{"id":45236,"date":"2016-07-07T14:30:52","date_gmt":"2016-07-07T17:30:52","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=45236"},"modified":"2016-07-06T21:30:44","modified_gmt":"2016-07-07T00:30:44","slug":"um-atlas-de-nossa-agricultura-envenenada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/um-atlas-de-nossa-agricultura-envenenada\/","title":{"rendered":"Um atlas de nossa agricultura envenenada"},"content":{"rendered":"<p><em><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/atlas_agricultura.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-45237\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/atlas_agricultura-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/atlas_agricultura-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/atlas_agricultura.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Professora da USP produz primeira s\u00e9rie de mapas sobre uso, abuso e trag\u00e9dias relacionadas aos agrot\u00f3xicos no Brasil. Dados demonstram: alternativa \u00e9 rever modelo baseado no agroneg\u00f3cio.<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Por , da equipe De Olho nos Ruralistas \u2013\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Os mapas produzidos por Larissa Mies Bombardi s\u00e3o chocantes. Quando voc\u00ea acha que j\u00e1 chegou ao fundo do po\u00e7o, a professora de Geografia Agr\u00e1ria da USP passa para o mapa seguinte. E, acredite, o que era ruim fica pior. Mortes por intoxica\u00e7\u00e3o, mortes por suic\u00eddio, outras intoxica\u00e7\u00f5es causadas pelos agrot\u00f3xicos no Brasil. A pesquisadora reuniu os dados sobre os venenos agr\u00edcolas em uma sequ\u00eancia cartogr\u00e1fica que d\u00e1 dimens\u00e3o complexa a um problema pouco debatido no pa\u00eds.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wWQLI-sAF_s\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>Ver os mapas, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 enxergar o todo: o Brasil tem um antigo problema de subnotifica\u00e7\u00e3o de intoxica\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos. Muitas pessoas n\u00e3o chegam a procurar o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS); muitos profissionais ignoram os sintomas provocados pelos venenos, que muitas vezes se confundem com doen\u00e7as corriqueiras. Nos c\u00e1lculos de quem atua na \u00e1rea, se tivemos 25 mil pessoas atingidas entre 2007 e 2014, multiplica-se o n\u00famero por 50 e chega-se mais pr\u00f3ximo da realidade: 1,25 milh\u00e3o de casos em sete anos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Larissa leva em conta os registros do minist\u00e9rio da Sa\u00fade para enfermidades agudas, ou seja, aquelas direta e imediatamente conectadas aos agrot\u00f3xicos. As doen\u00e7as cr\u00f4nicas, aquelas provocadas por anos e anos de exposi\u00e7\u00e3o aos venenos, entre as quais o c\u00e2ncer, ficam de fora dos c\u00e1lculos. \u201cEsses dados mostram apenas a ponta do iceberg\u201d, diz ela.<\/p>\n<p>Ainda assim, s\u00e3o chocantes. O Brasil \u00e9 campe\u00e3o mundial no uso de agrot\u00f3xicos, posto roubado dos Estados Unidos na d\u00e9cada passada e ao qual seguimos aferrados com unhas e dentes. A cada brasileiro cabe uma m\u00e9dia de 5,2 litros de venenos por ano, o equivalente a duas garrafas e meia de refrigerante, ou a 14 latas de cerveja.<\/p>\n<p>Em breve, todo o material reunido por Larissa ser\u00e1 p\u00fablico. O livro Geografia sobre o uso de agrot\u00f3xicos no Brasil \u00e9 uma esp\u00e9cie de atlas sobre o tema, com previs\u00e3o de lan\u00e7amento para o segundo semestre. Ser\u00e1 um desenvolvimento do Pequeno Ensaio Cartogr\u00e1fico Sobre o Uso de Agrot\u00f3xicos no Brasil, j\u00e1 lan\u00e7ado este ano, com dados atualizados e mais detalhados. No per\u00edodo abrangido pela pesquisa, 2007-2014, foram 1.186 mortes diretamente relacionadas aos venenos. Ou uma a cada dois dias e meio:<\/p>\n<p>\u2013 Isso \u00e9 inaceit\u00e1vel. Num pacto de civilidade, que j\u00e1 era hora de termos, como a gente fala com tanta tranquilidade em avan\u00e7o de agroneg\u00f3cio, de permitir pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea, se \u00e9 diante desse quadro que a gente est\u00e1 vivendo? \u2013 indaga a professora, em entrevista nesta quarta-feira (28\/06) ao <a href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/outrosquinhentos\/projects\/de-olho-nos-ruralistas\/\" target=\"_blank\">De Olho nos Ruralistas<\/a>.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-210984\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Agrot%C3%B3xicos11.png\" sizes=\"(max-width: 375px) 100vw, 375px\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Agrot\u00f3xicos11.png 375w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Agrot\u00f3xicos11-198x300.png 198w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Agrot\u00f3xicos11-300x454.png 300w\" alt=\"Agrot\u00f3xicos11\" width=\"640\" height=\"968\" \/><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O papel do agroneg\u00f3cio<\/strong><\/p>\n<p>Larissa fala de agroneg\u00f3cio porque \u00e9 exatamente esse modelo o principal respons\u00e1vel pelas pulveriza\u00e7\u00f5es. Os mapas mostram que a concentra\u00e7\u00e3o dos casos de intoxica\u00e7\u00e3o coincide com as regi\u00f5es onde est\u00e3o as principais culturas do agroneg\u00f3cio no Brasil, como a soja, o milho e a cana de a\u00e7\u00facar no Centro-Oeste, Sul e Sudeste. No Nordeste, por exemplo, a fruticultura. A divis\u00e3o por Unidades da Federa\u00e7\u00e3o e at\u00e9 por munic\u00edpios comprovam com exatid\u00e3o essa conex\u00e3o.<\/p>\n<p>A pesquisadora compara a rela\u00e7\u00e3o dos brasileiros com agrot\u00f3xicos \u00e0 maneira como os moradores dos Estados Unidos lidam com as armas: aceitamos correr um risco enorme. Quando se olha para um dos mapas, salta \u00e0 vista a propor\u00e7\u00e3o entre suic\u00eddio e agrot\u00f3xicos. Em parte, explica Larissa, isso se deve ao fato de que estes casos s\u00e3o inescapavelmente registrados pelos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, ao passo que outros tipos de ocorr\u00eancias escapam com mais facilidade. Mas, ainda assim, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel desconsiderar a maneira como dist\u00farbios neurol\u00f3gicos s\u00e3o criados pelo uso intensivo dos chamados \u201cdefensivos agr\u00edcolas\u201d, termo que a ind\u00fastria utiliza para tentar atenuar os efeitos negativos das subst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Soja, milho e cana, nesta ordem, comandam as aplica\u00e7\u00f5es. Uma rela\u00e7\u00e3o exposta no mapa, que mostra um grande cintur\u00e3o de intoxica\u00e7\u00f5es no centro-sul do pa\u00eds. S\u00e3o Paulo e Paran\u00e1 aparecem em destaque em qualquer dos mapas, mas a professora adverte que n\u00e3o se pode desconsiderar a subnotifica\u00e7\u00e3o no Mato Grosso, celeiro do agroneg\u00f3cio no s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-210985\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Agrot%C3%B3xicos2.png\" sizes=\"(max-width: 371px) 100vw, 371px\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Agrot\u00f3xicos2.png 371w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Agrot\u00f3xicos2-195x300.png 195w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Agrot\u00f3xicos2-300x463.png 300w\" alt=\"Agrot\u00f3xicos2\" width=\"637\" height=\"982\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O veneno est\u00e1 na cidade<\/strong><\/p>\n<p>A conversa com o De Olho nos Ruralistas \u2013 durante grava\u00e7\u00e3o do piloto de um programa de TV pela internet \u2013 se deu em meio a algumas circunst\u00e2ncias pouco alvissareiras para quem atua na \u00e1rea. H\u00e1 alguns dias, a Rede Globo tem veiculado em um de seus espa\u00e7os mais nobres, o intervalo do Jornal Nacional, uma campanha em favor do \u201cagro\u201d. Os v\u00eddeos institucionais t\u00eam um tom rar\u00edssimo na emissora da fam\u00edlia Marinho, com defesa rasgada dos produtores rurais de grande porte.<\/p>\n<p>\u201cQuerem substituir a ideia do latif\u00fandio como atraso\u201d, resume Larissa. Ela recorda que, al\u00e9m do tema dos agrot\u00f3xicos, o agroneg\u00f3cio \u00e9 o respons\u00e1vel por trabalho escravo e desmatamento. E questiona a transforma\u00e7\u00e3o do setor agroexportador em modelo de na\u00e7\u00e3o. \u201cA alternativa que almejar\u00edamos seria a constru\u00e7\u00e3o de uma outra sociedade em que esse tipo de insumo n\u00e3o fosse utilizado. Almejamos uma agricultura agroecol\u00f3gica com base em uma ampla reforma agr\u00e1ria que revolucione essa forma de estar na sociedade.\u201d<\/p>\n<p>No mesmo dia da entrevista, o Di\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o trouxe a san\u00e7\u00e3o, pelo presidente provis\u00f3rio, Michel Temer, da Lei 13.301. Em meio a uma s\u00e9rie de iniciativas de combate \u00e0 dengue e \u00e0 zika, a legisla\u00e7\u00e3o traz a autoriza\u00e7\u00e3o para que se realize pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea de venenos em cidades, sob o pretexto de combate ao mosquito Aedes aegypti. A medida recebeu parecer contr\u00e1rio do Departamento de Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade Ambiental e Sa\u00fade do Trabalhador do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, posi\u00e7\u00e3o que foi ignorada por Temer.<\/p>\n<p>Larissa considera que a medida representa um grande retrocesso e demonstra preocupa\u00e7\u00e3o pelo fato de a realidade exposta em seus mapas ser elevada a pot\u00eancias ainda desconhecidas quando se transfere um problema rural para as cidades. \u201cO agrot\u00f3xico se dispersa pelo ar, vai contaminar o solo, vai contaminar a \u00e1gua. O agrot\u00f3xico n\u00e3o desaparece. Ao contr\u00e1rio, ele permanece.\u201d Em outras palavras: o veneno voa e mergulha. Alastra-se. E tem longa dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-210986\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Agrot%C3%B3xicos3.png\" sizes=\"(max-width: 370px) 100vw, 370px\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Agrot\u00f3xicos3.png 370w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Agrot\u00f3xicos3-196x300.png 196w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Agrot\u00f3xicos3-300x460.png 300w\" alt=\"Agrot\u00f3xicos3\" width=\"638\" height=\"978\" \/><\/p>\n<p><em>* <strong>Jo\u00e3o Peres<\/strong> \u00e9 jornalista e autor do livro-reportagem \u201cCorumbiara, caso enterrado\u201d.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professora da USP produz primeira s\u00e9rie de mapas sobre uso, abuso e trag\u00e9dias relacionadas aos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":45237,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/atlas_agricultura.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/atlas_agricultura-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/atlas_agricultura-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/atlas_agricultura.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/atlas_agricultura.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/atlas_agricultura.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/atlas_agricultura.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/atlas_agricultura.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/atlas_agricultura.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/atlas_agricultura.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Professora da USP produz primeira s\u00e9rie de mapas sobre uso, abuso e trag\u00e9dias relacionadas aos","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45236"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45236"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45236\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/45237"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45236"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45236"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45236"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}