{"id":45886,"date":"2016-07-17T09:40:50","date_gmt":"2016-07-17T12:40:50","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=45886"},"modified":"2016-07-17T09:41:21","modified_gmt":"2016-07-17T12:41:21","slug":"fazendeiro-de-rondonia-e-exemplo-por-produzir-preservando-a-natureza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/fazendeiro-de-rondonia-e-exemplo-por-produzir-preservando-a-natureza\/","title":{"rendered":"Fazendeiro de Rond\u00f4nia \u00e9 exemplo por produzir preservando a natureza"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/gado-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-45887\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/gado-2-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/gado-2-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/gado-2.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Uma fazenda na Amaz\u00f4nia, que \u00e9 bom exemplo de lavoura, pecu\u00e1ria e floresta. E com certificado de excel\u00eancia por suas pr\u00e1ticas sociais, ambientais e econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>O tipo do lugar onde quase todo mundo se conhece. Machadinho d`Oeste tem pouco mais de 30 mil habitantes. E se h\u00e1 algu\u00e9m que todo mundo conhece, \u00e9 o dono da &#8216;Farm\u00e1cia do Gil&#8217;. Gil \u00e9 o apelido de Giocondo Valle. Farmac\u00eautico diplomado e bastante procurado. &#8220;No interior do Brasil, a farm\u00e1cia \u00e9 o grande portal do cidad\u00e3o para o sistema de sa\u00fade&#8221;.<\/p>\n<p>Famoso como farmac\u00eautico e tamb\u00e9m como fazendeiro. O Globo Rural foi at\u00e9 a propriedade dele, a Fazenda Dom Aro, para conhecer sua segunda ocupa\u00e7\u00e3o. O nome da fazenda \u00e9 uma homenagem do dono ao pai dele. Dom Aro \u00e9 o apelido do seu Aristides, um pequeno agricultor e pecuarista, ainda em atividade, l\u00e1 no Paran\u00e1, aos 80 anos. J\u00e1 o certificado que a fazenda ganhou, de boas pr\u00e1ticas agr\u00edcolas, \u00e9 um outro tipo de homenagem, um reconhecimento ao trabalho que se faz l\u00e1.<\/p>\n<p>Classificado na categoria ouro pela Embrapa, o Gil foi pioneiro na regi\u00e3o. O munic\u00edpio de Machadinho tem 28 anos. Ele chegou h\u00e1 30. E boa parte do que Gil pratica, ele trouxe de Quatigu\u00e1, no norte paranaense. Tradi\u00e7\u00e3o familiar. &#8220;O meu nono, pai do meu pai, ele era um ambientalista analfabeto, mas um ambientalista sem tamanho. Tinha um respeito. Principalmente pelos leitos de \u00e1gua&#8221;.<\/p>\n<p>Dos 1.600 hectares da fazenda, 45% s\u00e3o de floresta, isolados dos terrenos abertos. S\u00e3o \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o permanente, com mata totalmente preservada ou em recupera\u00e7\u00e3o, e v\u00e1rios trechos de reflorestamento. Um dos primeiros, foi plantado h\u00e1 quase 20 anos. S\u00e3o 12 mil \u00e1rvores de teca, de origem asi\u00e1tica. Madeira muito valiosa, que poder\u00e1 ser aproveitada em mais uns 10 anos. Tamb\u00e9m est\u00e3o plantadas algumas castanheiras nativas. Gil fala sobre uma delas: &#8220;Uma \u00e1rvore grande, pra 18 anos. Um di\u00e2metro de mais ou menos 60 cent\u00edmetros, uma altura, aproximadamente de 18 a 20 metros, e algo como cinco anos em produ\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de castanha, para valer, vai demorar um pouco. O Gil plantou mais 12 mil \u00e1rvores, em outra \u00e1rea, h\u00e1 oito anos. Entre elas, como em todos os reflorescimentos, a brota\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies nativas, amaz\u00f4nicas, \u00e9 estimulada. Mas como tudo isso era encarado, tempos atr\u00e1s? &#8220;Diziam que era uma coisa de doido, que eu tava pegando dinheiro b\u00e3o e jogando fora. E com o seguinte argumento: viemos aqui pra selva amaz\u00f4nica com a proposta e a solicita\u00e7\u00e3o de derrubar e produzir e voc\u00ea vai plantar?&#8221;.<\/p>\n<p>Mas o Gil foi em frente, tocando a pecu\u00e1ria nas \u00e1reas abertas. Recuperando pastos degradados, plantando novos. E produzindo, para sustentar a propriedade: &#8220;Sem dinheiro, a propriedade vai ficar linda, maravilhosa, endividada e o vizinho vai comprar ela. Tamb\u00e9m n\u00e3o resolve nada&#8221;.<\/p>\n<p>O Gil conta que a certifica\u00e7\u00e3o da Embrapa, em 2014, abriu as portas dos bancos p\u00fablicos para a obten\u00e7\u00e3o de financiamentos. Mas que antes disso, trabalhou com recursos pr\u00f3prios, inclusive da farm\u00e1cia. E n\u00e3o foi pouco investimento para a melhoria dos pastos. Limpeza e regulariza\u00e7\u00e3o dos terrenos, calagem, aduba\u00e7\u00e3o. Sementes de qualidade. O resultado: dois bois por hectare, que antes s\u00f3 engordava meio boi. &#8220;Mas n\u00f3s temos todo um projeto pra chegarmos a pelo menos tr\u00eas animais por hectare, o ano todo, com leve suplemento no cocho&#8221;.<\/p>\n<p>A fazenda pratica o ciclo completo: cria, recria e engorda. Vacas nelore, bezerros com meio sangue aberdeen. Esses, deste lote, v\u00e3o ser desmamados com oito meses, e peso acima de oito arrobas. A busca por qualidade, passa por precocidade.<\/p>\n<p>Respons\u00e1vel pelas insemina\u00e7\u00f5es, pelo melhoramento gen\u00e9tico, o Eanes diz que a vantagem econ\u00f4mica \u00e9 concreta: &#8220;Enquanto aqui na nossa regi\u00e3o, vende um bezerro desmamado de seis arrobas, na m\u00e9dia de R$ 900 at\u00e9 R$ 1.000, um bezerro daquele \u00e9 praticado aqui de R$ 1.300 at\u00e9 R$ 1.400&#8221;.<\/p>\n<p>Junto com o Eanes trabalha o Hassan, veterin\u00e1rio. Ele verifica a prenhez de um lote de novilhas, tamb\u00e9m precoces: &#8220;Elas receberam a primeira insemina\u00e7\u00e3o com 17 meses. No Brasil, a m\u00e9dia dos animais emprenharem \u00e9 24 meses. E a gente v\u00ea, em algumas propriedades, emprenhando com 30 meses, ou seja, dois anos e meio. Encurtamos praticamente um ciclo&#8221;, conclui Eanes.<\/p>\n<p>O tempo m\u00e9dio de engorda, s\u00f3 a pasto, foi reduzido, de tr\u00eas para dois anos. &#8220;Eu j\u00e1 posso iniciar uma nova safra naquela pastagem que estaria ocupada com aquele animal que ia ficar ali 36 meses, ele t\u00e1 saindo com 24, ent\u00e3o a gente j\u00e1 est\u00e1 ganhando dinheiro nisso da\u00ed&#8221;, afirma Eanes.<\/p>\n<p>Isso sem falar na qualidade de um animal mais jovem: &#8220;Mesmo que a gente n\u00e3o tenha uma retribui\u00e7\u00e3o financeira desejada, porque o mercado aqui em Rond\u00f4nia ainda n\u00e3o t\u00e1 pagando por qualidade, mas a\u00ed \u00e9 quest\u00e3o de fornecer pro mercado uma carne de boa qualidade&#8221;, diz o veterin\u00e1rio Hassan Oliveira Kassab.<\/p>\n<p>Detalhe importante: tudo isso sem truques, garante o veterin\u00e1rio: &#8220;Horm\u00f4nio nunca foi usado na propriedade e todo medicamento que \u00e9 feito nos animais, no dia do manejo no curral, \u00e9 anotado o n\u00famero do animal e o hist\u00f3rico de medicamento. A gente respeita a car\u00eancia de verm\u00edfugo, uso de verm\u00edfugo de longa a\u00e7\u00e3o s\u00f3 pra categoria que n\u00e3o vai serr abatida&#8221;.<\/p>\n<p>Gil explica o porqu\u00ea do cuidado: &#8220;Para que, quando o animal seja abatido, ele tenha res\u00edduo zero de horm\u00f4nios, de verm\u00edfugos ou de produtos dessa natureza em sua carca\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>O processo de certifica\u00e7\u00e3o exigiu mudan\u00e7as no curral, para aumentar a seguran\u00e7a de quem trabalha e o bem-estar dos animais. O manejo tamb\u00e9m foi alterado: nada de ferr\u00e3o. &#8220;A gente observa, que os animais ficaram mais d\u00f3ceis, sem pancadaria, sem maus tratos, s\u00f3 com bandeira, sem gritaria. O manejo ficou mais f\u00e1cil, mas pra chegar a esse manejo, a gente teve que adaptar algumas estruturas do curral&#8221;, conta Hassan.<\/p>\n<p>A parte da agricultura, a terceira do trip\u00e9 proposto na fazenda, caminha para o seu est\u00e1gio ideal, de produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os. Uma \u00e1rea de pastagem degradada, foi toda regularizada, recuperada. Recebeu dois plantios de arroz, cultura pioneira, que aceita um solo mais bruto, e agora as m\u00e1quinas est\u00e3o preparando a terra para o primeiro plantio de soja.<\/p>\n<p>E ser\u00e1 uma \u00e1rea multiuso, em rota\u00e7\u00e3o com capim braqui\u00e1ria, explica o especialista da Embrapa, Vicente Godinho: &#8220;Ele pode plantar o capim sobre a soja, antes de colher a soja ou pode tirar a soja e plantar o capim. Quando joga junto, a gente chama de sobre-semeadura. Voc\u00ea pode usar o boi ali, tr\u00eas, quatro meses, s\u00f3. A produ\u00e7\u00e3o de massa naquele per\u00edodo \u00e9 t\u00e3o intensa, que tem gente confinando boi a pasto. Quando chega setembro, outubro, ele desseca e planta a soja em cima&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo ele, o capim se beneficia do solo corrigido f\u00edsica e quimicamente para a soja. Gosta da aduba\u00e7\u00e3o: &#8220;Hoje pasto n\u00e3o \u00e9 mais pasto. \u00c9 uma cultura como outra qualquer&#8221;. E o capim retribui. Recobre o solo, ret\u00e9m umidade. E como tem ra\u00edzes mais profundas&#8230; &#8220;Ele busca nutrientes que estavam fora do horizonte de explora\u00e7\u00e3o da soja e jogam aqui pra cima. Aquele nutriente fica acess\u00edvel \u00e0 soja. Um ajuda o outro&#8221;.<\/p>\n<p>E a produ\u00e7\u00e3o bem sucedida ajuda a manter outro dos tr\u00eas itens analisados na certifica\u00e7\u00e3o da <a class=\"premium-tip\" href=\"http:\/\/g1.globo.com\/tudo-sobre\/embrapa\/\">Embrapa<\/a>: o ambiental. Nesse t\u00f3pico, a fazenda Dom Aro tem at\u00e9 programa de gerenciamento de res\u00edduos s\u00f3lidos registrado. Controle rigoroso sobre embalagens de agrot\u00f3xicos, armazenamento de combust\u00edveis, sobras de lubrificantes, tudo que se recolhe nos diferentes ambientes vai para aterros sanit\u00e1rios de Machadinho ou de Vilhena, a 600 Km da propriedade. Ou at\u00e9 mesmo para reciclagem, em Cuiab\u00e1.<\/p>\n<p>&#8220;Aqui n\u00e3o fica. \u00c9 proibido. Aqui \u00e9 lixo zero. E \u00e9 lixo zero materializado no seu dia-a-dia. Isso tudo d\u00e1 trabalho, bastante, e uma despesa razo\u00e1vel. S\u00f3 que n\u00f3s temos isso como um princ\u00edpio de produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria&#8221;, afirma Gil.<\/p>\n<p>E as pr\u00e1ticas ambientais acabam ajudando no terceiro item exigido pela Embrapa: o cuidado social. Cercadas de \u00e1rvores, as resid\u00eancias tem o clima mais agrad\u00e1vel, no meio do calor forte da regi\u00e3o. E as boas condi\u00e7\u00f5es das moradias tamb\u00e9m contam pontos.<\/p>\n<p>Os trabalhadores s\u00e3o registrados, tem todos os direitos. At\u00e9 mais do que isso, conta Gil: &#8220;Tem f\u00e9rias de 40 dias por ano. Tem d\u00e9cimo terceiro e, no m\u00ednimo, d\u00e9cimo quarto. Mas eu eu j\u00e1 cheguei a pagar 16 sal\u00e1rios e meio num ano aqui dentro da propriedade&#8221;.<\/p>\n<p>Um dos funcion\u00e1rios, Ant\u00f4nio Teles J\u00fanior, tem 28 anos e comanda a pecu\u00e1ria, no campo. Passou metade da vida trabalhando em fazendas. Chegou \u00e0 Dom Aro h\u00e1 um ano e meio, mas quase n\u00e3o foi. &#8220;Todo mundo comentava que o Gil era enjoado, gostava das coisas limpas, organiza\u00e7\u00e3o, entendeu? Acostumado com os trem de qualquer jeito, a\u00ed o pessoal falava isso a\u00ed. At\u00e9 eu fiquei com medo&#8221;. Mas ele acabou gostando da organiza\u00e7\u00e3o: &#8220;Funciona, muito melhor do que se for bagun\u00e7ado. \u00c9 mais f\u00e1cil. Vida organizada \u00e9 mais f\u00e1cil do que bagun\u00e7ada&#8221;. E faz mais um elogio ao estilo do Gil: &#8220;Ele quer que voc\u00ea seja igual a ele, entendeu? Ele n\u00e3o quer obrigar. O conhecimento que ele tem, ele quer que voc\u00ea saiba. Atrav\u00e9s de reuni\u00e3o, palestra, livro, tenho muito livro, ali, que ele traz, revista&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o sei tudo, e nunca saberei tudo. E n\u00e3o tenho o menor problema em admitir que n\u00e3o sei determinadas coisas. Mas tenho uma curiosidade enorme. Ent\u00e3o eu me cerco de pessoas que s\u00e3o muito melhores do que eu&#8221;, diz Gil.<\/p>\n<p>E a equipe \u00e9 mesmo unida, entrosada nas ideias da sustentabilidade: &#8220;A filosofia que o Gil implantou, e que a gente tamb\u00e9m \u00e9 seguidora dela, \u00e9 de cada dia melhorar mais, e a gente usar essa terra que tem aqui, esse capim, e deixar para as outras gera\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m que vem. N\u00e3o s\u00f3 a gente poder usufruir dela, mas deixar pra filhos, pros netos. Porque, ser\u00e1 que s\u00f3 n\u00f3s temos direito de chegar aqui e utilizar, retirar tudo que ela tem de potencial? E os outros? Os outros tamb\u00e9m v\u00e3o poder usufruir dela&#8221;, analisa Eanes.<\/p>\n<p>Segundo o seu Gil, a produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os e principalmente a pecu\u00e1ria d\u00e3o um bom lucro. J\u00e1 as \u00e1rvores, s\u00e3o uma esp\u00e9cie de poupan\u00e7a, que vai render no futuro. Al\u00e9m disso, essas iniciativas valorizam a fazenda, que se mant\u00e9m em sintonia com mercados, cada vez mais preocupados com as condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o no campo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma fazenda na Amaz\u00f4nia, que \u00e9 bom exemplo de lavoura, pecu\u00e1ria e floresta. 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