{"id":55993,"date":"2016-12-19T13:00:41","date_gmt":"2016-12-19T16:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=55993"},"modified":"2016-12-19T07:42:58","modified_gmt":"2016-12-19T10:42:58","slug":"adeus-aos-grandes-mamiferos-do-planeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/adeus-aos-grandes-mamiferos-do-planeta\/","title":{"rendered":"Adeus aos grandes mam\u00edferos do planeta, uma possibilidade cada vez mais real e prov\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?attachment_id=55994\" rel=\"attachment wp-att-55994\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-55994\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/animal_grande-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/animal_grande-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/animal_grande.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Um dos relatos mais importantes da fic\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea \u00e9 intitulado <em>O Grande Sil\u00eancio<\/em>. \u00c9 protagonizado (e contado) por um papagaio e tem pouco mais de quatro p\u00e1ginas. Seu autor \u00e9 Ted Chiang, um norte-americano especialista em tecnologia da informa\u00e7\u00e3o que, com um punhado de contos reveladores, entre eles o que inspirou o filme <em>A Chegada<\/em>, foi capaz de tocar nossas fibras mais sens\u00edveis. O p\u00e1ssaro-narrador mora ao lado do telesc\u00f3pio de Arecibo, na floresta de <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/puerto_rico\/a\">Porto Rico<\/a>, com o objetivo de tentar captar um som inteligente proveniente do espa\u00e7o exterior, examinando o chamado \u201csil\u00eancio do universo\u201d. No entanto, o papagaio se pergunta por que os humanos nunca tentaram falar com os seres de outras esp\u00e9cies com as quais compartilham o planeta: \u201cCentenas de anos atr\u00e1s, minha esp\u00e9cie era t\u00e3o abundante que nossas vozes ressoavam por todos os lugares. Hoje, estamos quase extintos. Em breve, a selva ser\u00e1 t\u00e3o silenciosa quanto o resto do universo\u201d. O <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/extincion_especies\/a\">desaparecimento da fauna<\/a> tem sido um pesadelo recorrente da fic\u00e7\u00e3o \u2013 o t\u00edtulo do livro de Philip K. Dick, no qual <em>Blade Runner<\/em> foi baseado, \u00e9 <em>Androides Sonham Com Ovelhas El\u00e9tricas?,<\/em> porque descreve um mundo de megacidades nas quais n\u00e3o existem animais \u2013, mas que agora \u00e9 um processo j\u00e1 em andamento. \u00c9 o que se chama a sexta extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 o acontecimento mais importante de nosso tempo. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grave. Na verdade, n\u00e3o poderia ser mais grave\u201d, diz Elizabeth Kolbert, jornalista norte-americana que no ano passado ganhou o Pr\u00eamio Pulitzer por seu livro cujo t\u00edtulo \u00e9 precisamente <em>A Sexta Extin\u00e7\u00e3o \u2013<\/em> <em>Uma Hist\u00f3ria N\u00e3o Natural,<\/em> que o presidente Barack Obama recomendou em numerosas ocasi\u00f5es. \u201c\u00c9 importante perceber que alguns ecossistemas, como recifes de coral, est\u00e3o entrando em colapso atualmente\u201d, acrescenta a jornalista da revista <em>The New Yorker<\/em>. E a <em>National Geographic<\/em>, em um artigo recente, levantou a quest\u00e3o de forma ainda mais dram\u00e1tica: \u201cOs seres humanos sobreviver\u00e3o \u00e0 sexta extin\u00e7\u00e3o?\u201d.<\/p>\n<p>Nos quatro bilh\u00f5es de anos que se passaram desde o in\u00edcio da vida na Terra, houve cinco epis\u00f3dios de extin\u00e7\u00e3o em massa de esp\u00e9cies. O mais famoso de todos ocorreu 66 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, no Cret\u00e1ceo, quando o impacto de um meteorito causou a aniquila\u00e7\u00e3o dos dinossauros e de 80% das esp\u00e9cies terrestres. No entanto, esta sexta extin\u00e7\u00e3o tem uma diferen\u00e7a fundamental com as outras: somos os respons\u00e1veis. Desde o ano 1500, 322 esp\u00e9cies foram extintas, mas agora o processo est\u00e1 em plena acelera\u00e7\u00e3o. Anthony Barnosky, paleobi\u00f3logo na Universidade Stanford (EUA) e especialista no funcionamento de ecossistemas, resume a situa\u00e7\u00e3o: \u201cSe n\u00e3o tomarmos medidas diante da atual crise, os netos de nossos filhos viver\u00e3o em um mundo no qual tr\u00eas quartas partes das esp\u00e9cies que existem na atualidade ter\u00e3o desaparecido para sempre\u201d. Nos oceanos, continua Barnosky, muitos dos animais dos quais nos alimentamos, como o atum, ter\u00e3o tamb\u00e9m desaparecido.<\/p>\n<p>Um planeta no qual n\u00e3o existam le\u00f5es, tigres, rinocerontes, girafas ou elefantes em liberdade, animais com os quais a humanidade vem sonhando pelo menos desde que os pintou nas paredes da caverna Chauvet, h\u00e1 33.000 anos, \u00e9 uma possibilidade cada vez mais real e prov\u00e1vel. Essa tamb\u00e9m \u00e9 a conclus\u00e3o de uma equipe internacional de cientistas, que publicou em outubro o relat\u00f3rio <em><a href=\"http:\/\/bioscience.oxfordjournals.org\/content\/suppl\/2016\/07\/25\/biw092.DC1\/Ripple_Megafauna_SuppMaterial_authors_listed.pdf\" target=\"_blank\">Saving the World&#8217;s Megafauna<\/a><\/em> (Salve a Megafauna do Mundo) na revista <em>Bioscience<\/em>, da Universidade de Oxford (Reino Unido).<\/p>\n<p>O estudo conclu\u00eda: \u201c<a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/06\/17\/ciencia\/1466174179_760603.html\">A maioria da megafauna de mam\u00edferos enfrenta dram\u00e1ticas redu\u00e7\u00f5es<\/a> de seu \u00e2mbito geogr\u00e1fico e decl\u00ednios populacionais significativos. De fato, 59% dos maiores carn\u00edvoros e 60% dos herb\u00edvoros de grande porte est\u00e3o amea\u00e7ados de extin\u00e7\u00e3o. Esta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 particularmente cr\u00edtica na \u00c1frica Subsaariana e no sudeste Asi\u00e1tico, lugares que abrigam a maior diversidade de megafauna existente. O grupo de esp\u00e9cies em risco de extin\u00e7\u00e3o inclui alguns dos animais mais emblem\u00e1ticos do mundo, como os gorilas, rinocerontes e grandes felinos. Ironicamente, essas esp\u00e9cies est\u00e3o desaparecendo justamente quando se torna cada vez mais evidente o papel t\u00e3o essencial que desempenham nos ecossistemas\u201d.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, tem aumentado o n\u00famero de pesquisas cient\u00edficas de todos os tipos de centros de estudo e universidades, que tra\u00e7am um panorama cada vez mais preocupante. Para citar apenas as mais recentes, em outubro passado a organiza\u00e7\u00e3o de conserva\u00e7\u00e3o global WWF publicou a \u00faltima edi\u00e7\u00e3o de seu <em>\u00cdndice Planeta Vivo<\/em>, um relat\u00f3rio bianual que monitora 14.152 popula\u00e7\u00f5es de 3.706 esp\u00e9cies, e conclu\u00eda que, entre 1970 e 2012, houve um decl\u00ednio de 58% desses animais em todo o mundo. Se a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o melhorar, a WWF indicou que, em 2020, dois ter\u00e7os dos animais selvagens ter\u00e3o desaparecido em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quantidade de 1970 (uma queda de 67%).<\/p>\n<p>No in\u00edcio de dezembro, foram publicados dois dados que mostram at\u00e9 que ponto a sexta extin\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno global: a <em>Lista Vermelha de Esp\u00e9cies Amea\u00e7adas<\/em>, divulgada pela Uni\u00e3o Internacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza, o \u00edndice mais utilizado e citado para monitorar os animais que est\u00e3o em perigo, indicou que mais de metade das raias, tubar\u00f5es e quimeriformes (uma ordem de peixes cartilaginosos) do Mediterr\u00e2neo \u2013 73 esp\u00e9cies no total \u2013 est\u00e1 em risco de extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><a class=\"enlace\" title=\"pulsa en la foto\" href=\"http:\/\/danielbeltra.photoshelter.com\/index\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"Fragmentos de gelo em um lago da Groenl\u00e2ndia.\" src=\"http:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2016\/12\/16\/ciencia\/1481903192_602045_1481905105_sumario_normal.jpg\" srcset=\" http:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2016\/12\/16\/ciencia\/1481903192_602045_1481905105_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, http:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2016\/12\/16\/ciencia\/1481903192_602045_1481905105_sumario_normal_recorte2.jpg 720w , http:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2016\/12\/16\/ciencia\/1481903192_602045_1481905105_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Fragmentos de gelo em um lago da Groenl\u00e2ndia.\" width=\"639\" height=\"426\" \/> <span class=\"boton_ampliar\">pulsa en la foto<\/span> <\/a><figcaption class=\"foto-pie\">Fragmentos de gelo em um lago da Groenl\u00e2ndia. <span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">Daniel Beltra<\/span> <\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>A mesma institui\u00e7\u00e3o publicou, em 8 de dezembro, um outro relat\u00f3rio informando que um dos animais mais emblem\u00e1ticos e reconhecidos, a girafa, o mam\u00edfero mais alto do mundo, est\u00e1 sofrendo \u201c<a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/12\/08\/ciencia\/1481191687_702924.html\">um decl\u00ednio devastador em suas popula\u00e7\u00f5es<\/a> devido \u00e0 perda de habitat, guerras civis e ca\u00e7a ilegal\u201d. Sua popula\u00e7\u00e3o mundial diminuiu em 40% em 30 anos. No total, a Lista Vermelha inclui 85.604 esp\u00e9cies, das quais 24.307 est\u00e3o amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Parafraseando o grande Ennio Flaiano, poder\u00edamos dizer que, neste caso, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 grave e tamb\u00e9m muito s\u00e9ria. Os caminhos percorridos pela natureza quando as esp\u00e9cies desaparecem s\u00e3o imprevis\u00edveis, porque elas dependem umas das outras e, se uma parte do sistema falhar, \u00e9 dif\u00edcil saber como ir\u00e1 se reequilibrar.<\/p>\n<p>A maioria dos cientistas que estuda a sexta extin\u00e7\u00e3o chegou \u00e0 mesma conclus\u00e3o: trata-se de um processo cont\u00ednuo, mas pode ser revers\u00edvel. \u201cN\u00e3o \u00e9 tarde demais\u201d, afirmou Jonathan L. Payne, professor adjunto da Universidade Stanford (EUA) e um dos autores de outro relat\u00f3rio, publicado em setembro pela revista <em>Science<\/em>, que anunciava uma extin\u00e7\u00e3o \u201csem precedentes\u201d dos grandes animais marinhos. \u201cA porcentagem de esp\u00e9cies que j\u00e1 est\u00e3o extintas ainda \u00e9 bem inferior ao porcentual que desapareceu em epis\u00f3dios anteriores.\u201d<\/p>\n<p>O bi\u00f3logo Jos\u00e9 Vicente L\u00f3pez-Bao, pesquisador da Universidade de Oviedo, na Espanha, que participou do relat\u00f3rio <em>Saving the World&#8217;s Megafauna<\/em>, afirma: \u201cAs sociedades modernas devem exigir um maior compromisso pol\u00edtico em mat\u00e9ria de conserva\u00e7\u00e3o, incluindo respeitar as decis\u00f5es adotadas nos tratados e conven\u00e7\u00f5es internacionais, coordenar esfor\u00e7os e um maior apoio financeiro para a conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade. Do contr\u00e1rio, muitas popula\u00e7\u00f5es e esp\u00e9cies correm risco de n\u00e3o chegar ao pr\u00f3ximo s\u00e9culo\u201d.<\/p>\n<p>Elizabeth Kolbert acrescenta: \u201c\u00c9, obviamente, muito tarde para muitas criaturas que j\u00e1 est\u00e3o extintas ou foram reduzidas a alguns poucos indiv\u00edduos. Mas n\u00e3o \u00e9 para milh\u00f5es de esp\u00e9cies\u201d. Ao comentar a influ\u00eancia neste processo das poss\u00edveis pol\u00edticas do presidente eleito dos EUA, Donald Trump \u2013 que nomeou como chefe da Ag\u00eancia de Meio Ambiente <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/12\/08\/internacional\/1481165064_394182.html\">um negacionista da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, Scott Pruitt<\/a> \u2013, Kolbert disse: \u201cTenho medo de que as coisas piorem\u201d.<\/p>\n<p>A sexta extin\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas produto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u2013 exceto no caso de animais como ursos polares, que, com a redu\u00e7\u00e3o da camada de gelo, perdem a capacidade de ca\u00e7ar \u2013, mas tamb\u00e9m de um conjunto de fatores que t\u00eam um ponto em comum: a humanidade. Por exemplo, o desmatamento, o desaparecimento de habitats, o aumento das terras dedicadas \u00e0 agricultura e \u00e0 pecu\u00e1ria, a ca\u00e7a ilegal, o com\u00e9rcio ilegal de esp\u00e9cies (o tr\u00e1fico de marfim pode eliminar os elefantes do planeta, e uma forma de culin\u00e1ria pode extinguir o pangolim, um tatu asi\u00e1tico) ou a explora\u00e7\u00e3o descontrolada (no caso de muitas esp\u00e9cies marinhas).<\/p>\n<p>Jonathan L. Payne explica: \u201cAs mudan\u00e7as no clima (aquecimento global acelerado) e nos oceanos (acidifica\u00e7\u00e3o e decl\u00ednio de oxig\u00eanio) ocorreram durante extin\u00e7\u00f5es em massa anteriores. No entanto, nossas an\u00e1lises sugerem que as mudan\u00e7as biol\u00f3gicas que estamos experimentando, particularmente a extin\u00e7\u00e3o seletiva de esp\u00e9cies de todos os tipos, s\u00e3o diferentes de qualquer processo anterior\u201d.<\/p>\n<p>A humanidade vem h\u00e1 muitos s\u00e9culos moldando a terra: basta visitar as M\u00e9dulas, em Le\u00f3n (Espanha), uma paisagem que os romanos forjaram com suas explora\u00e7\u00f5es de minas, ou imaginar a quantidade de res\u00edduos que Roma produzia em seu m\u00e1ximo esplendor, uma cidade onde viviam um milh\u00e3o de pessoas no s\u00e9culo I, para notarmos nossa capacidade de alterar o ambiente. E as mudan\u00e7as come\u00e7aram provavelmente muito antes: um estudo publicado em novembro pelos professores Jed Kaplan, da Universidade de Lausanne, e Jan Kolen, da Universidade de Leiden, concluiu que cerca de 20.000 anos atr\u00e1s, em plena Idade do Gelo, os ca\u00e7adores coletores queimaram grandes extens\u00f5es de floresta e, portanto, transformaram radicalmente seu ambiente. No entanto, nada se compara ao processo no qual estamos imersos hoje, embora alguns cientistas afirmem que n\u00e3o \u00e9 a primeira extin\u00e7\u00e3o em massa causada pela humanidade.<\/p>\n<p>O Homo sapiens surgiu h\u00e1 cerca de 200.000 anos na \u00c1frica, e sua expans\u00e3o coincide com diferentes extin\u00e7\u00f5es, especialmente da chamada megafauna pr\u00e9-hist\u00f3rica, dos tigres de dentes de sabre aos mamutes. Mais e mais cientistas acreditam que nossos antepassados foram diretamente respons\u00e1veis pelo desaparecimento dessas esp\u00e9cies (e de outros representantes do g\u00eanero <em>homo<\/em>, como os neandertais). O debate est\u00e1 aberto, porque tamb\u00e9m ocorreram grandes <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cambio_climatico\/a\">mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/a>, mas a maioria das evid\u00eancias aponta para a atividade humana.<\/p>\n<p>Jean-Jacques Hublin, pesquisador do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, argumentava em uma recente confer\u00eancia que, enquanto esses animais desapareceram muito r\u00e1pido na \u00c1frica, na Europa esse fen\u00f4meno n\u00e3o ocorreu at\u00e9 a expans\u00e3o do Homo sapiens. Em outras palavras: primeiro os matamos na \u00c1frica, e depois na Europa. A chegada de nossa esp\u00e9cie na Austr\u00e1lia, h\u00e1 cerca de 50.000 anos, \u00e9 um grande mist\u00e9rio, porque tivemos que viajar por mar durante um per\u00edodo em que n\u00e3o sab\u00edamos navegar (ou pelo menos n\u00e3o h\u00e1 vest\u00edgios arqueol\u00f3gicos para provar isso). Como Elizabeth Kolbert explica em seu livro, 10.000 anos depois desse evento, a megafauna australiana havia desaparecido. \u201cA chegada do homem parece ser a \u00fanica explica\u00e7\u00e3o\u201d, escreve.<\/p>\n<p>No entanto, aquele desaparecimento afetou apenas um tipo de animal. O que est\u00e1 acontecendo na atualidade inclui numerosas esp\u00e9cies de todos os tamanhos. Muitos cientistas acreditam que entramos em uma nova era geol\u00f3gica, o Antropoceno, que teria come\u00e7ado por volta de 1950 \u2013 foi uma das conclus\u00f5es de uma recente confer\u00eancia realizada em setembro na \u00c1frica do Sul. Sua principal caracter\u00edstica em compara\u00e7\u00e3o com a \u00e9poca anterior, o Holoceno, s\u00e3o os efeitos da humanidade sobre o meio ambiente. \u201cO Antropoceno \u00e9 o momento em que os seres humanos mudam o ciclo de vida do planeta\u201d, disse o cientista espanhol Alejandro Cearreta.<\/p>\n<p>Para o professor Mark Williams, especialista em paleobiologia da Universidade de Leicester e um dos principais estudiosos do Antropoceno, \u201co impacto dos seres humanos sobre a biosfera \u00e9 dram\u00e1tica e n\u00e3o se trata apenas da sexta extin\u00e7\u00e3o\u201d. Williams afirma que quatro dados fornecem as chaves para entender a radicalidade dessas mudan\u00e7as: o enorme consumo de plantas e animais por seres humanos (97% dos mam\u00edferos terrestres s\u00e3o seres humanos e os animais que comem, e apenas 3% s\u00e3o criaturas selvagens); o movimento de plantas e animais em todo o mundo, fora de seus habitats naturais; as mudan\u00e7as dr\u00e1sticas em nossas paisagens (que afetam cerca de 75% da superf\u00edcie terrestre n\u00e3o coberta por gelo), e a intera\u00e7\u00e3o entre a biosfera e tecnologia. A sexta extin\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos muitos sinais dessa transforma\u00e7\u00e3o profunda que leva o planeta, e todos os que vivem nele, a um destino incerto.<\/p>\n<p>As extin\u00e7\u00f5es s\u00e3o um sinal de movimentos muito mais profundos, ind\u00edcios de grandes mudan\u00e7as. O primeiro animal que os humanos tiveram consci\u00eancia de ter exterminado foi o dod\u00f4, um p\u00e1ssaro n\u00e3o voador da ilha Maur\u00edcio que foi ca\u00e7ado (principalmente por divers\u00e3o) at\u00e9 sua aniquila\u00e7\u00e3o durante o s\u00e9culo XVII. Pela primeira vez, percebemos que, depois de matar o \u00faltimo dod\u00f4, j\u00e1 n\u00e3o havia nenhum outro. Mas esse p\u00e1ssaro m\u00edtico \u2013 que <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/03\/12\/cultura\/1394641626_727990.html\">Lewis Carroll<\/a> representou em <em>Alice no Pa\u00eds das Maravilhas<\/em> \u2013 n\u00e3o s\u00f3 simboliza as esp\u00e9cies amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m foi um dos primeiros sinais do que viria a acontecer no resto do planeta com a expans\u00e3o colonial dos europeus. O final do dod\u00f4 foi o in\u00edcio de uma transforma\u00e7\u00e3o muito mais radical. O mesmo, em uma escala muito maior, pode ser dito da sexta extin\u00e7\u00e3o. Ainda depende de n\u00f3s que n\u00e3o seja o pre\u00e2mbulo do grande sil\u00eancio antecipado pelo conto do papagaio de Ted Chiang.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos relatos mais importantes da fic\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea \u00e9 intitulado O Grande Sil\u00eancio. \u00c9 protagonizado<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":55994,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/animal_grande.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/animal_grande-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/animal_grande-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/animal_grande.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/animal_grande.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/animal_grande.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/animal_grande.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/animal_grande.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/animal_grande.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/animal_grande.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Um dos relatos mais importantes da fic\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea \u00e9 intitulado O Grande Sil\u00eancio. \u00c9 protagonizado","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55993"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55993"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55993\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/55994"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55993"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55993"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55993"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}