campo da Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar s\u00e3o algumas das recomenda\u00e7\u00f5es. Falar de alimenta\u00e7\u00e3o e escola, portanto, \u00e9 olhar para o indiv\u00edduo e a sociedade.<\/p>\n<p><small style=\"font-size: 10px; font-family: Tahoma, Geneva, sans-serif;\"><i><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/alimento_educacao.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-5750\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/alimento_educacao.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" \/><\/a><\/i><\/small>O soci\u00f3logo franc\u00eas Claude Fischler1 comentou que nos \u00faltimos anos tem se dedicado a pesquisas sobre alimenta\u00e7\u00e3o no contexto escolar. Para ele, a sociedade depende da escola para a educa\u00e7\u00e3o alimentar das crian\u00e7as. Por isso, o tema est\u00e1 em alta nas pesquisas acad\u00eamicas, em congressos cient\u00edficos e debates com lideran\u00e7as pol\u00edticas internacionais, como a primeira-dama dos Estados Unidos Michelle Obama; e a chef norte-americana, Alice Waters, idealizadora do projeto <a href=\"http:\/\/edibleschoolyard.org\/\" target=\"_blank\"><em>Edible Schoolyard<\/em><\/a>, que influenciou diretamente o posicionamento de Michele neste campo. Trata-se de um novo tema de investiga\u00e7\u00e3o e debates, que no Brasil est\u00e1 sendo estudada em diversas \u00e1reas de conhecimento. Fischler aponta que, antes, n\u00e3o comer era um problema; agora, configura-se num desafio di\u00e1rio e amea\u00e7ador.<\/p>\n<p>Comer e conhecer est\u00e3o entrela\u00e7ados no processo educativo para a vida, e na constru\u00e7\u00e3o da cidadania. As palavras sabor e saber v\u00eam da mesma fonte etimol\u00f3gica: sapere. Sabedoria (Sapientia) quer dizer conhecimento saboroso; e o s\u00e1bio (sapio) \u00e9 aquele que saboreia. Aprender tem gosto. Deve ser saboroso e com prazer. Por isso, h\u00e1 de se reconhecer a exist\u00eancia das inten\u00e7\u00f5es culin\u00e1rias na busca pelo sentido da Educa\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Saber o que se come diz respeito \u00e0 identidade cultural, autonomia e consci\u00eancia cr\u00edtica para deliberar sobre o que se coloca no prato e participar das tomadas de decis\u00f5es sobre o rumo do sistema alimentar moderno. \u00c9 o caso, por exemplo, do debate sobre os transg\u00eanicos, pautado por controv\u00e9rsias que colocam em xeque as implica\u00e7\u00f5es e compromissos entre ci\u00eancia e democracia. O Brasil \u00e9 o segundo maior produtor de transg\u00eanicos, Soja, milho e algod\u00e3o modificados geneticamente ocupam 40,7 milh\u00f5es de hectares, segundo estudo da consultoria C\u00e9leres2. J\u00e1 o di\u00e1logo com a sociedade, sobre a positividade ou negatividade de seu uso,avan\u00e7a lentamente.<\/p>\n<p>Buscar sentido em comer, cozinhar e compartilhar as refei\u00e7\u00f5es se faz urgente num tempo em que o indiv\u00edduo se sobrep\u00f5e ao coletivo e as refei\u00e7\u00f5es em casa s\u00e3o compartimentadas e herm\u00e9ticas, assim como as pedagogias que segmentam o conhecimento. Faz sentido acessar a mem\u00f3ria gustativa para refletir sobre a contemporaneidade; convocar os poetas, educadores, artistas e literatos para ampliar a vis\u00e3o e os significados sobre o ato de se alimentar.<\/p>\n<p>Para prosseguir nessa empreitada, \u00e9 preciso resgatar o sentido das palavras educar e cr\u00edtica. Educar vem do latim educare, que originalmente significava criar, nutrir, amamentar, cuidar. Depois, passou a significar instruir, ensinar. Educare tamb\u00e9m tem o sentido de ex-ductere (educere) que significa conduzir para fora, lan\u00e7ar, \u201ctirar de dentro\u201d, parir, produzir. Tais significados parecem completar-se demonstrando, por um lado, que para educar seria necess\u00e1rio alimentar, nutrir. Aquele que est\u00e1 sendo educado nutre-se de conhecimentos. Por outro, indica que este processo deve partir de dentro, sendo necess\u00e1rio ter fome e demonstr\u00e1-la (GARCIA, 2001, p. 95 e 96).<\/p>\n<p>A t\u00e3o desejada consci\u00eancia cr\u00edtica, da qual espera-se incutir nos aprendizes, tamb\u00e9m tem rela\u00e7\u00e3o com o comer. Cr\u00edtica deriva do grego krinein, que quer dizer julgar, separar, distinguir. Ora, o degustador profissional de comida ou vinho exerce a cr\u00edtica. Ele n\u00e3o come indiscriminadamente tudo que lhe chega \u00e0 mesa. Apenas prova. E ao corpo caber\u00e1 fazer o julgamento e dar sua senten\u00e7a: \u00e9 bom ou ruim. O sabor tem sempre a palavra final, sob esse aspecto (ALVES, 2011, p.61). Trazendo essa ideia para o aprendizado, as informa\u00e7\u00f5es que chegam aos aprendizes devem, da mesma forma, ser degustadas, ao inv\u00e9s de incorporadas, sem julgamento ou cr\u00edtica.<\/p>\n<p>A partir dos significados de educa\u00e7\u00e3o, saber e cr\u00edtica \u00e9 oportuno propor uma associa\u00e7\u00e3o entre o comedor biol\u00f3gico e o comedor cultural, tal como o soci\u00f3logo Claude Fischler definiu o homem on\u00edvoro. Assim, educar \u00e9 nutrir, aspecto fisiol\u00f3gico e vital para a sobreviv\u00eancia humana. Da mesma maneira, as disciplinas s\u00e3o elementares para o conhecimento escolar. Saber \u00e9 descobrir sabores, caracter\u00edstica social, constru\u00edda pelo conv\u00edvio entre alunos, professores, amigos e fam\u00edlia, tal qual o ambiente escolar proporciona. Trata-se de um conhecimento que n\u00e3o est\u00e1 apenas no conte\u00fado. \u00c9 apreendido na experi\u00eancia saborosa da sociabilidade e do aprendizado com o cotidiano. Portanto, educar, saber e exercer um olhar cr\u00edtico para o mundo n\u00e3o podem ser dissociados. Essa liga\u00e7\u00e3o inerente pode ser aquecida pelo sabor do conhecimento, escolar, cient\u00edfico e popular, al\u00e9m do calor do fog\u00e3o.<\/p>\n<p>Cozinhar \u00e9 um exerc\u00edcio de autonomia e consci\u00eancia de si, do outro e do mundo. Em novo livro, <em>Cozinhar: uma hist\u00f3ria natural da transforma\u00e7\u00e3o<\/em> (Editora Intr\u00ednseca), o jornalista e ativista alimentar Michael Pollan, que tem investigado o modo como os norte-americanos se alimentam, conclui que encontrou resposta para suas inquieta\u00e7\u00f5es na cozinha. Ela come\u00e7a em quest\u00f5es particulares: como cuidar da sa\u00fade e bem-estar, e melhorar o relacionamento com o filho adolescente. Mas avan\u00e7a para temas pol\u00edticos: por exemplo, qual seria a orienta\u00e7\u00e3o mais importante para ajudar a mudar o sistema alimentar de um pa\u00eds, tornando-o mais saud\u00e1vel e sustent\u00e1vel. Outras quest\u00f5es s\u00e3o de ordem filsol\u00f3fica: como compreender a rela\u00e7\u00e3o do homem com o mundo natural. Foi \u00e0 beira do fog\u00e3o que suas perguntas foram sendo cozidas. Em entrevistas concedidas durante sua passagem pelo Brasil, em agosto, Pollan destacou que em 30 minutos d\u00e1 para preparar uma boa refei\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o \u00e9 complicado, nem pesaroso. Mas tem que praticar. O autor eitera em seus coment\u00e1rios que as refei\u00e7\u00f5es \u00e9 que devem se encaixar nas agendas e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Defende a cultura como ferramenta para conscientiza\u00e7\u00e3o. Mandar todo mundo para cozinha n\u00e3o \u00e9 utopia \u2013 mas \u00e9 revolucion\u00e1rio\u2026<\/p>\n<p>Ao refletir sobre as rela\u00e7\u00f5es entre educar\/nutrir, saber\/sabor e cr\u00edtica\/degusta\u00e7\u00e3o, o pensamento de Paulo Freire \u00e9 pertinentem ao considerar que n\u00e3o se deve separar o cognitivo do emocional no aprendizado:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201cEstudamos, aprendemos, ensinamos e conhecemos (\u2026) com o nosso corpo inteiro. Com os sentimentos, com as emo\u00e7\u00f5es, com os desejos, com os medos, com as d\u00favidas, com a paix\u00e3o e com a raz\u00e3o cr\u00edtica\u201d (1998, p. 8).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Tendo em vista as demandas da Lei de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar e uma reflex\u00e3o a respeito da interse\u00e7\u00e3o entre alimenta\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o, busco apontar a sinergia entre esses dois campos. \u00c9 vital estreitar e evidenciar os elos por meio da interdisciplinaridade, visando uma atitude transdisciplinar, considerar a mem\u00f3ria, o afeto e os sentidos, seja no refeit\u00f3rio ou na sala de aula.<\/p>\n<p><strong>\u2013<\/strong><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>____BRASIL. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o. Lei 11.947, de 16 de junho de 2009.<\/p>\n<p>____BRASIL. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o. Resolu\u00e7\u00e3o N\u00ba26 de 17 de junho de 2013.<\/p>\n<p>____BRASIL. Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social e Combate \u00e0 Fome. Marco de refer\u00eancia de educa\u00e7\u00e3o alimentar e nutricional para as pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>CARRANO, Paulo C\u00e9sar Rodrigues. Identidades Culturais juvenis e escolas: arenas de conflitos e possibilidades. Diversia, N\u00ba1, CIDPA Valpara\u00edso, Abril 2009, pp. 159-184.<\/p>\n<p>FISCHLER, Claude. El (h)omn\u00edvoro \u2013 El gusto, lacocina y elcuerpo. Editora Anagrama: Barcelona,1995.<\/p>\n<p>FREIRE, Paulo. Professora sim, Tia n\u00e3o: Cartas a quem ousa ensinar. Editora Olho d\u2019 \u00e1gua, S\u00e3o Paulo, 1998.<\/p>\n<p>GARCIA, M. A. A. Saber, agir e educar: o ensino-aprendizagem em servi\u00e7os de sa\u00fade. Rev. Interface \u2013 Comunica\u00e7\u00e3o, Sa\u00fade e Educa\u00e7\u00e3o. v.5, n.8, p.89-100, 2001.<\/p>\n<p>P\u00c9REZ, G. A. La cultura escolar em la sociedad neoliberal. Madrid. Ed. Morata, 1999.<\/p>\n<p>POLLAN, M. Cozinhar: uma hist\u00f3ria natural da transforma\u00e7\u00e3o. Trad.: Cl\u00e1udio Figueredo. Ed. Intr\u00ednseca: Rio de Janeiro, 2014.<\/p>\n<p>\u2013<\/p>\n<p><strong>1<\/strong>Comunica\u00e7\u00e3o oral durante o I Congresso Comer en la Escuela, realizado em Barcelona, na Espanha, em maio de 2012<\/p>\n<p><strong>2<\/strong>Mat\u00e9ria \u201c\u00c1rea com transg\u00eanicos no pa\u00eds deve crescer 25,8% nos pr\u00f3ximos dez anos\u201d, publicado em 31\/01\/2014, dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.midianews.com.br\/conteudo.php?sid=4&amp;cid=187288\" target=\"_blank\">http:\/\/www.midianews.com.br\/conteudo.php?sid=4&amp;cid=187288<\/a>.<\/p>\n<p><em>* <strong>Juliana Dias<\/strong> \u00e9 editora do site Malagueta<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Juliana Dias* Alimentar-se e cozinhar n\u00e3o podem ser apenas atos \u201csaud\u00e1veis\u201d. 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