{"id":55043,"date":"2016-12-05T08:04:21","date_gmt":"2016-12-05T11:04:21","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=55043"},"modified":"2016-12-05T08:04:22","modified_gmt":"2016-12-05T11:04:22","slug":"bacia-do-santa-maria-tem-16-de-area-degradada-que-agrava-a-seca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/bacia-do-santa-maria-tem-16-de-area-degradada-que-agrava-a-seca\/","title":{"rendered":"Bacia do Santa Maria tem 16% de \u00e1rea degradada que agrava a seca"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/bacia-do-santa-maria-tem-16-de-area-degradada-que-agrava-a-seca\/degradada\/\" rel=\"attachment wp-att-55044\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-55044\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/degradada-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/degradada-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/degradada.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>De cima, recortes imensos de terra exposta, sem mata, sem vida. Os rios, sem \u00e1gua e repletos de bancos de areia. Esse foi o cen\u00e1rio encontrado em um sobrevoo que nossa equipe fez no dia tr\u00eas de novembro.<\/p>\n<p>Hoje, com a chegada das chuvas, a \u00e1gua voltou a correr em alguns rios, mas isso n\u00e3o significa que o cen\u00e1rio se reverteu. A paisagem continua marcada pela degrada\u00e7\u00e3o e os rios pelo assoreamento.<\/p>\n<p>O <a class=\"premium-tip\" href=\"http:\/\/g1.globo.com\/tudo-sobre\/espirito-santo\">Esp\u00edrito Santo<\/a> tem cerca de 16% de cobertura florestal. Pode-se dizer que 40% da \u00e1rea total do estado \u00e9 de pasto e que parte consider\u00e1vel disso \u00e9 de pasto degradado.<\/p>\n<p>De acordo com um estudo feito pelo Centro de Desenvolvimento do Agroneg\u00f3cio (Cedagro), em 2012, a Bacia do Santa Maria do Rio Doce tem uma \u00e1rea de degrada\u00e7\u00e3o relativa de quase 16%. \u00c9 a maior \u00e1rea de degrada\u00e7\u00e3o das bacias estudadas. Seguida pela bacia do Rio Guandu, com 15,73%, e do Santa Joana, com 15,36%.<\/p>\n<p>Essa degrada\u00e7\u00e3o se deve a fatores como a baixa cobertura florestal, o manejo inadequado das \u00e1reas agr\u00edcolas, a elevada exposi\u00e7\u00e3o do solo, por conta da baixa cobertura florestal, e o relevo com alta declividade. O Santa Maria do Doce e o Santa Joana s\u00e3o afluentes do Rio Doce. E o n\u00edvel de degrada\u00e7\u00e3o deles e dos outros rios que desaguam l\u00e1 contribuem com a situa\u00e7\u00e3o atual do Rio Doce.<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-620\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"Lama atingiu o Rio Doce em Linhares no dia 21 de novembro (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o \/ Lu Marini)\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/yzzMIOki1fNj924YbF5NLAxVits=\/620x465\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2016\/09\/23\/linhares2pq.jpg\" alt=\"Lama atingiu o Rio Doce em Linhares no dia 21 de novembro (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o \/ Lu Marini)\" width=\"639\" height=\"479\" \/><strong>Lama atingiu o Rio Doce em Linhares no dia 21 de novembro (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o \/ Lu Marini)<\/strong><\/div>\n<p>Isso \u00e9 resultado de um processo hist\u00f3rico. Um processo que se iniciou em \u00e9pocas diferentes para cada local do estado.<\/p>\n<p>O engenheiro agr\u00f4nomo e especialista em recursos h\u00eddricos, Henrique Lobo, explica que no final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX, o desmatamento de algumas \u00e1reas se iniciou com a chegada de imigrantes europeus, que precisavam de espa\u00e7o para montar col\u00f4nia no Esp\u00edrito Santo. Isso, principalmente, na regi\u00e3o das montanhas. Mas era um desmatamento menor, para as fam\u00edlias se estabelecerem.<\/p>\n<p>Com o tempo, come\u00e7ou a introdu\u00e7\u00e3o das lavouras de caf\u00e9. Na regi\u00e3o Norte do estado, a mata come\u00e7ou a desaparecer durante um ciclo que foi da d\u00e9cada de 50 at\u00e9 a de 70, com a constru\u00e7\u00e3o e o asfaltamento da BR 101.<\/p>\n<p>Durante esses 20 anos, grande parte das florestas do norte deu lugar \u00e0s pastagens. Nessa \u00e9poca, a cultura era outra. Os produtores precisavam \u201cabrir a mata\u201d para produzir, e eles foram estimulados a isso. Na d\u00e9cada de 60, eram colocados cinco bois por hectare de pastagem.<\/p>\n<p>Hoje, a m\u00e9dia \u00e9 de 0,8 cabe\u00e7a por hectare. Atualmente, a Bacia do Rio Doce, maior e principal do estado, tem apenas 11% de floresta nativa, a Mata Atl\u00e2ntica. Henrique Lobo afirma que \u00e9 uma das bacias mais degradadas do Sudeste, pode-se dizer que at\u00e9 do Brasil.<\/p>\n<p>Paulo Macarini, agricultor de Colatina, vivenciou esse processo. Ele relembra como era a mentalidade da \u00e9poca: \u201ccoisa linda, era s\u00f3 arrancar e plantar\u201d. Mas hoje o pensamento dele \u00e9 outro, o que ele viveu ensinou a import\u00e2ncia que a mata tem para a continuidade da agricultura.<\/p>\n<p>A seca veio de uma forma t\u00e3o intensa que obrigou Paulo a arrancar seis mil p\u00e9s de caf\u00e9, quase metade do seu cafezal. A situa\u00e7\u00e3o chegou a um ponto que o agricultor pensou que pudesse ficar sem \u00e1gua para beber. \u201cNunca esperava uma coisa dessas, coisa mais dif\u00edcil que a gente viu na nossa vida. Estou com 66 anos, vou fazer agora em janeiro, e nunca vi isso na vida. De secar os c\u00f3rregos, o a\u00e7ude nosso seco&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Agora, ele reflete que a for\u00e7a com que essa estiagem foi sentida tem rela\u00e7\u00e3o direta com o modo como a ocupa\u00e7\u00e3o aconteceu no passado. \u201cFoi n\u00f3s mesmo, n\u00e9? O ser humano\u2026 Foi cortando mata, derrubando \u00e1rvore, achava que isso nunca vinha pra n\u00f3s, t\u00e1 entendendo? Talvez podia vir para os filhos da gente, para os netos. E todo mundo geralmente n\u00e3o pensava isso\u201d, fala Paulo.<\/p>\n<p>Mais de 16% da \u00e1rea agr\u00edcola estadual \u00e9 degradada o que equivale a 393.321,55 hectares. A pastagem corresponde a maior parte dessa \u00e1rea, com 238.943,66 hectares, em seguida vem o caf\u00e9 com 118.706,79 hectares.<\/p>\n<p>Dado da mesma pesquisa feita pelo Cedagro. Este estudo conceitua solo degradado como o solo em que a camada superficial, local onde se concentram os nutrientes e a mat\u00e9ria org\u00e2nica, foi parcialmente ou completamente removida ou compactada de forma que prejudique as atividades agr\u00edcolas. A regi\u00e3o do estado com maior \u00e1rea agr\u00edcola degradada em rela\u00e7\u00e3o a \u00e1rea total da regi\u00e3o \u00e9 o Noroeste, com 11,36%.<\/p>\n<p>Realidade bem conhecida por C\u00e9sar Santos Carvalho, engenheiro florestal e extensionista do Incaper em Colatina. Ele refor\u00e7a que essa chuva que tem ca\u00eddo n\u00e3o vai reverter uma situa\u00e7\u00e3o que chegou a esse ponto ocasionada por pr\u00e1ticas extrativistas antigas.<\/p>\n<p>\u201cNa verdade o que estamos percebendo \u00e9 que seca vai hibernar por um per\u00edodo e voltar nos pr\u00f3ximos anos devido ao est\u00e1gio que a nossa bacia hidrogr\u00e1fica se encontra. O est\u00e1gio de conserva\u00e7\u00e3o de \u00e1gua \u00e9 muito baixo, pr\u00e1ticas extrativistas ainda muito fortes, colocando nosso solo exposto. Com n\u00edvel de eros\u00e3o grande, degrada\u00e7\u00e3o grande, perdendo muita \u00e1gua\u201d, destaca o engenheiro.<\/p>\n<p>Ele acredita que este n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um problema ambiental. A degrada\u00e7\u00e3o do solo em n\u00edveis t\u00e3o extremos pode levar \u00e0 desertifica\u00e7\u00e3o, o que leva a um cen\u00e1rio de pobreza. Por isso, \u00e9 t\u00e3o urgente que se discuta isso.<\/p>\n<p>Para o especialista, o maior erro ainda consiste em olhar para terra acreditando que a fertilidade \u00e9 infinita. Sem pensar que para plantar \u00e9\u00a0 preciso ter o cuidado de retornar para o solo aquilo que \u00e9 tirado.<\/p>\n<p>E existem medidas relativamente simples que o produtor rural pode tomar para diminuir o impacto, como:\u00a0 ado\u00e7\u00e3o de caixas secas, tecnologia usada para ajudar a reter \u00e1gua e a infiltrar \u00e1gua no solo; evitar a capina, a\u00e7\u00e3o que agride o solo; escolher o local ideal para se fazer uma estrada rural, e n\u00e3o contribuir com o deslocamento de terra; fazer represas em pontos estrat\u00e9gicos; preservar a mata, dando aten\u00e7\u00e3o especial a \u00e1reas de recarga h\u00eddrica.<\/p>\n<p>Fazer um planejamento de produ\u00e7\u00e3o de forma com que seja sustent\u00e1vel. \u201cEntender que onde tinha mata passou para o caf\u00e9, o solo empobreceu, chegou no capim e hoje nem o capim est\u00e1 saindo \u00e9 uma consequ\u00eancia\u201d, explica C\u00e9sar falando sobre o uso inadequado do solo.<\/p>\n<p>Esses cuidados est\u00e3o diretamente relacionados com o ciclo hidrol\u00f3gico. Um solo pobre, compactado, sem cobertura vegetal, tem a capacidade de absor\u00e7\u00e3o de \u00e1gua drasticamente reduzida.<\/p>\n<p>C\u00e9sar explica que o solo \u00e9 o reservat\u00f3rio natural de \u00e1gua. Se a \u00e1gua n\u00e3o infiltra, n\u00e3o tem \u00e1gua nas nascentes, nem nos rios. \u201cA partir do momento que o produtor entende que a \u00e1gua que infiltra no terreno \u00e9 a \u00e1gua que alimenta o c\u00f3rrego dele, ele pensa eu tenho que conter esse escoamento superficial&#8221;, explica o especialista.<\/p>\n<p>Outro problema proveniente da degrada\u00e7\u00e3o do solo \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de grandes bancos de areia nos rios, principalmente nesta \u00e9poca de seca. Quando o solo est\u00e1 desprotegido, na \u00e9poca das chuvas a terra desliza para os cursos de \u00e1gua e isso faz com que aconte\u00e7a o assoreamento dos rios.<\/p>\n<p>A cobertura vegetal tem o papel de reter essa \u00e1gua e at\u00e9 mesmo diminuir sua velocidade, evitando assim a eros\u00e3o do solo e o ac\u00famulo de sedimentos nos cursos de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desse grave problema ocasionado pelo uso inadequado do solo, para se entender o cen\u00e1rio atual, deve-se considerar v\u00e1rios outros fatores que potencializam essa situa\u00e7\u00e3o. A degrada\u00e7\u00e3o do solo n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica causa. A situa\u00e7\u00e3o atual, que trouxe e vai continuar trazendo tantos impactos para o campo e para a cidade, \u00e9 complexa.<\/p>\n<p>O professor do Ifes, Abrah\u00e3o Elesbon, doutor em engenharia agr\u00edcola, resume as cinco principais quest\u00f5es relacionadas ao problema. Ele tamb\u00e9m ressalta que apenas a primeira n\u00e3o \u00e9 causada pelo homem.<\/p>\n<p>O primeiro fator \u00e9 o evento climatol\u00f3gico, ou seja, a falta de \u00e1gua &#8211; uma das mais fortes estiagens da hist\u00f3ria -; em seguida, o aumento do consumo, a demanda crescente por \u00e1gua, por comida; o terceiro motivo \u00e9 o uso inadequado do solo da bacia, em teoria, na \u00e9poca de chuva a \u00e1gua deveria infiltrar no solo para que o ciclo hidrol\u00f3gico continuasse na \u00e9poca de estiagem, o que n\u00e3o acontece por causa da alta degrada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O outro motivo \u00e9 a qualidade da \u00e1gua considerando as v\u00e1rias formas de polui\u00e7\u00e3o, seja por produtos qu\u00edmicos ou por esgoto, e, por \u00faltimo, mas igualmente importante, a degrada\u00e7\u00e3o socioambiental da popula\u00e7\u00e3o, que potencializa o uso inadequado dos recursos naturais.<\/p>\n<p>Dentro dessas causas, o professor aponta alguns n\u00fameros impactantes que demonstram como a sociedade necessita de uma transforma\u00e7\u00e3o radical no modo como lida com os recursos naturais.<\/p>\n<p>Por exemplo, dos quase 230 munic\u00edpios que formam a Bacia do Rio Doce, apenas oito tratam o esgoto.<\/p>\n<p>Ou seja, o restante joga o res\u00edduo direto nos rios. \u201cOs nossos animais n\u00e3o fazem suas necessidades na \u00e1gua que tomam. N\u00f3s, seres humanos, que dever\u00edamos ser os racionais, fazemos. Isso \u00e9 algo que n\u00e3o \u00e9 admiss\u00edvel mais\u201d, diz Abrah\u00e3o.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o que ainda precisa avan\u00e7ar \u00e9 a \u00e1gua usada na agricultura, que \u00e9 corresponde a cerca de 70% do total do recurso captado. A m\u00e9dia de efici\u00eancia da irriga\u00e7\u00e3o no estado \u00e9 de 60 a 65%. Muita \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 aproveitada.<\/p>\n<p>E a irriga\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de simular chuva artificial, \u00e9 preciso ter conhecimento para fornecer \u00e0 planta apenas o que ela precisa para o seu desenvolvimento.<\/p>\n<p>Seja no campo ou na cidade, o que \u00e9 necess\u00e1rio \u00e9 usar a crise como forma de reflex\u00e3o e para implementar uma mudan\u00e7a efetiva na rela\u00e7\u00e3o com os recursos naturais.<\/p>\n<p>Os especialistas j\u00e1 previam a chegada de um momento como este, a hist\u00f3ria apontou para este caminho. \u201cPara mim isso \u00e9 uma trag\u00e9dia anunciada, h\u00e1 mais 20 anos que a gente, profissionalmente, vem sendo forjado nessa \u00e1rea. Esse cen\u00e1rio j\u00e1 era esperado. N\u00e3o tem nada de estranho. Podemos voltar a ter chuvas regulares, se a demanda de \u00e1gua continuar nesse n\u00edvel, vai continuar faltando \u00e1gua. Chegar na \u00e9poca da seca, os conflitos surgem novamente, os rios v\u00e3o secar novamente\u201d, afirma C\u00e9sar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De cima, recortes imensos de terra exposta, sem mata, sem vida. 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