{"id":50086,"date":"2016-09-19T09:23:05","date_gmt":"2016-09-19T12:23:05","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=50086"},"modified":"2016-09-19T09:23:06","modified_gmt":"2016-09-19T12:23:06","slug":"a-trajetoria-do-professor-do-parana-que-empalhou-mais-de-6-mil-bichos-e-criou-um-museu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/a-trajetoria-do-professor-do-parana-que-empalhou-mais-de-6-mil-bichos-e-criou-um-museu\/","title":{"rendered":"A trajet\u00f3ria do professor do Paran\u00e1 que empalhou mais de 6 mil bichos e criou um museu"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/a-trajetoria-do-professor-do-parana-que-empalhou-mais-de-6-mil-bichos-e-criou-um-museu\/taxidermia\/\" rel=\"attachment wp-att-50087\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-50087\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/taxidermia-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/taxidermia-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/taxidermia.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Uma antiga esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria em Corn\u00e9lio Proc\u00f3pio, no norte do Paran\u00e1, abriga um urso-marrom, um enorme jacar\u00e9-a\u00e7u, um lobo-guar\u00e1, uma sucuri e centenas de outros animais, entre aves, r\u00e9pteis, anf\u00edbios e felinos.<\/p>\n<p>Na mesma cidade, quem abre a porta de uma sala da Universidade Estadual do Norte do Paran\u00e1 (Uenp) d\u00e1 de cara com tigres, le\u00f5es e on\u00e7as-pintadas.<\/p>\n<p>Um desavisado pode se assustar com tantas feras, mas os animais s\u00e3o inofensivos: est\u00e3o mortos e foram taxidermizados por Jo\u00e3o Galdino, 77 anos, professor de fala pausada, voz grave e entusiasta da educa\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Dentista e bi\u00f3logo, ele conheceu a taxidermia (processo de conserva\u00e7\u00e3o de animais mortos) quando cursava Odontologia, em Campinas (SP), na d\u00e9cada de 1960.<\/p>\n<p>Filho de pequenos agricultores e com pouco dinheiro no bolso, ele costumava visitar o Bosque dos Jequitib\u00e1s, um dos parques mais antigos da cidade paulista.<\/p>\n<p>Para empalhar tigre-de-bengala que pesava 260 quilos, Galdino precisou construir um esqueleto de ferro. Os olhos s\u00e3o de cristal, importados da Alemanha.<\/p>\n<p>&#8220;No bosque havia um professor que fazia taxidermia chamado Mario Lotufo. Colei nele. Observava tudo. Acabei aprendendo de tanto olhar&#8221;, recorda Galdino.<\/p>\n<p>O primeiro animal que empalhou foi um gavi\u00e3o. N\u00e3o parou mais.<\/p>\n<p>Formado dentista, Galdino voltou ao Paran\u00e1. Atendia como odont\u00f3logo e lecionava a antiga disciplina de Ci\u00eancias no ensino m\u00e9dio. E resolveu fazer faculdade de Biologia \u00e0 noite para aprender mais sobre fauna e flora.<\/p>\n<p>&#8220;Foi a\u00ed que soube que muitos animais de zool\u00f3gicos sofriam com problemas dent\u00e1rios. N\u00e3o havia profissionais para mexer nos dentes deles. Entrei nessa. Durante 16 anos fiz canais e obtura\u00e7\u00f5es em le\u00f5es, tigres, on\u00e7as, ursos, javalis, chimpanz\u00e9s de diversos zoos do pa\u00eds. Tive que fabricar instrumentos para mexer nas bocas de cada um deles&#8221;, conta o professor.<\/p>\n<p>Enquanto cuidava de dentes e dava aulas j\u00e1 como professor universit\u00e1rio de Biologia, Galdino foi formando seu acervo, com doa\u00e7\u00f5es dos pr\u00f3prios zool\u00f3gicos e de \u00f3rg\u00e3os ambientais.<\/p>\n<p>Reserva t\u00e9cnica do museu fica em espa\u00e7o em universidade que quase n\u00e3o comporta mais animais, que continuam chegando.<\/p>\n<p>&#8220;At\u00e9 hoje \u00e9 assim. Quando morre um animal, ligam para mim. Se acho interessante, pego minha caminhonete e vou buscar, n\u00e3o importa a dist\u00e2ncia.&#8221;<\/p>\n<p>Construindo um museu<br \/>\nO acervo do professor chamou a aten\u00e7\u00e3o da Prefeitura de Corn\u00e9lio Proc\u00f3pio em 2002, ano em que a cidade inaugurou um Museu de Hist\u00f3ria Natural na antiga esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria do munic\u00edpio.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o foi adaptado para receber as pe\u00e7as de Galdino, que formam hoje 100% do acervo.<\/p>\n<p>Paredes receberam pinturas para caracterizar os ambientes dos biomas representados. Galhos de \u00e1rvores, folhas e outras plantas ajudam a compor os cen\u00e1rios em que os animais s\u00e3o astros.<\/p>\n<p>Espa\u00e7os do museu criado por professor em Corn\u00e9lio Proc\u00f3pio s\u00e3o caracterizados por biomas<\/p>\n<p>Acervo foi formado com doa\u00e7\u00f5es de zool\u00f3gicos e \u00f3rg\u00e3os ambientais &#8211; atropelamentos s\u00e3o uma das principais causas das mortes dos bichos<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o basta taxidermizar. Tem que saber a postura de cada um na natureza: o que come, o que preda, em qual \u00e1rvore sobe, em qual n\u00e3o sobe. Assim \u00e9 poss\u00edvel ter um trabalho de educa\u00e7\u00e3o ambiental bem feito&#8221;, afirma Galdino.<\/p>\n<p>O museu trabalha de acordo com as restri\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias da prefeitura. Por falta de funcion\u00e1rios &#8211; s\u00e3o apenas dois &#8211; abre somente de segunda a sexta-feira, das 8h \u00e0s 14h. O or\u00e7amento para manuten\u00e7\u00e3o do acervo \u00e9 de R$ 7,2 mil mensais, repassados a um instituto presidido por Galdino.<\/p>\n<p>Mesmo assim, os livros de visita do museu registram mais de 60 mil nomes em 12 anos de atividades. N\u00famero superior \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de Corn\u00e9lio Proc\u00f3pio, cidade de 48.615 habitantes. A maioria do p\u00fablico \u00e9 de crian\u00e7as de escolas da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando poss\u00edvel, o pr\u00f3prio professor faz o papel de monitor das visitas. Gosta de explicar sobre os animais para crian\u00e7as e outros p\u00fablicos. &#8220;N\u00e3o tem nada mais emocionante do que ver um deficiente visual podendo tocar nos animais, peg\u00e1-los nas m\u00e3os.&#8221;<\/p>\n<p>Como o espa\u00e7o hist\u00f3rico da esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria da cidade n\u00e3o permite amplia\u00e7\u00f5es e n\u00e3o comporta mais do que 300 animais, o professor recorre a espa\u00e7os na Universidade Estadual do Norte do Paran\u00e1, onde permanece produzindo.<\/p>\n<p>Professor utiliza taxidermia como instrumento de educa\u00e7\u00e3o ambiental no norte do Paran\u00e1<\/p>\n<p>Praticamente j\u00e1 n\u00e3o cabe mais nenhum bicho por l\u00e1. Mas eles continuam chegando, sobretudo animais silvestres que morrem atropelados em estradas, como on\u00e7as-pardas, e outros oriundos de zool\u00f3gicos.<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-620\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"Professor utiliza taxidermia como instrumento de educa\u00e7\u00e3o ambiental no norte do Paran\u00e1  (Foto: Sergio Ranalli)\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/B5ZSyby4xoBbjjDJ7R8J8WauFtY=\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2016\/09\/17\/bichos3.jpg\" alt=\"Professor utiliza taxidermia como instrumento de educa\u00e7\u00e3o ambiental no norte do Paran\u00e1  (Foto: Sergio Ranalli)\" width=\"640\" height=\"480\" \/><strong>Professor utiliza taxidermia como instrumento de educa\u00e7\u00e3o ambiental no norte do Paran\u00e1 (Foto: Sergio Ranalli)<\/strong><\/div>\n<p><strong>Arte e pr\u00e1tica<\/strong><br \/>\nO processo de taxidermia \u00e9 minucioso. Tudo o que \u00e9 carne \u00e9 retirado. Para a conserva\u00e7\u00e3o, \u00e9 utilizada uma pasta espec\u00edfica, \u00e0 base de ars\u00eanico. O interior do animal \u00e9 preenchido com serragem, parafina ralada, poliuretano ou palha. Tamb\u00e9m s\u00e3o utilizados outros materiais.<\/p>\n<p>Para empalhar um tigre-de-bengala que pesava 260 quilos, o professor precisou construir um esqueleto de ferro. Os olhos s\u00e3o de cristal, importados da Alemanha. Um par custa US$ 30.<\/p>\n<p>Bi\u00f3logo e dentista se especializou em processo complexo que envolve preenchimento de animais com serragem, parafina ralada, poliuretano ou palha<\/p>\n<p>Materiais para taxidermia: olhos s\u00e3o de cristal importados da Alemanha chegam a custar US$ 30 o par<\/p>\n<p>Sobre planos para o futuro, Galdino diz que sonha em encontrar um lugar que possa acolher e expor o acervo. A sala que a faculdade reservou para ele est\u00e1 saturada.<\/p>\n<p>Quase n\u00e3o d\u00e1 para se locomover dentro do espa\u00e7o. \u00c9 preciso esfor\u00e7o para alcan\u00e7ar um condor que est\u00e1 atr\u00e1s dos tigres e necessita de um reparo na asa. E isso sem pisar em uma sucuri de 7,4 metros capturada em um brejo do Rio Tiet\u00ea, perto de Bauru (SP). &#8220;Ela estava com 76 filhotes na barriga. Infelizmente foi la\u00e7ada, fraturou v\u00e9rtebras e morreu&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p>&#8220;Tudo aqui tem um valor cient\u00edfico, cultural e pedag\u00f3gico. Quero compartilhar&#8221;, conclui o professor que criou um museu de hist\u00f3ria natural praticamente sozinho.<\/p>\n<p>&#8216;N\u00e3o basta taxidermizar. Tem que saber a postura de cada animal na natureza paraum trabalho de educa\u00e7\u00e3o ambiental bem feito&#8217;, afirma Galdino<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-624\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"&amp;#39;N\u00e3o basta taxidermizar. Tem que saber a postura de cada animal na natureza paraum trabalho de educa\u00e7\u00e3o ambiental bem feito&amp;#39;, afirma Galdino  (Foto: Sergio Ranalli)\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/nq9mSt3igLR5l6hSTjgIdLCUvnQ=\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2016\/09\/17\/bchos.jpg\" alt=\"&amp;#39;N\u00e3o basta taxidermizar. Tem que saber a postura de cada animal na natureza paraum trabalho de educa\u00e7\u00e3o ambiental bem feito&amp;#39;, afirma Galdino  (Foto: Sergio Ranalli)\" width=\"640\" height=\"360\" \/><strong>&amp;#39;N\u00e3o basta taxidermizar. 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