{"id":47719,"date":"2016-08-13T12:35:02","date_gmt":"2016-08-13T15:35:02","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=47719"},"modified":"2016-08-13T12:35:02","modified_gmt":"2016-08-13T15:35:02","slug":"hiroshima-mon-amour","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/hiroshima-mon-amour\/","title":{"rendered":"Hiroshima mon amour"},"content":{"rendered":"<div id=\"single_article\" class=\"twelve columns\">\n<div class=\"twelve columns contentTitle\">\n<div class=\"nine columns\">\n<div class=\"twelve columns\">\n<h3>Por Arnaldo Jabor<\/h3>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"three column imgColunista\"><img class=\"large hide-for-small alignleft\" src=\"http:\/\/www.otempo.com.br\/polopoly_fs\/3.150.1366796736%21image\/image.png_gen\/derivatives\/main-writer-banner-resize\/image.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div id=\"news\" class=\"twelve columns news\">\n<div class=\"twelve columns text\">\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 andando pela rua, e, de repente, uma imensa tempestade de luz cai sobre sua cabe\u00e7a, como o sol despencando do c\u00e9u. Voc\u00ea n\u00e3o sabe o que \u00e9 nem vai saber nunca porque voc\u00ea derreteu como um sorvete em dois segundos. Fica um lago de seu corpo em volta de seus sapatos, enquanto a cidade inteira vira um deserto fervente povoado por cad\u00e1veres que vagam como zumbis pelas ruas em fogo.<\/p>\n<p>Falo assim para ver se sentimos no corpo o intenso horror do \u201csegundo holocausto\u201d da Guerra: as bombas at\u00f4micas no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 71 anos, em 6 e 9 de agosto de 1945, os norte-americanos destru\u00edram Hiroshima e Nagasaki.<\/p>\n<p>Todo ano me repito e escrevo artigos sobre a bomba nesta data, n\u00e3o apenas para condenar um dos maiores crimes da humanidade, mas para lembrar que o impens\u00e1vel pode acontecer a qualquer momento.<\/p>\n<p>Tudo pode acontecer hoje em um mundo onde um psic\u00f3tico como Trump, um hitlerzinho repulsivo, pode ser candidato a presidente dos Estados Unidos. Isso n\u00e3o podia acontecer e, no entanto, acontece.<\/p>\n<div class=\"single-HORIZONTAL-img\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"FOTO: Souzza\" src=\"http:\/\/www.otempo.com.br\/polopoly_fs\/1.1351955.1470693532%21image\/image.JPG_gen\/derivatives\/main-single-horizontal-img-article-fit_620\/image.JPG\" alt=\"0\" width=\"639\" height=\"433\" \/><\/div>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o de Hiroshima e Nagasaki, tr\u00eas dias depois, inaugurou a \u201cguerra preventiva\u201d de hoje. O holocausto dos judeus na Segunda Guerra fecha o s\u00e9culo XX, ainda no contexto de contradi\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XIX; o espet\u00e1culo luminoso de Hiroshima marca o in\u00edcio da guerra do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>O horror se moderniza, mas n\u00e3o acaba. Vi outro dia um filme de Alain Resnais, \u201cHiroshima Meu Amor\u201d \u2013 \u00e9 insuport\u00e1vel ver as cenas documentais do bombardeio: n\u00e3o mais a morte por g\u00e1s ou bala, mas por derretimento.<\/p>\n<p>Auschwitz e Treblinka ainda eram \u201cfornos\u201d da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, ainda eram massacres da era \u201cfordista\u201d, da linha de montagem do horror, mas Hiroshima inventou a guerra tecnol\u00f3gica, virtual, ass\u00e9ptica. A extin\u00e7\u00e3o em massa de 200 mil japoneses no furac\u00e3o de fogo fez em um minuto o trabalho de meses e meses do nazismo.<\/p>\n<p>O que mais impressiona na destrui\u00e7\u00e3o de Hiroshima \u00e9 a morte \u201cdelivery\u201d, \u201cde pronta entrega\u201d, sem trens de gado humano, morte \u201cclean\u201d, anglo-sax\u00f4nica. A bomba norte-americana foi considerada uma \u201cvit\u00f3ria da ci\u00eancia\u201d. Na \u00e9poca, a bomba explodiu como um al\u00edvio, e a opini\u00e3o p\u00fablica ocidental celebrou tontamente. Nesses dias, longe da \u00c1sia e da Europa, s\u00f3 havia os pap\u00e9is brancos caindo na Quinta Avenida, sobre os beijos de amor da vit\u00f3ria. Naquele contexto, n\u00e3o havia conceitos dispon\u00edveis para condenar esse crime hediondo. A \u00e9poca estava morta para palavras, na vala comum dos detritos humanistas.<\/p>\n<p>Os nazistas matavam em nome do pavoroso ideal psic\u00f3tico de \u201creformar\u201d a humanidade para o mil\u00eanio ariano. Por outro lado, incrivelmente, as bombas norte-americanas foram lan\u00e7adas em nome da raz\u00e3o. A bomba A agiu como um detergente, um mata-baratas. A guerra como limpeza, o t\u00edpico vi\u00e9s norte-americano de tudo resolver, r\u00e1pida e implacavelmente&#8230; A destrui\u00e7\u00e3o de Hiroshima foi desnecess\u00e1ria militarmente. O Jap\u00e3o estava de joelhos, querendo preservar apenas o imperador e a monarquia. Diziam que Hitler estava perto de conseguir a bomba \u2013 o que \u00e9 mentira.<\/p>\n<p>Uma das raz\u00f5es reais era que o presidente Truman e os falc\u00f5es da \u00e9poca queriam testar o brinquedo novo. Truman fala dele como um garoto: \u201cUau! \u00c9 o mais fant\u00e1stico aparelho de destrui\u00e7\u00e3o jamais inventado! Uau!. No teste, fez uma torre de a\u00e7o de 60 metros virar um sorvete quente&#8230;\u201d. Na luta pela democracia, rasparam da face da terra os \u201cjaporongas\u201d, seres obl\u00edquos que, como dizia Truman em seu di\u00e1rio: \u201cS\u00e3o animais cru\u00e9is, obstinados, traidores\u201d. Seres inferiores de olhinhos puxados podiam ser fritos como shiitakes.<\/p>\n<p>O clima era alucinado e quase \u201cl\u00fadico\u201d, um interessante teste de fogo. Basta lembrar que o avi\u00e3o que largou a bomba A em Hiroshima tinha o nome da m\u00e3e do piloto na fuselagem \u2013 Enola Gay. Isso. O bombardeiro B-29, que lan\u00e7ou a bomba em Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945, foi pilotado pelo coronel Paul Tibbets Jr., que escolheu pessoalmente um quadrimotor B-29, batizando-o com o nome em homenagem a sua m\u00e3e. Esse gesto de carinho filial derreteu no fogo 200 mil pessoas. Essa foi a m\u00e3e de todas as bombas, parindo um feto do dem\u00f4nio.<\/p>\n<p>Os norte-americanos queriam vingar Pearl Harbour pela surpresa de fogo, exatamente como o ataque japon\u00eas tr\u00eas anos antes. Queriam tamb\u00e9m intimidar a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, pois raiava no horizonte sombrio a Guerra Fria; al\u00e9m disso, \u00e9 claro, os norte-americanos queriam exibir para o mundo um show maravilhoso de som e luz, uma superprodu\u00e7\u00e3o em cores do novo imp\u00e9rio. O holocausto sujou o nome da Alemanha, mas Hiroshima soa at\u00e9 hoje como uma vit\u00f3ria tecnol\u00f3gica inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Agora, n\u00e3o temos mais a Guerra Fria; ficamos com a guerra quente do deserto \u2013 a mais perigosa combina\u00e7\u00e3o: fanatismo religioso e poder at\u00f4mico. Vivemos dois campos de batalha sem ch\u00e3o; de um lado, a cruzada errada do Ocidente, apesar e al\u00e9m de Obama. Do outro lado, temos os homens-bomba multiplicados por mil. E eles amam a morte. E pior: com o rato do Putin, com o rato Kim da Coreia, com Paquist\u00e3o, \u00cdndia, Israel, volta o perigo at\u00f4mico, 71 anos depois.<\/p>\n<p>Hoje, j\u00e1 h\u00e1 uma m\u00e1quina de guerra se programando sozinha e nos preparando para um confronto inevit\u00e1vel no Oriente M\u00e9dio. Estamos num momento hist\u00f3rico em que j\u00e1 se ouvem os trov\u00f5es de uma tempestade que vir\u00e1. Os mecanismos de controle pela \u201craz\u00e3o\u201d, sensatez, pela \u201csoft power\u201d da diplomacia perdem a efic\u00e1cia. Como dar conta da alucina\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica religiosa com amor \u00e0 morte, que querem impedir o \u201cperigo da paz\u201d?<\/p>\n<p>Estamos \u00e0s v\u00e9speras de uma bruta mudan\u00e7a hist\u00f3rica. Sente-se no ar o desejo inconsciente por trag\u00e9dias que pare\u00e7am uma \u201crevela\u00e7\u00e3o\u201d. Surge a fome por algo que ponha fim ao \u201cincontrol\u00e1vel\u201d, a coisa que o Ocidente mais odeia. Mesmo uma cat\u00e1strofe sangrenta parecer\u00e1 uma \u201cverdade\u201d nova.<br \/>\nVivemos hoje na era inaugurada por Hiroshima.<\/p>\n<p>\u201cThere is a shitstorm coming\u201d, disse Normam Mailer uma vez.<\/p>\n<p>A caixa de Pandora (que Truman abriu em 1945 e Bush reabriu 50 anos depois) nunca mais se fechar\u00e1.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Arnaldo Jabor Voc\u00ea est\u00e1 andando pela rua, e, de repente, uma imensa tempestade de<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Arnaldo Jabor Voc\u00ea est\u00e1 andando pela rua, e, de repente, uma imensa tempestade de","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47719"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47719"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47719\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47719"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47719"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47719"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}