{"id":5348,"date":"2014-08-23T12:00:25","date_gmt":"2014-08-23T12:00:25","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=5348"},"modified":"2014-08-23T10:47:22","modified_gmt":"2014-08-23T10:47:22","slug":"para-salvar-o-pantanal-preserve-os-pantaneiros-ja-que-tudo-esta-conectado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/para-salvar-o-pantanal-preserve-os-pantaneiros-ja-que-tudo-esta-conectado\/","title":{"rendered":"Para salvar o Pantanal, preserve os pantaneiros, j\u00e1 que tudo est\u00e1 conectado"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/pantanal_preservacao.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-5349\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/pantanal_preservacao.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" \/><\/a>Jorge Pedroso de Almeida, 59 anos, conhecido como Pocon\u00e9, passa quase metade do m\u00eas fora de casa. Ele enfrenta mosquitos, cobras, um sol escaldante, o iminente ataque de on\u00e7as e o desconforto de viver em uma barraca de nylon para poder exercer uma das profiss\u00f5es mais amea\u00e7adas do planeta, seja pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas ou pela polui\u00e7\u00e3o dos rios: sobreviver da pesca em cursos fluviais.<\/p>\n<p>Como grande parte dos outros mil pescadores da regi\u00e3o de C\u00e1ceres, no Mato Grosso, Pocon\u00e9 passa semanas em um barranco \u00e0s margens do Paraguai, distante at\u00e9 200 quil\u00f4metros da cidade mais pr\u00f3xima.\u00a0 Eles representam uma classe local que sobrevive entre as brechas de dois mundos. N\u00e3o s\u00e3o considerados povos tradicionais, porque muitos vivem tamb\u00e9m nas cidades e n\u00e3o completamente isolados nas comunidades ribeirinhas. Pr\u00e9m tamb\u00e9m est\u00e3o proibidos de usarem de t\u00e9cnicas de manejo de pesca mais produtivas e que aumentariam a rentabilidade da atividade. Por lei, os pescadores profissionais de C\u00e1ceres s\u00f3 podem trabalhar de forma tradicional, ou seja: apenas com o anzol e sem redes.<\/p>\n<p>Muitos dos pescadores que acampam com Pocon\u00e9 s\u00e3o descendentes dos \u00edndios Guat\u00f3s, povo ind\u00edgena conhecido como canoeiros, dizimados do Pantanal pela chegada dos colonizadores europeus. Outros, como Jorge que carrega o nome de sua cidade Pocon\u00e9 como apelido, vieram de outras regi\u00f5es pantaneiras.\u00a0 \u201cQuem comeu cabe\u00e7a de pacu n\u00e3o deixa o rio\u201d, diz Almeida entre risadas. \u201cEu cresci no Pantanal de Pocon\u00e9, sempre com essa rela\u00e7\u00e3o com o rio. Quando fiquei mo\u00e7o, vim pra c\u00e1 para servir o ex\u00e9rcito, depois fui conhecendo a abund\u00e2ncia do rio Paraguai e nunca mais deixei esse lugar\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Pocon\u00e9 conta j\u00e1 perceber os impactos das novas atividades humanas no Pantanal. \u201cTudo mudou. Os bichos, a abund\u00e2ncia at\u00e9 as \u00e1guas. Estamos aqui em cima de um outro mundo, diferente de tudo que est\u00e1vamos acostumados.\u00a0 Agora o pescador vai ter que saber se adaptar\u201d diz.<\/p>\n<p>A lufada, sa\u00edda dos peixes da grandes ba\u00edas do Pantanal, \u00e9 um dos eventos\u00a0 que Pocon\u00e9 afirmar estar diferente. \u201cO normal \u00e9 vermos aquela barulheira toda seguida de uma onda de peixe. \u00c9 tanta bicharada que muda at\u00e9 a cor das \u00e1guas. Quem nunca viu, n\u00e3o acredita ser poss\u00edvel ver uma onda de peixes daquela batendo nas praias, com um monte de jacar\u00e9 e outros animais correndo atr\u00e1s\u201d, afirma Pocon\u00e9. \u201cMas, esse ano est\u00e1 t\u00e3o diferente, que nem lufada teve. Os peixes parecem que est\u00e3o vindo pelo fundo do rio, n\u00e3o sei. Choveu muito no Pantanal. Est\u00e1 tudo diferente. Tudo mudado\u201d.<\/p>\n<p>Conviver com as on\u00e7as \u00e9 outra das mudan\u00e7as que os pescadores precisam enfrentar. Em dez anos, os registros de grandes felinos aumentaram muito no Pantanal de C\u00e1ceres. Para os pescadores que passam semanas isolados nos barrancos de rio, o risco de estar ao lado de um predador de topo de cadeia \u00e9 alto. \u201cEu acampava sozinho com a esposa. Mas, teve uma on\u00e7a que cismou com a mulher. Ela n\u00e3o dava bola para mim, n\u00e3o me olhava. Agora quando a minha mulher aparecia, a on\u00e7a at\u00e9 sentava para olhar. Acho que cismou que queria comer a mulher, n\u00e3o tinha jeito. A solu\u00e7\u00e3o foi pararmos de acampar sozinhos e nos juntarmos ao grupo do Jatobazinho, onde tem mais 15 pescadores rio abaixo.\u201d, diz.<\/p>\n<p>Mas as on\u00e7as tamb\u00e9m rondam o grupo desse acampamento. Agora, os pescadores querem construir uma esp\u00e9cie de cercado gigante de tela em torno da \u00e1rea onde dormem. A ideia \u00e9 evitar a chegada inesperada das on\u00e7as. \u201cDe dia elas passam o tempo todo circulando a \u00e1rea, mas estamos acordados e podemos nos defender. A noite \u00e9 um problema\u201d, afirma Pocon\u00e9.<br \/>\nOutro obst\u00e1culo \u00e9 o gelo para manter o pescado fresco. A maioria dos pescadores dos acampamentos do rio Paraguai ainda possuem canoas rudimentares, as chamadas rabetas. O custo com gasolina para comprar o gelo na cidade inviabiliza que eles possam subir o rio com frequ\u00eancia. Muitos acabam at\u00e9 perdendo os peixes que conseguem pescar.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o veio de um apoio solid\u00e1rio proposto por Douglas Trent, pesquisador-chefe do Projeto Bichos do Pantanal, realizado pelo Instituto Sustentar. O capit\u00e3o do barco do projeto, Vagno Pereira Pires, \u00e9 o respons\u00e1vel por fazer o transporte do gelo para os pescadores dos acampamentos pr\u00f3ximos \u00e0 C\u00e1ceres. \u201cAo todo levamos umas 60 barras de 12 quilos. Todo m\u00eas descemos at\u00e9 onde eles acampam para ajud\u00e1-los\u201d, afirma Pires.<\/p>\n<p>Para Douglas Trent, essa ajuda aos pescadores \u00e9 uma forma de garantir que um precioso conhecimento sobre os ecossistemas da regi\u00e3o sejam preservados. \u201cEles guardam uma sabedoria desse biomas que poucos possuem. Sabem, inclusive, muito sobre as esp\u00e9cies de plantas necess\u00e1rias para que certos peixes sobrevivam\u201d, afirma Trent. \u201cN\u00e3o h\u00e1 chances de preservar o Pantanal, sem salvar os pantaneiros tamb\u00e9m. Tudo est\u00e1 conectado\u201d.<\/p>\n<p><em>*Jussara Utsch \u00e9 diretora do Instituto Sustentar e coordenadora-geral do Projeto Bichos do Pantanal, patrocinado pela Petrobras. Especialista em sustentabilidade pela Funda\u00e7\u00e3o Dom Cabral, foi diretora de comunica\u00e7\u00e3o do Conselho Empresarial Bras. para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (CEBDS), foi ponto focal do\u00a0 Comit\u00ea Brasileiro da Avalia\u00e7\u00e3o do Millennium Ecosystem Assessment, da ONU. Criou o programa de TV Brasil Sustent\u00e1vel na TV Cultura de S\u00e3o Paulo e na TV Educativa do Rio de Janeiro.<\/em><\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-620\"><img loading=\"lazy\" title=\"Pescador em acampamento \u00e0s margens do rio Paraguai (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/ Projeto Bichos do Pantanal\/Douglas Trent e Juliana Arini)\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/jFISwS49lHiree9T3ZQrbZeomtI=\/620x465\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2014\/08\/21\/pescador.jpg\" alt=\"Pescador em acampamento \u00e0s margens do rio Paraguai (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/ Projeto Bichos do Pantanal\/Douglas Trent e Juliana Arini)\" width=\"620\" height=\"465\" \/><br \/>\nPescador em acampamento \u00e0s margens do rio Paraguai (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/ Projeto Bichos do Pantanal\/Douglas Trent e Juliana Arini)<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Pedroso de Almeida, 59 anos, conhecido como Pocon\u00e9, passa quase metade do m\u00eas fora<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5349,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/pantanal_preservacao.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/pantanal_preservacao.jpg",150,96,false],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/pantanal_preservacao.jpg",300,192,false],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/pantanal_preservacao.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/pantanal_preservacao.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/pantanal_preservacao.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/pantanal_preservacao.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/pantanal_preservacao.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/pantanal_preservacao.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/pantanal_preservacao.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Jorge Pedroso de Almeida, 59 anos, conhecido como Pocon\u00e9, passa quase metade do m\u00eas fora","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5348"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5348"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5348\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5349"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5348"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5348"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5348"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}