{"id":53850,"date":"2016-11-17T09:00:34","date_gmt":"2016-11-17T12:00:34","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=53850"},"modified":"2016-11-16T21:33:26","modified_gmt":"2016-11-17T00:33:26","slug":"relatorio-do-banco-mundial-mostra-conexao-entre-pobreza-e-desastres-naturais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/relatorio-do-banco-mundial-mostra-conexao-entre-pobreza-e-desastres-naturais\/","title":{"rendered":"Relat\u00f3rio do Banco Mundial mostra conex\u00e3o entre pobreza e desastres naturais"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?attachment_id=53851\" rel=\"attachment wp-att-53851\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-53851\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/desastre_natural-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/desastre_natural-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/desastre_natural.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>\u201cAs coisas estavam come\u00e7ando a dar certo em J\u00e9remie, cidade costeira do Haiti. A primeira estrada que a ligava ao resto do pa\u00eds tinha acabado de ficar pronta, o servi\u00e7o de telefonia celular tinha finalmente come\u00e7ado, permitindo que os agricultores pudessem se comunicar com os clientes. A cidade estava, enfim, alimentando o sonho de se tornar um polo de agricultura e turismo. At\u00e9 que o furac\u00e3o Matthew fez o rel\u00f3gio voltar no tempo e envolveu J\u00e9remie num p\u00e2ntano de \u00e1gua salgada. As estradas est\u00e3o bloqueadas com detritos, as casas foram reduzidas a montes de madeira e os planos econ\u00f4micos da cidade foram embora. Segundo Marie Roselore Auborg, ministra de com\u00e9rcio e ind\u00fastria no departamento de Grand Anse,\u00a0onde J\u00e9remie \u00e9 a capital, o furac\u00e3o acabou com todo o potencial de crescimento da regi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O relato emocionado \u00e9 do rep\u00f3rter Azam Ahmed para o \u201cThe New York Times\u201d e foi publicado no m\u00eas <a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2016\/10\/11\/world\/americas\/jeremie-haiti-hurricane-matthew.html?hp&amp;action=click&amp;pgtype=Homepage&amp;clickSource=story-heading&amp;module=first-column-region&amp;region=top-news&amp;WT.nav=top-news&amp;_r=0\">passado,<\/a> quando o furac\u00e3o considerado o mais poderoso do Atl\u00e2ntico devastou o Haiti, deixando 900 mortos. Numa economia que caminha a passos lentos e que depende muito dos recursos naturais, \u00e9 de se imaginar que hoje, pouco mais de um m\u00eas depois do desastre, as coisas n\u00e3o tenham mudado muito por l\u00e1. Bem diferente do Jap\u00e3o, pa\u00eds rico, que conseguiu fechar, em uma semana, uma cratera no asfalto causada pelas obras de amplia\u00e7\u00e3o do <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/mundo\/noticia\/2016\/11\/cratera-imensa-que-apareceu-em-no-japao-e-consertada-em-uma-semana.html\">metr\u00f4.<\/a><\/p>\n<p>\u00c9 disso que se trata, \u00e9 de desigualdade que se est\u00e1 falando. Pensar em a\u00e7\u00f5es para reduzir os impactos causados pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u00e9 atender aqueles que est\u00e3o precisando, hoje, de ajuda, n\u00e3o as gera\u00e7\u00f5es futuras. Porque o futuro \u00e9 agora quando se trata do caos que tem sido provocado pelas mudan\u00e7as do clima.<\/p>\n<p>Mas quando o secret\u00e1rio da ONU Ban Ki-moon faz um apelo ao presidente eleito nos Estados Unidos Donald Trump para que n\u00e3o abandone o Acordo de Paris porque ele, como uma &#8220;pessoa de neg\u00f3cios muito bem sucedida, entenderia que as for\u00e7as do mercado j\u00e1 estavam agindo para guiar a economia mundial para energias mais limpas, longe dos combust\u00edveis f\u00f3sseis\u201d, ele falou a s\u00e9rio. E revelou, sem disfarces, o enorme fosso que se abre entre os que, de fato, precisam de ajuda para enfrentar os eventos extremos que j\u00e1 vitimizam milh\u00f5es e aqueles que est\u00e3o acreditando numa solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica, a economia verde, para acabar com o problema.<\/p>\n<p>As for\u00e7as desse mesmo mercado citado por Ban Ki-moon \u00e9 que jogam gases poluentes na atmosfera desde quesup\u00f4s que os cidad\u00e3os precisavam ficar felizes comprando coisas.Us\u00e1-lo como escudo para estancar as emiss\u00f5es \u00e9 mais ou menos como p\u00f4r a raposa tomando conta do galinheiro. Pode dar certo, mas as chances maiores s\u00e3o de se come\u00e7ar a fazer tudo diferente para n\u00e3o mudar nada do que, realmente, \u00e9 preciso mudar.<\/p>\n<p>\u00c9 como se faltasse um fio de conex\u00e3o para fazer as liga\u00e7\u00f5es reais.<\/p>\n<p>No site oficial da C\u00fapula do Clima, h\u00e1 um relat\u00f3rio que acaba de ser divulgado pelo Banco Mundial que conclui que o impacto de condi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas extremas \u00e9 mais devastador do que se pensava. \u00c9 respons\u00e1vel por perdas de US$ 520 bilh\u00f5es anuais e lan\u00e7a 26 milh\u00f5es de pessoas \u00e0 pobreza a cada ano. Mas o foco dos pesquisadores que fizeram o estudo \u00e9 tamb\u00e9m mostrar os danos causados ao bem-estar social das pessoas afetadas pelos eventos extremos. E como a desigualdade social agrava muito a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cRevisamos a literatura existente para mostrar como as pessoas pobres sofrem desproporcionalmente dos efeitos dos riscos naturais, n\u00e3o s\u00f3 porque s\u00e3o frequentemente mais expostas a riscos, mas tamb\u00e9m porque perdem mais quando s\u00e3o afetadas e recebem menos apoio para recuperar. Descobrimos que a pobreza \u00e9 um determinante da vulnerabilidade de uma popula\u00e7\u00e3o a desastres naturais\u201d, diz o texto.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio traz, por exemplo, o caso das Filipinas, que em 2013 recebeu a funesta visita do ciclone tropical Typhoon Haiyan\u00a0que minou US$ 12,9 bilh\u00f5es da economia nacional e jogou mais de um milh\u00e3o na pobreza extrema.Foi assim tamb\u00e9m em Bangladesh em 2010, quando o ciclone Aila devastou as \u00e1reas costeiras fazendo subir o n\u00edvel de desemprego em 49% e da pobreza em 22%. A hist\u00f3ria se repete:al\u00e9m do rastro de devasta\u00e7\u00e3o, as cat\u00e1strofes ambientais lan\u00e7am os pa\u00edses pobres no trilho da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>O estudo mostra ainda que h\u00e1 efeitos secund\u00e1rios que s\u00f3 poder\u00e3o ser contados algum tempo depois que a avalanche passa. Em 1998, por exemplo, quando o furac\u00e3o Mitch atingiu a Nicar\u00e1gua, a probalidade de existirem crian\u00e7as desnutridas nas regi\u00f5es afetadas cresceu 8,7%, assim como tamb\u00e9m aumentou em 5,6% o n\u00famero de crian\u00e7as que passou a ter que trabalhar para ajudar as fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ado na COP22, que est\u00e1 acontecendo no Marrocos <a href=\"http:\/\/newsroom.unfccc.int\/\">at\u00e9 o dia 18<\/a> deste m\u00eas,\u00a0 o relat\u00f3rio traz um alerta do presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, que n\u00e3o pode ser desprezado:<\/p>\n<p>&#8220;Choques clim\u00e1ticos graves amea\u00e7am reverter d\u00e9cadas de progresso contra a pobreza. Tempestades, inunda\u00e7\u00f5es e as secas t\u00eam consequ\u00eancias humanas e econ\u00f4micas e, muitas vezes, quem paga o pre\u00e7o mais pesado s\u00e3o as pessoas pobres. A constru\u00e7\u00e3o de resili\u00eancia a tais desastres n\u00e3o faz sentido apenas economicamente, mas \u00e9 um imperativomoral&#8221;.<\/p>\n<p>Um sistema de alerta pr\u00e9vio pode reduzir bastante o problema, concluiu o estudo.No entanto, os pesquisadores do Banco Mundial descobriram, atrav\u00e9s do resultado de inqu\u00e9ritos realizados em pa\u00edses pobres, que esses sistemas n\u00e3o s\u00e3o usados efetivamente e, o que \u00e9 pior, s\u00e3o tendenciosos. No subdistrito de Shyamnagar, em Bangladesh, 15% dos n\u00e3o pobres e 6% dos pobres participam de treinamento de prepara\u00e7\u00e3o para ciclones. No distrito de Lamjung, no Nepal, a utiliza\u00e7\u00e3o de sistemas de alerta precoce em comunidades propensas a inunda\u00e7\u00f5es \u00e9 menor do que 1%. O cen\u00e1rio \u00e9 visto pelos executivos do Banco como uma oportunidade, ou seja, pode ser reparado. Tomara!<\/p>\n<p>Na verdade, a maior descoberta d\u00e1 conta de que os pobres t\u00eam menos preparo para enfrentar os eventos extremos do que os ricos. Isso acontece em todo o mundo, mas os pesquisadores apontaram China, Indon\u00e9sia, Filipinas e Vietn\u00e3 como os lugares mais sens\u00edveis a este fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>\u201cNo entanto, n\u00e3o \u00e9 apenas a pobreza que determina a falta de prepara\u00e7\u00e3o para os eventos extremos: pol\u00edticas favorecendo o treinamento no caso de desastres e educa\u00e7\u00e3o poderiam ajudar tanto os pobres quanto os ricos em todos os lugares\u201d, diz o estudo.<\/p>\n<p>O que acontece \u00e9 que, normalmente, as pessoas pobres s\u00e3o exclu\u00eddas dos programas sociais que deveriam benefici\u00e1-las, entre outras coisas porque exigem que elas estejam formalmente empregadas e, em geral, os mais vulner\u00e1veis aos desastres naturais est\u00e3o na economia informal. Ou, no meio rural, \u00e9 muito dif\u00edcil implantar qualquer tipo de ajuda que necessite ser acessada em bancos que ficam na \u00e1rea urbana. O resultado disso \u00e9 que menos do que 10% da ajuda que deveria chegar nas m\u00e3os dos pobres, efetivamente v\u00e3o para eles.<\/p>\n<p>\u201cPara as pessoas que n\u00e3o t\u00eam cobertura do governo, o que resta \u00e9 o trabalho e um desastre natural pode facilmente interromper isso, pois quase sempre o transporte urbano, por exemplo, abala a capacidade de as pessoas se locomoverem\u201d.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio \u00e9 bem completo e tem 200 p\u00e1ginas. Seus autores o entendem como uma an\u00e1lise feita globalmente que pode ser usada por governos locais para ajudar a formatar um plano de combate n\u00e3o s\u00f3 aos impactos causados pelos desastres naturais como \u00e0 pobreza:<\/p>\n<p>\u201cEspera-se que este tipo de an\u00e1lise promova di\u00e1logos transversais em ag\u00eancias de risco de desastres e peritos com o resto do mundo. Deve ser uma ajuda para que governos assegurem que o desenvolvimento, a redu\u00e7\u00e3o da pobreza e gest\u00e3o de riscos estejam integrados numa estrat\u00e9gia de desenvolvimento sustent\u00e1vel e resiliente que beneficie os mais pobres\u201d.<\/p>\n<p><em>Foto: Hector Retamal\/ AFP<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAs coisas estavam come\u00e7ando a dar certo em J\u00e9remie, cidade costeira do Haiti. 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