{"id":54486,"date":"2016-11-26T08:50:06","date_gmt":"2016-11-26T11:50:06","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=54486"},"modified":"2016-11-26T08:50:06","modified_gmt":"2016-11-26T11:50:06","slug":"pesquisador-gaucho-faz-pericia-independente-sobre-impacto-ambiental-do-desastre-em-mariana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/pesquisador-gaucho-faz-pericia-independente-sobre-impacto-ambiental-do-desastre-em-mariana\/","title":{"rendered":"Pesquisador ga\u00facho faz per\u00edcia independente sobre impacto ambiental do desastre em Mariana"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-355701\" src=\"http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161118-jornal-sul21-gs-181116-7454-05.jpg\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\" srcset=\"http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161118-jornal-sul21-gs-181116-7454-05.jpg 900w, http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161118-jornal-sul21-gs-181116-7454-05-200x133.jpg 200w, http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161118-jornal-sul21-gs-181116-7454-05-600x400.jpg 600w, http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161118-jornal-sul21-gs-181116-7454-05-768x512.jpg 768w\" alt=\"Ant\u00f4nio Philomena: &quot;Boa parte da popula\u00e7\u00e3o de Mariana rejeita as pessoas de Bento Rodrigues, atribuindo a elas a responsabilidade pelo fechamento da Samarco&quot;. (Foto: Guilherme Santos\/Sul21)\" width=\"636\" height=\"424\" \/><\/p>\n<p><strong>Marco Weissheimer<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s mais de um ano do rompimento da barragem da empresa mineradora Samarco, na localidade de Bento Rodrigues, distrito do munic\u00edpio de Mariana (MG), que causou 19 mortes, as pessoas que tiveram suas vidas atropeladas pela lama seguem lutando por seus direitos e pela repara\u00e7\u00e3o dos danos que sofreram. As reclama\u00e7\u00f5es de quem teve a vida arrasada pelo rompimento da barragem s\u00e3o muitas e v\u00e3o desde o acordo que deu \u00e0 pr\u00f3pria Samarco a atribui\u00e7\u00e3o de definir quem s\u00e3o os atingidos pela trag\u00e9dia at\u00e9 a resist\u00eancia da empresa em atender demandas b\u00e1sicas como o custeio de passagens de \u00f4nibus de R$ 3,50 para crian\u00e7as irem \u00e0 escola. \u201cA Justi\u00e7a brasileira n\u00e3o est\u00e1 preparada para lidar com esse tipo de situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existem sequer leis que se apliquem a situa\u00e7\u00f5es como esta\u201d, diz Ant\u00f4nio Liborio Philomena, ocean\u00f3grafo, professor aposentado da Universidade Federal de Rio Grande (FURG) e Ph.D em Ecologia pela Universidade da Ge\u00f3rgia (EUA).<\/p>\n<p>Por aproximadamente 15 anos, Ant\u00f4nio Philomena foi chamado por \u00f3rg\u00e3os federais, estaduais e municipais para realizar per\u00edcias em acidentes e desastres ambientais como o que ocorreu em Bento Rodrigues. Impressionado pela dimens\u00e3o e pelos impactos do rompimento da barragem da Samarco, o pesquisador resolveu, com o apoio de professores da Universidade de Ouro Preto, realizar uma per\u00edcia independente sobre o impacto ambiental da trag\u00e9dia. Em entrevista ao <strong>Sul21<\/strong>, Philomena fala sobre o que viu nas quatro viagens que j\u00e1 fez \u00e0 regi\u00e3o atingida pelo desastre e aponta a exist\u00eancia de uma caixa-preta de informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o disponibilizadas ao p\u00fablico sobre a real dimens\u00e3o do impacto social e ambiental do rompimento da barragem.<\/p>\n<p>\u201cA valora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, em geral, n\u00e3o abarca 10% do dano provocado, pois ela s\u00f3 reconhece o que tem valor no mercado, coisas como peixe, galinha ou porco. Existem v\u00e1rias metodologias para definir essa valora\u00e7\u00e3o. Umas v\u00e3o mais fundo que outras. \u00c9 uma tarefa muito complexa, pois trabalhamos com coisas que s\u00e3o consideradas incomensur\u00e1veis\u201d, diz o pesquisador.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_355812\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 648px;\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-355812\" src=\"http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161120-foto-barra-longa-1024x768.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161120-foto-barra-longa-1024x768.jpg 1024w, http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161120-foto-barra-longa-200x150.jpg 200w, http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161120-foto-barra-longa-600x450.jpg 600w, http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161120-foto-barra-longa-768x576.jpg 768w\" alt=\"&quot;Quando ocorre um desastre como o de Mariana \u00e9 preciso ter um jeito para valorar coisas desse tipo na bacia inteira do rio Doce e n\u00e3o apenas no distrito de Bento Rodrigues&quot;, diz Philomena. (Foto: Ant\u00f4nio Philomena\/Divulga\u00e7\u00e3o) \" width=\"638\" height=\"479\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">\u201cQuando ocorre um desastre como o de Mariana \u00e9 preciso ter um jeito para valorar coisas desse tipo na bacia inteira do rio Doce e n\u00e3o apenas no distrito de Bento Rodrigues\u201d, diz Philomena. (Foto: Ant\u00f4nio Philomena\/Divulga\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Sul21: <\/strong><em>Como nasceu o seu envolvimento com o desastre de Mariana?<\/em><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Philomena<\/strong>: H\u00e1 cerca de 15 anos, tenho sido chamado para realizar per\u00edcias em acidentes e desastres ambientais por \u00f3rg\u00e3os federais, estaduais e municipais. Como professor da FURG (Universidade Federal do Rio Grande) com dedica\u00e7\u00e3o exclusiva, nunca cobrei nada para realizar esse tipo de trabalho que envolve desde o c\u00e1lculo de multas por danos causados at\u00e9 os impactos ambientais desses eventos. Quando vi as primeiras imagens do que tinha acontecido em Mariana, decidi ajudar. Entrei em contato com um promotor estadual que havia aparecido na televis\u00e3o, me identifiquei, me coloquei \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o e sugeri que ele tivesse muito cuidado neste caso, pois iriam tentar atropel\u00e1-lo, o que, de fato, acabou acontecendo. Esse caso \u00e9 muito complexo e a Justi\u00e7a brasileira n\u00e3o est\u00e1 preparada para lidar com esse tipo de situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existem sequer leis que se apliquem a situa\u00e7\u00f5es como esta.<\/p>\n<p>No caso de Mariana, essa situa\u00e7\u00e3o ficou ainda mais complicada porque as esferas federal e estadual come\u00e7aram a brigar. Tanto foi assim que, quem mais conseguiu fazer alguma coisa foi o promotor da Comarca de Mariana que est\u00e1 se dedicando exclusivamente \u00e0 repara\u00e7\u00e3o das pessoas que tiveram suas vidas atingidas pelo rompimento da barragem. \u00c9 uma briga muito pesada. J\u00e1 fui quatro vezes para l\u00e1, por minha conta. Tenho amigos naquela regi\u00e3o, que s\u00e3o professores na universidade de Ouro Preto e que me ajudaram a fazer os primeiros contatos. Isso foi muito importante pois boa parte da popula\u00e7\u00e3o de Mariana rejeita as pessoas de Bento Rodrigues, atribuindo a elas a responsabilidade pelo fechamento da Samarco e pelo impacto econ\u00f4mico da paralisa\u00e7\u00e3o das atividades da empresa.<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>: <em>Isso \u00e9 expl\u00edcito?<\/em><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Philomena<\/strong>: Sim. \u00c9 expl\u00edcito. Elas n\u00e3o podem nem sair na rua direito, pois sofrem xingamentos e amea\u00e7as. Essas pessoas perderam tudo e foram colocadas em alguns lugares que deixam muito a desejar.<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>: <em>Quantas pessoas est\u00e3o nesta situa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Philomena<\/strong>: A Samarco, que \u00e9 controlada pela Vale e para BHP Biliton, foi quem decidiu quem foram os atingidos. Hoje, os atingidos \u201coficiais\u201d n\u00e3o chegam a 150 pessoas. Tem gente que tinha casa na \u00e1rea, mas n\u00e3o morava l\u00e1, utilizando a mesma como um s\u00edtio de ver\u00e3o. Uma das pessoas nesta situa\u00e7\u00e3o relatou que foi ao local onde constatou que tudo tinha sido destru\u00eddo e, quando retornou ao Rio de Janeiro, recebeu um documento comunicando que ela havia perdido aquela \u00e1rea, sem nenhum tipo de indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_355702\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 649px;\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-355702\" src=\"http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161118-jornal-sul21-gs-181116-7457-06.jpg\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\" srcset=\"http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161118-jornal-sul21-gs-181116-7457-06.jpg 900w, http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161118-jornal-sul21-gs-181116-7457-06-200x133.jpg 200w, http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161118-jornal-sul21-gs-181116-7457-06-600x400.jpg 600w, http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161118-jornal-sul21-gs-181116-7457-06-768x512.jpg 768w\" alt=\"&quot;\u00c9 uma tarefa muito complexa, pois trabalhamos com coisas que s\u00e3o consideradas incomensur\u00e1veis.&quot; (Foto: Guilherme Santos\/Sul21)\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">\u201c\u00c9 uma tarefa muito complexa, pois trabalhamos com coisas que s\u00e3o consideradas incomensur\u00e1veis.\u201d (Foto: Guilherme Santos\/Sul21)<\/p>\n<\/div>\n<p>S\u00f3 estes reconhecidos oficialmente pelas empresas \u00e9 que sentam na mesa de negocia\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o horr\u00edvel para eles. A Samarco tem cerca de 30 advogados trabalhando exclusivamente neste caso. No semin\u00e1rio realizado dias 5 e 6, em Ouro Preto, uma delas relatou que a Vale n\u00e3o quer pagar R$ 3,50 de passagem de \u00f4nibus para as crian\u00e7as irem ao col\u00e9gio. \u00c9 preciso abrir um processo para tentar garantir mesmo esse tipo de coisa. Foram as empresas que decidiram tamb\u00e9m quanto pagar \u00e0s fam\u00edlias que perderam algu\u00e9m no epis\u00f3dio. Elas fixaram a indeniza\u00e7\u00e3o em R$ 120 mil por pessoa falecida, n\u00e3o importando a idade da mesma. J\u00e1 presenciei v\u00e1rias vezes esse tipo de situa\u00e7\u00e3o. A Justi\u00e7a brasileira n\u00e3o tem um grupo especializado para lidar com essas situa\u00e7\u00f5es. Agora, depois do que aconteceu em Mariana, est\u00e3o come\u00e7ando a pensar no assunto.<\/p>\n<p>Isso aconteceu em todos os grandes desastres que presenciei, como o derrame de \u00f3leo na Ba\u00eda da Guanabara ou a destrui\u00e7\u00e3o do rio Para\u00edba do Sul. No caso de Mariana, percebi que as coisas n\u00e3o iam indo bem quando, a cada semana, se anunciava um valor diferente de multa. N\u00e3o \u00e9 assim que funciona. Nunca apareceu, at\u00e9 hoje, como \u00e9 que essas contas foram feitas. Como chegaram ao numero de 5 milh\u00f5es? E, depois, porque mudaram esse numero para 50? Onde est\u00e3o os c\u00e1lculos? Foi feito na base do chute? Onde est\u00e3o os documentos que fundamentam esses c\u00e1lculos? H\u00e1 uma dificuldade imensa para conseguir documentos sobre esse caso. Eu consegui reunir informa\u00e7\u00f5es gra\u00e7as \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o de diversas pessoas que me encaminharam fotos, mat\u00e9rias de jornais da regi\u00e3o e outros materiais.<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>: <em>O trabalho que voc\u00ea realiza \u00e9, basicamente, quantificar o dano?<\/em><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Philomena<\/strong>: Sim, na parte ambiental. Estou apurando o que se perdeu de natureza na bacia hidrogr\u00e1fica do rio Doce. A ideia \u00e9 quantificar isso em reais. \u00c9 um trabalho dif\u00edcil e complexo que exige muita pesquisa e uma s\u00e9rie de c\u00e1lculos. Os n\u00fameros das multas apresentados at\u00e9 agora n\u00e3o vieram acompanhados de nenhum c\u00e1lculo mostrando como se chegou a eles. O IBAMA at\u00e9 deve fazer contas, mas n\u00e3o abre essa informa\u00e7\u00e3o. Quando sou chamado para fazer uma per\u00edcia, apresento ao final do trabalho um relat\u00f3rio com um anexo, onde aparecem todos os c\u00e1lculos feitos. At\u00e9 agora, n\u00e3o foi apresentado nenhum documento como esse no caso de Mariana. As empresas n\u00e3o est\u00e3o fazendo um jogo muito profissional e legal.<\/p>\n<p>As pessoas atingidas t\u00eam que batalhar para conseguir qualquer coisa. Al\u00e9m do caso das passagens de \u00f4nibus, vou dar mais um exemplo. As empresas pegaram animais que viviam na \u00e1rea afetada, incluindo c\u00e3es, gatos e outros animais dom\u00e9sticos, e colocaram num lugar isolado. Um morador me relatou que queria pegar os cavalos que tinha para vender, pois estavam sem dinheiro algum. N\u00e3o teve acesso a eles. Sabe-se que v\u00e1rios animais morreram e at\u00e9 hoje os donos desses animais n\u00e3o sabem o que aconteceu com eles e n\u00e3o t\u00eam direito a nada.<\/p>\n<div id=\"attachment_355697\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 645px;\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-355697\" src=\"http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161118-jornal-sul21-gs-181116-7429-01.jpg\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\" srcset=\"http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161118-jornal-sul21-gs-181116-7429-01.jpg 900w, http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161118-jornal-sul21-gs-181116-7429-01-200x133.jpg 200w, http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161118-jornal-sul21-gs-181116-7429-01-600x400.jpg 600w, http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161118-jornal-sul21-gs-181116-7429-01-768x512.jpg 768w\" alt=\"&quot;O homem s\u00f3 reconhece valor naquilo que tem interesse. Dentro desta l\u00f3gica, uma barata, por exemplo, n\u00e3o tem valor algum. Pode pisar em cima&quot;. (Foto: Guilherme Santos\/Sul21)\" width=\"635\" height=\"423\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">\u201cO homem s\u00f3 reconhece valor naquilo que tem interesse. Dentro desta l\u00f3gica, uma barata, por exemplo, n\u00e3o tem valor algum. Pode pisar em cima\u201d. (Foto: Guilherme Santos\/Sul21)<\/p>\n<\/div>\n<p>A \u00faltima not\u00edcia que me espantou \u00e9 que a empresa ganhou um ter\u00e7o de Bento Rodrigues para fazer outra barragem, que est\u00e3o chamando de dique de conten\u00e7\u00e3o. No evento realizado agora em novembro, em Ouro Preto, apareceu um v\u00eddeo onde duas pessoas que n\u00e3o mostram o rosto dizem que a empresa queria, h\u00e1 muito tempo, tirar os moradores daquela \u00e1rea e agora finalmente conseguiu. A nova obra abarca um ter\u00e7o do distrito que foi dizimado pelo rompimento da barragem. Toda a \u00e1rea atingida foi cercada e isolada. A justificativa foi que estavam roubando coisas das casas. Roubando o qu\u00ea? Uma placa de carro cheia de lama ca\u00edda no ch\u00e3o, uma cadeira quebrada? Foi tudo destru\u00eddo. Fui l\u00e1 e encontrei a \u00e1rea cercada por uma tela, correntes com cadeados e gente armada.<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>: <em>Qual tem sido a rea\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o a esse tipo de situa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Philomena<\/strong>: No munic\u00edpio de Mariana, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 complicada. Cerca de 85% do dinheiro que \u00e9 arrecadado pela Prefeitura vem da Samarco. Em Mariana, a cada quadra, voc\u00ea encontra um abaixo-assinado para reabrir a mineradora. Ocorreu um grande acordo envolvendo governo federal, estados e a Samarco, pelo qual a empresa pagar\u00e1 uma indeniza\u00e7\u00e3o de cerca de R$ 20 bilh\u00f5es e n\u00e3o sofrer\u00e1 nenhum outro tipo de processo. Esse dinheiro ser\u00e1 gerido por uma funda\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea for ver os nomes de quem participar\u00e1 dessa funda\u00e7\u00e3o, ver\u00e1 que h\u00e1 muita gente ligada \u00e0s empresas em quest\u00e3o, al\u00e9m de deputados e donos de empresas.<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>: <em>Quando pretende terminar a per\u00edcia que est\u00e1 realizando?<\/em><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Philomena<\/strong>: Eu dependo de duas coisas. Em primeiro lugar, do acesso a dados que vem chegando lentamente. Muitos estudos ser\u00e3o conclu\u00eddos agora em 2017. A Universidade de Ouro Preto sofreu criticas porque os departamentos de Engenharia de Minas e de Geologia, que recebem verbas das empresas para pesquisas e bolsas de estudo, n\u00e3o tinham se posicionado sobre o epis\u00f3dio. A partir da\u00ed, come\u00e7aram a aparecer alguns estudos na universidade, principalmente na \u00e1rea social e antropol\u00f3gica. Uma dessas pesquisas est\u00e1 construindo uma narrativa da trag\u00e9dia a partir do relato oral dos atingidos.<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>: <em>Al\u00e9m dos danos ambientais j\u00e1 provocados pelo rompimento da barragem h\u00e1 outros que seguem se manifestando?<\/em><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Philomena<\/strong>: Continua saindo lama da barragem. Por isso eles querem construir outra na mesma \u00e1rea. No caminho da lama pelo rio Doce, havia uma hidroel\u00e9trica. Para n\u00e3o permitir que a lama entrasse na usina, eles fecharam as comportas. O reservat\u00f3rio foi enchendo e virou um lago onde, no fundo, est\u00e1 cheio de lama. A limpeza do fundo desse lago est\u00e1 no acordo firmado pela empresa com o governo.<\/p>\n<div id=\"attachment_355813\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 650px;\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-355813\" src=\"http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161120-dscn4310-1024x768.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161120-dscn4310-1024x768.jpg 1024w, http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161120-dscn4310-200x150.jpg 200w, http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161120-dscn4310-600x450.jpg 600w, http:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/20161120-dscn4310-768x576.jpg 768w\" alt=\"&quot;O problema \u00e9 que, quase tudo que a empresa prometeu, ela n\u00e3o cumpriu ainda. A estrat\u00e9gia da Samarco \u00e9 ganhar tempo&quot;, diz o pesquisador. (Foto: Ant\u00f4nio Philomena\/Arquivo Pessoal)\" width=\"640\" height=\"480\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">\u201cO problema \u00e9 que, quase tudo que a empresa prometeu, ela n\u00e3o cumpriu ainda. A estrat\u00e9gia da Samarco \u00e9 ganhar tempo\u201d, diz o pesquisador. (Foto: Ant\u00f4nio Philomena\/Arquivo Pessoal)<\/p>\n<\/div>\n<p>A parte social at\u00e9 que est\u00e1 andando, muito gra\u00e7as ao trabalho do promotor da Comarca de Mariana que est\u00e1 conseguindo fazer com que as pessoas comecem a receber o que tem para receber. Mas tudo abaixo de judicializa\u00e7\u00e3o. Houve um acordo de uma nova loca\u00e7\u00e3o para Bento Rodrigues, que foi escolhida pelas pessoas atingidas. Esse acordo n\u00e3o foi tranq\u00fcilo. H\u00e1 pessoas que n\u00e3o queriam uma nova loca\u00e7\u00e3o, alegando que diferentes gera\u00e7\u00f5es de sua fam\u00edlias viveram naquela \u00e1rea que foi arrasada pelo rompimento da barragem. Mas chegaram a um acordo. O problema \u00e9 que, quase tudo que a empresa prometeu, ela n\u00e3o cumpriu ainda. A estrat\u00e9gia da Samarco \u00e9 ganhar tempo.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda a situa\u00e7\u00e3o da comunidade ind\u00edgena Krenak, de aproximadamente 400 pessoas, que est\u00e1 cercada, sem poder usar o rio. Ouvi o relato de um morador que perdeu um boi que conseguiu ultrapassar a cerca e foi beber \u00e1gua no rio. O boi morreu no dia seguinte. Esses \u00edndios viviam do rio e hoje est\u00e3o separados do mesmo por uma cerca. Est\u00e3o desesperados, sem poder pescar e usar o rio, comendo p\u00e3o, rapadura e outras coisas \u00e0s quais n\u00e3o estavam acostumados. Conversei com o cacique dessa comunidade em Ouro Preto e vou fazer for\u00e7a para ir l\u00e1 e tentar ajud\u00e1-los. A situa\u00e7\u00e3o deles \u00e9 a pior de todas, pois est\u00e3o recebendo muito pouca assist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>: <em>Como \u00e9 feita essa valora\u00e7\u00e3o de elementos da natureza em um epis\u00f3dio como este? Existe uma metodologia adotada internacionalmente para isso?<\/em><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Philomena<\/strong>: A valora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, em geral, n\u00e3o abarca 10% do dano provocado, pois ela s\u00f3 reconhece o que tem valor no mercado, coisas como peixe, galinha ou porco. Existem v\u00e1rias metodologias para definir essa valora\u00e7\u00e3o. Umas v\u00e3o mais fundo que outras. \u00c9 uma tarefa muito complexa, pois trabalhamos com coisas que s\u00e3o consideradas incomensur\u00e1veis. Fiz meu doutorado sobre esse tema. No caso de Mariana, por exemplo, quando vamos iniciar um trabalho de valora\u00e7\u00e3o dos danos ambientais, temos coisas como barro, lama, \u00e1gua, peixe, cerca, casa, vida e morte. Cada um desses elementos representa uma unidade diferente. Esse \u00e9 o problema da valora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. \u00c9 preciso ter uma unidade comum que permita avaliar todos esses elementos.<\/p>\n<p>Um ecologista e pesquisador dos Estados Unidos chamado Howard T. Odum desenvolveu uma metodologia para obter essa unidade comum. Ele fez a valora\u00e7\u00e3o da natureza, da tecnologia e, quando ia trabalhar com a parte social, ele faleceu, em 2011. Por meio dessa metodologia, conseguimos valorar na mesma unidade a natureza e a tecnologia. O m\u00e9todo desenvolvido por Odum consiste em medir a energia que passa por cada coisa e multiplica essa medida por um fator comum que resultar\u00e1 em uma unidade em dinheiro. Em 1988, fiz meu doutorado na Lagoa dos Patos utilizado essa metodologia. Desde 1990, ela vem sendo utilizada internacionalmente. H\u00e1 pa\u00edses, como a Su\u00e9cia, que s\u00e3o planejados seguindo o m\u00e9todo de Howard Odum. Uma de suas riquezas \u00e9 ir alem da vis\u00e3o antropoc\u00eantrica que a economia tem. O homem s\u00f3 reconhece valor naquilo que tem interesse. Dentro desta l\u00f3gica, uma barata, por exemplo, n\u00e3o tem valor algum. Pode pisar em cima.<\/p>\n<p>Quando ocorre um desastre como o de Mariana \u00e9 preciso ter um jeito para valorar coisas desse tipo na bacia inteira do rio Doce e n\u00e3o apenas no distrito de Bento Rodrigues. De Bento Rodrigues at\u00e9 o mar, numa faixa de 50 quil\u00f4metros nos dois lados do rio, mudou tudo. H\u00e1 varias organiza\u00e7\u00f5es que est\u00e3o monitorando a contamina\u00e7\u00e3o do rio e do mar, mas ainda temos pouca informa\u00e7\u00e3o divulgada a respeito. J\u00e1 temos confirma\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a de contamina\u00e7\u00e3o por metais pesados. Cabe ressaltar que, hoje, nos Estados Unidos e na Europa, n\u00e3o se faz mais medi\u00e7\u00e3o isolada de metais pesados que s\u00e3o cumulativos durante um certo tempo. Voc\u00ea pode se meter numa discuss\u00e3o sobre o sexo dos anjos, querendo estabelecer se h\u00e1 0,021 ou 0,023% de um determinado metal pesado numa amostra. N\u00e3o est\u00e1 mais se fazendo essa medi\u00e7\u00e3o na \u00e1gua ou em sedimentos, mas sim em organismos. E, mesmo a\u00ed, n\u00e3o se faz mais medi\u00e7\u00f5es isoladas. N\u00e3o basta avaliar apenas a urina. \u00c9 preciso avaliar tamb\u00e9m cabelo, sangue e suor.<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>: <em>Pelo seu relato, h\u00e1 uma caixa-preta de informa\u00e7\u00f5es que segue fechada ao p\u00fablico? <\/em><\/p>\n<p><strong>Antonio Philomena<\/strong>: Sim. Faz parte do jogo. Sempre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marco Weissheimer Ap\u00f3s mais de um ano do rompimento da barragem da empresa mineradora Samarco,<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Marco Weissheimer Ap\u00f3s mais de um ano do rompimento da barragem da empresa mineradora Samarco,","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54486"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54486"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54486\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54486"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54486"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=54486"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}