{"id":52219,"date":"2016-10-22T17:48:36","date_gmt":"2016-10-22T20:48:36","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=52219"},"modified":"2016-10-22T17:48:36","modified_gmt":"2016-10-22T20:48:36","slug":"desastres-naturais-e-civilizacao-humana-artigo-de-roberto-naime","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/desastres-naturais-e-civilizacao-humana-artigo-de-roberto-naime\/","title":{"rendered":"Desastres naturais e civiliza\u00e7\u00e3o humana, artigo de Roberto Naime"},"content":{"rendered":"<div class=\"entry-content\">\n<div class=\"post_content\">\n<figure class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 649px;\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/_agenciabrasil2013\/files\/styles\/interna_grande\/public\/chuva_santa_catarina.jpg?itok=SelXKOxi\" alt=\"nunda\u00e7\u00e3o em Santa Catarina, outubro\/2014. Foto: Defesa Civil de Santa Catarina\/Divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"639\" height=\"428\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"><em>Inunda\u00e7\u00e3o em Santa Catarina, outubro\/2014. Foto: Defesa Civil de Santa Catarina\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[<a href=\"https:\/\/www.ecodebate.com.br\/2016\/10\/20\/desastres-naturais-e-civilizacao-humana-artigo-de-roberto-naime\/\"><strong>EcoDebate<\/strong><\/a>] Em agosto de 2010, o vulc\u00e3o Sinabung, na ilha indonesiana de Sumatra, entrou em erup\u00e7\u00e3o e retirou pelo menos 18 mil moradores da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois, no Paquist\u00e3o, chuvas torrenciais causaram o pior desastre natural da hist\u00f3ria do pa\u00eds, matando mais de 1.500 pessoas e deixando mais de seis milh\u00f5es de desabrigados, causando bilh\u00f5es de d\u00f3lares de danos \u00e0 infraestrutura e \u00e0 agricultura.<\/p>\n<p>Eventos como vulc\u00f5es e inunda\u00e7\u00f5es s\u00e3o fen\u00f4menos da natureza e s\u00e3o considerados desastres naturais quando atingem um sistema social, causando danos e preju\u00edzos que excedam a capacidade dos afetados de conviver com o impacto.<\/p>\n<p>Um desastre natural, al\u00e9m de causar a perda de vidas humanas, traz preju\u00edzos materiais, econ\u00f4micos e ambientais e provoca graves interrup\u00e7\u00f5es do funcionamento de uma comunidade ou de uma sociedade.<\/p>\n<p>S\u00e3o fen\u00f4menos que podem ocorrer em qualquer regi\u00e3o do nosso planeta variando de intensidade e gravidade, dependendo de elementos pr\u00f3prios da din\u00e2mica da natureza e das interven\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>Matthew Kahn, no artigo \u201cThe death roll from natural disasters: the role of income, geography, and institutions\u201d (Universidade Tufts e Universidade Stanford, 2003), analisou grandes desastres naturais ocorridos em 73 pa\u00edses (pobres, m\u00e9dios e ricos), entre 1980 e 2002.<\/p>\n<p>Concluiu que os mesmos se distribu\u00edram equitativamente, mas afetaram as popula\u00e7\u00f5es de forma diferente.<\/p>\n<p>Por exemplo, no per\u00edodo estudado, a \u00cdndia teve 14 grandes terremotos, nos quais morreram 32.117 pessoas, enquanto que nos Estados Unidos ocorreram 18 grandes terremotos, que causaram 143 mortes.<\/p>\n<p>Alguns fen\u00f4menos, como movimentos de placas tect\u00f4nicas que causam os terremotos, possuem grande aleatoriedade, mas ocorrem principalmente em \u00e1reas situadas em bordas de placas, outros, como secas e inunda\u00e7\u00f5es, podem ser previstos com alguma anteced\u00eancia, a partir de modelos clim\u00e1ticos cada vez mais sofisticados.<\/p>\n<p>Se uma regi\u00e3o est\u00e1 sujeita a terremotos, ciclones ou chuvas muito intensas, por exemplo, sua popula\u00e7\u00e3o estar\u00e1 mais exposta a perigos, por\u00e9m, o risco n\u00e3o ser\u00e1 o mesmo para todos.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio \u201cReduzindo o risco de desastres: um desafio para o desenvolvimento\u201d, do Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), define que o risco \u00e9 a probabilidade de perda esperada para uma \u00e1rea habitada em um determinado tempo, devido \u00e0 presen\u00e7a iminente de um perigo.<\/p>\n<p>Elaborado por especialistas de todo o mundo, o documento aponta que, no per\u00edodo de 1980 a 2000, quase 75% da popula\u00e7\u00e3o mundial vivia em regi\u00f5es onde ocorreu pelo menos uma vez um fen\u00f4meno como terremoto, ciclone tropical, inunda\u00e7\u00e3o ou seca.<\/p>\n<p>Esses eventos causaram a morte de mais de 1,5 milh\u00e3o de pessoas. A vulnerabilidade de uma popula\u00e7\u00e3o ante um desastre natural reflete condi\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f4micas e geogr\u00e1ficas, que afetam a capacidade dessa popula\u00e7\u00e3o para responder ao risco.<\/p>\n<p>Como o conceito de desastre natural est\u00e1 vinculado aos preju\u00edzos por ele causado, o impacto depende da capacidade da comunidade de suportar ou superar os danos.<\/p>\n<p>Assim, quanto mais pobre a popula\u00e7\u00e3o, mais ela sofre com os desastres naturais. Isso explicaria porque n\u00e3o existe uma rela\u00e7\u00e3o direta entre n\u00famero de desastres naturais e n\u00famero de pessoas mortas ou afetadas pelos eventos.<\/p>\n<p>Concentra\u00e7\u00e3o de renda, baixa escolaridade, acesso prec\u00e1rio a informa\u00e7\u00f5es sobre os riscos, falta de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos segmentos desfavorecidos da sociedade, aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas eficientes que permitam a defini\u00e7\u00e3o e implanta\u00e7\u00e3o de ordenamentos no uso de terras urbanas e rurais, s\u00e3o alguns dos muitos fatores que contribuem para uma exposi\u00e7\u00e3o maior de popula\u00e7\u00f5es pobres a poss\u00edveis desastres naturais.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o significa que n\u00e3o exista percep\u00e7\u00e3o do perigo, nem tampouco que apenas fatores sociais e econ\u00f4micos condicionam a perman\u00eancia de popula\u00e7\u00f5es em \u00e1reas de risco.<\/p>\n<p>Rafaela Vieira, arquiteta e professora da Universidade do Vale do Itaja\u00ed (UNIVALE) e da Funda\u00e7\u00e3o Universidade Regional de Blumenau (FURB), entrevistou moradores de uma \u00e1rea com grande incid\u00eancia de deslizamento, localizada pr\u00f3xima ao centro de Blumenau (SC).<\/p>\n<p>Na cidade onde predomina um relevo acidentado e que tem apresentado um forte crescimento populacional, com a ocupa\u00e7\u00e3o das encostas sendo geralmente associada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de exclus\u00e3o social. Ela verificou que todos sabiam do perigo de viver em \u00e1reas \u00edngremes e que um deslizamento de encostas pode causar destrui\u00e7\u00e3o e mortes, \u201cmas a maioria n\u00e3o reconhecia o pr\u00f3prio risco a que estava exposto\u201d.<\/p>\n<p>Na pesquisa, que integrou seu doutorado em geografia defendido na Universidade de Santa Catarina (UFSC), a arquiteta trabalhou com conceitos propostos por Ian Burton, Robert W. Kates e Gilbert F. White, organizados no livro \u201cThe environment as hazard\u201d (1993).<\/p>\n<p>Se afirma a partir de estudos em 18 pa\u00edses, que a percep\u00e7\u00e3o do perigo se d\u00e1 de diferentes formas e influi na maneira como as pessoas enfrentam os problemas, como habitam o lugar e como se relacionam entre si (indiv\u00edduos e coletividade) e com o ambiente (indiv\u00edduos e coletividade com o ambiente).<\/p>\n<p>Estes autores consideram que existem quatro est\u00e1gios na percep\u00e7\u00e3o, sendo absor\u00e7\u00e3o, aceita\u00e7\u00e3o, redu\u00e7\u00e3o das perdas e mudan\u00e7as de uso e de localiza\u00e7\u00e3o. Estes est\u00e1gios est\u00e3o separados por tr\u00eas limiares, que s\u00e3o conhecimento, a\u00e7\u00e3o e toler\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Em sua pesquisa, Rafaela constatou que os moradores da \u00e1rea estudada afirmavam que o deslizamento n\u00e3o aconteceria onde moram, apesar de a grande maioria ser residente em \u00e1reas de suscetibilidade a deslizamentos. N\u00e3o existe este determinismo social, nem existencial.<\/p>\n<p>\u201cDe fato, quando mais pr\u00f3ximos se encontravam do risco, maior era a nega\u00e7\u00e3o desse risco\u201d, diz ela. Segundo a professora, \u201cquanto menor a renda, mais rapidamente as pessoas que vivem em uma \u00e1rea de risco atingem o limiar do conhecimento; mas para chegar \u00e0 a\u00e7\u00e3o, outros fatores interferem fortemente como os la\u00e7os afetivos ao lugar\u201d.<\/p>\n<p>Rafaela confirmou o que Burton e seus colaboradores j\u00e1 haviam apontado, de que \u201ch\u00e1 uma incapacidade humana para imaginar um desastre natural em um meio ambiente familiar\u201d.<\/p>\n<p><strong>**<\/strong> <a href=\"http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?pid=S0009-67252011000100004&amp;script=sci_arttext\" target=\"_blank\">Mat\u00e9ria original<\/a> de <strong>Maria Leonor Assad<\/strong>, in Cienc. Cult. vol.63 no.1 S\u00e3o Paulo Jan. 2011, ampliada e comentada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Dr. <a href=\"http:\/\/www.ecodebate.com.br\/?s=Roberto+Naime\" target=\"_blank\">Roberto Naime<\/a>, Colunista do Portal EcoDebate, \u00e9 Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Inunda\u00e7\u00e3o em Santa Catarina, outubro\/2014. 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