{"id":48771,"date":"2016-08-29T12:00:28","date_gmt":"2016-08-29T15:00:28","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=48771"},"modified":"2016-08-29T07:45:58","modified_gmt":"2016-08-29T10:45:58","slug":"diversidade-funcional-de-tatuzinhos-em-cavernas-surpreende-pesquisadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/diversidade-funcional-de-tatuzinhos-em-cavernas-surpreende-pesquisadores\/","title":{"rendered":"Diversidade funcional de tatuzinhos em cavernas surpreende pesquisadores"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?attachment_id=48774\" rel=\"attachment wp-att-48774\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-48774\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tatuzinho-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tatuzinho-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tatuzinho.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>No interior de uma caverna, longe da luz do Sol e com pouca varia\u00e7\u00e3o do clima, o ambiente \u00e9 escuro e a umidade do ar em geral \u00e9 elevada. As esp\u00e9cies que l\u00e1 vivem, descendentes de animais que habitam ou habitavam o exterior da gruta, s\u00e3o adaptadas para viver sob estas condi\u00e7\u00f5es. \u00c9 de se esperar, portanto, que boa parte das caracter\u00edsticas metab\u00f3licas e morfol\u00f3gicas ou, ainda das estrat\u00e9gias ecol\u00f3gicas que eram \u00fateis no mundo exterior possa ser desnecess\u00e1ria no mundo subterr\u00e2neo.<\/p>\n<p>Como as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas no interior de uma caverna tendem a ser constantes, e a oferta de alimento \u00e9 reduzida, os bi\u00f3logos esperam que as formas de vida que habitam uma caverna apresentem mudan\u00e7as no metabolismo, morfologia e comportamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s esp\u00e9cies externas das quais elas se originaram ou s\u00e3o parentes.<\/p>\n<p>\u201cAdemais, esperava-se que algumas estrat\u00e9gias ecol\u00f3gicas fora das cavernas fossem ineficientes em ambiente subterr\u00e2neo\u201d, diz Maria Elina Bichuette, professora do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos. \u201cPor tal motivo, acreditava-se que as cavernas fossem filtros ambientais, com esp\u00e9cies ecologicamente mais similares entre si.\u201d<\/p>\n<p>Faltou contar isso \u00e0s esp\u00e9cies de tatuzinhos, ou tatus-bola, de v\u00e1rias fam\u00edlias, como os <i>Armadillidae sp.<\/i> e os <i>Trichorhina sp.<\/i> da Gruta do Cat\u00e3o, em S\u00e3o Desid\u00e9rio, na Bahia, os <i>Styloniscidae sp.<\/i> da Lapa Terra Ronca, em S\u00e3o Domingos, em Goi\u00e1s, e aqueles dos g\u00eaneros <i>Microsphaeroniscus<\/i> e <i>Xangoniscus<\/i> de cavernas da Serra do Ramalho, em Carinhanha, tamb\u00e9m na Bahia.<\/p>\n<p>Em sua pesquisa de doutorado, a bi\u00f3loga Camille Sorbo Fernandes, com orienta\u00e7\u00e3o de Bichette, descobriu naquelas esp\u00e9cies de tatuzinhos uma diversidade funcional maior do que a registrada nas esp\u00e9cies que habitam o exterior das cavernas, situadas numa regi\u00e3o \u00e1rida que se encontra na zona de transi\u00e7\u00e3o entre a Caatinga e o Cerrado.<\/p>\n<p>O trabalho foi <a href=\"http:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article?id=10.1371\/journal.pone.0151958\" target=\"_blank\"><b>publicado<\/b><\/a> no peri\u00f3dico <i>PLoS One, <\/i>tendo Fernandes como primeira autora.<\/p>\n<p>\u201cEstamos conduzindo um trabalho descritivo da biodiversidade subterr\u00e2nea nas cavernas de S\u00e3o Domingos, Serra do Ramalho e S\u00e3o Desid\u00e9rio\u201d, diz Bichuette. \u201cNeste trabalho j\u00e1 descrevemos algumas esp\u00e9cies novas, incluindo as restritas a cavernas (trogl\u00f3bios).\u201d<\/p>\n<p>A pesquisa faz parte do projeto \u201c<a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/29115\/as-areas-carsticas-de-sao-desiderio-serra-do-ramalho-sudoeste-da-bahia-e-sao-domingos-nordeste-d\/\" target=\"_blank\"><b>As \u00e1reas c\u00e1rsticas de S\u00e3o Desid\u00e9rio, serra do Ramalho (sudoeste da Bahia) e S\u00e3o Domingos (nordeste de Goi\u00e1s) representam <i>hot spots<\/i> de biodiversidade? An\u00e1lise das comunidades cavern\u00edcolas e crit\u00e9rios para sua prote\u00e7\u00e3o<\/b><\/a>\u201d , apoiado FAPESP .<\/p>\n<p>Detectar uma maior diversidade funcional \u2013 e n\u00e3o menor \u2013 nos tatuzinhos cavern\u00edcolas foi algo inesperado, admite Fernandes. \u201cQuando iniciei o projeto, esperava que fosse encontrar um resultado contr\u00e1rio.\u201d<\/p>\n<p>A regi\u00e3o onde ficam as cavernas \u00e9 hoje muito seca. \u201cNo passado, essas regi\u00f5es eram mais \u00famidas e as esp\u00e9cies colonizaram as cavernas como uma extens\u00e3o do seu meio\u201d, explica Bichuette. \u201cCom o ambiente ficando progressivamente mais seco, os tatuzinhos que n\u00e3o suportavam o clima seco foram extintos fora das cavernas, onde permaneceram somente as esp\u00e9cies com estrat\u00e9gias de tolerar esse clima. Dentro das cavernas, com condi\u00e7\u00f5es de umidade e temperatura amenas, essas esp\u00e9cies continuaram sobrevivendo.\u201d<\/p>\n<p>Uma vez dentro das grutas, aqueles animais ampliaram suas estrat\u00e9gias ecol\u00f3gicas para sobreviver. Em contraste com o ambiente \u00e1rido circundante, \u201co ambiente das cavernas \u00e9 muito diversificado. H\u00e1 muita umidade e muitos tipos de substratos no solo onde os tatuzinhos podem viver\u201d, diz Fernandes.<\/p>\n<p>A pesquisa foi realizada em cerca de 30 cavernas. Dentro delas, foram pesquisados todos os substratos onde os tatuzinhos pudessem viver e reviradas as rochas e fezes de morcegos onde pudessem se esconder e se alimentar.<\/p>\n<p>Foram detectadas 32 esp\u00e9cies de tatuzinhos e v\u00e1rios outros invertebrados. A distribui\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies de tatuzinhos varia. H\u00e1 esp\u00e9cies de distribui\u00e7\u00e3o mais ampla entre as cavernas estudadas e outras que vivem em umas poucas grutas.<\/p>\n<p>Mas elas n\u00e3o ocorrem juntas numa mesma caverna. \u201cDeve ter havido uma exclus\u00e3o competitiva entre as esp\u00e9cies no passado\u201d, diz Fernandes. A diversidade funcional encontrada foi maior do que o que seria esperado se a sele\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies fosse ao acaso.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 funcionalidade, h\u00e1 esp\u00e9cies que transitam pelos diversos ambientes, tanto fora como dentro de uma caverna, e esp\u00e9cies exclusivas de determinadas cavernas.<\/p>\n<p>\u201cAs esp\u00e9cies de fora s\u00e3o maiores e se enrolam&#8221;, conta Fernandes. Os tatus-bola se enrolam por duas raz\u00f5es: para se proteger de predadores e tamb\u00e9m proteger as partes ventrais, impedindo a perda de umidade corporal.<\/p>\n<p>Fora das grutas a diversidade de esp\u00e9cies que se enrolam \u00e9 grande. Dentro das grutas, outras estrat\u00e9gias como correr e aderir s\u00e3o t\u00e3o bem-sucedidas quanto se enrolar, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 risco de perda de umidade. \u201cAlgumas delas, inclusive, simplesmente deixaram de se enrolar.\u201d Tal estrat\u00e9gia perdeu a necessidade num ambiente com redu\u00e7\u00e3o de predadores e umidade farta.<\/p>\n<p>Com as aranhas acontece o oposto. No exterior, elas tecem teias em tocas e lan\u00e7am teias nas \u00e1rvores como estrat\u00e9gia de emboscada. Algumas destas estrat\u00e9gias simplesmente n\u00e3o funcionam dentro de uma caverna.<\/p>\n<p>De acordo com Bichuette, uma das esp\u00e9cies de tatuzinhos utilizadas no trabalho j\u00e1 foi formalmente descrita. A equipe trabalha no momento na descri\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias outras. \u201cAcreditamos que 12 esp\u00e9cies sejam novas.\u201d<\/p>\n<p>Segundo Bichuette, encontrar um aumento na diversidade funcional dos tatuzinhos significa que as cavernas e \u00e1reas onde estes animais ocorrem s\u00e3o \u00fanicas e fr\u00e1geis. Elas devem, portanto, ser preservadas. Com isso, preserva-se a comunidade como um todo. \u201cAgora estou testando \u00edndices ecol\u00f3gicos distintos para verificar o grau de fragilidade das cavernas e assim propor prote\u00e7\u00e3o efetiva.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEste \u00e9 o primeiro trabalho feito no Brasil que trata da diversidade funcional em cavernas\u201d, diz Bichuette. \u201cJustamente por isso o trabalho foi muito elogiado por pesquisadores do exterior. Trata-se de uma mudan\u00e7a de interpreta\u00e7\u00e3o de como funcionam os ambientes subterr\u00e2neos.\u201d<\/p>\n<p>Se antes era dado como certo se encontrar menor funcionalidade entre as esp\u00e9cies cavern\u00edcolas, agora tal hip\u00f3tese perdeu a validade. \u201cAquelas regi\u00f5es s\u00e3o muito ricas e especiais biologicamente, al\u00e9m da beleza natural, mas est\u00e3o amea\u00e7adas pela agricultura e por projetos de minera\u00e7\u00e3o que se aproximam\u201d, diz Fernandes.<\/p>\n<p>Um exemplo da riqueza das cavernas da Serra do Ramalho est\u00e1 na descri\u00e7\u00e3o recente do peixinho <i>Trichomycterus rubbioli<\/i>. Ele apresenta duas caracter\u00edsticas cl\u00e1ssicas da adapta\u00e7\u00e3o da fauna de cavernas, quais sejam a redu\u00e7\u00e3o do tamanho dos olhos e a diminui\u00e7\u00e3o na pigmenta\u00e7\u00e3o das escamas. A descri\u00e7\u00e3o foi <a href=\"http:\/\/www.mapress.com\/j\/zt\/article\/view\/14157\" target=\"_blank\"><b>publicada <\/b><\/a>em\u00a0<i>Zootaxa<\/i>, no \u00e2mbito da Bolsa de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica de Pedro Pereira Rizzato, orientado por Bichuette e <a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/55334\/descricao-de-duas-novas-especies-de-bagres-subterraneos-siluriformes-trichomycteridae-das-regioes\/\" target=\"_blank\"><b>apoiado pela FAPESP<\/b><\/a>.<\/p>\n<p>O artigo de Fernandes CS, Batalha MA, Bichuette ME, <i>Does the Cave Environment Reduce Functional Diversity?<\/i>, publicado na <i>PLoS ONE<\/i> (doi:10.1371\/journal.pone.0151958) est\u00e1 dispon\u00edvel no endere\u00e7o <a href=\"http:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article?id=10.1371\/journal.pone.0151958\" target=\"_blank\"><b>http:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article?id=10.1371\/journal.pone.0151958<\/b><\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No interior de uma caverna, longe da luz do Sol e com pouca varia\u00e7\u00e3o do<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":48774,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tatuzinho.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tatuzinho-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tatuzinho-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tatuzinho.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tatuzinho.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tatuzinho.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tatuzinho.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tatuzinho.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tatuzinho.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/tatuzinho.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"No interior de uma caverna, longe da luz do Sol e com pouca varia\u00e7\u00e3o do","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48771"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48771"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48771\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/48774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48771"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48771"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48771"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}