{"id":525,"date":"2014-06-01T00:00:46","date_gmt":"2014-06-01T00:00:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rguedesphotos.com\/espacoecologiconoar\/?p=525"},"modified":"2014-05-31T20:34:39","modified_gmt":"2014-05-31T20:34:39","slug":"a-fotografia-das-politicas-brasileiras-acaba-em-2020-e-depois-como-sera-o-filme","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/a-fotografia-das-politicas-brasileiras-acaba-em-2020-e-depois-como-sera-o-filme\/","title":{"rendered":"Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Reda\u00e7\u00e3o do IHU On-Line<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/shutterstock_130863860.jpg\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/shutterstock_130863860-300x231.jpg\" alt=\" \" width=\"457\" height=\"352\" \/><\/a><\/p>\n<p align=\"justify\"><em>\u201cH\u00e1 uma agenda de competividades econ\u00f4micas e, nesse sentido, existem v\u00e1rios discursos, alguns bonitos, de que precisamos salvar o Planeta, mas, no fundo, o debate econ\u00f4mico permeia a discuss\u00e3o e fica essa queda de bra\u00e7o nas negocia\u00e7\u00f5es\u201d, avalia o engenheiro, Oswaldo Lucon.<\/em><\/p>\n<p align=\"justify\">Oswaldo Lucon \u00e9 um dos pesquisadores brasileiros que participa da elabora\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio de mitiga\u00e7\u00f5es do IPCC, o qual trata de como deve ser feito o abatimento das emiss\u00f5es, e \u00e9 categ\u00f3rico na sua avalia\u00e7\u00e3o: a redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es depende da \u201credu\u00e7\u00e3o no consumo de combust\u00edveis f\u00f3sseis\u201d. Entretanto, destaca, como \u201cest\u00e1 havendo uma mudan\u00e7a no xadrez mundial\u201d, h\u00e1 v\u00e1rios interesses econ\u00f4micos por tr\u00e1s das discuss\u00f5es clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na entrevista a seguir, concedida \u00e0 IHU On-Line por telefone, Lucon informa que o Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses que ainda investe 80% dos recursos financeiros em energia f\u00f3ssil. \u201cEsse perfil de investimento mostra o caminho que estamos seguindo.\u201d O pesquisador esclarece que, apesar de o Brasil ter reduzido o desmatamento para contribuir com os efeitos das emiss\u00f5es de g\u00e1s carb\u00f4nico, as pol\u00edticas brasileiras em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas ainda s\u00e3o ineficientes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Segundo ele, \u201celas s\u00e3o fortemente baseadas na seguinte narrativa: o Brasil \u00e9 um pa\u00eds limpo, tem a matriz energ\u00e9tica limpa, a maioria das nossas emiss\u00f5es vem do desmatamento, mas n\u00f3s conseguimos control\u00e1-lo, fizemos mais do que todos os pa\u00edses, estamos muito bem na foto, portanto, os outros pa\u00edses n\u00e3o venham nos cobrar\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Esse discurso, contudo, \u201cprecisa ser visto com cuidado, porque a emiss\u00e3o mitigada pela queda do desmatamento s\u00f3 acontece uma vez. Depois que voc\u00ea mant\u00e9m a \u00e1rvore em p\u00e9, ela tem de ficar em p\u00e9 para sempre, ao passo que, quando se constr\u00f3i uma nova termel\u00e9trica, ela vai continuar emitindo g\u00e1s carb\u00f4nico durante 50 anos\u201d. E acrescenta: \u201cEnt\u00e3o, a fotografia das pol\u00edticas brasileiras acaba em 2020 e ningu\u00e9m conta como vai ser o filme depois. (\u2026) As metas brasileiras s\u00e3o muito lenientes e, de fato, o Brasil n\u00e3o tem nenhuma meta de emiss\u00e3o que implique algum esfor\u00e7o adicional\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Oswaldo Lucon \u00e9 graduado em Engenharia Civil e em Direito pela Escola Polit\u00e9cnica da Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 USP, mestre In Clean Technology pela University of Newcastle Upon Tyne, Reino Unido, e doutor em Energia pelo Programa Interunidades em Energia, Instituto de Eletrot\u00e9cnica e Energia da Universidade de S\u00e3o Paulo. Atualmente \u00e9 Assessor T\u00e9cnico de Gabinete da Secretaria de Meio Ambiente do Estado de S\u00e3o Paulo e professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Oswaldo.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-113487\" title=\"Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas: A fotografia das pol\u00edticas brasileiras acaba em 2020. E depois, como ser\u00e1 o filme?\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Oswaldo.jpg\" alt=\"Oswaldo Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas: A fotografia das pol\u00edticas brasileiras acaba em 2020. E depois, como ser\u00e1 o filme?\" width=\"210\" height=\"158\" \/><\/a><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Confira a entrevista:<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>IHU On-Line \u2013 O que \u00e9 poss\u00edvel evidenciar no quinto relat\u00f3rio do IPCC em rela\u00e7\u00e3o aos anteriores e quais s\u00e3o as principais conclus\u00f5es do relat\u00f3rio de mitiga\u00e7\u00f5es do IPCC, lan\u00e7ado este ano?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Oswaldo Lucon &#8211;<\/strong> Os tr\u00eas \u00faltimos relat\u00f3rios s\u00e3o muito mais robustos tecnicamente do que os anteriores: houve mais dados, a informa\u00e7\u00e3o melhorou muito e isso aconteceu por conta da press\u00e3o da evid\u00eancia do aquecimento global. O n\u00edvel de d\u00favida sobre o aquecimento global ser ou n\u00e3o ser causado pelo homem \u00e9 inferior a 5%. Ent\u00e3o, a chance de n\u00e3o ser causado pelo homem \u00e9 baix\u00edssima. Lembrando que n\u00e3o temos outro planeta para fugir, esses relat\u00f3rios devem ser levados muito a s\u00e9rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">O primeiro relat\u00f3rio diz que existe um espa\u00e7o na atmosfera que ainda pode ser ocupado por emiss\u00f5es, mas esse espa\u00e7o \u00e9 muito pequeno, cerca de 1.000 a 1.200 gigatoneladas de g\u00e1s carb\u00f4nico equivalente, ou seja, um trilh\u00e3o de toneladas de g\u00e1s carb\u00f4nico equivalente at\u00e9 o fim do s\u00e9culo por todos os pa\u00edses. Se considerarmos as emiss\u00f5es de todos os pa\u00edses do jeito que est\u00e3o emitindo hoje, estamos indo numa rota prov\u00e1vel de quatro graus a mais na temperatura da Terra, apesar de os pa\u00edses terem acordado, na confer\u00eancia de Durban, na \u00c1frica do Sul, que o aumento m\u00e1ximo e toler\u00e1vel na temperatura seria de dois graus. As janelas de oportunidades para a mitiga\u00e7\u00e3o, segundo o relat\u00f3rio, est\u00e3o se fechando, quer dizer, as possibilidades de se atingir essa meta dos dois graus s\u00e3o cada vez mais dif\u00edceis; estamos diante de um desafio. O IPCC n\u00e3o usa a palavra urg\u00eancia, mas a situa\u00e7\u00e3o vai ficando muito mais dif\u00edcil, porque h\u00e1 uma urg\u00eancia de fato.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Relat\u00f3rio de Mitiga\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">O relat\u00f3rio do qual eu participei trata das mitiga\u00e7\u00f5es, de como deve ser feito esse abatimento das emiss\u00f5es, o qual passa, principalmente, pela redu\u00e7\u00e3o no consumo de combust\u00edveis f\u00f3sseis, pela redu\u00e7\u00e3o do desmatamento, mas, principalmente, pela redu\u00e7\u00e3o do consumo de carv\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s no mundo, que continua muito acelerado, apesar dos ganhos de efici\u00eancia que foram obtidos at\u00e9 agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">Esses ganhos de efici\u00eancia n\u00e3o conseguiram contrabalan\u00e7ar o aumento no consumo, porque, em parte, mais pessoas t\u00eam acesso aos bens de consumo, o que gera um aspecto de justi\u00e7a, mas existe muito desperd\u00edcio tamb\u00e9m, o que gera um aspecto de injusti\u00e7a. Ent\u00e3o, esse aumento das emiss\u00f5es mais do que anulou os ganhos de efici\u00eancia obtidos at\u00e9 agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">O perfil de emiss\u00f5es mudou muito: quando a conven\u00e7\u00e3o do clima foi assinada, em 1992, havia uma divis\u00e3o no mundo entre pa\u00edses desenvolvidos e pa\u00edses em desenvolvimento. A China era irrelevante para a economia mundial, mas isso mudou. Hoje a China \u00e9 o maior emissor de g\u00e1s de efeito estufa e segue em dire\u00e7\u00e3o de ser a maior economia do mundo. Dentro de algumas d\u00e9cadas, a China deve ultrapassar os Estados Unidos em rela\u00e7\u00e3o ao PIB. Ao se falar em PIB per capita, realmente o chin\u00eas emite muito menos, mas ele est\u00e1 aumentando rapidamente. Agora, esse nivelamento entre as condi\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses n\u00e3o consegue ocorrer em um tempo compat\u00edvel com a estabiliza\u00e7\u00e3o da temperatura; fisicamente n\u00e3o d\u00e1. Ou seja, n\u00e3o d\u00e1 para esperar que todos os chineses, indianos e brasileiros tenham o seu carro para depois come\u00e7ar a reverter a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Algo muito importante desse relat\u00f3rio do IPCC \u00e9 o efeito de travamento da infraestrutura, de comprometimento da infraestrutura com o projeto carbono intensivo: explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, termel\u00e9tricas a carv\u00e3o, rodovias, autom\u00f3veis que duram dez anos, autom\u00f3veis pesados, de carga, que duram 20 anos ou mais. Esse comprometimento tem reflexos no longo prazo; ent\u00e3o, se licenciar uma ind\u00fastria poluente hoje, ela vai durar 50 anos, ao fazer uma edifica\u00e7\u00e3o ineficiente, ela vai durar 100 anos, e depois \u00e9 muito dif\u00edcil reverter esse curso.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>IHU On-Line \u2013 Houve uma cr\u00edtica forte aos pa\u00edses desenvolvidos, nos anos 1990, por conta de se negarem a assinar Kyoto, mas nos anos 2000 percebe-se que pa\u00edses em desenvolvimento como China, \u00cdndia e Brasil assumem posturas semelhantes ao vetarem informa\u00e7\u00f5es das suas implica\u00e7\u00f5es na emiss\u00e3o de g\u00e1s carb\u00f4nico, a exemplo do que foi feito no SPM. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, ainda \u00e9 v\u00e1lida a cr\u00edtica de que os pa\u00edses desenvolvidos s\u00e3o os grandes culpados das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e que os em desenvolvimento devem assumir acordos mais brandos? Quais s\u00e3o, nesse sentido, as a\u00e7\u00f5es que v\u00eam sendo desenvolvidas pelos pa\u00edses desenvolvidos e pelos em desenvolvimento, no sentido de reduzir as emiss\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Oswaldo Lucon \u2013<\/strong> Hoje, o mundo n\u00e3o tem essa divis\u00e3o entre pa\u00edses desenvolvidos e em desenvolvimento; existem v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es emergentes de grande porte, como China, \u00cdndia, Brasil, Indon\u00e9sia, M\u00e9xico. A R\u00fassia tinha diminu\u00eddo as emiss\u00f5es por causa da crise, mas agora aumentou novamente. H\u00e1 os pa\u00edses menos desenvolvidos que tamb\u00e9m est\u00e3o crescendo, como a \u00c1frica, que est\u00e1 se desenvolvendo bastante. Ent\u00e3o, est\u00e1 havendo uma mudan\u00e7a no xadrez mundial, e h\u00e1 v\u00e1rios interesses, muitos deles s\u00e3o econ\u00f4micos, de competitividade da economia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os Estados Unidos, por exemplo, n\u00e3o querem nenhuma limita\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s emiss\u00f5es e querem vender tecnologia para os demais pa\u00edses. Os pa\u00edses emergentes tamb\u00e9m n\u00e3o querem nenhuma limita\u00e7\u00e3o; alguns, como a China, querem vender tecnologia, e outros, como o Brasil, querem vender commodities b\u00e1sicas. O Brasil vende commodities b\u00e1sicas \u2014 petr\u00f3leo, min\u00e9rio de ferro, produtos agr\u00edcolas \u2014, mas tamb\u00e9m est\u00e1 vulner\u00e1vel ao aquecimento global. Quando h\u00e1 uma quebra de safra ou quando falta \u00e1gua, o custo \u00e9 imenso. O Brasil, que j\u00e1 foi o maior produtor mundial de etanol, hoje est\u00e1 importando etanol de milho dos Estados Unidos \u2014 olha como isso \u00e9 grave! Ent\u00e3o, h\u00e1 uma agenda de competividades econ\u00f4micas e, nesse sentido, existem v\u00e1rios discursos, alguns bonitos, de que precisamos salvar o Planeta, mas, no fundo, o debate econ\u00f4mico permeia a discuss\u00e3o e fica essa queda de bra\u00e7o nas negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ent\u00e3o, existem os grandes grupos, como a Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico \u2013 OCDE, de que participam os pa\u00edses desenvolvidos, os quais j\u00e1 envelheceram, j\u00e1 maturaram o seu perfil de desenvolvimento, j\u00e1 constru\u00edram toda a sua infraestrutura; os emergentes, que est\u00e3o ficando velhos antes de se desenvolverem; e os pa\u00edses mais pobres, que precisam de ajuda financeira, e a\u00ed existe toda uma ret\u00f3rica importante em rela\u00e7\u00e3o a eles.<\/p>\n<p align=\"justify\">A conven\u00e7\u00e3o do clima tem um pecado original, que se chama \u201cprinc\u00edpios das responsabilidades comuns, por\u00e9m diferenciadas e respectivas capacidades\u201d. Trata-se de um nome comprido que, se cortarmos em pedacinhos, diz o seguinte: quando se trata das responsabilidades comuns, o americano, o europeu e o japon\u00eas dizem que todos t\u00eam de contribuir para reduzir as emiss\u00f5es; no que se refere ao termo \u201cdiferenciadas\u201d, China, \u00cdndia e o Grupo dos 77 dizem que n\u00e3o t\u00eam culpa das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, e que se fizerem algo para reduzi-las devem ser pagos por isso \u2014 o problema \u00e9 que ningu\u00e9m vai pagar; no que se refere \u00e0s \u201crespectivas capacidades\u201d, os pa\u00edses mais pobres dizem que eles s\u00f3 podem fazer algo se forem mais capacitados, se tiverem acesso \u00e0 tecnologia, porque, do contr\u00e1rio, nem que eles queiram poder\u00e3o fazer algo.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>IHU On-Line \u2013 Desenvolver tecnologia, como t\u00eam feito os pa\u00edses desenvolvidos, \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o relevante \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Oswaldo Lucon \u2013<\/strong> N\u00e3o. Podem ver que a curva de emiss\u00f5es \u00e9 crescente, \u00e9 mais acelerada nos \u00faltimos dez anos do que nos anteriores, e essa \u00e9 uma das conclus\u00f5es do relat\u00f3rio. Os ganhos tecnol\u00f3gicos evitaram emiss\u00f5es maiores, mas n\u00e3o evitaram o aumento perigoso das emiss\u00f5es. H\u00e1 uma expectativa de que, futuramente, elas venham a contribuir, mas o risco de isso n\u00e3o acontecer \u00e9 alt\u00edssimo. Quer dizer, se n\u00e3o houver um marco regulat\u00f3rio, a situa\u00e7\u00e3o tende a piorar.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>IHU On-Line \u2013 Quais s\u00e3o as experi\u00eancias da Ar\u00e1bia Saudita em rela\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento de pesquisas com tecnologias renov\u00e1veis?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Oswaldo Lucon \u2013<\/strong> Eu nunca estive l\u00e1, mas os Emirados \u00c1rabes, apesar de serem grandes exportadores de combust\u00edveis f\u00f3sseis, j\u00e1 se deram conta de que o modelo de neg\u00f3cio deles corre risco no longo prazo. Eles t\u00eam muito carbono embaixo da terra, cerca de 15 vezes mais do que a atmosfera consegue suportar. Mas perceberam que a regula\u00e7\u00e3o pode mudar e, caso mude, eles querem estar preparados para oferecer outro servi\u00e7o. Basta ver que a sede da Ag\u00eancia Internacional de Energia Renov\u00e1vel fica em Abu Dhabi, nos Emirados \u00c1rabes, e tem uma filial da Sorbonne l\u00e1. Isso significa que eles est\u00e3o investindo o dinheiro do g\u00e1s e do petr\u00f3leo em conhecimento. Hoje todo mundo quer conhecer Dubai porque o free shop \u00e9 bom; ou seja, eles j\u00e1 fizeram uma rota de turismo e perceberam que n\u00e3o d\u00e1 para ficar s\u00f3 em cima da areia vendendo petr\u00f3leo.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>IHU On-Line \u2013 Quais s\u00e3o as pondera\u00e7\u00f5es apontadas pelo relat\u00f3rio de mitiga\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sustentabilidade dos biocombust\u00edveis?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Oswaldo Lucon \u2013<\/strong> Eu venho acompanhando essa quest\u00e3o h\u00e1 v\u00e1rios relat\u00f3rios, e vou fazer uma leitura minha, e n\u00e3o uma leitura do que diz o relat\u00f3rio. O relat\u00f3rio tem de ser ponderado, equilibrado de acordo com todo o conhecimento produzido sobre o tema.<\/p>\n<p align=\"justify\">Existem muitas publica\u00e7\u00f5es, principalmente na Europa, preocupadas com a sustentabilidade dos biocombust\u00edveis. Entretanto, n\u00e3o existe, propositalmente, literatura preocupada com a sustentabilidade do carv\u00e3o, ou da energia nuclear. Ent\u00e3o, h\u00e1 muito interesse, por parte dos europeus, em proteger a pr\u00f3pria agricultura, os pr\u00f3prios subs\u00eddios e evitar importa\u00e7\u00f5es. H\u00e1 interesses tamb\u00e9m em manter a frota de autom\u00f3veis a diesel. Esses interesses econ\u00f4micos se refletem nos papers cient\u00edficos. A Europa se sentiu um pouco tra\u00edda, pelo fato de os outros pa\u00edses n\u00e3o terem entrado no protocolo de Kyoto e os pa\u00edses em desenvolvimento n\u00e3o terem aderido com metas; ent\u00e3o, agora, quer regulamentar tudo fora do pr\u00f3prio territ\u00f3rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">Esse \u00e9 um argumento que tem de ser lido com um pouco de cautela. Tudo bem que o europeu quer regulamentar tudo, mas n\u00f3s n\u00e3o queremos ser regulamentados em nada?<\/p>\n<p align=\"justify\">Esperava-se que a briga de biocombust\u00edveis fosse central na discuss\u00e3o desse relat\u00f3rio, mas n\u00e3o foi. Rapidamente isso se equacionou, existem biocombust\u00edveis avan\u00e7ados tecnologicamente, alguns maduros, como os brasileiros. O grande problema na discuss\u00e3o foi uma divis\u00e3o de pa\u00edses segundo uma classifica\u00e7\u00e3o do Banco Mundial. V\u00e1rios gr\u00e1ficos seguiam essa classifica\u00e7\u00e3o e isso foi contestado pelo Brasil e por outros pa\u00edses, e, de fato, os autores assumiram um risco muito grande, porque a divis\u00e3o dos pa\u00edses segundo o crit\u00e9rio do Banco Mundial n\u00e3o faz parte da conven\u00e7\u00e3o do clima. Essa divis\u00e3o do Banco Mundial tamb\u00e9m \u00e9 um pouco discut\u00edvel. Veja, por exemplo, que a Nig\u00e9ria \u00e9 o pa\u00eds mais desenvolvido da \u00c1frica, tem o maior PIB da \u00c1frica, porque ela resolveu, de repente, atualizar as suas estat\u00edsticas e passou a ser a maior economia da \u00c1frica.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>IHU On-Line \u2013 Quando trata da quest\u00e3o da efici\u00eancia energ\u00e9tica, o senhor diz que \u00e9 preciso uma normativa para que se produzam carros mais eficientes, por exemplo, porque n\u00e3o se trata de economizar luz para garantir a efici\u00eancia energ\u00e9tica. H\u00e1 clareza no que significa a efici\u00eancia energ\u00e9tica? Como garanti-la?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Oswaldo Lucon \u2013<\/strong> A efici\u00eancia em geral, n\u00e3o s\u00f3 a energ\u00e9tica, mas a efici\u00eancia da \u00e1gua, da luz, do solo, ou seja, a efici\u00eancia de qualquer recurso tem v\u00e1rias vertentes e elas s\u00e3o complementares. Essa primeira que voc\u00ea mencionou \u00e9 comportamental. Entretanto, a quest\u00e3o comportamental n\u00e3o \u00e9 restrita s\u00f3 ao indiv\u00edduo, mas tamb\u00e9m diz respeito \u00e0s empresas. Um comportamento insustent\u00e1vel por parte das empresas tem uma repercuss\u00e3o imensa. Uma empresa que acha que pode fazer lobbies no governo para mudar as regras tem um mau comportamento. Comportamento adequado n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 separar o lixo na sua casa. O aspecto comportamental se reflete n\u00e3o s\u00f3 na op\u00e7\u00e3o de autom\u00f3vel, mas na op\u00e7\u00e3o construtiva, como comprar madeira para construir uma casa e n\u00e3o saber a proced\u00eancia do material.<\/p>\n<p align=\"justify\">Outro aspecto a ser considerado \u00e9 o que chamamos de desmaterializa\u00e7\u00e3o da economia: um autom\u00f3vel pesa duas toneladas, mas na d\u00e9cada de 1980 ele pesava 700 quilos, ou seja, hoje existem materiais bem mais leves e o carro pode ser ainda menor. Em parte, essas mudan\u00e7as s\u00e3o volunt\u00e1rias, em parte, precisariam ser mandat\u00f3rias. Nos Estados Unidos j\u00e1 est\u00e3o estabelecendo metas para emiss\u00f5es de g\u00e1s carb\u00f4nico por quil\u00f4metro rodado, algo como 100 gramas por quil\u00f4metro \u2013 para se ter uma ideia, nossos carros emitem 180 gramas. O \u00e1lcool tamb\u00e9m emite g\u00e1s carb\u00f4nico, mas a cana-de-a\u00e7\u00facar reabsorve o g\u00e1s carb\u00f4nico. Entretanto, o fato de o carro ser movido a \u00e1lcool n\u00e3o significa que ele n\u00e3o deva ser mais eficiente.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>IHU On-Line \u2013 A quest\u00e3o clim\u00e1tica passa a ser debatida mais do ponto de vista pol\u00edtico do que cient\u00edfico?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Oswaldo Lucon \u2013<\/strong> Muitas pessoas gostam de discutir perspectivas pol\u00edticas, mas se a perspectiva pol\u00edtica for aquele calend\u00e1rio de quatro anos ditado por marqueteiros, eu n\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es de discutir isso. \u00c9 uma excresc\u00eancia a manipula\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, o populismo, e nem vou falar da Copa do Mundo. N\u00f3s damos espa\u00e7o para todo tipo de medida oportunista que leva pa\u00edses como Argentina e Venezuela a estarem onde est\u00e3o hoje.<\/p>\n<p align=\"justify\">Definitivamente, Argentina e Venezuela n\u00e3o s\u00e3o competitivas. Ainda que n\u00e3o pensem em meio ambiente, pol\u00edticas como as adotadas por esses pa\u00edses prejudicam o pa\u00eds como um todo a longo prazo. A sociedade pode mudar as conveni\u00eancias pol\u00edticas se houver transpar\u00eancia, se houver difus\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es para reverter esse quadro.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>IHU On-Line \u2013 Em rela\u00e7\u00e3o ao sequestro de carbono, como est\u00e3o as pesquisas tecnol\u00f3gicas para coloc\u00e1-lo no fundo do subsolo? Esta seria uma alternativa?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Oswaldo Lucon \u2013<\/strong> H\u00e1 bons pesquisadores investigando esse tema no Rio Grande do Sul, mas os projetos ainda s\u00e3o pilotos, s\u00e3o muito pouco desenvolvidos, apesar dos modelos do IPCC levarem em considera\u00e7\u00e3o que d\u00e1 para ter emiss\u00e3o negativa, que significa enterrar um monte de carbono no fundo da terra, mas, na pr\u00e1tica, isso \u00e9 muito incipiente. Para se ter uma ideia, uma ind\u00fastria ou uma termel\u00e9trica, para fazer isso, tem de ser constru\u00edda com esse fim. Ent\u00e3o, se no licenciamento dessa ind\u00fastria n\u00e3o houver espa\u00e7o para ter uma planta de compress\u00e3o para o g\u00e1s carb\u00f4nico, n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel usar essa t\u00e9cnica.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>IHU On-Line \u2013 Como o senhor avalia as pol\u00edticas brasileiras em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Oswaldo Lucon \u2013<\/strong> Elas s\u00e3o fortemente baseadas na seguinte narrativa: o Brasil \u00e9 um pa\u00eds limpo, tem a matriz energ\u00e9tica limpa, a maioria das nossas emiss\u00f5es vem do desmatamento, mas n\u00f3s conseguimos control\u00e1-lo, fizemos mais do que todos os pa\u00edses, estamos muito bem na foto, portanto, os outros pa\u00edses n\u00e3o venham nos cobrar. Essa narrativa precisa ser vista com cuidado. De fato, o desmatamento caiu bastante e tem se mantido reduzido, mas a emiss\u00e3o mitigada pela queda do desmatamento s\u00f3 acontece uma vez. Depois que voc\u00ea mant\u00e9m a \u00e1rvore em p\u00e9, ela tem de ficar em p\u00e9 para sempre, ao passo que, quando se constr\u00f3i uma nova termel\u00e9trica, ela vai continuar emitindo g\u00e1s carb\u00f4nico durante 50 anos. Ent\u00e3o, a fotografia das pol\u00edticas brasileiras acaba em 2020 e ningu\u00e9m conta como vai ser o filme depois.<\/p>\n<p align=\"justify\">As emiss\u00f5es do setor energ\u00e9tico est\u00e3o crescendo muito, porque os projetos de hidrel\u00e9tricas acabaram n\u00e3o saindo, houve uma s\u00e9rie de dificuldades, houve um crescimento da energia e\u00f3lica no pa\u00eds, mas esse crescimento precisaria ser muito mais acelerado, e a energia solar fotovoltaica s\u00f3 agora est\u00e1 entrando na matriz energ\u00e9tica. Ent\u00e3o, 80% dos recursos financeiros est\u00e3o indo para a energia f\u00f3ssil nos pr\u00f3ximos anos. Esse perfil de investimento mostra o caminho que estamos seguindo. Nesse sentido, seguir com essa narrativa de que n\u00f3s n\u00e3o precisamos fazer nada porque os desenvolvidos fizeram, que temos esse dano desde a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, n\u00e3o funciona. Se formos processar esses pa\u00edses pelos danos que nos causaram, ent\u00e3o temos de processar Portugal por ter feito escravos na \u00c1frica, ou os romanos pelo que eles fizeram. Quer dizer, vamos acionar pa\u00edses pelo que eles fizeram na Revolu\u00e7\u00e3o Industrial?<\/p>\n<p align=\"justify\">Ent\u00e3o, esse discurso de \u201cpodemos continuar emitindo\u201d n\u00e3o vai resistir por muito tempo. As metas brasileiras s\u00e3o muito lenientes e, de fato, o Brasil n\u00e3o tem nenhuma meta de emiss\u00e3o que implique algum esfor\u00e7o adicional, e isso precisa ser revisto imediatamente. Caso contr\u00e1rio, o Brasil continuar\u00e1 na contram\u00e3o da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\"><em>* Publicado originalmente no site <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/531455-as-mudancas-climaticas-e-o-novo-xadrez-mundial-entrevista-especial-com-oswaldo-lucon\" target=\"_blank\">IHU On-Line<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Reda\u00e7\u00e3o do IHU On-Line \u201cH\u00e1 uma agenda de competividades econ\u00f4micas e, nesse sentido, existem<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Reda\u00e7\u00e3o do IHU On-Line \u201cH\u00e1 uma agenda de competividades econ\u00f4micas e, nesse sentido, existem","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/525"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=525"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/525\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=525"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=525"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=525"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}