{"id":47289,"date":"2016-08-06T13:13:28","date_gmt":"2016-08-06T16:13:28","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=47289"},"modified":"2016-08-06T13:13:28","modified_gmt":"2016-08-06T16:13:28","slug":"entrevista-especial-com-joao-abner-guimaraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entrevista-especial-com-joao-abner-guimaraes\/","title":{"rendered":"Entrevista especial com Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es"},"content":{"rendered":"<p><strong>A tradicional ind\u00fastria da seca permite que o sertanejo morra de sede com \u00e1gua no joelho. Entrevista especial com Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u201cQual a explica\u00e7\u00e3o para no Nordeste semi\u00e1rido se disponibilizar \u00e1gua para irriga\u00e7\u00e3o durante um evento com criticidade secular? Ou se tem muita \u00e1gua \u2013 ao contr\u00e1rio do que se propaga, ou n\u00e3o se tem gest\u00e3o, ou as duas coisas\u201d, afirma o engenheiro hidr\u00e1ulico.<\/strong><\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/fotospublicas.s3.amazonaws.com\/files\/2015\/03\/Aguas_-ONU-alerta-para-o-fim-da-agua-potavel-no-Planeta_1020032015-850x565.jpg\" width=\"300\" height=\"250\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><em>Foto:\u00a0Fernando Fraz\u00e3o\/Ag\u00eancia Brasil<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>A atual <strong>seca no Nordeste<\/strong> &#8211; NE Setentrional brasileiro \u201ctem posto em xeque o sistema de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/558009-transposicao-do-rio-sao-francisco-ma-gestao-dos-recursos-hidricos-leva-nordeste-brasileiro-a-exaustao-entrevista-especial-com-joao-suassuna\" target=\"_blank\"><strong>gest\u00e3o dos recursos h\u00eddricos<\/strong><\/a>\u201d, e na parte interiorana do <strong>Rio Grande do Norte<\/strong> \u201cse repete o quadro de colapso generalizado do abastecimento de \u00e1gua retratado no <strong>semi\u00e1rido brasileiro<\/strong>, apesar de atualmente constatarem-se reservas substanciais de \u00e1gua para atender plenamente o abastecimento de \u00e1gua de toda popula\u00e7\u00e3o do Estado\u201d, diz <strong>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es<\/strong> \u00e0<strong> IHU On-Line.<\/strong>Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, <strong>Guimar\u00e3es<\/strong> informa que a \u201cabordagem governamental\u201d diante da seca tem sido \u201ca tradicional\u201d, ou seja, \u201cos governos municipais e estaduais, ap\u00f3s decreto de emerg\u00eancia, se livram das suas responsabilidades, levando a uma depend\u00eancia quase que total das <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/537803-transposicao-do-rio-paraiba-e-uma-politica-publica-miope-entrevista-especial-com-david-zee\" target=\"_blank\"><strong>pol\u00edticas governamentais<\/strong><\/a> aplicadas na regi\u00e3o semi\u00e1rida pelo governo federal, que se desenvolvem com dois tipos de abordagem: as a\u00e7\u00f5es emergenciais prec\u00e1rias de abrang\u00eancias locais e as macropol\u00edticas que pouco enxergam as diversidades regionais\u201d. Segundo ele, entre as pol\u00edticas desenvolvidas, \u201ccontraditoriamente, assegura-se 100% de garantia\u201d de abastecimento \u201cpara os maiores projetos de irriga\u00e7\u00e3o, enquanto faltam meios (sistemas adutores de grande porte) para assegurar essa mesma garantia ao consumo humano das pequenas e m\u00e9dias cidades que s\u00e3o abastecidas pelos reservat\u00f3rios menores\u201d.<\/p>\n<p>Para <strong>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es<\/strong>, a atual <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/554283-estados-nao-atingem-nivel-satisfatorio-na-gestao-hidrica-diz-estudo\" target=\"_blank\"><strong>gest\u00e3o dos recursos h\u00eddricos<\/strong><\/a> na regi\u00e3o est\u00e1 relacionada \u00e0 hist\u00f3ria da <strong>ind\u00fastria das secas<\/strong>, que tem \u201cpromovido o desenvolvimento insustent\u00e1vel na regi\u00e3o\u201d. Al\u00e9m da prioridade da irriga\u00e7\u00e3o em larga escala, o pesquisador afirma que \u201cdesde o Imp\u00e9rio a <strong>pol\u00edtica hidr\u00e1ulica<\/strong> do governo federal permanece a mesma no <strong>NE<\/strong> como uma reserva de mercado do parque da ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o civil pesada do Brasil, que tem como principal interesse o desenvolvimento de projetos de obras h\u00eddricas tradicionais, tais como a constru\u00e7\u00e3o de grandes a\u00e7udes e canais, seguindo um plano intermin\u00e1vel de obras em que, com a limita\u00e7\u00e3o de locais para a constru\u00e7\u00e3o de novos a\u00e7udes, as transposi\u00e7\u00f5es d\u00e3o continuidade\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/544689-maior-seca-do-seculo-gera-problemas-de-abastecimento-por-falta-de-gestao-dos-recursos-hidricos-entrevista-especial-com-joao-abner-guimaraes-junior\" target=\"_blank\"><strong>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es J\u00fanior<\/strong><\/a> \u00e9 doutor em Engenharia Hidr\u00e1ulica e Saneamento, professor nos cursos de Engenharia Sanit\u00e1ria e Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio Grande do Norte &#8211; UFRN. Sobre a transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco, publicou diversos artigos, tais como <strong>A transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco e o Rio Grande do Norte<\/strong>, <strong>O lobby da transposi\u00e7\u00e3o<\/strong> e <strong>O mito da transposi\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-x7M4P8l16RA\/UJgKJJd5jVI\/AAAAAAAAC68\/kMRXkeK_ilI\/s1600\/Abner.JPG.bmp\" width=\"250\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><em>Foto: <a href=\"http:\/\/apodiariooblog.blogspot.com.br\">apodiariooblog.blogspot.com.br<\/a><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong> IHU On-Line &#8211; Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o da seca no Rio Grande do Norte neste momento?<\/strong><strong>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es &#8211;<\/strong> O <strong>Rio Grande do Norte<\/strong> apresenta-se em melhor situa\u00e7\u00e3o comparativamente aos outros estados do <strong>NE Setentrional<\/strong> \u2013 compreendidos entre os<strong> rios <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/556063-consumo-de-agua-supera-vazao-na-bacia-do-rio-sao-francisco\" target=\"_blank\">S\u00e3o Francisco<\/a> e Parna\u00edba<\/strong> -, tendo em vista que a maior parte (60%) da sua popula\u00e7\u00e3o urbana situada no litoral leste, onde se encontra a regi\u00e3o metropolitana de <strong>Natal<\/strong>, e a regi\u00e3o intermedi\u00e1ria agreste \u00e9 abastecida por sistemas h\u00eddricos do litoral pouco afetado pela seca. O mesmo acontece com a metade da popula\u00e7\u00e3o restante que \u00e9 atendida por sistemas adutores de grande porte, que captam \u00e1gua dos maiores e mais seguros reservat\u00f3rios do interior do Estado.<\/p>\n<p>Por outro lado, apenas na parte interiorana do Estado, que n\u00e3o \u00e9 atendida por sistemas adutores de maior porte, \u00e9 que se repete o quadro de colapso generalizado do <strong>abastecimento de \u00e1gua<\/strong> retratado no <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/555503-transformacoes-no-semiarido-brasileiro-a-luta-pela-agua-nao-pode-acabar-ela-e-permanente-entrevista-especial-com-gloria-araujo\" target=\"_blank\"><strong>semi\u00e1rido brasileiro<\/strong><\/a>, apesar de atualmente constatarem-se reservas substanciais de \u00e1gua para atender plenamente o abastecimento de \u00e1gua de toda popula\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O que tem mudado na regi\u00e3o por conta dessa seca?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es &#8211;<\/strong> Infelizmente, a abordagem governamental \u00e9 a tradicional, os governos municipais e estaduais, ap\u00f3s decreto de emerg\u00eancia, se livram das suas responsabilidades, levando a uma depend\u00eancia quase que total das pol\u00edticas governamentais aplicadas na <strong>regi\u00e3o semi\u00e1rida<\/strong> pelo governo federal, que se desenvolvem com dois tipos de abordagem: as a\u00e7\u00f5es emergenciais prec\u00e1rias de abrang\u00eancia locais e as macropol\u00edticas que pouco enxergam as diversidades regionais.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Pode nos dar um panorama de como a seca castiga os diferentes estados do Nordeste?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es &#8211;<\/strong> Vou me restringir aos estados do<strong> NE Setentrional<\/strong>, j\u00e1 citado, onde a <strong>seca<\/strong> atinge fortemente e generalizadamente as atividades agropecu\u00e1rias de sequeiro, dependentes das chuvas e o abastecimento humano rural difuso e das pequenas e m\u00e9dias cidades, demonstrando a fal\u00eancia do modelo atual de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/549172-maior-reservatorio-do-nordeste-sobradinho-tem-seca-historica\" target=\"_blank\"><strong>abastecimento de \u00e1gua<\/strong><\/a> individualizado sustentado em reservas locais. Fato esse comprovado pelo emprego generalizado de carros-pipas, em n\u00famero recorde, atualmente na Regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a solu\u00e7\u00e3o passa pela implanta\u00e7\u00e3o de sistemas adutores de grande porte que captem \u00e1gua das reservas permanentes e mais seguras dispon\u00edveis. Para isso, os estados apresentam-se com potenciais distintos: <strong>Pernambuco<\/strong> tem o <strong>rio S\u00e3o Francisco c<\/strong>orrendo ao longo do seu territ\u00f3rio; <strong>Cear\u00e1<\/strong> det\u00e9m 50% do potencial de armazenamento de \u00e1gua e os maiores reservat\u00f3rios da regi\u00e3o; no cora\u00e7\u00e3o da seca do <strong>Rio Grande do Norte<\/strong>, no sert\u00e3o central, \u00e9 onde se concentram as maiores reservas de \u00e1gua e a maior disponibilidade per capita do Estado. Portanto, pode-se afirmar que esses tr\u00eas estados t\u00eam comprovada autossufici\u00eancia global de \u00e1gua para distribui\u00e7\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis. Entretanto, o quadro da <strong>Para\u00edba<\/strong> reconhecidamente \u00e9 o mais cr\u00edtico da Regi\u00e3o, apresentando-se com o menor potencial h\u00eddrico efetivo da Regi\u00e3o, o que, em tese, justificaria a importa\u00e7\u00e3o de \u00e1gua de outros estados notadamente para atender as demandas concentradas na bacia do rio Para\u00edba decorrentes do abastecimento de \u00e1gua de Campina Grande, a segunda maior cidade do Estado.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>&#8220;A quest\u00e3o central da gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos \u00e9 como assegurar o uso priorit\u00e1rio do consumo humano frente aos usos hidroagr\u00edcolas sustentados pelos maiores reservat\u00f3rios&#8221;<\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como \u00e9 feita a gest\u00e3o dos recursos h\u00eddricos nos diferentes estados do Nordeste?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es &#8211;<\/strong> A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/553958-mapas-mostram-a-nova-cara-das-secas-no-brasil\" target=\"_blank\"><strong>seca atual<\/strong><\/a> tem posto em xeque o <strong>sistema de gest\u00e3o dos recursos h\u00eddricos<\/strong> da Regi\u00e3o <strong>NE<\/strong>. As institui\u00e7\u00f5es diretamente respons\u00e1veis, os \u00f3rg\u00e3os gestores executivos, tanto em n\u00edvel federal como estadual, t\u00eam assumido uma postura secund\u00e1ria na condu\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es emergenciais da seca conduzidas pela defesa civil e pouco se v\u00ea o envolvimento dos comit\u00eas de bacia no exerc\u00edcio do papel moderador dos conflitos em \u00e9pocas extremamente cr\u00edticas como a atual. Uma outra contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de debates e mobiliza\u00e7\u00f5es populares para analisar e apontar solu\u00e7\u00e3o para os graves problemas da seca atual.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como se d\u00e1 a gest\u00e3o dos recursos h\u00eddricos em per\u00edodos de seca como o que se vive hoje na regi\u00e3o? O modo como \u00e9 feito o abastecimento de \u00e1gua \u00e9 sustent\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es &#8211;<\/strong> A quest\u00e3o central da <strong>gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos<\/strong> \u00e9 como assegurar o uso priorit\u00e1rio do <strong>consumo humano<\/strong> frente aos usos hidroagr\u00edcolas sustentados pelos maiores reservat\u00f3rios, tais como o <strong>Castanh\u00e3o<\/strong> (CE) e <strong>Armando Ribeiro<\/strong> (RN). Hoje, a quase totalidade dos munic\u00edpios abastecidos por carro-pipa se encontram desconectados desses maiores reservat\u00f3rios.<\/p>\n<p>Contraditoriamente, assegura-se 100% de garantia para os maiores projetos de irriga\u00e7\u00e3o, enquanto faltam meios (sistemas adutores de grande porte) para assegurar essa mesma garantia ao <strong>consumo humano<\/strong> das pequenas e m\u00e9dias cidades que s\u00e3o abastecidas pelos reservat\u00f3rios menores.<\/p>\n<p>Uma das principais li\u00e7\u00f5es dessa seca secular \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o da plena capacidade de atendimento dos <strong>usos priorit\u00e1rios humanos<\/strong> no <strong>Cear\u00e1<\/strong> e no <strong>Rio Grande do Norte<\/strong>; para isso n\u00e3o falta \u00e1gua, claro, desde que se restrinjam os usos menos priorit\u00e1rios estabelecidos na <strong>Lei 9.433<\/strong>. Fato esse que n\u00e3o acontece nesses estados com rela\u00e7\u00e3o aos grandes irrigantes, ao contr\u00e1rio dos pequenos, que est\u00e3o sendo perseguidos.<\/p>\n<p>Esse quadro, por si s\u00f3, aponta fal\u00eancia do sistema de <strong>gest\u00e3o dos recursos h\u00eddricos<\/strong> do NE e como exemplo emblem\u00e1tico a experi\u00eancia do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/551064-meteorologia-preve-para-2016-quinto-ano-seguido-de-seca-no-ceara\" target=\"_blank\"><strong>Cear\u00e1<\/strong><\/a> se sobressai. Mesmo amea\u00e7ado pela falta d&#8217;\u00e1gua para o consumo humano de <strong>Fortaleza<\/strong>, o governo do Cear\u00e1 vinha oferecendo \u00e1gua em larga escala para a irriga\u00e7\u00e3o, apesar da seca secular, contrariando a sua pr\u00f3pria pol\u00edtica de recursos h\u00eddricos baseada no par\u00e2metro <strong>Q90+<\/strong>, regulado por n\u00edveis de alerta nos a\u00e7udes para assegurar \u00e1gua para irriga\u00e7\u00e3o at\u00e9 que o evento com criticidade de 20 anos de per\u00edodo de retorno seja atingido, no caso atual j\u00e1 muito superado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, qual a explica\u00e7\u00e3o para no<strong> NE semi\u00e1rido<\/strong> se disponibilizar \u00e1gua para irriga\u00e7\u00e3o durante um evento com criticidade secular? Ou se tem muita \u00e1gua \u2013 ao contr\u00e1rio do que se propaga, ou n\u00e3o se tem gest\u00e3o, ou as duas coisas.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O senhor tem defendido em alguns debates a implementa\u00e7\u00e3o da Lei das \u00c1guas no Nordeste. Em que consiste sua proposta e de que modo isso ajudaria a resolver o problema de gest\u00e3o h\u00eddrica na regi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es &#8211;<\/strong> Em 100 anos de hist\u00f3ria, a <strong>ind\u00fastria das secas<\/strong> tem promovido o desenvolvimento insustent\u00e1vel na Regi\u00e3o, priorizando a irriga\u00e7\u00e3o em larga escala numa regi\u00e3o semi\u00e1rida bastante populosa, como \u00e9 o caso atual no <strong>CE<\/strong> e <strong>RN<\/strong>. Dessa forma, o problema n\u00e3o \u00e9 legal, mais sim institucional. Est\u00e1 em xeque o sistema gestor da Regi\u00e3o, no caso, a<strong> Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas \u2013 ANA<\/strong>, respons\u00e1vel pela opera\u00e7\u00e3o dos grandes a\u00e7udes federais e os comit\u00eas de bacia.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Que rela\u00e7\u00f5es o senhor estabelece entre a ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o civil e a manuten\u00e7\u00e3o da seca em regi\u00f5es do Nordeste?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es &#8211;<\/strong> O tempo passa e desde o Imp\u00e9rio a<strong> pol\u00edtica hidr\u00e1ulica<\/strong> do governo federal permanece a mesma no <strong>NE<\/strong> como uma reserva de mercado do parque da ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o civil pesada do Brasil, que tem como principal interesse o desenvolvimento de projetos de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/544467-especialistas-dizem-que-transposicao-do-sao-francisco-pode-ficar-pronta-e-faltar-agua-no-rio\" target=\"_blank\">obras h\u00eddricas tradicionais<\/a>, tais como a constru\u00e7\u00e3o de grandes a\u00e7udes e canais, seguindo um plano intermin\u00e1vel de obras em que, com a limita\u00e7\u00e3o de locais para a constru\u00e7\u00e3o de novos a\u00e7udes, as transposi\u00e7\u00f5es d\u00e3o continuidade. Essa \u00e9 a verdadeira <strong>ind\u00fastria das secas<\/strong> no Brasil.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>&#8220;Uma das sa\u00eddas para o enfrentamento da problem\u00e1tica das secas no NE passa pela melhoria dos sistemas de abastecimento de \u00e1gua da regi\u00e3o, investindo-se no setor de produ\u00e7\u00e3o, que inclui capta\u00e7\u00e3o, tratamento e adu\u00e7\u00e3o at\u00e9 as cidades&#8221;<\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O senhor \u00e9 um defensor de novos sistemas de adutores. Quanto e como deveria se investir nesse sistema para garantir o abastecimento de \u00e1gua em per\u00edodos de seca como esse?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Abner Guimar\u00e3es &#8211;<\/strong> No meu estado (<strong>RN<\/strong>) o sertanejo morre de sede com \u00e1gua no joelho. A Regi\u00e3o Central, que possui a maior disponibilidade per capita de \u00e1gua, superficial e subterr\u00e2nea, cerca de o dobro da do estado, sofre um quadro generalizado de colapso dos sistemas de abastecimento das cidades sustentados em reservat\u00f3rios de porte m\u00e9dio locais.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, a <strong>Companhia de \u00c1gua do Estado &#8211; CAERN<\/strong> encontra-se paralisada aguardando o socorro do governo federal, apesar de a experi\u00eancia mostrar que solu\u00e7\u00f5es relativamente simples e baratas de sistemas adutores de porte m\u00e9dio seriam perfeitamente viabilizadas pelo autofinanciamento do consumidor local.<\/p>\n<p>Creio que uma das sa\u00eddas para o enfrentamento da problem\u00e1tica das <strong><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/542848-expansao-urbana-o-calcanhar-de-aquiles-da-crise-hidrica-entrevista-especial-com-humberto-miranda\" target=\"_blank\">secas<\/a> no NE<\/strong> passa pela melhoria dos<strong> sistemas de abastecimento de \u00e1gua<\/strong> da regi\u00e3o, investindo-se no setor de produ\u00e7\u00e3o, que inclui capta\u00e7\u00e3o, tratamento e adu\u00e7\u00e3o at\u00e9 as cidades. A experi\u00eancia atual mostra que a fragilidade do sistema se encontra nesse setor, apesar de, em regra, n\u00e3o faltar \u00e1gua para o abastecimento humano.<\/p>\n<p>Portanto, atualmente, o grande desafio \u00e9 a<strong> capta\u00e7\u00e3o dos recursos financeiros<\/strong> necess\u00e1rios para os investimentos urgentes na implanta\u00e7\u00e3o dos novos sistemas produtores e\/ou adutores num ambiente de escassez de recursos governamentais cada vez maior.<\/p>\n<p>Por outro lado, o elevado <strong>custo da \u00e1gua<\/strong> suplementar arcado pela popula\u00e7\u00e3o demonstra grande rentabilidade e capacidade de autofinanciamento do setor, justificando a busca de parcerias p\u00fablico-privadas para melhorar os servi\u00e7os p\u00fablicos de abastecimento de \u00e1gua, fugindo-se, dessa forma, da disputa na vala comum dos parcos recursos emergenciais disponibilizados pelo governo federal no momento atual, sem passar necessariamente pela privatiza\u00e7\u00e3o do setor. Sendo essa, talvez, a principal li\u00e7\u00e3o que poder\u00edamos tirar dessa terr\u00edvel seca que, antes de tudo, revelou a fragilidade do setor estatal de abastecimento de \u00e1gua da regi\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Por Patricia Fachin<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tradicional ind\u00fastria da seca permite que o sertanejo morra de sede com \u00e1gua no<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"A tradicional ind\u00fastria da seca permite que o sertanejo morra de sede com \u00e1gua no","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47289"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47289"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47289\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47289"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47289"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47289"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}