{"id":47521,"date":"2016-08-10T10:13:05","date_gmt":"2016-08-10T13:13:05","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=47521"},"modified":"2016-08-10T10:13:06","modified_gmt":"2016-08-10T13:13:06","slug":"desmatar-o-cerrado-e-fechar-a-torneira-da-agua-diz-especialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/desmatar-o-cerrado-e-fechar-a-torneira-da-agua-diz-especialista\/","title":{"rendered":"Desmatar  o cerrado \u00e9 &#8220;fechar a torneira da \u00e1gua&#8221;, diz especialista"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/desmatar-o-cerrado-e-fechar-a-torneira-da-agua-diz-especialista\/crrado1\/\" rel=\"attachment wp-att-47524\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-47524\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/crrado1-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/crrado1-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/crrado1.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>O Cerrado \u00e9 fundamental para 8 das 12 bacias hidrogr\u00e1ficas brasileiras, e desmat\u00e1-lo pode significar \u201cfechar a torneira da \u00e1gua\u201d, diz Mercedes Bustamante, uma das maiores especialistas no segundo maior bioma brasileiro, que j\u00e1 perdeu mais da metade da cobertura original e hoje produz emiss\u00f5es de gases-estufa equivalentes \u00e0s da Amaz\u00f4nia. \u201c\u00c9 uma floresta de cabe\u00e7a para baixo\u201d, diz a professora de ecologia de ecossistemas e mudan\u00e7as ambientais globais da Universidade de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>A bi\u00f3loga estuda o Cerrado h\u00e1 23 anos e diz que \u201ctoda decis\u00e3o sobre o uso da terra \u00e9 uma decis\u00e3o sobre o uso de \u00e1gua\u201d. O produtor rural, em sua vis\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 apenas produtor de alimentos, mas deveria tamb\u00e9m ser gestor de florestas, de \u00e1gua e de solo. Por isso, o melhor seria dar ao Cerrado uma ocupa\u00e7\u00e3o de solo diferenciada, com estrat\u00e9gias de conserva\u00e7\u00e3o de \u201ctoda a paisagem\u201d. Mais que isso: os 80% de vegeta\u00e7\u00e3o que a lei permite que sejam desmatados deveriam ser revistos. \u201cEsse percentual foi definido em determinado contexto, h\u00e1 d\u00e9cadas, mas ser\u00e1 que esse contexto se aplica hoje? Deixar s\u00f3 20% de vegeta\u00e7\u00e3o ser\u00e1 suficiente com o clima em muta\u00e7\u00e3o?\u201d, questiona.<\/p>\n<p>\u201cSe se quiser conservar o rio S\u00e3o Francisco, tem que se conservar os 48% de vegeta\u00e7\u00e3o do Cerrado que ainda est\u00e3o l\u00e1\u201d, ilustra. \u201cNessa discuss\u00e3o sobre crise h\u00eddrica ouvimos falar em grandes obras, em trazer \u00e1gua de l\u00e1 pra c\u00e1, em re\u00faso, mas a vari\u00e1vel de uso da terra n\u00e3o entra no debate\u201d, surpreende-se.<\/p>\n<p>Mercedes diz que o Cerrado \u00e9 a \u201ccaixa d\u2019 \u00e1gua\u201d do Brasil e que a melhor estrat\u00e9gia de longo prazo para a crise h\u00eddrica seria reflorestar todas as margens de rios que abastecem as cidades. \u201cEstamos com uma gest\u00e3o de risco temer\u00e1ria\u201d, diz. A seguir, os principais trechos da entrevista:<\/p>\n<p>Por que o Cerrado \u00e9 importante?<\/p>\n<p>Mercedes Bustamante: O Cerrado \u00e9 um ambiente aparentemente t\u00e3o delicado, que cresce em subsolos pobres, com oferta de \u00e1gua limitada ao per\u00edodo chuvoso e per\u00edodo seco intenso, e ainda assim abriga grande diversidade. Tem grande extens\u00e3o geogr\u00e1fica e est\u00e1 distribu\u00eddo no Brasil. Depois da Amaz\u00f4nia \u00e9 o segundo maior bioma em extens\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul. Originalmente, cobria quase 25% do pa\u00eds. Faz transi\u00e7\u00e3o com a Amaz\u00f4nia, Caatinga, Mata Atl\u00e2ntica, Pantanal. \u00c9 um bioma que une todos os biomas brasileiros e tem papel importante na distribui\u00e7\u00e3o de recursos h\u00eddricos.<\/p>\n<p>Por que se diz que \u00e9 a caixa d\u2019\u00e1gua do Brasil?<\/p>\n<p>Mercedes: O Cerrado \u00e9 uma floresta de cabe\u00e7a para baixo. Se desenvolve em ambiente com solos pobres e profundos e com seca sazonal acentuada, suas plantas investem em colocar o carbono nas ra\u00edzes. Em proje\u00e7\u00e3o conservadora, h\u00e1 uma quantidade de carbono em cima do solo e tr\u00eas vezes mais embaixo. A planta \u00e9 muito maior embaixo da terra do que em cima.<br \/>\nComo um iceberg?<\/p>\n<p>Mercedes: Isso mesmo. Na floresta, a \u00e1rvore s\u00f3 coloca 20% da biomassa embaixo do solo. Mas as plantas do Cerrado buscam formas de captar \u00e1gua e nutrientes, que s\u00e3o limitados. Durante a seca, o primeiro metro de solo seca completamente, mas as plantas continuam retirando \u00e1gua das camadas mais profundas, com suas ra\u00edzes muito longas. Com a transpira\u00e7\u00e3o, libera a \u00e1gua que capta em forma de vapor, mesmo durante a seca. Bem diferente das pastagens, que t\u00eam ra\u00edzes superficiais, n\u00e3o transpiram e cortam o fluxo de \u00e1gua de regi\u00f5es mais profundas do solo para a atmosfera.<\/p>\n<p>E com o desmatamento?<\/p>\n<p>Mercedes: Quando se desmata Cerrado, perde-se o que est\u00e1 na parte a\u00e9rea, mas o estoque de carbono sob o solo \u00e9 bem maior. No desmatamento, o carbono da parte a\u00e9rea queima r\u00e1pido, mas as ra\u00edzes v\u00e3o se decompondo ao longo do tempo e liberando carbono. Dados do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o mostram que as emiss\u00f5es do Cerrado se equivalem \u00e0s da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Por que tem muita \u00e1gua sob o solo do Cerrado?<\/p>\n<p>Mercedes: Os solos do Cerrado s\u00e3o argilosos, com muita capacidade de reten\u00e7\u00e3o de \u00e1gua. Quando se joga \u00e1gua em um vaso com areia ela percola, mas quando se enche o vaso com argila, a \u00e1gua fica retida. Os solos do Cerrado, profundos e argilosos, s\u00e3o como esponjas que armazenam \u00e1gua da chuva. Quando vem a seca, a \u00e1gua vai para o len\u00e7ol fre\u00e1tico. A \u00e1gua superficial que vemos nas veredas \u00e9 o len\u00e7ol fre\u00e1tico aflorando. Sim, tem muita \u00e1gua sob o Cerrado.<\/p>\n<p>Vereda \u00e9 sin\u00f4nimo de \u00e1gua?<\/p>\n<p>Mercedes: No Cerrado, sim. Veredas s\u00e3o \u00e1reas \u00famidas importantes para segurarem a \u00e1gua que aflora. Muitas das nascentes de cursos d\u2019 \u00e1gua importantes s\u00e3o \u00e1reas de veredas. A presen\u00e7a do buriti as caracteriza, al\u00e9m de esp\u00e9cies herb\u00e1ceas que parecem capim. Quando se entra em uma vereda, sente-se o solo fofo, encharcado. Essa \u00e1gua depois canaliza e forma veios. O Cerrado tem uma import\u00e2ncia hidrol\u00f3gica grande.<\/p>\n<p>O que acontece na seca?<\/p>\n<p>Mercedes: A seca come\u00e7a em abril-maio e vai at\u00e9 outubro. A precipita\u00e7\u00e3o m\u00e9dia no Cerrado \u00e9 alta, em torno de 1.500 mil\u00edmetros, mas 90% da chuva ocorre durante o per\u00edodo chuvoso. Imagine que o fornecimento de \u00e1gua de uma casa aconte\u00e7a apenas quatro horas por dia. Quem n\u00e3o tem caixa d\u2019\u00e1gua como faz no per\u00edodo em que n\u00e3o h\u00e1 fornecimento? No Cerrado \u00e9 o mesmo. H\u00e1 bom volume de \u00e1gua, mas concentrado em cinco meses. Os solos profundos e argilosos t\u00eam capacidade de reter \u00e1gua. No per\u00edodo seco, seca apenas a primeira camada, o resto, n\u00e3o. Veredas conservadas n\u00e3o secam completamente. Em 2014, foi o primeiro ano em que secou a nascente do S\u00e3o Francisco.<\/p>\n<p>Qual a conex\u00e3o?<\/p>\n<p>Mercedes: A nascente do S\u00e3o Francisco est\u00e1 no Cerrado. O Brasil tem 12 regi\u00f5es hidrogr\u00e1ficas e o Cerrado contribui com recursos para 8 delas. Na bacia do S\u00e3o Francisco, o Cerrado \u00e9 48% da vegeta\u00e7\u00e3o, mas esses 48% contribuem com quase 70% da \u00e1gua que vai para o rio. Para conservar o S\u00e3o Francisco, tem que se conservar os 48% de vegeta\u00e7\u00e3o do Cerrado que ainda est\u00e3o por l\u00e1.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se desmatar muito o Cerrado corre-se o risco\u2026<\/p>\n<p>Mercedes: \u00c9 como se estiv\u00e9ssemos fechando a torneira da \u00e1gua. A bacia do Paran\u00e1, que abastece o Sul, e a do Araguaia-Tocantins nascem aqui. A nascente do S\u00e3o Francisco est\u00e1 na Serra da Canastra, em Minas. Quando se desmata o Cerrado, compromete-se tamb\u00e9m a din\u00e2mica h\u00eddrica do Pantanal. Hoje, o pessoal estuda as conex\u00f5es com o que acontece na Amaz\u00f4nia, mas isso passa pelo Cerrado tamb\u00e9m. Toda decis\u00e3o sobre o uso da terra \u00e9 uma decis\u00e3o sobre o uso de \u00e1gua. Temos que pensar que o territ\u00f3rio, a terra, o solo, \u00e9 respons\u00e1vel por m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cSe se quiser conservar o rio S\u00e3o Francisco, tem que se conservar os 48% de Cerrado que ainda est\u00e3o por l\u00e1\u201d<\/p>\n<p>Veredas s\u00e3o protegidas?<\/p>\n<p>Mercedes: Sim, s\u00e3o \u00c1reas de Prote\u00e7\u00e3o Permanente [APPs], mas a conserva\u00e7\u00e3o tem que se dar em toda a paisagem. Se se desmata o entorno da vereda, ela n\u00e3o se mant\u00e9m. Quando se faz a convers\u00e3o de Cerrado para pastagem, costuma ocorrer eros\u00e3o e compacta\u00e7\u00e3o do solo. Isso modifica a din\u00e2mica h\u00eddrica do solo. M\u00e1quinas sobre a terra e gado compactam o solo. Vem a chuva e ali n\u00e3o infiltra, vira um rio. Como a \u00e1gua sempre acha o caminho de menor resist\u00eancia, se n\u00e3o consegue infiltrar e descer, ir\u00e1 fluir pela superf\u00edcie. N\u00e3o ir\u00e1 infiltrar e contribuir com a alimenta\u00e7\u00e3o de rios, lagoas, veredas e represas. Ela flui pela superf\u00edcie, vem a enxurrada, a eros\u00e3o carrega sedimentos e isso segue para as represas, que perdem capacidade de estocar, porque chove menos e porque perderam profundidade.<\/p>\n<p>\u00c9 como se jog\u00e1ssemos terra sobre as nascentes?<\/p>\n<p>Mercedes: Sim. Por isso o C\u00f3digo Florestal tinha que ter foco m\u00faltiplo. Olhar para o uso da terra, n\u00e3o s\u00f3 para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, mas tamb\u00e9m para a de \u00e1gua. Dessa forma ter\u00edamos uma ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio diferenciada. \u00c0s vezes me surpreende, na discuss\u00e3o sobre crise h\u00eddrica, que falam em grandes obras, em trazer \u00e1gua de l\u00e1 pra c\u00e1, em re\u00faso da \u00e1gua, mas a vari\u00e1vel de uso da terra n\u00e3o entra no debate. Uma obra de longo prazo seria reflorestar todas as \u00e1reas que abastecem as cidades.<\/p>\n<p>H\u00e1 sentido em se fazer a transposi\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Francisco?<\/p>\n<p>Mercedes: Pois \u00e9. A transposi\u00e7\u00e3o tem que ser parte de sistema integrado de prote\u00e7\u00e3o da bacia. N\u00e3o adianta resolver o problema l\u00e1 na ponta sem pensar no lado de c\u00e1.<\/p>\n<p>Como se regenera um rio?<\/p>\n<p>Mercedes: \u00c9 impedir que sedimentos sejam transportados e provoquem assoreamento e permitir que as \u00e1reas de recarga de mananciais continuem operando. Precisa manter a caixa d\u2019 \u00e1gua funcionando. Se reduzirmos o potencial de uma caixa d\u2019\u00e1gua de 500 litros para 100 litros, s\u00f3 vamos armazenar 100 litros. O seguro que temos \u00e9 a capacidade que o solo de Cerrado tem, sob essa vegeta\u00e7\u00e3o nativa, de segurar a \u00e1gua quando a chuva vem.<\/p>\n<p>Por que Cerrado e Caatinga t\u00eam menor status de prote\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Mercedes: \u00c9 o aspecto simb\u00f3lico da desvaloriza\u00e7\u00e3o desses ecossistemas. \u00c9 a vis\u00e3o europeia que sempre viu o recurso da floresta apenas como um recurso madeireiro, ent\u00e3o as \u00e1reas importantes eram as \u00e1reas de florestas. Se n\u00e3o se tinha isso, n\u00e3o era relevante. De certa forma, hoje, ainda, com todo o conhecimento cient\u00edfico que se tem, com a import\u00e2ncia do Cerrado na gera\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, poliniza\u00e7\u00e3o, controle de pragas, continua a dificuldade de se mostrar que ele \u00e9 importante. N\u00e3o sei se as pessoas do interior de S\u00e3o Paulo, onde havia grandes extens\u00f5es de Cerrado que foram desmatadas, se d\u00e3o conta que se perdeu a cobertura que ajudava a conservar a \u00e1gua.<\/p>\n<p>Como se chegou ao quadro atual?<\/p>\n<p>Mercedes: A situa\u00e7\u00e3o, hoje, \u00e9 fruto de v\u00e1rios fatores: altera\u00e7\u00e3o do uso da terra, eventos clim\u00e1ticos extremos como seca e chuvas muito fortes, urbaniza\u00e7\u00e3o e a demanda de \u00e1gua. Se est\u00e1 mais seco ou mais quente, as pessoas tendem a usar mais \u00e1gua e energia, que, no Brasil, \u00e9 outra parte da equa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estamos, ent\u00e3o, sob risco.<\/p>\n<p>Mercedes: Estamos com uma gest\u00e3o de risco temer\u00e1ria. A \u00e1gua \u00e9 essencial para a agricultura, se o clima se torna mais quente e seco, aumenta a demanda de \u00e1gua para irriga\u00e7\u00e3o. Com a distribui\u00e7\u00e3o err\u00e1tica da chuva, os padr\u00f5es de consumo se alteram e v\u00e3o demandar, nos grandes centros urbanos, mais energia. Se n\u00e3o tem chuva para os grandes reservat\u00f3rios, o Brasil faz o qu\u00ea? Aumenta o uso das termel\u00e9tricas e agrava o efeito-estufa, que foi o que gerou o problema.<\/p>\n<p>\u00c9 a cobra comendo o rabo.<\/p>\n<p>Mercedes: Exatamente. Se n\u00e3o tivermos uma gest\u00e3o de recursos naturais integrada, estamos resolvendo aqui, hoje, mas jogando um problema maior adiante.<\/p>\n<p>No Cerrado, h\u00e1 veredas de buritis desmatadas e piv\u00f4s de irriga\u00e7\u00e3o pegando \u00e1gua do subsolo. N\u00e3o est\u00e3o entendendo o processo?<\/p>\n<p>Mercedes: Uma das respostas de adapta\u00e7\u00e3o da agricultura ao aumento da estiagem \u00e9 usar mais \u00e1gua de irriga\u00e7\u00e3o. Mas de onde vem a \u00e1gua? Quais os usos que competem com a \u00e1gua de irriga\u00e7\u00e3o? Qual \u00e9 a capacidade do sistema de recarregar? Precisamos abordar isso de forma integrada.<\/p>\n<p>Parte da \u00e1gua de S\u00e3o Paulo vem do Cerrado?<\/p>\n<p>Mercedes: Parte da \u00e1gua que abastece o Sistema Cantareira vem de Minas e tem contribui\u00e7\u00e3o do Cerrado. Est\u00e1 tudo conectado. Na esta\u00e7\u00e3o seca o que veio de chuva talvez n\u00e3o seja suficiente para recarregar o que se perdeu. Quanto mais essa esponja, que \u00e9 o solo, estiver depauperada, maior fica o d\u00e9ficit.<\/p>\n<p>Quanto j\u00e1 se desmatou?<\/p>\n<p>Mercedes: Calcula-se que j\u00e1 se perdeu 50% da cobertura nativa. A convers\u00e3o para agricultura e pastagens \u00e9 muito acentuada na por\u00e7\u00e3o Sul, que \u00e9 a zona de ocupa\u00e7\u00e3o antiga, mas j\u00e1 se v\u00ea a frente de desmatamento subindo para o Oeste da Bahia, e l\u00e1 a press\u00e3o \u00e9 da soja. H\u00e1 uma frente subindo pelo Tocantins. Os 50% que restam hoje tamb\u00e9m est\u00e3o muito fragmentados.<\/p>\n<p>N\u00e3o se monitora?<\/p>\n<p>Mercedes: O Cerrado n\u00e3o tem monitoramento sistem\u00e1tico como a Amaz\u00f4nia. Precisamos monitorar os outros biomas e com ferramentas que mostrem a integridade dos ecossistemas. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o corte raso que \u00e9 preocupante, a degrada\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9.<\/p>\n<p>\u201cNa discuss\u00e3o sobre crise h\u00eddrica, fala-se em grandes obras, mas a vari\u00e1vel de uso da terra n\u00e3o entra no debate\u201d<\/p>\n<p>O Brasil escolheu o Cerrado como sua \u00e1rea de agricultura.<\/p>\n<p>Mercedes: Mas pode ter agricultura. Ainda temos 50% de Cerrado, que \u00e9 melhor do que restou de Mata Atl\u00e2ntica. H\u00e1 que se fazer com que as \u00e1reas mais convertidas atendam ao C\u00f3digo Florestal e que as APPs estejam bem preservadas. \u00c9 preciso pensar em um processo de ocupa\u00e7\u00e3o diferenciado para a \u00e1rea que ainda est\u00e1 preservada, sem deixar de expandir a atividade econ\u00f4mica, mas analisando qual \u00e9 a atividade compat\u00edvel com os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos daquela \u00e1rea. N\u00e3o queremos um processo de desenvolvimento concentrador de renda e degradador. E na por\u00e7\u00e3o j\u00e1 muito convertida, a estrat\u00e9gia deveria ser recuperar as \u00e1reas degradadas, as APPs e Reserva Legal para que o sistema volte a funcionar.<\/p>\n<p>Por que margens dos pequenos rios t\u00eam que ser protegidas?<\/p>\n<p>Mercedes: Sen\u00e3o v\u00e3o secar. A vegeta\u00e7\u00e3o que cresce pr\u00f3xima aos rios controla a vaz\u00e3o de \u00e1gua evitando enchentes e segura o fluxo erosivo, retendo sedimentos. \u00c9 um filtro. \u00c9 barreira de prote\u00e7\u00e3o dos fluxos de \u00e1gua que s\u00e3o fr\u00e1geis e alimentados por aquela esponja. Se j\u00e1 se arrebentou a caixa d\u2019\u00e1gua, que era a vegeta\u00e7\u00e3o, a \u00faltima barreira de prote\u00e7\u00e3o s\u00e3o veredas e matas nos pequenos rios. Se tamb\u00e9m forem destru\u00eddos, o que sobra?<\/p>\n<p>Qual a maior amea\u00e7a?<\/p>\n<p>Mercedes: O processo de ocupa\u00e7\u00e3o. Eu j\u00e1 vi produtor que planta at\u00e9 a beira do c\u00f3rrego, o que \u00e9 proibido e uma imbecilidade, porque a produtividade ser\u00e1 mais baixa. A agricultura \u00e9 a atividade econ\u00f4mica que mais depende dos recursos naturais. O produtor tem papel social como gestor de recursos naturais. A gente o olha como produtor de alimentos, mas tamb\u00e9m tem que ser produtor de \u00e1gua. \u00c9 respons\u00e1vel pelos recursos de \u00e1gua e de solo, porque o solo erodido vai embora e n\u00e3o volta mais. Para formar uma polegada de solo demora 500 a mil anos e basta uma enxurrada para levar embora. O solo, mesmo formado continuamente, \u00e9 um recurso n\u00e3o renov\u00e1vel porque as taxas de perda s\u00e3o muito maiores que as taxas naturais de forma\u00e7\u00e3o. Temos que ter uma estrat\u00e9gia da paisagem.<\/p>\n<p>Como assim?<\/p>\n<p>Mercedes: \u00c9 preciso pensar quem alimenta os buritizais e as veredas. Podemos ocupar o Cerrado? Sim, mas qual \u00e9 a propor\u00e7\u00e3o que temos que preservar para garantir a alimenta\u00e7\u00e3o da \u00e1gua?<\/p>\n<p>A lei permite que se deixe apenas 20% de Cerrado.<\/p>\n<p>Mercedes: Precisamos come\u00e7ar a repensar esses 20%. Foram definidos em determinado contexto, mas ser\u00e1 que este contexto se aplica hoje, quando o clima est\u00e1 mudando? O C\u00f3digo Florestal, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o com a Amaz\u00f4nia [onde tem que se preservar 35% de Cerrado], diz que pode-se desmatar at\u00e9 80%, preservando 20%, mediante licen\u00e7a ambiental. Quer dizer que potencialmente pode-se fazer isso, mas n\u00e3o significa que deve ser autorizado. \u00c9 o momento em que o poder p\u00fablico, o Estado, os prefeitos, os produtores, os \u00f3rg\u00e3os de meio ambiente t\u00eam que come\u00e7ar a olhar, quando fazem um licenciamento de supress\u00e3o de vegeta\u00e7\u00e3o, se realmente pode-se desmatar os 80% previstos em lei. Talvez em regi\u00e3o onde j\u00e1 houve convers\u00e3o acentuada, h\u00e1 \u00e1reas importantes de recarga de manancial e o melhor seria, por exemplo, autorizar s\u00f3 o desmate de 50%.<\/p>\n<p>D\u00e1 para ter agricultura no Cerrado?<\/p>\n<p>Mercedes: Sim, mas temos que mudar. Tenho que considerar a minha propriedade em conjunto com a do fulano, do outro ali e ver quanto cada uma de nossas propriedades contribui com a conserva\u00e7\u00e3o de um recurso h\u00eddrico. A nascente pode estar na propriedade do vizinho, mas os solos que a abastecem est\u00e3o na minha terra e na tua. Se s\u00f3 ele preserva, n\u00e3o adianta. Essa an\u00e1lise tem que sair da escala da propriedade e ir para a escala da paisagem.<\/p>\n<p>A senhora defende a revis\u00e3o dos 20%?<\/p>\n<p>Mercedes: Isso politicamente \u00e9 dif\u00edcil. Mas se tivermos os 20% bem usados, com mais 10% de APP preservados, ainda se tem 30% funcionalmente operando. Onde existem grandes extens\u00f5es, temos outras alternativas? A Embrapa diz que temos enormes \u00e1reas j\u00e1 degradadas, para onde o Brasil pode expandir sua produ\u00e7\u00e3o sem precisar converter nenhuma nova \u00e1rea.<\/p>\n<p>E o fogo no Cerrado?<\/p>\n<p>Mercedes: O fogo \u00e9 um fator natural do Cerrado. Acontecem grandes queimadas causadas por rel\u00e2mpagos sobre o material seco. Se o fogo queima de vez em quando, como a vegeta\u00e7\u00e3o tem uma capa de prote\u00e7\u00e3o de corti\u00e7a e capacidade de rebrotar a partir das ra\u00edzes, perdia-se a parte a\u00e9rea, mas rebrotava r\u00e1pido. A vegeta\u00e7\u00e3o era resiliente e o fogo tem papel importante no ciclo dos nutrientes. Mas quando se queima com frequ\u00eancia, a vegeta\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem capacidade de responder e o fogo vira fator de degrada\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 excluir o fogo no Cerrado, mas manejar.<\/p>\n<p>Manejar fogo?<\/p>\n<p>Mercedes: Sim, e evitar em \u00e1reas agr\u00edcolas. Fogo para rebrotar a pastagem acontece em \u00e1reas enormes, e se sair de controle, ningu\u00e9m segura. Entra na vegeta\u00e7\u00e3o nativa, que j\u00e1 est\u00e1 seca e depauperada, e leva embora. Cerca de 60% a 70% das queimadas no Brasil ocorrem no Cerrado, que \u00e9 onde se precisa mais da vegeta\u00e7\u00e3o para conservar \u00e1gua. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Como resolver?<\/p>\n<p>Mercedes: Se se fizer um desenho inteligente podem-se conectar \u00e1reas de Reserva Legal e formar corredores de biodiversidade. E ver qual o desenho que mais contribui para produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua. Precisamos juntar a gest\u00e3o agr\u00edcola, florestal e de \u00e1gua em uma coisa s\u00f3, porque as propriedades rurais fazem as tr\u00eas coisas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Cerrado \u00e9 fundamental para 8 das 12 bacias hidrogr\u00e1ficas brasileiras, e desmat\u00e1-lo pode significar<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":47524,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/crrado1.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/crrado1-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/crrado1-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/crrado1.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/crrado1.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/crrado1.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/crrado1.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/crrado1.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/crrado1.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/crrado1.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"O Cerrado \u00e9 fundamental para 8 das 12 bacias hidrogr\u00e1ficas brasileiras, e desmat\u00e1-lo pode significar","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47521"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47521"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47521\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/47524"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47521"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47521"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47521"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}