{"id":54685,"date":"2016-11-29T12:00:21","date_gmt":"2016-11-29T15:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=54685"},"modified":"2016-11-29T11:33:08","modified_gmt":"2016-11-29T14:33:08","slug":"a-ecologia-deles-e-a-nossa-na-evolucao-das-relacoes-entre-o-capitalismo-e-a-natureza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/a-ecologia-deles-e-a-nossa-na-evolucao-das-relacoes-entre-o-capitalismo-e-a-natureza\/","title":{"rendered":"A ecologia deles e a nossa na evolu\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre o capitalismo e a natureza"},"content":{"rendered":"<p><strong><em><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?attachment_id=54686\" rel=\"attachment wp-att-54686\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-54686\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/exigencias_ecologicas-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/exigencias_ecologicas-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/exigencias_ecologicas.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Por Razmig Keucheyan*<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>H\u00e1 mais de 40 anos, fil\u00f3sofo Andr\u00e9 Gorz alertava: capitalismo tentaria capturar causas ambientais. Ant\u00eddoto: a ideia radical de que uma boa vida n\u00e3o est\u00e1 ligada a privil\u00e9gios, mas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do Comum.<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 42 anos, em 1974, Andr\u00e9 Gorz publicava na revista Le sauvage um texto famoso, intitulado Leur \u00e9cologie et la n\u00f4tre. Le Monde diplomatique reeditou em 2010 extratos desse texto. E compreende-se porque: \u00e9 simplesmente espantosa a previs\u00e3o de Gorz, sua capacidade de antecipar a evolu\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre o capitalismo e a natureza. Gorz descreve desde 1974 o mundo em que o nosso est\u00e1 se transformando.<\/p>\n<p><strong>Veja o que diz Gorz:<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA considera\u00e7\u00e3o de exig\u00eancias ecol\u00f3gicas (\u2026) j\u00e1 tem bastante adeptos capitalistas, porque sua aceita\u00e7\u00e3o por parte do poder do dinheiro torna-se uma s\u00e9ria probabilidade. [A luta ecol\u00f3gica] pode criar dificuldades para o capitalismo e for\u00e7\u00e1-lo a mudar; mas, depois de resistir por muito tempo na base da for\u00e7a e da ast\u00facia, o capitalismo finalmente ceder\u00e1, porque o impasse ecol\u00f3gico ter\u00e1 se tornado inelut\u00e1vel; ele absorver\u00e1 essa restri\u00e7\u00e3o, como absorveu todas as outras.\u201d<\/p>\n<p>O argumento de Gorz \u00e9 simples: o capitalismo \u00e9 um sistema resiliente. Pode encontrar dificuldades por causa da crise ecol\u00f3gica, mas no final se adaptar\u00e1. Por que Gorz diz isso? Se o capitalismo conseguiu existir durante tr\u00eas s\u00e9culos, \u00e9 porque beneficiou-se de uma natureza gratuita, uma natureza que n\u00e3o era preciso \u201creproduzir\u201d. Essa natureza gratuita, o capitalismo a utilizou como input e como output ao mesmo tempo. A natureza constituiu-se em fonte de inputs gratuitos para o capitalismo, pois, desde que existe, o sistema captura os recursos naturais \u201cbrutos\u201d para transform\u00e1-los em produtos. Mas a natureza constituiu-se tamb\u00e9m em output, uma \u201ccesta de lixo global\u201d onde s\u00e3o despejados os dejetos da acumula\u00e7\u00e3o do capital, isso a que os economistas neoliberais chamam pudicamente de \u201cexternalidades negativas\u201d.<\/p>\n<p>Com a crise ambiental, a natureza n\u00e3o exerce mais essa dupla fun\u00e7\u00e3o de input e output gratuitos para o capitalismo. A dial\u00e9tica do sistema e da natureza entra em crise. Certos recursos naturais cruciais para a vida das sociedades modernas (\u00e1gua, combust\u00edveis f\u00f3sseis, ar n\u00e3o polu\u00eddo etc.) est\u00e3o desaparecendo, enquanto a manuten\u00e7\u00e3o ou limpeza do meio ambiente tornam-se mais e mais caros. Por exemplo, o custo da polui\u00e7\u00e3o para o sistema de sa\u00fade n\u00e3o para de crescer, pesando sobre a taxa de lucro. A conclus\u00e3o que alguns tiram desse fato \u00e9 clara: o capitalismo n\u00e3o vai durar muito mais tempo, precisamente porque tem uma necessidade imperativa dessa natureza gratuita. Sem ela, a acumula\u00e7\u00e3o do capital perde seu substrato material.<\/p>\n<p>Gorz n\u00e3o est\u00e1 de acordo com esse racioc\u00ednio, ainda muito comum na esquerda \u2013 ele acha que o capitalismo saber\u00e1 absorver a restri\u00e7\u00e3o ambiental. Com a crise ecol\u00f3gica, a natureza deve agora ser \u201creproduzida\u201d, tal como a for\u00e7a de trabalho. \u201cReproduzida\u201d significa que volumes crescentes de capital ter\u00e3o de ser investidos para despoluir ou proteger as popula\u00e7\u00f5es \u2013 ou determinadas por\u00e7\u00f5es privilegiadas da popula\u00e7\u00e3o \u2013 das cat\u00e1strofes naturais.<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 o projeto de gest\u00e3o \u201cecol\u00f3gica\u201d do East River em Nova York, o East Side Coastal Resiliency Project. Com o custo de meio bilh\u00e3o de d\u00f3lares, \u00e9 a primeira etapa da adapta\u00e7\u00e3o da cidade \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a cat\u00e1strofes naturais, cada vez mais numerosas e intensas. Foi lan\u00e7ado ap\u00f3s a devasta\u00e7\u00e3o provocada na cidade pelo furac\u00e3o Sandy, em outubro de 2012. \u00c9 liderado pela estrelada empresa BIG, de arquitetos dinamarqueses (a arquitetura \u201cverde\u201d \u00e9 um neg\u00f3cio florescente), e est\u00e1 voltado \u00e0 prote\u00e7\u00e3o das \u00e1reas mais ricas de Manhattan.<\/p>\n<p>O capital mobilizado para a \u201creprodu\u00e7\u00e3o\u201d da natureza ter\u00e1 dois efeitos poss\u00edveis sobre o sistema: ou a taxa de lucro baixar\u00e1, pois essa reprodu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 pouco rent\u00e1vel; ou ent\u00e3o o pre\u00e7o das mercadorias produzidas dessa maneira aumentar\u00e1, de forma que o lucro seja mantido, ou at\u00e9 aumente. Essa segunda eventualidade \u00e9 a mais prov\u00e1vel, diz Gorz. O imperativo de reprodu\u00e7\u00e3o da natureza levar\u00e1 a uma alta geral dos pre\u00e7os, as mercadorias ou as infraestruturas se tornar\u00e3o inacess\u00edveis \u00e0 popula\u00e7\u00e3o \u2013 mas acess\u00edveis aos endinheirados. O poder de compra dos mais pobres ser\u00e1 comprimido e as desigualdades aumentar\u00e3o devido \u00e0 crise ambiental.<\/p>\n<p>\u201cLevar em conta os custos ecol\u00f3gicos ter\u00e1, em resumo, os mesmos efeitos sociais e econ\u00f4micos da crise do petr\u00f3leo. E o capitalismo, longe de sucumbir \u00e0 crise, ir\u00e1 geri-la como sempre fez: grupos financeiros bem situados lucrar\u00e3o com as dificuldades de grupos rivais para absorver a pre\u00e7o baixo e expandir sua apropria\u00e7\u00e3o sobre a economia. O poder central refor\u00e7ar\u00e1 o controle sobre a sociedade: tecnocratas calcular\u00e3o normas \u201c\u00f3timas\u201d de despolui\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o, elaborar\u00e3o as regulamenta\u00e7\u00f5es, estendendo os dom\u00ednios da \u2018vida programada\u2019 e o campo de a\u00e7\u00e3o dos aparelhos de repress\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Aquilo que Gorz podia somente imaginar, extrapolar, \u00e9 o que vemos tomar forma diante dos nossos olhos. Assistimos hoje \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o do capitalismo \u00e0 crise ambiental, uma adapta\u00e7\u00e3o de duas ordens. A primeira, reflexo do capitalismo em situa\u00e7\u00e3o de crise, \u00e9 sempre mercantilizar, mercantilizar a natureza. Essa mercantiliza\u00e7\u00e3o opera hoje, por exemplo, por meio da cria\u00e7\u00e3o de proodutos financeiros \u201csegmentados\u201d sobre a natureza, as cat\u00e1strofes naturais ou a biodiversidade. Os mercados de carbono, os derivativos clim\u00e1ticos, os t\u00edtulos de cat\u00e1strofe ou ainda os bancos de ativos de biodiversidade est\u00e3o entre esses produtos financeiros [1].<\/p>\n<p>Mas o capitalismo n\u00e3o se contenta em mercantilizar a natureza, \u00e9 mais esperto que isso. Contrariamente ao que a esquerda frequentemente imagina, os capitalistas s\u00e3o bem capazes de pensar a longo prazo, em especial quando seus lucros est\u00e3o em jogo. Mais exatamente, em \u00e9pocas de crise como hoje, as racionalidades capitalistas de curto e longo prazo entram em conflito \u2013 e as atuais hesita\u00e7\u00f5es das classes dominantes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crise clim\u00e1tica s\u00e3o testemunhas disso.<\/p>\n<p>\u00c9 o que demonstra o caso da BlackRock \u2014 a mais importante gestor de ativos financeiros do mundo. Ele gere cerca de 5 trilh\u00f5es de euros. Publicou, em setembro passado, um relat\u00f3rio intitulado Adapting portfolios to climate change [2], no qual diz que os investidores devem a partir de agora incluir, em suas estrat\u00e9gias de investimento, o respeito ao ambiente nas empresas em que investem: emiss\u00e3o de gases de efeito estufa, danos \u00e0 biodiversidade, consumo de \u00e1gua etc. A BlackRock lhes diz, preto no branco: \u00e9 preciso investir somente nas empresas que se colocam seriamente a quest\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e de seus efeitos sobre sua rentabilidade.<\/p>\n<p>Esses fundos de investimento por certo n\u00e3o foram subitamente convertidos ao ambientalismo. O argumento da BlackRock \u00e9 que, depois da COP21, a press\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica e dos governos sobre as corpora\u00e7\u00f5es vai aumentar, e a regulamenta\u00e7\u00e3o ambiental ser\u00e1 mais estrita. Isso significa que as empresas que n\u00e3o levam a s\u00e9rio essa dimens\u00e3o ir\u00e3o ver-se em dificuldades e ser\u00e3o, portanto, menos lucrativas aos investidores. A express\u00e3o consagrada pelos financistas em ingl\u00eas \u00e9 \u201cstrand assets\u201d, um termo que designa os ativos financeiros cujo valor diminuir\u00e1 \u00e0 medida que a regula\u00e7\u00e3o ambiental se tornar mais exigente. O relat\u00f3rio da BlackRock vai considerar como inevit\u00e1vel at\u00e9 a redu\u00e7\u00e3o futura dos subs\u00eddios estatais para as ind\u00fastrias f\u00f3sseis.<\/p>\n<p>Essa inesperada virada ecol\u00f3gica da BlackRock, contudo, entra rapidamente em contradi\u00e7\u00e3o com a necessidade de realizar lucros aqui e agora. A imprensa financeira relata que, alguns meses antes da publica\u00e7\u00e3o desse relat\u00f3rio, a BlackRock impediu a vota\u00e7\u00e3o de uma resolu\u00e7\u00e3o \u201cecol\u00f3gica\u201d durante a assembleia anual de acionistas da ExxonMobil. [3] A ExxonMobil \u00e9 uma gigante do petr\u00f3leo, o segundo valor de mercado do mundo, atr\u00e1s apenas da Apple. O volume de neg\u00f3cios chega ao n\u00edvel do PIB da \u00c1ustria. A BlackRock e outra gestora de ativos, a Vanguard, s\u00e3o os dois maiores acionistas da Exxon; juntas, possuem 11% do capital.<\/p>\n<p>Um grupo de acionistas \u201c\u00e9tico\u201d, que det\u00e9m a\u00e7\u00f5es da Exxon, submeteu no in\u00edcio do ano \u00e0 assembleia uma resolu\u00e7\u00e3o pela qual a Exxon deve explicitar sua estrat\u00e9gia p\u00f3s COP21. Como o conselho de administra\u00e7\u00e3o da Exxon enxerga os efeitos do acordo de Paris sobre seus investimentos futuros, em mat\u00e9ria de energias f\u00f3sseis? N\u00e3o seria tempo de reorientar esses investimentos em dire\u00e7\u00e3o a energias renov\u00e1veis?<\/p>\n<p>Os representantes da BlackRock na assembleia de acionistas votaram contra essa resolu\u00e7\u00e3o. Eles n\u00e3o se opuseram apenas a que a Exxon renuncie \u00e0s energias f\u00f3sseis. Tamb\u00e9m imperdiram sua dire\u00e7\u00e3o de explicar para os acionistas quais as consequ\u00eancias do acordo de Paris para a estrat\u00e9gia de investimento futuro da corpora\u00e7\u00e3o. Em resumo, a BlackRock fez exatamente o contr\u00e1rio do que preconiza seu relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Como explicar essa esquisofrenia dos capitalistas, da qual poder\u00edamos dar numerosos exemplos? De um lado, publica-se um documento afirmando que os par\u00e2metros ambientais devem entrar em considera\u00e7\u00e3o nas estrat\u00e9gias de investimento; de outro, op\u00f5e-se a uma resolu\u00e7\u00e3o \u201cminimalista\u201d que convida a dire\u00e7\u00e3o de uma major do petr\u00f3leo a refletir sobre o p\u00f3s COP21. Claro, sempre \u00e9 poss\u00edvel dizer que os dirigentes da BlackRock s\u00e3o hip\u00f3critas, ou que fazem a chamada \u201clavagem verde\u201d, ou greenwashing: eles dizem \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica o que ela quer ouvir em mat\u00e9ria ambiental, mas paralelamente praticam business as usual.<\/p>\n<p>H\u00e1 talvez uma parte disso, mas n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para subestimar o fato de que os capitalistas se colocam, de fato, perguntas quanto \u00e0 atitude a adotar no contexto da crise clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas coisas para analisar, aqui. Primeiro, a l\u00f3gica do curto e do longo prazo entraram em conflito. O capital financeiro tem uma tend\u00eancia cong\u00eanita ao curto-prazismo, a buscar lucros imediatos. As institui\u00e7\u00f5es que permitiriam disciplinar esse curto-prazismo em mat\u00e9ria ambiental ainda n\u00e3o foram inventadas, e portanto o curto prazo venceu. Mas no passado, para sair de outras crises \u2013 como a dos anos 1930, por exemplo \u2014 o capitalismo soube perfeitamente disciplinar-se, ou ser disciplinado pelo Estado. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para pensar que ser\u00e1 incapaz desta vez. Mas para isso s\u00e3o necess\u00e1rias novas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o relat\u00f3rio BlackRock tem o m\u00e9rito de enviar um sinal \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es. \u201cO limite ambiental vai tornar-se mais premente depois da COP21. Se querem que a gente invista em seu neg\u00f3cio no futuro, reflita sobre os seus efeitos sobre a rentabilidade e tome as medidas que se imp\u00f5em. Caso contr\u00e1rio, n\u00e3o lhe confiaremos nosso dinheiro\u201d, \u00e9 a mensagem enviada pela BlackRock.<\/p>\n<p>Finalmente, esses fundos de investimento investem paralelamente em setores da economia que sofrem os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Se um fundo de investimento possui a\u00e7\u00f5es de uma seguradora, tipo Allianz ou Axa, ele v\u00ea a curva de remunera\u00e7\u00e3o paga aos segurados subir como uma flecha depois de v\u00e1rias d\u00e9cadas, devido ao aumento das cat\u00e1strofes naturais. Tem, portanto, um interesse objetivo na exist\u00eancia de menos cat\u00e1strofes naturais, e portanto em reduzir as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa das empresas em que investe, em outros lugares.<\/p>\n<p>Voltemos a Gorz. Quando o capitalismo assimilar a press\u00e3o ambiental, diz Gorz, ele o far\u00e1 em seu pr\u00f3prio interesse, e n\u00e3o no interesse das popula\u00e7\u00f5es. H\u00e1 a ecologia \u201cdeles\u201d, a dos capitalistas, e h\u00e1 a \u201cnossa\u201d, das popula\u00e7\u00f5es. Mas o que distingue a economia deles da nossa? A resposta de Gorz \u00e9 muito estimulante, ela esbo\u00e7a um programa de trabalho pol\u00edtico que devemos elaborar coletivamente.<\/p>\n<p>Segundo Gorz, a divisa da sociedade capitalista \u00e9 a seguinte: Aquilo que \u00e9 bom para todos n\u00e3o vale nada. Voc\u00ea s\u00f3 ser\u00e1 respeit\u00e1vel se for \u201cmelhor\u201d do que outros. A esse slogan capitalista \u00e9 preciso opor um outro, uma divisa ecol\u00f3gica: S\u00f3 \u00e9 digno de voc\u00ea aquilo que \u00e9 bom para todos. S\u00f3 merece ser produzido o que n\u00e3o favorece nem diminui ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>O que distingue, para Gorz, \u201ca ecologia deles da nossa\u201d \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o de necessidade humana que sustenta cada uma. Na sociedade capitalista, a escolha daquilo que um indiv\u00edduo necessita para viver uma \u201cboa vida\u201d \u00e9 da al\u00e7ada do pr\u00f3prio indiv\u00edduo \u2014 ou seja, em \u00faltima inst\u00e2ncia \u00e9 do mercado, pois a vontade individual frequentemente n\u00e3o pode muita coisa diante do poder de persuas\u00e3o do mercado. E a l\u00f3gica do mercado \u00e9 a da diferen\u00e7a: eu n\u00e3o sou respeit\u00e1vel a n\u00e3o ser que seja \u201cmelhor\u201d que os outros. Claro, essa discuss\u00e3o \u00e9 enganosa, pois o mercado promete a mesma \u201cdiferen\u00e7a\u201d a milh\u00f5es de indiv\u00edduos, isso que tende, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a homogeneizar tudo, e estabelecer \u201cvidas programadas\u201d, como diz Gorz.<\/p>\n<p>Para pensar nossas necessidades fora da l\u00f3gica do mercado, para romper com as subjetividades consumistas, \u00e9 preciso opor a ele uma for\u00e7a de poder equivalente. Essa for\u00e7a n\u00e3o pode ser outra al\u00e9m da delibera\u00e7\u00e3o coletiva, a democracia, uma democracia radical. \u00c0s necessidades criadas artificialmente pelo mercado, \u00e9 preciso opor necessidades coletivamente discutidas e articuladas: \u201cS\u00f3 \u00e9 digno de voc\u00ea aquilo que \u00e9 bom para todos\u201d. A partir disso, trata-se \u2013 e isso \u00e9 o mais dif\u00edcil \u2013 de colocar-se de acordo sobre aquilo que \u00e9 \u201cbom para todos\u201d \u2014 algo que s\u00f3 aparece por meio da delibera\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o que Gorz n\u00e3o aborda, e da qual dever\u00edamos nos ocupar nos anos que vir\u00e3o \u00e9: em quais tipos de coletivos, em quais \u201cconselhos cidad\u00e3os\u201d as necessidades \u201cboas para todos\u201d \u2014 a\u00ed inclu\u00eddo o meio ambiente \u2014 poderiam ser colocadas em discuss\u00e3o? Aqui \u00e9 preciso inspirar-se nos \u201cgrupos de reflex\u00e3o\u201d feministas dos anos 1970. Nesses grupos, discutiam-se os aspectos mais \u00edntimos da vida, pensando-os em sua liga\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica. Esses grupos permitiram que as mulheres sa\u00edssem do isolamento, discutissem a opress\u00e3o de que eram v\u00edtimas, e tamb\u00e9m tomassem consci\u00eancia de sua for\u00e7a quando se organizavam.<\/p>\n<p>Colocar-se de acordo sobre necessidades \u201caut\u00eanticas\u201d, que escapem \u00e0 falsa diferen\u00e7a prometida pelo mercado e que sejam ecologicamente dur\u00e1veis, poderia ser algo a fazer em coletivos do mesmo tipo. Combatendo o consumismo de que somos todos v\u00edtimas em n\u00edveis diversos, esses coletivos poderiam tamb\u00e9m pronunciar-se sobre o tipo e a quantidade de bens produzidos, tal como faziam, antes, os conselhos de trabalhadores. Este \u00e9 talvez um dos futuros caminhos da radicaliza\u00e7\u00e3o da democracia, e tamb\u00e9m da supera\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n<p><em>Notas<\/em><\/p>\n<p><em>[1] Sobre isso, ver Razmig Keucheyan, La nature est un champ de bataille. Essai d\u2019\u00e9cologie politique, Paris, editora D\u00e9couverte, 2014, cap. 2.<\/em><br \/>\n<em>[2] Dispon\u00edvel no endere\u00e7o: https:\/\/www.blackrock.com\/investing\/literature\/whitepaper\/bii-climate-change-2016-us.pdf<\/em><br \/>\n<em>[3] Ver Financial Times, 6 de setembro de 2016.<\/em><\/p>\n<p><em>* <strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong> In\u00eas Castilho.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Razmig Keucheyan* H\u00e1 mais de 40 anos, fil\u00f3sofo Andr\u00e9 Gorz alertava: capitalismo tentaria capturar<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":54686,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/exigencias_ecologicas.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/exigencias_ecologicas-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/exigencias_ecologicas-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/exigencias_ecologicas.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/exigencias_ecologicas.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/exigencias_ecologicas.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/exigencias_ecologicas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/exigencias_ecologicas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/exigencias_ecologicas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/exigencias_ecologicas.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Razmig Keucheyan* H\u00e1 mais de 40 anos, fil\u00f3sofo Andr\u00e9 Gorz alertava: capitalismo tentaria capturar","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54685"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54685"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54685\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/54686"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54685"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54685"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=54685"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}