{"id":49089,"date":"2016-09-03T16:40:18","date_gmt":"2016-09-03T19:40:18","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=49089"},"modified":"2016-09-03T16:40:18","modified_gmt":"2016-09-03T19:40:18","slug":"arara-azul-de-lear-sertao-mais-azul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/arara-azul-de-lear-sertao-mais-azul\/","title":{"rendered":"Arara-azul-de-lear: sert\u00e3o mais azul"},"content":{"rendered":"<h2><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"\n                NG - Um casal de araras se prepara para voar na hist\u00f3rica regi\u00e3o de Canudos, nordeste da Bahia\n              \" src=\"http:\/\/msalx.viajeaqui.abril.com.br\/2013\/11\/25\/1412\/6IivB\/ng-165-araras-06.jpeg?1385398181\" alt=\"\n                NG - Um casal de araras se prepara para voar na hist\u00f3rica regi\u00e3o de Canudos, nordeste da Bahia\n              \" width=\"640\" height=\"424\" \/>Demorou mais de 100 anos para a esp\u00e9cie ser encontrada na natureza. Agora, pesquisadores tentam preservar as \u00faltimas aves existentes no interior da Bahia<\/h2>\n<div class=\"chapeu-source\"><span class=\"post-source\"> <i>Por Andr\u00e9 Juli\u00e3o<\/i> <\/span><\/div>\n<div class=\"chapeu-source\"><\/div>\n<div class=\"chapeu-source\">\n<p>\u00c1s 9 da manh\u00e3, o Sol j\u00e1 castiga os poucos que se habilitam a enfrent\u00e1-lo na vastid\u00e3o semi\u00e1rida da<strong> Esta\u00e7\u00e3o Biol\u00f3gica de Canudos<\/strong>, na Bahia. Abrigada sob uma rara sombra no pared\u00e3o de arenito, a bi\u00f3loga Erica Pacifico, acordada desde as 3 da madrugada, bebe um gole d\u2019\u00e1gua, quente a essa altura, e recebe um chamado no r\u00e1dio. \u201cTem filhote. Dois\u201d, diz o colega Thiago Filadelfo, de dentro de uma toca a 50 metros de altura. Capacete na cabe\u00e7a, o guia Jo\u00e3o Carlos Nogueira Neto corre para pegar uma gaiola especial. O equipamento \u00e9 i\u00e7ado, e logo Filadelfo, deitado de bru\u00e7os no local escuro e malcheiroso por causa das fezes de morcego, acomoda com cuidado os jovens passageiros, que sa\u00edram do ovo depois de quatro semanas de incuba\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim que os pequeninos chegam ao ch\u00e3o, Erica tira medidas, pesa, verifica se o papo est\u00e1 cheio e coleta restos de comida do bico, al\u00e9m de retirar amostras de sangue e de fezes de cada um antes de devolv\u00ea-los ao ninho. Por causa da pesquisa, que ela come\u00e7ou em 2008, os dois filhotes de <strong>arara-azul-de-lear (<em>Anodorhynchus leari<\/em>)<\/strong> ter\u00e3o muito mais chances de chegar \u00e0 idade adulta \u2013 podem viver at\u00e9 40 anos \u2013 do que se tivessem nascido d\u00e9cadas atr\u00e1s. Contabiliza-se hoje algo entre 800 e 1,2 mil dessas araras na natureza \u2013 eram 200 no come\u00e7o dos anos 2000. \u201cA primeira parte do trabalho era entender melhor a biologia reprodutiva delas, sobre a qual existiam pouqu\u00edssimas informa\u00e7\u00f5es\u201d, conta a bi\u00f3loga, que constatou, por exemplo, que as araras t\u00eam um ou dois filhotes por ano, que demoram em m\u00e9dia 95 dias para come\u00e7ar a voar.<\/p>\n<p>A Toca Velha, como \u00e9 conhecido esse h\u00e1bitat das araras azuis em Canudos, come\u00e7ou a ser resguardada em 1993, quando a Funda\u00e7\u00e3o Biodiversitas, organiza\u00e7\u00e3o conservacionista sediada em Belo Horizonte, adquiriu 130 hectares da \u00e1rea, com o patroc\u00ednio da m\u00e9dica americana Judith Hart. Al\u00e9m dali, as aves vivem em outros dois pontos da regi\u00e3o. Um deles \u00e9 a \u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental Serra Branca, no limite sul da Estac\u0327\u00e3o Ecol\u00f3gica Raso da Catarina, distante 37 quil\u00f4metros de Canudos. Outro \u00e9 o Boqueir\u00e3o da On\u00e7a, um grande fragmento de <a href=\"http:\/\/viajeaqui.abril.com.br\/national-geographic\/blog\/adriano-gambarini\/2008\/07\/24\/96504\/\" target=\"_self\" rel=\"Caatinga\">Caatinga<\/a> entre os munic\u00edpios de Sento S\u00e9 e Campo Formoso, onde apenas dois indiv\u00edduos foram avistados nos \u00faltimos anos. Nos pared\u00f5es vermelhos da Toca Velha, no fim da d\u00e9cada de 1970, o bi\u00f3logo alem\u00e3o Helmut Sick (1910-1991) observou pela primeira vez a esp\u00e9cie na natureza \u2013 at\u00e9 ent\u00e3o, a arara-azul-de-lear era conhecida apenas por exemplares taxidermizados ou em cativeiro. Era o fim de um mist\u00e9rio de mais de 100 anos, uma das maiores sagas da hist\u00f3ria da <strong>ornitologia<\/strong>.<iframe loading=\"lazy\" id=\"VmgIframe163659035051062915\" class=\" VmgSlideinOnStart VmgIframe \" src=\"about:blank\" name=\"VmgIframe163659035051062915\" width=\"100%\" height=\"0\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<p>Heinrich Maximilian Friedrich Hellmuth Sick desembarcou no Brasil em 1939 com a miss\u00e3o de coletar aves para o Museu de Zoologia da Universidade de Berlim. Com o rompimento das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas entre Brasil e Alemanha durante a Segunda Guerra, Sick se escondeu na serra do Capara\u00f3, na divisa dos estados de Minas Gerais e Esp\u00edrito Santo, mas acabou sendo descoberto e encarcerado em 1942. Impossibilitado de estudar aves nos quase tr\u00eas anos que passou detido na Ilha Grande, no Rio de Janeiro, come\u00e7ou a observar invertebrados, formando uma cole\u00e7\u00e3o de 24 esp\u00e9cies de cupim, 11 delas in\u00e9ditas.<\/p>\n<div class=\"ri_b\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"NG - Um filhote sai do ovo depois de quatro semanas de incuba\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/msalx.viajeaqui.abril.com.br\/2013\/11\/25\/1412\/ng-165-araras-09.jpeg?1385398183\" alt=\"NG - Um filhote sai do ovo depois de quatro semanas de incuba\u00e7\u00e3o\" width=\"640\" height=\"426\" \/><\/div>\n<p><em>Um filhote sai do ovo depois de quatro semanas de incuba\u00e7\u00e3o. At\u00e9 tr\u00eas deles podem eclodir, mas a ave que nasce primeiro normalmente vence a competi\u00e7\u00e3o por alimento com as mais jovens e \u00e9 a \u00fanica a sobreviver &#8211; Foto: Jo\u00e3o Marcos Rosa<\/em><\/p>\n<p>\u00c0quela \u00e9poca, ainda era desconhecida a origem da arara de cor \u00edndigo, de 70 cent\u00edmetros de comprimento, 20 a menos do que sua parente mais conhecida, a <a href=\"http:\/\/viajeaqui.abril.com.br\/national-geographic\/blog\/curiosidade-animal\/projeto-arara-azul\/\" target=\"_self\" rel=\"arara-azul-grande\">arara-azul-grande<\/a> (<em>A. hyacinthinus<\/em>). Os registros cient\u00edficos atribu\u00edam seu lar \u00e0 <a href=\"http:\/\/viajeaqui.abril.com.br\/national-geographic\/blog\/curiosidade-animal\/dia-da-amazonia-a-maior-floresta-tropical-do-mundo\/\" target=\"_self\" rel=\"Amaz\u00f4nia\">Amaz\u00f4nia<\/a>, provavelmente porque era do porto de Bel\u00e9m que os animais sa\u00edam para serem vendidos no exterior, junto com as \u201cprimas\u201d amazonenses. A esp\u00e9cie havia sido descrita em 1856 por Charles Lucien Bonaparte, com base em uma pele depositada no Museu de Paris e em um animal vivo do Zool\u00f3gico da Antu\u00e9rpia. Bonaparte, sobrinho do imperador Napole\u00e3o, homenageou o artista ingl\u00eas Edward Lear, um amigo que, em 1832, publicara em um dos volumes de sua obra Illustrations of the Family of Psittacidae, or Parrots uma ilustra\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>No livro, por\u00e9m, Lear descreve a ave como sendo uma arara-azul-grande. \u201cEle certamente notou a diferen\u00e7a entre a arara que havia pintado e representantes leg\u00edtimos de <em>A. hyacinthinus<\/em>, que sem d\u00favida tamb\u00e9m observou. No entanto, sem autoridade para batizar uma nova esp\u00e9cie, teve que aceitar as diferen\u00e7as encontradas como varia\u00e7\u00f5es naturais, como o fizeram tamb\u00e9m in\u00fameros de seus contempor\u00e2neos\u201d, escreveu Sick.<\/p>\n<p>Quando a ave foi reconhecida como nova esp\u00e9cie, Lear j\u00e1 havia abandonado as ilustra\u00e7\u00f5es detalhadas de animais para pintar paisagens por causa de uma perda parcial da vis\u00e3o. Mais tarde, o artista se dedicaria \u00e0 poesia. \u201cInfelizmente, nenhuma carta ou di\u00e1rio sobreviveu para revelar a rea\u00e7\u00e3o de Lear \u00e0 homenagem que lhe fora feita. Naquela \u00e9poca, ele estava vivendo e viajando fora da Inglaterra e seu foco era muito mais a pintura de paisagens do que a ornitologia\u201d, diz Robert McCracken Peck, estudioso de Lear na Universidade Drexel, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Depois de sair da pris\u00e3o com o fim da guerra, Sick se tornou naturalista da Funda\u00e7\u00e3o Brasil Central, tendo coletado diversas esp\u00e9cies e descoberto outras enquanto viajava pelo Xingu com os irm\u00e3os Villas B\u00f4as. Em 1965, j\u00e1 como pesquisador do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, Sick leu um artigo no qual o ornit\u00f3logo holand\u00eas Karel Voous afirmava que a esp\u00e9cie n\u00e3o existia de fato: os exemplares existentes eram h\u00edbridos de arara-azul-grande e arara-azul-de-glauco (<em>A. glaucus<\/em>), esp\u00e9cie j\u00e1 extinta, de menor tamanho entre as tr\u00eas desse g\u00eanero. O que o holand\u00eas n\u00e3o sabia era que Sick j\u00e1 tinha pistas de que o animal vinha de algum lugar no baixo rio S\u00e3o Francisco gra\u00e7as a relatos de outros ornit\u00f3logos.<\/p>\n<p>Depois de tr\u00eas expedi\u00e7\u00f5es nos anos 1970, em 29 de dezembro de 1978, o veterano cientista e os iniciantes Dante Martins Teixeira e Luiz Pedreira Gonzaga, seus alunos no Museu Nacional, chegaram a Euclides da Cunha, para onde as evid\u00eancias apontavam ser a morada mais prov\u00e1vel da esp\u00e9cie. \u201cA gente procurava gaiola pendurada na porta das casas, sinal de que ali tinha gente interessada em ave\u201d, diz Gonzaga, hoje professor do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, assim como Teixeira.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Demorou mais de 100 anos para a esp\u00e9cie ser encontrada na natureza. Agora, pesquisadores tentam<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Demorou mais de 100 anos para a esp\u00e9cie ser encontrada na natureza. Agora, pesquisadores tentam","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49089"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49089"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49089\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49089"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49089"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49089"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}