{"id":56799,"date":"2016-12-31T12:30:35","date_gmt":"2016-12-31T15:30:35","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=56799"},"modified":"2016-12-31T12:30:35","modified_gmt":"2016-12-31T15:30:35","slug":"entrevista-especial-com-magali-bessone","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entrevista-especial-com-magali-bessone\/","title":{"rendered":"Entrevista especial com Magali Bessone"},"content":{"rendered":"<h1><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2016\/12\/22-12-castgen-flickr-creative-commons.jpg\" alt=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2016\/12\/22-12-castgen-flickr-creative-commons.jpg\" width=\"640\" height=\"266\" \/>A necessidade da participa\u00e7\u00e3o como crit\u00e9rio pr\u00e9vio \u00e0 cidadania.<\/h1>\n<p>\u201cH\u00e1 <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=4402&amp;secao=391\" target=\"_blank\">exclu\u00eddos<\/a>\u00a0\u2018na\u2019 e os exclu\u00eddos \u2018da\u2019 sociedade. Ser exclu\u00eddo, \u00e9 estar \u201cfora do\u201d espa\u00e7o (real ou simb\u00f3lico) dos inclu\u00eddos\u201d, descreve <strong>Magali Bessone<\/strong>, professora de Filosofia Pol\u00edtica na Universidade de Rennes 1 na entrevista concedida por e-mail \u00e0 <strong>IHU On-Line<\/strong>. Segundo ela, \u201co paradoxo da no\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o \u00e9 precisamente que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o homog\u00eaneo pr\u00e9-dado, mas que a produ\u00e7\u00e3o da exclus\u00e3o consiste em construir o espa\u00e7o tal que certas pessoas s\u00e3o descartadas, pela invisibiliza\u00e7\u00e3o, pelo estatuto jur\u00eddico diferenciado ou pela reclus\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Segundo <strong>Bessone<\/strong>, \u201cpara n\u00e3o ser exclu\u00eddo, \u00e9 necess\u00e1rio que o indiv\u00edduo renuncie a suas caracter\u00edsticas identit\u00e1rias idiossincr\u00e1ticas e se funda no corpo social: \u00e9 preciso renunciar a sua l\u00edngua, sua religi\u00e3o, sua cultura, seu sotaque, seus h\u00e1bitos etc. Nada dever\u00e1 o diferenciar de um \u201cnativo\u201d na fantasia dessa fus\u00e3o indiferenci\u00e1vel de cada um dentro do todo\u201d. Contudo, \u00e9 preciso que o projeto para repensar o bin\u00f4mino <strong>exclu\u00eddos e inclu\u00eddos<\/strong> seja pensado desde uma perspectiva pol\u00edtica, e n\u00e3o \u00e9tica. \u201cA <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?secao=499\" target=\"_blank\">hospitalidade<\/a>\u00a0repousa sobre a convic\u00e7\u00e3o de que pertencimento \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da cidadania \u2014 da participa\u00e7\u00e3o leg\u00edtima nas escolhas dos princ\u00edpios de justi\u00e7a que governam a sociedade. Podemos fazer um esfor\u00e7o e pensar ao contr\u00e1rio: a participa\u00e7\u00e3o como crit\u00e9rio pr\u00e9vio \u00e0 cidadania.\u201d E acrescenta: \u201cPensar a presen\u00e7a do estrangeiro atrav\u00e9s de um modelo de um acolhimento absoluto, incondicionado, do outro \u2018em sua casa\u2019, tende a retirar da cr\u00edtica toda a capacidade de isso se realizar na a\u00e7\u00e3o ou no engajamento pol\u00edtico efetivo.<\/p>\n<div class=\"ihu-small-image-left\">\n<div class=\"news-image-credits\"><img src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2016\/12\/30_12_magali_bessone_foto_sitesartetv.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Magali Bessone<\/strong> \u00e9 professora titular de Filosofia Pol\u00edtica na Universidade de Rennes 1, na Fran\u00e7a, e prepara uma tese de filosofia sobre o conceito de transpar\u00eancia na democracia americana, na Universidade de Nice Sophia-Antipolis, onde ela ensina na qualidade de instrutora. Publicou<strong> La Justice<\/strong> (Paris: Garnier-Flammarion, cole\u00e7\u00e3o \u201cCorpus\u201d, 2000), <strong>\u00c0 l\u2019origine de la R\u00e9publique am\u00e9ricaine: un double projet, Thomas Jefferson vs. Alexander Hamilton<\/strong> (Paris: Michel Houdiard \u00c9d., 2007. Ouvrage publi\u00e9 avec une bourse du Centre National du Livre) e <strong>Sans distinction de race ? Une analyse critique du concept de race et de ses effets pratiques<\/strong> (Paris: Vrin, 2013. Ouvrage publi\u00e9 avec l\u2019aide du Centre National du Livre).<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o os sentidos do termo \u201cexclus\u00e3o\u201d? Como caracteriz\u00e1-la?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Magali Bessone &#8211;<\/strong> Se observarmos a etimologia do termo, percebemos que h\u00e1 ao menos dois grandes sentidos contidos na <strong>no\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o<\/strong>, o que aparece j\u00e1 em seus primeiros usos: \u201cexcluir\u201d \u00e9 um empr\u00e9stimo do latim \u201c<em>excludere<\/em>\u201d, que significa ao mesmo tempo \u201cexpulsar\u201d e \u201cn\u00e3o deixar entrar\u201d. H\u00e1, desse modo, na no\u00e7\u00e3o, intimamente imbricados, um aspecto ativamente negativo (expulsar) e um aspecto privativo, aparentemente mais passivo (n\u00e3o deixar entrar). Soma-se a esses, a partir do s\u00e9culo XVI, principalmente no campo jur\u00eddico, um terceiro sentido: privar algu\u00e9m de algo a que ela teria direito, daquilo que lhe devem. Em 1690, o dicion\u00e1rio de Fureti\u00e8re apresenta tr\u00eas exemplos, que ilustram perfeitamente esses tr\u00eas sentidos, \u201cexpulsar\u201d, \u201crecusar a entrada\u201d e \u201cprivar de um direito\u201d: \u201cOs anjos maus foram exclu\u00eddos do Para\u00edso. Os pecadores ser\u00e3o exclu\u00eddos para sempre. Diz-se que um homem foi exclu\u00eddo de uma sucess\u00e3o para dizer que ele foi deserdado\u201d.<\/p>\n<p>O que nos ensina a hist\u00f3ria sem\u00e2ntica e conceitual da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/562321-mais-progresso-e-mais-excluidos-a-grande-injustica-de-hoje-constata-o-papa-francisco\" target=\"_blank\">exclus\u00e3o<\/a>\u00a0\u00e9 que, em primeiro lugar, ser exclu\u00eddo \u00e9 n\u00e3o fazer parte de uma esfera, real (um lugar) ou simb\u00f3lica (uma comunidade a que se pertence): ser exclu\u00eddo \u00e9 estar de fora. Em segundo lugar, h\u00e1 ao menos duas modalidades de caracteriza\u00e7\u00e3o de ser exclu\u00eddo. Na primeira, ele estava em algum lugar (ou possu\u00eda alguma coisa) do qual o expulsaram (ou da qual o privaram) \u2014 nesse sentido, a exclus\u00e3o \u00e9 um processo de perda de status, uma trajet\u00f3ria de marginaliza\u00e7\u00e3o e de desapossamento. Na segunda, por natureza, o exclu\u00eddo n\u00e3o pode nem nunca p\u00f4de reivindicar a inclus\u00e3o, pois ele n\u00e3o possui as caracter\u00edsticas que lhe permitem o acesso ao direito, \u00e0 fun\u00e7\u00e3o ou ao bem \u2014 caracter\u00edsticas de que os inclu\u00eddos partilham. Em \u00faltimo lugar, por\u00e9m, duas quest\u00f5es continuam abertas: saber quem define o status de inclus\u00e3o\/exclus\u00e3o e os crit\u00e9rios (fluidos e evolutivos) de admiss\u00e3o na esfera; saber se a exclus\u00e3o \u00e9 uma estrutura, modalidade inevit\u00e1vel da rela\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, ou se ela se trata de uma conjuntura, ligada a um certo modo de organiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Em que medida a no\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o tornou-se importante frente \u00e0s quest\u00f5es pol\u00edticas e sociais de nossa \u00e9poca?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Magali Bessone &#8211;<\/strong> A <strong>no\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o<\/strong> tem um status duplo: trata-se de um termo t\u00e9cnico da literatura sociol\u00f3gica e pol\u00edtica, mas se trata tamb\u00e9m de um termo do vocabul\u00e1rio da vida cotidiana e um <em>leitmotiv<\/em> da <strong>m\u00eddia<\/strong>, que, ao generaliz\u00e1-lo, tornam confusa essa no\u00e7\u00e3o complexa. A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/551396-a-ordem-internacional-perpetua-a-exclusao-dos-99-ate-quando\" target=\"_blank\">precariza\u00e7\u00e3o de massa<\/a> e os <strong>processos de imigra\u00e7\u00e3o<\/strong> produziram efeitos sociais e pol\u00edticos que podem ser condensados pela no\u00e7\u00e3o de \u201cexclus\u00e3o\u201d. Contudo, a pr\u00f3pria categoriza\u00e7\u00e3o de inclu\u00eddos e exclu\u00eddos produz efeitos sociais que, embora n\u00e3o criem situa\u00e7\u00f5es f\u00edsica e moralmente intoler\u00e1veis a algumas pessoas, contribuem para fixar o \u201cdentro\u201d e o \u201cfora\u201d, para reificar as condi\u00e7\u00f5es de entrada e sa\u00edda e para homogeneizar os grupos que se op\u00f5em entre si. <strong>Sa\u00fal Karsz<\/strong> [1], em <strong><em>L\u2019exclusion, d\u00e9finir pour en finir<\/em><\/strong> (2000), aborda o car\u00e1ter \u201cespecular\u201d da no\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o: ela opera em discurso-espelho. A no\u00e7\u00e3o designa os exclu\u00eddos \u2014 que, por defini\u00e7\u00e3o, s\u00e3o frequentemente aqueles exclu\u00eddos da esfera de fala, da possibilidade de falar sobre a sua situa\u00e7\u00e3o, de modo que o seu testemunho \u00e9 pouco transmitido, ouvido, valorizado ou legitimado (eles est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a epist\u00eamica, para retomar a express\u00e3o de <strong>Miranda Fricker<\/strong> [2]). A no\u00e7\u00e3o emana dos inclu\u00eddos: os porta-vozes das institui\u00e7\u00f5es e das assist\u00eancias sociais, a m\u00eddia, os pesquisadores que mencionam e analisam os fen\u00f4menos de exclus\u00e3o; s\u00e3o pessoas que se consideram e s\u00e3o consideradas pelos outros como inclu\u00eddos. Al\u00e9m disso, ela produz efeitos simplificadores, ou melhor, efeitos de concorr\u00eancia, falando de maneira absoluta de grupos que parecem perfeitamente constitu\u00eddos \u2014 os exclu\u00eddos, de um lado, e os inclu\u00eddos, de outro.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">A exclus\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 um conceito relativo, ou seja, que define uma rela\u00e7\u00e3o e a inscreve em uma complexa rede de rela\u00e7\u00f5es<\/div>\n<p>A <strong>exclus\u00e3o<\/strong>, por\u00e9m, \u00e9 um conceito relativo, ou seja, que define uma rela\u00e7\u00e3o e a inscreve em uma complexa rede de rela\u00e7\u00f5es. Se os parisienses s\u00e3o inclu\u00eddos, os exclu\u00eddos s\u00e3o os habitantes do interior (os \u201c<em>habitants des r\u00e9gions<\/em>\u201d [3]) ou os habitantes da periferia (os \u201c<em>franciliens<\/em>\u201d [4])? Se a exclus\u00e3o concerne a todos \u00e9 porque somos sempre exclu\u00eddos de alguma coisa e sempre exclu\u00eddos em rela\u00e7\u00e3o a algu\u00e9m: a no\u00e7\u00e3o \u00e9 inesgot\u00e1vel e, face a sua polissemia, o \u00fanico modo de se certificar de que fazemos parte dos \u201cinclu\u00eddos\u201d \u00e9 recriar permanentemente as categorias. A <strong>no\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o<\/strong> parece incontorn\u00e1vel, contudo \u00e9 muito amb\u00edgua por tratar de fen\u00f4menos de constru\u00e7\u00e3o de grupos a que se pertence.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o os exclu\u00eddos das sociedades contempor\u00e2neas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Magali Bessone &#8211;<\/strong> H\u00e1 <strong>exclu\u00eddos<\/strong> \u201cna\u201d e exclu\u00eddos \u201cda\u201d sociedade. Ser exclu\u00eddo \u00e9 estar fora do espa\u00e7o (real ou simb\u00f3lico) dos inclu\u00eddos. O paradoxo da no\u00e7\u00e3o \u00e9 precisamente que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o homog\u00eaneo pr\u00e9-dado, mas que a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/516686-nova-classe-media-um-discurso-economicista-entrevista-especial-com-jesse-de-souza\" target=\"_blank\">produ\u00e7\u00e3o da exclus\u00e3o<\/a> consiste em construir o espa\u00e7o de modo que certas pessoas sejam de l\u00e1 afastadas pela invisibiliza\u00e7\u00e3o, pelo status jur\u00eddico diferenciado ou pela reclus\u00e3o. Dessas tr\u00eas modalidades de constru\u00e7\u00e3o dos exclu\u00eddos por afastamentos diferenciados, pode-se depreender tr\u00eas figuras principais (que funcionam apenas como figuras de an\u00e1lise e que, na realidade social, n\u00e3o somente compreendem ramifica\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m se fundem): o mendigo, o estrangeiro, o louco. A primeira figura remete a um tipo de exclu\u00eddo definido pela aus\u00eancia de domic\u00edlio. Entretanto, sabemos que no cotidiano daqueles que nomeamos na <strong>Fran\u00e7a<\/strong> de \u201cSDF\u201d (sem domic\u00edlio fixo) existem pr\u00e1ticas de inser\u00e7\u00e3o e estrat\u00e9gias de adapta\u00e7\u00e3o, de integra\u00e7\u00e3o a certas redes e circuitos, de solidariedade e de ajuda m\u00fatua \u2014 enfim, h\u00e1 um reaparecimento de uma forma da propriedade privada do territ\u00f3rio. A rua define a exclus\u00e3o apenas se escolhemos ignorar suas leis de integra\u00e7\u00e3o ou de inclus\u00e3o diferenciada.<\/p>\n<h3>O estrangeiro como exclu\u00eddo<\/h3>\n<p>Segunda figura de exclu\u00eddos: o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/560006-mensagem-do-36-congresso-de-teologia-sobre-migrantes-refugiados-e-fronteiras-da-exclusao-a-hospitalidade\" target=\"_blank\">estrangeiro<\/a>, que est\u00e1 \u201caqui\u201d, mas que n\u00e3o \u00e9 \u201cdaqui\u201d, para fazer refer\u00eancia \u00e0 f\u00f3rmula de <strong>Georg Simmel<\/strong> [5]. Seja legal ou ilegal, a figura do estrangeiro (nacional, \u00e9tnico ou racial) corresponde \u00e0s popula\u00e7\u00f5es dotadas de um status especial que as permite coexistir na comunidade pol\u00edtica, mas as priva de certos direitos civis ou de certas atividades sociais. A exclus\u00e3o ocorre pela constru\u00e7\u00e3o de um status de exce\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 transit\u00f3rio. Mesmo que os estrangeiros sejam \u201cintegrados\u201d, eles s\u00e3o o primeiro alvo de discrimina\u00e7\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o quando a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds de acolhimento se degrada.<\/p>\n<h3>Isolamento<\/h3>\n<p>A <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=3916&amp;secao=364\" target=\"_blank\">terceira figura de exclu\u00eddos<\/a> corresponde \u00e0quela que \u00e9 produzida pelo conjunto de pr\u00e1ticas que consistem em construir ou em deixar construir os espa\u00e7os fechados \u2014 tecnicamente situados no espa\u00e7o da comunidade, mas separados dela: os asilos, os campos, as pris\u00f5es, os guetos etc. Essa exclus\u00e3o age sobre o princ\u00edpio do isolamento. A exclus\u00e3o \u00e9, ent\u00e3o, reclus\u00e3o: o exclu\u00eddo n\u00e3o \u00e9 expulso ou exilado do lugar comum; ele \u00e9 sobretudo proibido de sair da por\u00e7\u00e3o particular de territ\u00f3rio que lhe foi designada.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como a exclus\u00e3o confirma o ideal de inclus\u00e3o? O que realmente est\u00e1 em jogo nesse processo? \u00c9 poss\u00edvel pensar o processo de \u201cinclus\u00e3o\u201d como uma \u201cilus\u00e3o\u201d? Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<div class=\"news-citacao\">Os exclu\u00eddos n\u00e3o est\u00e3o fora da sociedade, mas exatamente nela: se eles n\u00e3o estivessem no interior do espa\u00e7o social, eles n\u00e3o estariam exclu\u00eddos, mas apenas em outros lugares<\/div>\n<p><strong>Magali Bessone &#8211;<\/strong> Os <strong>exclu\u00eddos<\/strong> n\u00e3o est\u00e3o fora da sociedade, mas exatamente nela: se eles n\u00e3o estivessem no interior do espa\u00e7o social, eles n\u00e3o estariam exclu\u00eddos, mas apenas em outros lugares. Desse modo, a sua \u201cexterioridade\u201d \u00e9 totalmente relativa e corresponde muito mais a uma situa\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o na estrutura\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica. Os \u201cexclu\u00eddos\u201d ocupam um lugar na comunidade, onde s\u00e3o os inclu\u00eddos que lhes atribuem uma fun\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pol\u00edtica ou ideol\u00f3gica. Mas esse lugar \u00e9 entendido a partir da garantia de que esses outros s\u00e3o inclu\u00eddos no sentido de \u201cdominantes\u201d: os <strong>inclu\u00eddos<\/strong> t\u00eam um acesso privilegiado aos recursos materiais e simb\u00f3licos e por isso s\u00e3o reconhecidos. Os processos de exclus\u00e3o s\u00e3o o duplo malef\u00edcio dos processos de inclus\u00e3o, que tendem a assimilar todos em uma \u201ccomunidade imagin\u00e1ria\u201d, corroborando para que aqueles que n\u00e3o estiveram presentes no momento da distribui\u00e7\u00e3o de normas e valores comuns estar\u00e3o sempre \u201cno entremeio\u201d ou \u00e0 margem. Os <strong>processos de inclus\u00e3o<\/strong> concebem imaginariamente o povo enquanto totalidade social e pol\u00edtica: baseiam-se em um conceito de povo isolado de suas condi\u00e7\u00f5es sociol\u00f3gicas reais, que negligencia as classes de vulnerabilidade diferentes que o atravessam; eles mobilizam um conceito de povo a-hist\u00f3rico, sem considerar a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica arbitr\u00e1ria da comunidade pol\u00edtica em si.<\/p>\n<p>Assim, no <strong>ideal de inclus\u00e3o<\/strong>, n\u00e3o ser exclu\u00eddo do povo n\u00e3o se refere a ser integrado no povo, mas a ser assimilado: assimilar significa \u201cadotar\u201d, e nessa incorpora\u00e7\u00e3o, nessa rela\u00e7\u00e3o de se apossar de algo, reside uma verdadeira viol\u00eancia. N\u00f3s perguntamos ao outro se ele quer de fato \u201centrar\u201d, renunciar \u00e0 diferen\u00e7a que o faz ser \u201coutro\u201d. Para n\u00e3o ser exclu\u00eddo, \u00e9 necess\u00e1rio que o indiv\u00edduo renuncie a suas caracter\u00edsticas identit\u00e1rias idiossincr\u00e1ticas e se funda no corpo social: \u00e9 preciso renunciar a sua l\u00edngua, sua religi\u00e3o, sua cultura, seu sotaque, seus h\u00e1bitos etc. Nada dever\u00e1 o diferenciar de um \u201cnativo\u201d na fantasia dessa fus\u00e3o indiferenci\u00e1vel de cada um dentro do todo. Ora, a representa\u00e7\u00e3o do corpo no qual ele quer entrar, desse \u201ctodo\u201d, \u00e9, na verdade, definida pelos dominantes, ou seja, aqueles que j\u00e1 possuem a capacidade de definir e que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de interferir de maneira arbitr\u00e1ria na capacidade do outro de agir e de se autodefinir.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; De qual ordem \u00e9 o projeto \u00e9tico a ser realizado a fim de superar a dial\u00e9tica que coloca os exclu\u00eddos de um lado e os inclu\u00eddos de outro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Magali Bessone &#8211;<\/strong> O projeto a ser realizado n\u00e3o me parece \u00e9tico, mas pol\u00edtico. Na sua dimens\u00e3o \u00e9tica, ele poderia servir para sustentar a aceita\u00e7\u00e3o\/ideia de que n\u00f3s somos todos \u201coutros\u201d, n\u00e3o somente para os outros (mesmo para os outros mais \u00edntimos, namorados, crian\u00e7as etc.), mas tamb\u00e9m para n\u00f3s mesmos. Se eu aceito que eu mesma n\u00e3o me conhe\u00e7o; que minha subjetividade \u00e9 atravessada por linhas de for\u00e7a; que eu n\u00e3o sou somente para um outro, mas tamb\u00e9m para mim, parcialmente exclu\u00eddo de um lugar, de uma rela\u00e7\u00e3o, de uma aspira\u00e7\u00e3o; que mesmo o meu \u201ceu\u201d n\u00e3o constitui uma totalidade incorporada, eu posso ent\u00e3o aceitar me abrir ao outro como a um outro eu mesmo, atravessado por contradi\u00e7\u00f5es e interdi\u00e7\u00f5es. Nessa acep\u00e7\u00e3o, o mais \u00edntimo (a rela\u00e7\u00e3o consigo) \u00e9 tamb\u00e9m o mais universal (a rela\u00e7\u00e3o com qualquer outra pessoa): em um encontro particular com o outro, qualquer outro, n\u00e3o importando os dados emp\u00edricos de nossas situa\u00e7\u00f5es respectivas, realizam-se sempre microrrela\u00e7\u00f5es de inclus\u00e3o e exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal abordagem tem como interesse colocar em quest\u00e3o a<strong> <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/555271-a-desigualdade-e-considerada-natural-entrevista-com-ricardo-petrella\" target=\"_blank\">desigualdade<\/a><\/strong>\u00a0ou a assimetria das situa\u00e7\u00f5es individuais, de revirar as certezas da inclus\u00e3o como continuidade e estabilidade das condi\u00e7\u00f5es de vida de alguns. Entretanto, essa posi\u00e7\u00e3o \u00e9tica n\u00e3o nos d\u00e1 nenhuma chave ou indica\u00e7\u00e3o para agir em circunst\u00e2ncias sociopol\u00edticas que definem sempre os exclu\u00eddos de maneira materialmente muito mais dram\u00e1tica. O <strong>projeto pol\u00edtico<\/strong> difere segundo o tipo de exclus\u00e3o colocado em pr\u00e1tica. Ele serviria para colocar em pr\u00e1tica as condi\u00e7\u00f5es sociais para que a voz dos exclu\u00eddos invisibilizados seja ouvida, ou seja, para lhes assegurar um status epist\u00eamico igual ao de qualquer membro da comunidade pol\u00edtica. Da mesma maneira, ele serviria para dar aos estrangeiros direitos iguais de participa\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es tomadas nas suas comunidades pol\u00edticas em que residem. Finalmente, serviria tamb\u00e9m para abrir os espa\u00e7os de reclus\u00e3o de tal maneira que n\u00e3o fossem entendidos como lugares de n\u00e3o direito, de menos direito, de relega\u00e7\u00e3o ou de abandono pelas pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Diante desse quadro, quais s\u00e3o os desafios a considerar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hospitalidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Magali Bessone &#8211;<\/strong> A <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=6737&amp;secao=499\" target=\"_blank\">hospitalidade<\/a>\u00a0repousa sobre a convic\u00e7\u00e3o de que pertencimento \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da cidadania \u2014 da participa\u00e7\u00e3o leg\u00edtima nas escolhas dos princ\u00edpios de justi\u00e7a que governam a sociedade. Podemos fazer um esfor\u00e7o e pensar ao contr\u00e1rio: a participa\u00e7\u00e3o como crit\u00e9rio pr\u00e9vio \u00e0 cidadania. O tratamento da <strong>imigra\u00e7\u00e3o<\/strong> pela <strong>hospitalidade<\/strong> traduz a tentativa de desassociar para os estrangeiros aquilo que \u00e9 associado para os cidad\u00e3os: o pol\u00edtico e a \u00e9tica \u2014 o que resulta na <strong>exclus\u00e3o dos estrangeiros<\/strong> da esfera leg\u00edtima do pol\u00edtico. A mobiliza\u00e7\u00e3o do discurso de hospitalidade tem como fun\u00e7\u00e3o incentivar um excesso de \u00e9tica na pr\u00e1tica das <strong>pol\u00edticas de imigra\u00e7\u00e3o<\/strong>. Contudo, se, na sua radicalidade, a exig\u00eancia \u00e9tica de hospitalidade tende a ir em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 abertura incondicionada ao outro, a pr\u00e1tica jur\u00eddico-pol\u00edtica do tratamento de imigra\u00e7\u00f5es imp\u00f5e a considera\u00e7\u00e3o de media\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pensar a presen\u00e7a do <strong>estrangeiro<\/strong> atrav\u00e9s de um modelo de um acolhimento absoluto, incondicionado, do outro \u201cem sua casa\u201d, tende a retirar da cr\u00edtica toda a capacidade de isso se realizar na a\u00e7\u00e3o ou no engajamento pol\u00edtico efetivo. \u00c9 preciso muito mais \u201cdeseticizar\u201d e repolitizar o status de cidadania independentemente da quest\u00e3o de pertencimento territorial original, desse espa\u00e7o fantasiado como \u201cnossa casa\u201d, propondo ent\u00e3o uma abordagem da cidadania como engajamento pol\u00edtico ativo, sem importar se somos \u201cdaqui\u201d ou \u201cde fora\u201d.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>[1] <strong>Sa\u00fal Karsz<\/strong>: soci\u00f3logo e fil\u00f3sofo franc\u00eas de origem polonesa-argentina, professor na Universidade da Sorbonne, na Fran\u00e7a. \u00c9 autor de L\u2019exclusion, d\u00e9finir pour en finir (Paris: \u00c9ditions Dunod, 2001). (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n<p>[2] <strong>Miranda Fricker<\/strong> (1966): fil\u00f3sofa inglesa, professora na Universidade de Sheffield e na City University of New York Graduate Center. \u00c9 autora de Epistemic Injustice: Power and the Ethics of Knowing (Oxford University Press, 2007). (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n<p>[3] \u201c<strong>Habitant des r\u00e9gions<\/strong>\u201d \u00e9 o nome dado aos franceses que n\u00e3o s\u00e3o habitantes da \u00cele-de-France e, sim, das demais regi\u00f5es da Fran\u00e7a. (Nota da tradu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>[4] \u201c<strong>Francilien<\/strong>\u201d \u00e9 o nome dado ao habitante da regi\u00e3o francesa \u00cele-de-France. (Nota da tradu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>[5] <strong>George Simmel<\/strong> (1858-1918): ocupou um lugar importante no debate alem\u00e3o de 1890 at\u00e9 a sua morte em 1918, final da I Guerra Mundial. Soube sintetizar a tradi\u00e7\u00e3o historicista de Dilthey e o kantismo de Rickert. Seu pensamento influenciou Weber, Heidegger, Jaspers, Lukacs, a Escola de Frankfurt, entre outros. Suas obras principais s\u00e3o: Diferencia\u00e7\u00e3o social (1890), Filosofia do Dinheiro (1900) e Quest\u00f5es fundamentais de sociologia (1917). Tamb\u00e9m publicou &#8220;Filosofia da moda&#8221;. O texto pode ser encontrado em \u201cFilosofia da Moda\u201d, In Simmel,G., Cultura Feminina, Lisboa: Galeria Panorama, 1969, pp107\/151. (Nota da <strong>IHU On-Line<\/strong>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A necessidade da participa\u00e7\u00e3o como crit\u00e9rio pr\u00e9vio \u00e0 cidadania. \u201cH\u00e1 exclu\u00eddos\u00a0\u2018na\u2019 e os exclu\u00eddos \u2018da\u2019<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"A necessidade da participa\u00e7\u00e3o como crit\u00e9rio pr\u00e9vio \u00e0 cidadania. \u201cH\u00e1 exclu\u00eddos\u00a0\u2018na\u2019 e os exclu\u00eddos \u2018da\u2019","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56799"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56799"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56799\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56799"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56799"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56799"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}