{"id":57346,"date":"2017-01-08T13:56:32","date_gmt":"2017-01-08T16:56:32","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=57346"},"modified":"2017-01-08T13:56:34","modified_gmt":"2017-01-08T16:56:34","slug":"vale-usar-o-calor-do-verao-para-lembrar-do-aquecimento-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/vale-usar-o-calor-do-verao-para-lembrar-do-aquecimento-global\/","title":{"rendered":"Vale usar o calor do ver\u00e3o para lembrar do aquecimento global?"},"content":{"rendered":"<div class=\"row\">\n<article class=\"conteudo\">\n<div class=\"corpo-materia ciencia-e-meio-ambiente\">\n<div>\n<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/vale-usar-o-calor-do-verao-para-lembrar-do-aquecimento-global\/angelo\/\" rel=\"attachment wp-att-57347\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-57347\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/angelo-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/angelo-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/angelo.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Dados preliminares da Nasa (ag\u00eancia espacial americana) e da Noaa (ag\u00eancia de oceanos e atmosfera) mostram que 2016 vai bater o terceiro recorde seguido de calor na Terra. O ano passar\u00e1 os recordes de 2015 e 2014. As ag\u00eancias divulgar\u00e3o essas informa\u00e7\u00f5es no dia 18 de janeiro, dois dias antes da posse de Donald Trump.<\/p>\n<p>O aquecimento acelerado do planeta \u00e9 visto de forma mais eloquente nos polos. O derretimento do \u00c1rtico e o de partes da Ant\u00e1rtica s\u00e3o dois dramas independentes. E n\u00e3o afetam s\u00f3 a vida dos ursos-polares e pinguins (respectivamente) mas impactam todos n\u00f3s, inclusive aqui nos tr\u00f3picos. \u00c9 o que explica o jornalista Claudio Angelo, autor do livro <em>O espiral da morte<\/em>, coordenador de comunica\u00e7\u00e3o do Observat\u00f3rio do Clima, organiza\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o do aquecimento global.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA \u2013 Seu livro explica as transforma\u00e7\u00f5es nos polos e os poss\u00edveis impactos para o resto do mundo. Como aproximar o que est\u00e1 acontecendo em lugares t\u00e3o distantes com consequ\u00eancias para o dia a dia dos brasileiros?<\/strong><br \/>\n<strong>Claudio Angelo \u2013<\/strong> O efeito mais \u00f3bvio da mudan\u00e7a clim\u00e1tica nos polos sobre o brasileiro \u00e9 o aumento do n\u00edvel do mar. Voc\u00ea pode n\u00e3o ter a menor ideia das raz\u00f5es pelas quais a Groenl\u00e2ndia est\u00e1 derretendo ou por que o degelo dos glaciares do Mar de Amundsen \u00e9 irrevers\u00edvel. Mas todo mundo viu no ano passado na ciclovia da Avenida Niemeyer, no Rio de Janeiro, o que acontece quando uma ressaca forte encontra uma engenharia vagabunda. Todo mundo viu a Avenida Atl\u00e2ntica coberta de areia pela ressaca de primavera no Rio em 2016. Em Santos foram duas ressacas assustadoras em 2016. O degelo polar multiplica o efeito dessas tormentas ao aumentar o n\u00edvel do oceano. N\u00e3o precisa subir 1 metro no mundo todo; com menos de metade disso no meio do s\u00e9culo j\u00e1 seremos for\u00e7ados a repensar toda a ocupa\u00e7\u00e3o da costa. De fato, j\u00e1 precisamos fazer isso hoje, porque as ressacas violentas provavelmente j\u00e1 est\u00e3o mais frequentes. Mas h\u00e1 efeitos menos \u00f3bvios de mudan\u00e7as ambientais nos polos. Por exemplo, a infla\u00e7\u00e3o de alimentos de 2010\/2011, na qual o pre\u00e7o do trigo subiu no mundo todo, pode ter tido um dedo do degelo do \u00c1rtico, que vem alterando os ventos ao redor do Polo Norte e favorecendo padr\u00f5es de tempo como os que causaram os tr\u00e1gicos inc\u00eandios na R\u00fassia em 2010, que arrebentaram a safra daquele ano. E a seca de 2004 e 2005 no sul do pa\u00eds, que causou perda de 80% da safra de soja do Rio Grande do Sul, tem uma correla\u00e7\u00e3o forte com altera\u00e7\u00f5es nas massas de ar da Ant\u00e1rtica, que regem o tempo no sul do pa\u00eds e que t\u00eam se alterado por causa do aquecimento global e do buraco na camada de oz\u00f4nio. Ent\u00e3o, num sentido bem real, o que acontece nos polos afeta o seu bolso e a sua mesa.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA\u00a0 \u2013 Ainda se usa muito a imagem do pobre urso-polar para mostrar os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Essa imagem ainda tem efeito? N\u00e3o parece muito desconectada das preocupa\u00e7\u00f5es imediatas dos brasileiros?<\/strong><br \/>\n<strong>Angelo \u2013<\/strong> Falo dos ursos no livro porque eles foram involuntariamente promovidos a garotos-propaganda da causa das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, em torno de percep\u00e7\u00f5es extremas: de que estariam irremediavelmente condenados, por um lado, ou, por outro, de que a real amea\u00e7a a eles \u00e9 a ca\u00e7a, que \u00e9 praticada de forma legal em todo o \u00c1rtico [os groenlandeses com quem conversei juram que a carne \u00e9 uma del\u00edcia]. Na verdade, ningu\u00e9m sabe direito qual \u00e9 o status da maioria das popula\u00e7\u00f5es de urso-polar, embora algumas estejam declinando. Mas h\u00e1 consenso entre os especialistas de que o aquecimento global \u00e9, de muito longe, a maior amea\u00e7a \u00e0 esp\u00e9cie, j\u00e1 que o h\u00e1bitat dela, o gelo marinho, est\u00e1 sendo destru\u00eddo. Tentei trazer algum bom-senso a essa discuss\u00e3o. \u00c9 verdade que os ursos-polares est\u00e3o desconectados das preocupa\u00e7\u00f5es imediatas dos brasileiros, mas se part\u00edssemos dessa premissa conservar\u00edamos apenas as abelhas e os morcegos, que t\u00eam zero carisma, mas impactam diretamente a produ\u00e7\u00e3o de alimentos pelos servi\u00e7os de poliniza\u00e7\u00e3o que prestam. Acho que existe um imperativo \u00e9tico muito forte na prote\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies-bandeira, como a on\u00e7a, o panda, a baleia e o urso-polar. A maioria dessas esp\u00e9cies est\u00e1 aqui h\u00e1 mais tempo que n\u00f3s. O urso-polar, por exemplo, tem pelo menos 4 milh\u00f5es de anos de evolu\u00e7\u00e3o [o<em> Homo sapiens<\/em> tem 200 mil] e sobreviveu a pelo menos um evento de extin\u00e7\u00e3o em massa no passado. Que direito n\u00f3s temos de decretar o fim dessa esp\u00e9cie? A outra quest\u00e3o, claro, \u00e9 que n\u00e3o s\u00e3o apenas os ursos. O risco de extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies no mundo salta de 3% para 16% com um aquecimento de 4 graus c\u00e9lsius. Isso significa que uma em cada seis esp\u00e9cies estaria sob amea\u00e7a pelo aquecimento da Terra. Por ser tropical e megadiversa, a Am\u00e9rica do Sul \u00e9 o continente mais afetado, com quase um quarto das esp\u00e9cies sob amea\u00e7a. Inclusive as abelhas, que p\u00f5em comida em nossa mesa e que j\u00e1 est\u00e3o sumindo de v\u00e1rias regi\u00f5es do mundo. Ent\u00e3o, eu diria que, mesmo que voc\u00ea esteja se lixando para o urso-polar, ainda deveria estar preocupado com os efeitos da mudan\u00e7a do clima sobre os ecossistemas, porque uma das v\u00edtimas no fim \u00e9 voc\u00ea mesmo.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<p><strong>\u00c9POCA \u2013 Como podemos usar o calor do ver\u00e3o para potencializar as preocupa\u00e7\u00f5es com o aquecimento global?<\/strong><br \/>\n<strong>Angelo \u2013\u00a0<\/strong>Com um tanto de criatividade e outro tanto de coragem para driblar a quest\u00e3o da atribui\u00e7\u00e3o, que \u00e9 sempre espinhosa. N\u00f3s sabemos que faz calor todo ano no ver\u00e3o \u2013 Nelson Pereira dos Santos lan\u00e7ou <em>Rio, 40 graus<\/em> em 1955, 20 anos antes de a express\u00e3o \u201caquecimento global\u201d aparecer pela primeira vez na literatura cient\u00edfica. Tamb\u00e9m sentimos instintivamente que alguns ver\u00f5es est\u00e3o mais quentes do que costumavam ser. Mas, se voc\u00ea for perguntar a um cientista, ele dificilmente dir\u00e1 que o aquecimento global \u00e9 a causa desses ver\u00f5es mais quentes. Provavelmente vai lhe empurrar algum floreado estat\u00edstico dizendo que a \u201ctend\u00eancia\u201d no \u201cfuturo\u201d \u00e9 um \u201caumento da probabilidade\u201d de ver\u00f5es mais quentes. E ter\u00e1 boas raz\u00f5es para isso, j\u00e1 que cientistas precisam mesmo ser cautelosos e \u00e9 muito dif\u00edcil atribuir eventos individuais \u00e0 mudan\u00e7a do clima [embora isso venha sendo feito com cada vez mais frequ\u00eancia]. Mas talvez seja hora de a comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica arrebentar a porta desse arm\u00e1rio. Por uma raz\u00e3o simples: hoje, tudo o que acontece com a meteorologia no planeta tem rela\u00e7\u00e3o com o aquecimento global, porque o mundo est\u00e1 mais de 1 grau c\u00e9lsius mais quente do que estava em 1750. N\u00e3o d\u00e1 mais para tirar o aquecimento da Terra da equa\u00e7\u00e3o. E n\u00f3s sabemos que um dos efeitos do aquecimento da Terra \u00e9 amplificar extremos de calor \u2013 mas tamb\u00e9m de frio, seca e chuva. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o calor: h\u00e1 tamb\u00e9m os insetos e as doen\u00e7as. No fim do ano passado, saiu um estudo mostrando como o El Ni\u00f1o foi determinante para a epidemia de zika na Am\u00e9rica do Sul em 2015. As pessoas precisam entender que o ver\u00e3o agora \u00e9 assim. O que era exce\u00e7\u00e3o virou regra. Precisamos entender essa nova realidade como algo permanente e nos adaptar a ela.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA \u2013 Janeiro \u00e9 o m\u00eas em que os brasileiros lotam as praias. Eles sabem o risco que essas praias correm num cen\u00e1rio de eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel dos mares?<\/strong><br \/>\n<strong>Angelo \u2013<\/strong> Duvido que saibam. A menos que voc\u00ea seja um turista que passe anos voltando todo ano \u00e0 mesma praia, dificilmente perceber\u00e1 mudan\u00e7as, por exemplo, na extens\u00e3o da faixa de areia. O \u201ctiming\u201d das f\u00e9rias tamb\u00e9m \u00e9 infeliz, porque as ressacas s\u00e3o mais frequentes justamente no inverno. A eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar \u00e9 um tema complicado, porque \u00e9 um fen\u00f4meno insidioso, de in\u00edcio muito lento, sobre o qual h\u00e1 uma enorme incerteza e que no curto prazo s\u00f3 mostra seus piores efeitos durante mar\u00e9s altas ou tempestades.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA \u2013 Podemos usar a praia para gerar interesse pelo tema das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?<\/strong><br \/>\n<strong>Angelo \u2013 <\/strong>Sim. As pessoas se conectam com aquilo que est\u00e1 em sua experi\u00eancia imediata. Sei que n\u00e3o tenho muita moral para falar sobre experi\u00eancia imediata, tendo escrito um livro sobre os polos [rsrs]. Mas a praia, e tudo o que a cerca, \u00e9 um bom exemplo de um ativo que pode se perder se n\u00e3o fizermos nada. Uma amiga minha, especialista em adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica, escreveu um texto bel\u00edssimo no ano passado sobre como ela se sentiu ao chegar para treinar v\u00f4lei de praia de manh\u00e3 no Rio depois da ressaca de outubro e descobrir que n\u00e3o havia campo: a \u00e1gua estava na altura das redes. Esse \u00e9 o tipo de comunica\u00e7\u00e3o que falta.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA \u2013 O ano de 2016 bateu recordes de calor (nenhum outro ano teve tantos meses recordistas) e pode mais uma vez ser o mais quente da hist\u00f3ria. Essa sucess\u00e3o de recordes ainda comove as pessoas?<\/strong><br \/>\n<strong>Angelo \u2013<\/strong> Acho que uma sucess\u00e3o de recordes clim\u00e1ticos que aparecem quase como uma lista de lavanderia em p\u00e1ginas da internet n\u00e3o comove ningu\u00e9m, mesmo. Ningu\u00e9m sabe onde \u00e9 Fort McMurray, a cidade no Canad\u00e1 que precisou ser evacuada por causa de um inc\u00eandio florestal fora de \u00e9poca. Ningu\u00e9m sabe direito onde \u00e9 Fiji, que teve o pior tuf\u00e3o de sua hist\u00f3ria no ano passado.\u00a0 A quest\u00e3o \u00e9 que, cada vez mais, extremos clim\u00e1ticos est\u00e3o batendo \u00e0 porta das pessoas. Em Bras\u00edlia, onde eu moro, em 2015 vi pela primeira vez em 40 anos term\u00f4metros de rua marcar 42 graus, durante uma onda de calor que durou mais de um m\u00eas e meio em plena primavera e produziu, na mesma semana, as duas temperaturas mais altas j\u00e1 medidas aqui. Tive de comprar um aparelho de ar-condicionado. As temperaturas \u00e0 noite frequentemente ficam acima de 20 graus, mesmo no ver\u00e3o, que \u00e9 esta\u00e7\u00e3o de chuvas. O n\u00famero de noites quentes decuplicou na cidade entre 1961 e 2015, segundo medi\u00e7\u00f5es feitas pelo Inmet, que analisou toda a s\u00e9rie hist\u00f3rica do DF. Em 2016, entramos em racionamento de \u00e1gua devido \u00e0 estiagem prolongada \u2013 e Bras\u00edlia est\u00e1 na caixa-d\u2019\u00e1gua do pa\u00eds, sentada no divisor de \u00e1guas das bacias do Paran\u00e1 e do S\u00e3o Francisco. Acho que a ficha est\u00e1 caindo para muita gente nos \u00faltimos anos. Mas talvez esteja caindo tarde demais.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA \u2013 Qual \u00e9 a maior dificuldade para explicar a ci\u00eancia do aquecimento?<\/strong><br \/>\n<strong>Angelo \u2013<\/strong> S\u00e3o duas. A primeira, de fundo, tem a ver com a natureza humana: \u00e9 explicar a pr\u00f3pria exist\u00eancia do risco. Nosso c\u00e9rebro \u00e9 muito bom em lidar com riscos e ganhos imediatos \u2013 fugir do le\u00e3o agora, ingerir calorias agora. Mas, quando se trata de avaliar riscos de longo prazo, nossa racionalidade simplesmente colapsa. N\u00e3o evolu\u00edmos para isso. Como voc\u00ea diz a uma esp\u00e9cie que passou 200 mil anos de evolu\u00e7\u00e3o vivendo em restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica constante que essa gordura maravilhosa da picanha que agora ela consome quando lhe d\u00e1 na telha, sem precisar disputar com as hienas, vai mat\u00e1-la de infarto daqui a 20 ou 30 anos? A ci\u00eancia clim\u00e1tica nos traz uma dificuldade adicional, que \u00e9 confrontar-nos com riscos que frequentemente ocorrem al\u00e9m do nosso tempo de vida, como os piores impactos do degelo da Ant\u00e1rtica. E que n\u00e3o s\u00e3o riscos diretos para o indiv\u00edduo ou sua fam\u00edlia pr\u00f3xima, mas em vez disso afetam essa constru\u00e7\u00e3o cultural recent\u00edssima na hist\u00f3ria humana chamada \u201csociedade\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA \u2013 De quem \u00e9 a culpa?<\/strong><br \/>\n<strong>Angelo \u2013<\/strong> Gostaria de poder dizer que a culpa \u00e9 do baixo n\u00edvel de escolaridade e alfabetiza\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dos brasileiros ou que n\u00f3s, comunicadores de ci\u00eancia brasileiros, n\u00e3o estamos fazendo nosso trabalho t\u00e3o bem quanto dever\u00edamos. Mas o problema \u00e9 universal. Em fevereiro passado, o IPCC organizou uma reuni\u00e3o em Oslo [onde, muito a prop\u00f3sito, n\u00e3o havia um mil\u00edmetro de neve no m\u00eas mais frio do ano] para discutir a comunica\u00e7\u00e3o do painel, que vem falhando. Uma das conclus\u00f5es mais chocantes, apresentada l\u00e1 por um cientista portugu\u00eas, foi que os <a href=\"http:\/\/colunas.revistaepoca.globo.com\/planeta\/2010\/09\/06\/5-ideias-erradas-na-malhacao-publica-ao-ipcc\/\">sum\u00e1rios executivos dos relat\u00f3rios do IPCC<\/a>, que em tese deveriam orientar os tomadores de decis\u00e3o, est\u00e3o cada vez menos compreens\u00edveis ao longo do tempo. O que \u00e9, evidentemente, uma desgra\u00e7a, porque as evid\u00eancias do papel da humanidade no clima est\u00e3o cada vez mais s\u00f3lidas.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA \u2013 Como convencer algu\u00e9m a agir diante de uma amea\u00e7a que se concretiza n\u00e3o amanh\u00e3 ou no m\u00eas que vem mas numa escala de tempo de d\u00e9cadas?<\/strong><br \/>\n<strong>Angelo \u2013<\/strong> De duas formas: pelo amor e pela dor. Primeiro, \u00e9 preciso criar na sociedade uma cultura de a\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica \u2013 de adapta\u00e7\u00e3o aos efeitos do clima e de combate \u00e0s emiss\u00f5es. Digo \u201ccultura\u201d no sentido mais amplo, em oposi\u00e7\u00e3o a \u201cnatureza\u201d. Isso deve ser um esfor\u00e7o educacional de toda a sociedade, porque estamos agindo contra a for\u00e7a mais poderosa da humanidade: nosso instinto. Sam Harris, neurocientista americano, disse que, se deix\u00e1ssemos tudo a cargo de nossos instintos, come\u00e7ar\u00edamos todos os dias comendo uma caixa de donuts a\u00e7ucarados e terminar\u00edamos todas as noites com um caso extraconjugal. Domamos a nossa natureza para poder viver em sociedade e temos conseguido vit\u00f3rias importantes em direitos humanos. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para pensar que n\u00e3o possamos fazer o mesmo com a a\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. A imprensa, ou o que sobrou dela, tem um papel important\u00edssimo nesse esfor\u00e7o. Mas precisa perder o medo de comunicar mudan\u00e7a do clima. Com o perd\u00e3o do mimimi, existe uma clivagem maluca nas reda\u00e7\u00f5es, onde jornalistas que denunciam amea\u00e7as aos direitos humanos ganham pr\u00eamios, enquanto jornalistas que denunciam amea\u00e7as \u00e0 estabilidade clim\u00e1tica s\u00e3o tachados de \u201cmilitantes\u201d. A cobertura de clima precisa ser plural, precisa buscar o equil\u00edbrio e comunicar claramente as incertezas \u2013 algo que eu espero ter feito em <em>A espiral da morte<\/em>. Mas isso n\u00e3o equivale a dar espa\u00e7o igual ao ponto de vista de negacionistas, que via de regra est\u00e1 simplesmente errado. Muitos chefes de reda\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o entenderam essa diferen\u00e7a e insistem numa objetividade ing\u00eanua de tratar isso como uma quest\u00e3o de \u201coutro lado\u201d. A outra forma \u00e9 algo que a natureza j\u00e1 est\u00e1 se encarregando de fazer: mostrar que uma parte importante da amea\u00e7a j\u00e1 se concretizou. Mudan\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 mais um abacaxi para nossos bisnetos descascarem; \u00e9 algo que afeta grande parte da humanidade hoje. A Sociedade Meteorol\u00f3gica Americana analisou 79 eventos extremos clim\u00e1ticos entre 2011 e 2015 e concluiu que mais de metade deles n\u00e3o ocorreria na aus\u00eancia de aquecimento global, inclusive a seca na Amaz\u00f4nia de 2014-2015. Estamos em pleno novo normal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dados preliminares da Nasa (ag\u00eancia espacial americana) e da Noaa (ag\u00eancia de oceanos e atmosfera)<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":57347,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/angelo.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/angelo-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/angelo-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/angelo.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/angelo.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/angelo.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/angelo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/angelo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/angelo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/angelo.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Dados preliminares da Nasa (ag\u00eancia espacial americana) e da Noaa (ag\u00eancia de oceanos e atmosfera)","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57346"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57346"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57346\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57347"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}