{"id":52235,"date":"2016-10-23T08:32:43","date_gmt":"2016-10-23T11:32:43","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=52235"},"modified":"2016-10-23T08:32:44","modified_gmt":"2016-10-23T11:32:44","slug":"convencao-internacional-o-futuro-das-baleias-e-um-tratado-de-outro-planeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/convencao-internacional-o-futuro-das-baleias-e-um-tratado-de-outro-planeta\/","title":{"rendered":"Conven\u00e7\u00e3o internacional: o futuro das baleias e um tratado de outro planeta"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/convencao-internacional-o-futuro-das-baleias-e-um-tratado-de-outro-planeta\/baleia_jubarte-2\/\" rel=\"attachment wp-att-52236\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-52236\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/baleia_jubarte-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/baleia_jubarte-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/baleia_jubarte.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Imagine por um momento que a gest\u00e3o de recursos naturais da Terra, ali\u00e1s, de seus oceanos, tenha de ser feita conforme as regras de um tratado internacional escrito em outro planeta. Qu\u00e3o aceit\u00e1vel seria essa aberra\u00e7\u00e3o? Pois \u00e9. E, no entanto, \u00e9 exatamente o que acontece com recursos marinhos nada menos relevantes e emblem\u00e1ticos do que&#8230; as baleias.<\/p>\n<p>N\u00e3o perdi o ju\u00edzo (mais que o normal) durante a viagem para a Eslov\u00eania, nem fumei alguma coisa proibida al\u00e9m da conta. Mas ter de se tomar decis\u00f5es sobre a vida ou morte das baleias conforme as normas de uma Conven\u00e7\u00e3o escrita em 1946, quando n\u00e3o havia internet, sat\u00e9lites dedicados ao acompanhamento de fauna a partir de marcadores eletr\u00f4nicos, foto-identifica\u00e7\u00e3o, ou turismo de observa\u00e7\u00e3o de cet\u00e1ceos \u2013 que dizer de consci\u00eancia ambiental global \u2013 \u00e9 como se f\u00f4ssemos obrigados a seguir as regras definidas para um planeta que j\u00e1 n\u00e3o existe. Um planeta no qual a carne de baleia era parte essencial da dieta em um pa\u00eds destru\u00eddo pela II Guerra Mundial (o Jap\u00e3o); onde a \u00fanica forma conhecida de estudar as baleias era matando-as e esquartejando-as; e onde nenhum valor al\u00e9m do comercial era atribu\u00eddo \u00e0 fauna marinha, nem a baleias, nem a nada mais que nadasse dos oceanos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de se surpreender, visto por esse prisma, que atualmente a<a href=\"http:\/\/www.iwc.int\/\" target=\"_blank\"> Comiss\u00e3o Internacional da Baleia<\/a> (CIB) sofra de uma profunda esquizofrenia, de uma divis\u00e3o interna paralisante, e de uma incapacidade de se adaptar ao s\u00e9culo XXI. Concebido por um clube de pa\u00edses ca\u00e7adores de baleias como forma de dividir de maneira pragm\u00e1tica o butim representado pela matan\u00e7a anual de milhares de baleias nos anos do p\u00f3s-guerra, o<a href=\"https:\/\/archive.iwc.int\/pages\/view.php?ref=3607&amp;k=\" target=\"_blank\"> tratado fundador da Comiss\u00e3o<\/a> se preocupava basicamente com institucionalizar e promover essa matan\u00e7a. O resultado disso hoje todos sabemos: as esp\u00e9cies de grandes baleias foram levadas sistem\u00e1tica e criminosamente \u00e0 beira da extin\u00e7\u00e3o. Apenas um movimento global contra a ca\u00e7a das baleias, incluindo a cidadania de muitos pa\u00edses antes baleeiros, foi capaz de reverter a partir da d\u00e9cada de 1970 essa barbaridade a tempo de evitar a extin\u00e7\u00e3o da maioria delas (ainda que a<a href=\"http:\/\/baleinesendirect.org\/en\/are-atlantic-gray-whales-really-extinct\/\" target=\"_blank\"> baleia cinzenta do Atl\u00e2ntico<\/a> tenha ido para as cucuias, bem como a<a href=\"http:\/\/www.iucnredlist.org\/details\/41712\/0\" target=\"_blank\"> baleia franca da costa europeia<\/a> do Atl\u00e2ntico norte, bem antes da Comiss\u00e3o ter sido criada).<\/p>\n<p>De 1946 para c\u00e1, a carne de baleia deixou de ser um alimento essencial, inclusive para muitas das comunidades ent\u00e3o classificadas como \u201cabor\u00edgenes\u201d e que, se um dia dependeram l\u00e1 no C\u00edrculo \u00c1rtico de carne de baleia para sobreviverem hoje a obt\u00e9m com subs\u00eddios e tecnologia dada por governos abastados (como nos Estados Unidos) ou a compram e vendem em supermercados (como na Groenl\u00e2ndia, onde a renda per capita \u00e9 uma das maiores da Europa). Tampouco o \u00e9 mais para o Jap\u00e3o, cuja imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o<a href=\"https:\/\/www.wired.com\/2015\/12\/japanese-barely-eat-whale-whaling-big-deal\/\" target=\"_blank\"> n\u00e3o come carne de baleia<\/a>, sendo a matan\u00e7a ainda praticada por aquele pa\u00eds um mero trambique para amealhar subs\u00eddios estatais, enquanto milhares de toneladas de carne de baleia de temporadas de ca\u00e7a passadas se amontoam em armaz\u00e9ns refrigerados, sem ter quem as compre. Tamb\u00e9m de l\u00e1 para c\u00e1 a Ci\u00eancia com C mai\u00fasculo passou a estudar as baleias atrav\u00e9s de m\u00e9todos n\u00e3o-letais, ajudada pela tecnologia sempre em evolu\u00e7\u00e3o, com t\u00e9cnicas de<a href=\"http:\/\/whale.wheelock.edu\/whalenet-stuff\/stop_cover.html\" target=\"_blank\"> marca\u00e7\u00e3o satelital<\/a>,<a href=\"http:\/\/earthtrust.org\/archive\/dnaproj.html\" target=\"_blank\"> an\u00e1lise de DNA<\/a>,<a href=\"http:\/\/www.cwr.org.au\/research\/humpbackwhales\/photo.html\" target=\"_blank\"> foto-identifica\u00e7\u00e3o<\/a> e muitas outras formas de entendermos como as baleias vivem, qual seu papel ecol\u00f3gico e a quantas andam suas popula\u00e7\u00f5es depois de s\u00e9culos de massacre desenfreado de parte dos macacos pelados que a tudo abatem sem muita considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ci\u00eancia e consci\u00eancia tamb\u00e9m nos levaram a reconhecer outros valores nas grandes baleias que n\u00e3o apenas o da carne e gordura. Por um lado, a recupera\u00e7\u00e3o gradual das popula\u00e7\u00f5es permitiu que uma atividade iniciada de forma incipiente na costa oeste norte-americana na d\u00e9cada de 1950, a observa\u00e7\u00e3o tur\u00edstica desses animais, viesse a se disseminar pelo mundo a ponto de virar uma<a href=\"http:\/\/www.ifaw.org\/international\/resource-centre\/whale-watching-worldwide\" target=\"_blank\"> ind\u00fastria de dois bilh\u00f5es de d\u00f3lares anuais<\/a> em arrecada\u00e7\u00e3o, que opera em mais de 100 pa\u00edses e territ\u00f3rios e beneficia centenas de comunidades costeiras \u2013 sem ter de matar nenhuma baleia. Mas para al\u00e9m dos valores monet\u00e1rios, estamos descobrindo que as baleias s\u00e3o<a href=\"https:\/\/www.newscientist.com\/article\/2109365-whales-dung-is-the-real-reason-we-need-to-stop-hunting-them\/\" target=\"_blank\"> essenciais \u00e0 ciclagem de nutrientes<\/a> nos oceanos, contribuindo com sua recupera\u00e7\u00e3o populacional para mitigar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Sob qualquer \u00e2ngulo que se olhe, as baleias valem muito, mas muito mais vivas do que mortas.<\/p>\n<p>Os poucos pa\u00edses baleeiros restantes n\u00e3o querem ouvir falar disso. Noruega, Isl\u00e2ndia e Jap\u00e3o seguem matando baleias aos milhares, \u00e0 margem da morat\u00f3ria da ca\u00e7a comercial imposta pela Comiss\u00e3o ainda nos anos 1980. Os Estados Unidos s\u00e3o contra a ca\u00e7a comercial, mas permitem que seus \u201cesquim\u00f3s\u201d matem para seus festivais \u201cculturais\u201d uma das esp\u00e9cies mais longevas, a<a href=\"http:\/\/us.whales.org\/species-guide\/bowhead-whale\" target=\"_blank\"> baleia bowhead<\/a>, que pode passar dos 200 ANOS DE IDADE, com lanchas e granadas modernas. E a Uni\u00e3o Europeia d\u00e1 cobertura para que a Dinamarca, de cujo reino a Groenl\u00e2ndia faz parte, massacre centenas de baleias sob a mesma desculpa mas com<a href=\"http:\/\/us.whales.org\/greenland-commercial-whaling\" target=\"_blank\"> finalidade comprovadamente comercial<\/a>.<\/p>\n<p>Em meio a isso tudo, e com mais um oba-oba de algumas mega-ONGs internacionais que pegam carona de \u00faltima hora num esfor\u00e7o de d\u00e9cadas de ativistas e gestores p\u00fablicos brasileiros envolvidos no tema, o Brasil retorna mais uma vez \u00e0 Plen\u00e1ria bianual da CIB para tentar aprovar a proposta de cria\u00e7\u00e3o de um<a href=\"http:\/\/santuariodebaleias.mma.gov.br\/pt\/vamos-recuperar-as-populacoes-de-baleias-do-atlantico-sul\/\" target=\"_blank\"> Santu\u00e1rio de Baleias do Atl\u00e2ntico Sul<\/a>, que proibiria em definitivo a matan\u00e7a em nossa bacia oce\u00e2nica e promoveria a coopera\u00e7\u00e3o regional para a pesquisa e o desenvolvimento do turismo de observa\u00e7\u00e3o. Para ser aprovada, a proposta precisa de \u00be dos votos dos pa\u00edses presentes \u2013 uma tarefa nada f\u00e1cil, j\u00e1 que o Jap\u00e3o controla um bloco de pa\u00edses africanos, caribenhos e outros \u00e0 custa de \u201cajuda para o desenvolvimento pesqueiro\u201d que na verdade envolve um<a href=\"http:\/\/www.dailymail.co.uk\/news\/article-1286304\/Whaling-Japan-gave-cash-girls-rig-whaling-vote-bid-end-24-year-ban.html\" target=\"_blank\"> verdadeiro petrol\u00e3o de benesses indevidas<\/a>. O Ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, est\u00e1 vindo pessoalmente a Portoroz, na Eslov\u00eania, onde a Comiss\u00e3o se re\u00fane, para defender a proposta. E a chegada esta semana do novo Comiss\u00e1rio do Brasil \u00e0 CIB, Embaixador Hermano Telles Ribeiro, um nome muito respeitado no Itamaraty, \u00e9 uma boa not\u00edcia para dar uma vitaminada em nossa representa\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica no tema. O<a href=\"http:\/\/www.baleiajubarte.org.br\/\" target=\"_blank\"> Instituto Baleia Jubarte<\/a>, com apoio de parceiros nos demais pa\u00edses proponentes do Santu\u00e1rio na regi\u00e3o, trouxe uma bel\u00edssima exposi\u00e7\u00e3o a Portoroz demonstrando a import\u00e2ncia s\u00f3cio-econ\u00f4mica, cultural e ambiental das baleias para nossos pa\u00edses. Ser\u00e1 suficiente? Pouco prov\u00e1vel. O Brasil tem de aprender a torcer o bra\u00e7o de nossos \u201cparceiros\u201d recalcitrantes, como os pa\u00edses africanos nos quais investimos bilh\u00f5es em coopera\u00e7\u00e3o, dos quais perdoamos d\u00edvidas gigantescas e que depois aparecem aqui para votar contra nossos interesses. E precisamos, sem sombra de d\u00favida, ajudar a reagrupar o bloco latino, que nesta reuni\u00e3o sofre com aus\u00eancias como o Panam\u00e1 e o Equador, que fugiram da raia e n\u00e3o enviar\u00e3o representantes.<\/p>\n<p>A vota\u00e7\u00e3o da proposta do Santu\u00e1rio est\u00e1 prevista para segunda-feira. Ser\u00e1 apenas a\u00ed que saberemos a contagem de votos efetiva. Em qualquer caso, \u00e9 bom ver o Brasil novamente motivado e, na medida do poss\u00edvel tentando se articular, ainda que do nosso tradicional jeito mambembe, para defender as baleias, em franco contraste com a <a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/colunas\/jose-truda\/28643-o-futuro-das-baleias-e-o-teatro-do-absurdo\/\" target=\"_blank\">\u00faltima Plen\u00e1ria da CIB<\/a> neste mesmo lugar. Vejamos como caminha a coisa nos pr\u00f3ximos dias, mas os aplausos a um novo Brasil tentando resgatar uma posi\u00e7\u00e3o conservacionista de destaque, de que j\u00e1 desfrutou nesta Comiss\u00e3o de outro planeta, est\u00e3o, ao que parece, garantidos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine por um momento que a gest\u00e3o de recursos naturais da Terra, ali\u00e1s, de seus<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":52236,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/baleia_jubarte.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/baleia_jubarte-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/baleia_jubarte-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/baleia_jubarte.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/baleia_jubarte.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/baleia_jubarte.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/baleia_jubarte.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/baleia_jubarte.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/baleia_jubarte.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/baleia_jubarte.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Imagine por um momento que a gest\u00e3o de recursos naturais da Terra, ali\u00e1s, de seus","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52235"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52235"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52235\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/52236"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52235"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52235"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52235"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}