{"id":44922,"date":"2016-07-02T17:16:19","date_gmt":"2016-07-02T20:16:19","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=44922"},"modified":"2016-07-02T17:17:11","modified_gmt":"2016-07-02T20:17:11","slug":"vegetacao-de-cerrado-de-7-mil-anos-corre-risco-de-extincao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/vegetacao-de-cerrado-de-7-mil-anos-corre-risco-de-extincao\/","title":{"rendered":"Vegeta\u00e7\u00e3o de Cerrado de 7 mil anos corre risco de extin\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u201cO Paran\u00e1 \u00e9 o \u00faltimo estado onde h\u00e1 ocorr\u00eancia de Cerrado no Brasil e na Am\u00e9rica do Sul, uma vez que nos demais estados ao sul n\u00e3o existe mais essa vegeta\u00e7\u00e3o\u201d, adverte o ge\u00f3grafo.\u00a0<\/strong><\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/i65.tinypic.com\/2mo5qo0.jpg\" width=\"300\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><em>Imagem cedida pelo entrevistado<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Os 102 quil\u00f4metros quadrados de vegeta\u00e7\u00e3o de <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?secao=382\" target=\"_blank\"><strong>Cerrado<\/strong><\/a> registrados no munic\u00edpio de <strong>Campo Mour\u00e3o<\/strong>, no <strong>Paran\u00e1<\/strong>, em 1940, j\u00e1 foram reduzidos a 13 mil metros quadrados e continuam sendo \u201cpaulatinamente reduzidos\u201d, de tal modo que hoje a regi\u00e3o tem a \u201cmenor \u00e1rea de <strong>Cerrado<\/strong> preservada no Brasil\u201d, totalizando a extens\u00e3o de uma quadra, e no munic\u00edpio como um todo existem apenas 32 esp\u00e9cies de barbatim\u00e3o, uma planta usada para fins medicinais, e 250 de buti\u00e1, diz <strong>Mauro Parolin<\/strong> \u00e0 <strong>IHU On-Line<\/strong>.<\/p>\n<p>Coordenador do Laborat\u00f3rio de Estudos Paleoambientais da Fecilcam \u2013 <strong>Lepafe<\/strong>, da <strong>Faculdade Estadual de Ci\u00eancias e Letras de Campo Mour\u00e3o \u2013<\/strong> <strong>Fecilcam<\/strong>, o ge\u00f3grafo desenvolve um estudo que demonstra a exist\u00eancia, no passado, de uma grande <strong>extens\u00e3o de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/535622-pec-do-cerrado-uma-tentativa-de-corrigir-a-omissao-com-os-biomas-brasileiros-entrevista-especial-com-mauro-pires\" target=\"_blank\">Cerrado<\/a><\/strong> no <strong>Paran\u00e1<\/strong>. \u201cO nosso \u00faltimo estudo mostra que h\u00e1 pelo menos 7200 anos havia presen\u00e7a de<strong> p\u00f3len de pequi<\/strong> [<em>Caryocar Brasiliense<\/em>, \u00e1rvore s\u00edmbolo do Cerrado] na regi\u00e3o. Como o pequi \u00e9 uma planta muito caracter\u00edstica do <strong>Cerrado<\/strong>, podemos afirmar que h\u00e1 mais de sete mil anos uma mancha de <strong>Cerrado<\/strong> j\u00e1 existia em <strong>Campo Mour\u00e3o<\/strong> e provavelmente ela era muito maior do que \u00e9 agora, porque \u00e0 medida que o clima foi ficando mais \u00famido e quente, essa mancha foi sendo reduzida e hoje essa <strong>vegeta\u00e7\u00e3o<\/strong> de Cerrado j\u00e1 est\u00e1 num processo sucessional de substitui\u00e7\u00e3o pela <strong>floresta estacional<\/strong>\u201d, informa na entrevista a seguir, concedida por telefone.<\/p>\n<p>Segundo ele, por conta do <strong>processo de urbaniza\u00e7\u00e3o<\/strong> e do <strong><a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=4230&amp;secao=382\" target=\"_blank\">desenvolvimento da agricultura<\/a><\/strong>, as \u00e1reas de <strong>Cerrado<\/strong> foram diminuindo e gerando <strong>perda de biodiversidade<\/strong>. \u201cQuando se vende uma \u00e1rea agr\u00edcola \u2013 que \u00e9 o que aconteceu em <strong>Campo Mour\u00e3o<\/strong> \u2013, as melhores terras s\u00e3o utilizadas para cultivo e, em contrapartida, as \u00e1reas destinadas \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o s\u00e3o aquelas que t\u00eam os piores solos e, portanto, as que t\u00eam a vegeta\u00e7\u00e3o mais pobre em termos de condi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica. Ao se fazer essa op\u00e7\u00e3o, restringe-se a capacidade de troca entre gera\u00e7\u00f5es de plantas com outras plantas mais saud\u00e1veis e, portanto, a troca de sementes e a fecunda\u00e7\u00e3o ficam muito endog\u00e2micas, ou seja, acontecem apenas dentro do mesmo grupo familiar de cada esp\u00e9cie, e isso vai ocasionando a perda gen\u00e9tica das plantas e, consequentemente, a qualidade gen\u00e9tica da floresta, o que por sua vez vai levando as esp\u00e9cies \u00e0 extin\u00e7\u00e3o\u201d, explica.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/556888-cerrado-na-regiao-de-campo-mourao-esta-acabando\" target=\"_blank\"><strong>Mauro Parolin<\/strong><\/a> \u00e9 professor Associado do Departamento de Geografia da Universidade Estadual do Paran\u00e1 &#8211; Campus de Campo Mour\u00e3o e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Geografia da Universidade Estadual de Maring\u00e1 e tamb\u00e9m coordena o Laborat\u00f3rio de Estudos Paleoambientais da Fecilcam e a Esta\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica do Cerrado de Campo Mour\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/www.guiagoioere.net\/arquivos\/uploads\/Mauro%20Parolin.jpg\" width=\"220\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><em>Foto:\u00a0Unespar\/Fecilcam<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong> IHU On-Line &#8211; O que o estudo que o senhor est\u00e1 realizando no Laborat\u00f3rio de Estudos Paleoambientais da Fecilcam \u2013 Lepafe tem demonstrado sobre a situa\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o de Cerrado no Paran\u00e1? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Mauro Parolin \u2013<\/strong> O trabalho no <strong>Lepafe<\/strong> tem sido feito a partir de sedimentos turfosos, ou seja, fizemos uma recupera\u00e7\u00e3o a partir de sondagens geol\u00f3gicas e nessas sondagens retiramos tubos de aproximadamente dois ou tr\u00eas metros de profundidade contendo material turfoso e estudamos os conte\u00fados pol\u00ednico e fitol\u00edtico desse material. O conte\u00fado pol\u00ednico nos fornece um espectro da <strong>vegeta\u00e7\u00e3o do passado<\/strong> e o conte\u00fado fitol\u00edtico \u00e9 a s\u00edlica da planta que acabou ficando preservada nas turfeiras. Com a ajuda da data\u00e7\u00e3o do carbono-14 e a partir da quantifica\u00e7\u00e3o que fizemos desse conte\u00fado pol\u00ednico e fitol\u00edtico, conseguimos ter ideia de como estava a vegeta\u00e7\u00e3o no passado. Nesse sentido tamb\u00e9m usamos como par\u00e2metro o carbono-13, que pode discriminar dois tipos de plantas: as adaptadas a campos, que s\u00e3o as plantas de tipo C4 e aquelas plantas que vivem em ambientes florestais, como as C3.<\/p>\n<p>O nosso \u00faltimo estudo mostra que h\u00e1 pelo menos 7200 anos havia presen\u00e7a de <strong>p\u00f3len de pequi<\/strong> [<em>Caryocar Brasiliense<\/em>, \u00e1rvore s\u00edmbolo do <strong>Cerrado<\/strong>] na regi\u00e3o. Como o pequi \u00e9 uma planta muito <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/535279-leguminosa-tipica-do-cerrado-conhecida-por-favela-promove-inclusao-social-de-2-mil-agricultores-familiares\" target=\"_blank\"><strong>caracter\u00edstica do Cerrado<\/strong><\/a>, podemos afirmar que h\u00e1 mais de sete mil anos uma mancha de <strong>Cerrado<\/strong> j\u00e1 existia em <strong>Campo Mour\u00e3o<\/strong> e provavelmente ela era muito maior do que \u00e9 agora, porque, \u00e0 medida que o clima foi ficando mais \u00famido e quente, essa mancha foi sendo reduzida e hoje essa vegeta\u00e7\u00e3o de Cerrado j\u00e1 est\u00e1 num processo sucessional de substitui\u00e7\u00e3o pela floresta estacional.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Al\u00e9m do pequi, outras esp\u00e9cies foram identificadas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mauro Parolin \u2013<\/strong> O nosso grande problema at\u00e9 ent\u00e3o era de que os p\u00f3lens que est\u00e1vamos recuperando s\u00e3o encontrados tanto no bioma <strong>Cerrado<\/strong>, quanto no bioma da <strong>floresta estacional<\/strong>. Contudo, no final do ano passado, encontramos o p\u00f3len do pequi e esse \u00e9 o elemento marcador de que a vegeta\u00e7\u00e3o que existia em <strong>Campo Mour\u00e3o<\/strong> era de Cerrado, apesar de que, nas proximidades da \u00e1rea em que encontramos o pequi, n\u00e3o existe mais essa esp\u00e9cie. Por isso estamos estipulando que a \u00e1rea de Cerrado antes deveria ser maior do que \u00e9 hoje e a evid\u00eancia que marca essa ocorr\u00eancia \u00e9 justamente o <strong>pequi<\/strong>. Outras esp\u00e9cies que existem no Cerrado t\u00eam um p\u00f3len muito redundante e por isso n\u00e3o temos condi\u00e7\u00f5es de afirmar se elas s\u00e3o ou n\u00e3o do Cerrado, mas o pequi \u00e9, com certeza, um marcador. O dado isot\u00f3pico tamb\u00e9m mostrou a predomin\u00e2ncia de plantas tipo C4 no Cerrado h\u00e1 mais de 7200 anos, ou seja, C4 indica campo e com isso estamos conseguindo dizer desde quando existe cerrado na regi\u00e3o de Campo Mour\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 \u00c9 poss\u00edvel chegar a conclus\u00f5es de como essa vegeta\u00e7\u00e3o de cerrado foi mudando ao longo dos anos e sendo substitu\u00edda pela floresta estacional?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mauro Parolin \u2013<\/strong> Em <strong>Campo Mour\u00e3o<\/strong> existe a menor <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/540875-lista-global-das-dez-maiores-areas-de-desmatamento-inclui-amazonia-e-cerrado\" target=\"_blank\">\u00e1rea de <strong>Cerrado<\/strong> preservada<\/a> no Brasil, que \u00e9 uma quadra, porque Campo Mour\u00e3o foi \u201cerguida\u201d em cima do Cerrado e todo o solo que dava sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 <strong>vegeta\u00e7\u00e3o do Cerrado<\/strong> foi modificado e transformado, de modo que ele foi sendo suprimido. A pesquisa mostra que essa sucess\u00e3o de Cerrado para <strong>floresta estacional<\/strong> est\u00e1 ocorrendo naturalmente. No entanto, nos \u00faltimos cem anos, esse processo foi acelerado pela entrada efetiva de vegeta\u00e7\u00e3o de<strong> floresta ombr\u00f3fila<\/strong> mista e estacional, como, por exemplo, a entrada de palmito em \u00e1reas em que n\u00e3o havia antes. Essa \u00e9 a evid\u00eancia de um processo lento que demonstra que a vegeta\u00e7\u00e3o do Cerrado est\u00e1 se transformando em \u00e1rea de floresta estacional, mas esse processo foi acelerado pelas corre\u00e7\u00f5es de solo no entorno da \u00e1rea e tamb\u00e9m pelo processo de urbaniza\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas \u00e1reas do entorno, a 60, 70 quil\u00f4metros de <strong>Campo Mour\u00e3o<\/strong>, j\u00e1 verificamos que havia mistura de plantas, ou seja, a \u00e1rea n\u00e3o era composta apenas de <strong>vegeta\u00e7\u00e3o do Cerrado<\/strong>, mas tamb\u00e9m n\u00e3o era uma mata fechada. Por\u00e9m, as matas foram adensando nos \u00faltimos cinco mil anos, enquanto a vegeta\u00e7\u00e3o em Campo Mour\u00e3o foi adensando mais lentamente.<\/p>\n<p>Segundo pesquisas do cientista alem\u00e3o <strong>Reinhard Maack<\/strong> [1892-1969], a vegeta\u00e7\u00e3o de Cerrado ocupava uma \u00e1rea de aproximadamente 102 quil\u00f4metros quadrados em <strong>Campo Mour\u00e3o<\/strong> na d\u00e9cada de 1940 e agora essa vegeta\u00e7\u00e3o est\u00e1 restrita a uma \u00e1rea de 13 mil metros quadrados, ou seja, essa \u00e1rea est\u00e1 sendo paulatinamente reduzida. Al\u00e9m desses 13 mil metros, estamos tentando preservar mais 20 mil metros quadrados desde 2001, mas n\u00e3o estamos conseguindo.<img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/i68.tinypic.com\/15clfv4.jpg\" width=\"639\" height=\"608\" \/><em>Mapa cedido pelo entrevistado<\/em><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Que percentual de vegeta\u00e7\u00e3o de Cerrado existia no estado do Paran\u00e1 e que percentual existe hoje? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Mauro Parolin \u2013<\/strong> O <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/549497-cerrado-perdeu-metade-da-sua-vegetacao-afirma-estudo-do-governo\" target=\"_blank\"><strong>Cerrado<\/strong><\/a> no <strong>Paran\u00e1<\/strong> foi identificado em 1940 em algumas regi\u00f5es do estado, como<strong> Campo Mour\u00e3o<\/strong>, <strong>Cianorte<\/strong> e <strong>Jaguaria\u00edva<\/strong>. No entanto, a \u00fanica \u00e1rea em que se estimou qual seria o percentual de Cerrado foi Campo Mour\u00e3o, com esse valor de 102 quil\u00f4metros quadrados. \u00c9 poss\u00edvel que essa \u00e1rea fosse muito maior no passado, contudo n\u00e3o se tem o registro de qual \u00e9 o volume de Cerrado hoje no estado. Em <strong>Jaguaria\u00edva<\/strong> existe uma reserva muito grande de Cerrado, e nas regi\u00f5es de <strong>Cianorte<\/strong>, <strong>Sab\u00e1udia<\/strong>, <strong>Cruzeiro<\/strong> <strong>do Oeste<\/strong>, o Cerrado j\u00e1 n\u00e3o existe mais, porque as \u00e1reas foram totalmente transformadas em campo ou foram engolidas pela floresta estacional.<\/p>\n<p>O <strong>Paran\u00e1<\/strong> \u00e9 o \u00faltimo estado onde h\u00e1 ocorr\u00eancia de <strong>Cerrado<\/strong> no <strong>Brasil<\/strong> e na <strong>Am\u00e9rica do Sul<\/strong>, uma vez que nos demais estados ao sul n\u00e3o existe mais essa vegeta\u00e7\u00e3o. <strong>Campo Mour\u00e3o<\/strong> est\u00e1 a 24 graus de latitude e Jaguaria\u00edva est\u00e1 a 24,5, e esse \u00e9 o \u00faltimo ponto ao sul do pa\u00eds onde ocorre Cerrado. Depois se tem apenas campo, como ocorre no <strong>Rio Grande do Sul<\/strong>, a exemplo do <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?secao=247\" target=\"_blank\"><strong>Pampa ga\u00facho<\/strong><\/a>.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>&#8220;Quando uma esp\u00e9cie dessas entra em extin\u00e7\u00e3o, dificilmente \u00e9 poss\u00edvel recuper\u00e1-la&#8221;<\/h2>\n<\/td>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Em termos de biodiversidade, \u00e9 poss\u00edvel contabilizar o que j\u00e1 se perdeu?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mauro Parolin \u2013<\/strong> H\u00e1 grande perda em termos de <strong>biodiversidade<\/strong> e o primeiro problema ocorre quando se come\u00e7a a diminuir as \u00e1reas de floresta natural. Por exemplo, quando se vende uma \u00e1rea agr\u00edcola \u2013 que \u00e9 o que aconteceu em <strong>Campo Mour\u00e3o<\/strong> \u2013, as melhores terras s\u00e3o utilizadas para cultivo e, em contrapartida, as \u00e1reas destinadas \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o s\u00e3o aquelas que t\u00eam os piores solos e, portanto, as que t\u00eam a vegeta\u00e7\u00e3o mais pobre em termos de condi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica.<\/p>\n<p>Ao se fazer essa op\u00e7\u00e3o, restringe-se a capacidade de troca entre gera\u00e7\u00f5es de plantas com outras plantas mais saud\u00e1veis e, portanto, a troca de sementes e a fecunda\u00e7\u00e3o ficam muito endog\u00e2micas, ou seja, acontecem apenas dentro do mesmo grupo familiar de cada esp\u00e9cie. Isso vai ocasionando a perda gen\u00e9tica das plantas e, consequentemente, a qualidade gen\u00e9tica da floresta, o que por sua vez vai levando as esp\u00e9cies \u00e0 <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=4232&amp;secao=382\" target=\"_blank\"><strong>extin\u00e7\u00e3o<\/strong><\/a>. E quando uma esp\u00e9cie dessas entra em extin\u00e7\u00e3o, dificilmente \u00e9 poss\u00edvel recuper\u00e1-la.<\/p>\n<p>As pessoas costumam dizer que tem <strong>barbatim\u00e3o<\/strong> em <strong>Goi\u00e1s<\/strong> e em<strong> Campo Mour\u00e3o<\/strong>, mas n\u00e3o se sabe, por exemplo, que tipos de adapta\u00e7\u00f5es genot\u00edpicas de DNA ocorreram no barbatim\u00e3o de Campo Mour\u00e3o para que ele conseguisse se adaptar \u00e0 condi\u00e7\u00e3o fria da regi\u00e3o, que \u00e9, provavelmente, muito diferente daquela de Goi\u00e1s. Por exemplo, se o barbatim\u00e3o ou o <strong>buti\u00e1 do Cerrado<\/strong> [Butia paraguayensis], que \u00e9 o buti\u00e1 que existe em <strong>Campo Mour\u00e3o<\/strong>, entrarem em extin\u00e7\u00e3o, n\u00e3o temos pesquisas feitas sobre as diferen\u00e7as gen\u00e9ticas entre eles e, por isso, n\u00e3o sabemos que tipo de condi\u00e7\u00e3o e que tipo de princ\u00edpio de tratamento poder\u00edamos usar nessas plantas para que, de repente, pudessem ajudar no fabrico de algum medicamento. \u00c9 nesse sentido que entra o contexto da <strong>preserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade<\/strong>.<\/p>\n<p>Mas a <strong>perda de biodiversidade<\/strong> \u00e9 ainda mais gritante em raz\u00e3o dos seus impactos aos p\u00e1ssaros, pois o <strong>Cerrado<\/strong> tem uma <strong>fauna<\/strong> que necessita de frutos que somente aquelas esp\u00e9cies que est\u00e3o nesse bioma conseguem dar. \u00c0 medida que essas \u00e1reas v\u00e3o sendo reduzidas, os p\u00e1ssaros v\u00e3o perdendo locais de alimenta\u00e7\u00e3o e de nidifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Numa das quadras de vegeta\u00e7\u00e3o do <strong>Cerrado<\/strong> que est\u00e3o preservadas em <strong>Campo Mour\u00e3o<\/strong>, tem mais <strong>biodiversidade<\/strong> do que numa mesma \u00e1rea em uma <strong>floresta ombr\u00f3fila<\/strong>. Por exemplo, no <strong>Cerrado de Goi\u00e1s<\/strong> s\u00f3 existem esp\u00e9cies do Cerrado, mas no <strong>Cerrado do Paran\u00e1<\/strong> existem, al\u00e9m das esp\u00e9cies do Cerrado, as esp\u00e9cies da floresta de arauc\u00e1ria e da floresta estacional, todas vivendo praticamente juntas. Em outra quadra preservada, a cerca de 400 metros de dist\u00e2ncia, h\u00e1 sete ou oito outras esp\u00e9cies, ou seja, em uma dist\u00e2ncia de 400 metros, \u00e0s vezes, j\u00e1 se tem uma biodiversidade muito diferente.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o as principais dificuldades para preservar essa vegeta\u00e7\u00e3o de Cerrado hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mauro Parolin \u2013<\/strong> Na d\u00e9cada de 1980, o <strong>poder p\u00fablico<\/strong> conseguiu preservar um pouco dessa vegeta\u00e7\u00e3o. Obviamente a \u00e1rea era enorme se comparada com hoje, pois havia <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/536381-o-cerrado-esta-extinto-e-isso-leva-ao-fim-dos-rios-e-dos-reservatorios-de-agua\" target=\"_blank\"><strong>Cerrado<\/strong><\/a> em um bairro inteiro na d\u00e9cada de 1970. Mas com o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o a vegeta\u00e7\u00e3o foi diminuindo e em 1987 foi feito o primeiro mapeamento de quais eram as \u00e1reas ainda livres de a\u00e7\u00e3o antr\u00f3pica, o qual detectou que ainda existiam algumas quadras de vegeta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda na d\u00e9cada de 1980 a universidade fez um projeto de preserva\u00e7\u00e3o, sensibilizou a comunidade, a prefeitura e com isso se conseguiu fazer uma troca de terras, ou seja, pessoas que tinham lotes na \u00e1rea de <strong>Cerrado<\/strong> trocaram suas terras por outros lotes que a prefeitura disponibilizou em outras \u00e1reas na cidade. Com isso se conseguiu preservar uma quadra de <strong>Cerrado<\/strong>. No entanto, isso acabou gerando outro problema: como esta quadra est\u00e1 preservada e virou uma esta\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, n\u00e3o estamos conseguindo colocar fogo na regi\u00e3o \u2013 \u00e9 preciso colocar fogo na \u00e1rea para fazer a germina\u00e7\u00e3o das sementes &#8211; e as invasoras come\u00e7aram a tomar conta da \u00e1rea justamente em raz\u00e3o da aus\u00eancia de fogo.<\/p>\n<p>Desde 2001 estamos tentando implementar novamente esse sistema de troca entre \u00e1reas com <strong>Cerrado<\/strong> e outras terras, mas n\u00e3o temos o mesmo empenho, a mesma sensibiliza\u00e7\u00e3o por parte da comunidade e do poder p\u00fablico e a transa\u00e7\u00e3o dessa negocia\u00e7\u00e3o tem sido pouco eficaz e pouco eficiente.<\/p>\n<p>A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/514233-cerrado-e-visto-como-fonte-para-aumentar-o-pib-brasileiro-entrevista-especial-com-lara-montenegro\" target=\"_blank\"><strong>falta de preserva\u00e7\u00e3o<\/strong><\/a> tamb\u00e9m acontece, de certa forma, pelo pr\u00f3prio desconhecimento da popula\u00e7\u00e3o, que olha a quantidade de qui\u00e7a\u00e7a [mato rasteiro e espinhento]\u00a0existente na regi\u00e3o e diz que \u201ctem que colocar tudo abaixo\u201d mesmo. Mas as pessoas n\u00e3o entendem que, embora aquelas esp\u00e9cies sejam muito parecidas com uma qui\u00e7a\u00e7a que qualquer um v\u00ea, elas s\u00e3o diferentes, t\u00eam caracter\u00edsticas e princ\u00edpios diferentes.<\/p>\n<p>Em <strong>Campo Mour\u00e3o<\/strong>, por exemplo, o pessoal vive raspando a casca de barbatim\u00e3o para fazer ch\u00e1, porque ele \u00e9 adstringente, como o pr\u00f3prio nome da esp\u00e9cie diz, <em>Stryphnodendron adstringens<\/em>. As pessoas da regi\u00e3o usam essa planta para fazer ch\u00e1s, para fazer gargarejo para infec\u00e7\u00e3o e dores de garanta, para uso t\u00f3pico em feridas, mas essa mesma popula\u00e7\u00e3o, quando olha aquela qui\u00e7a\u00e7a, diz: \u201cah, mas isso \u00e9 s\u00f3 uma qui\u00e7a\u00e7a, n\u00e3o precisa preservar\u201d. Ent\u00e3o, tamb\u00e9m tem esse problema de convencer a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o de que essa vegeta\u00e7\u00e3o \u00e9 importante.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>&#8220;Se o munic\u00edpio criasse uma pol\u00edtica de considerar as esp\u00e9cies do cerrado de Campo Mour\u00e3o como Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Cultural, seria poss\u00edvel encontrar maneiras de mudar o atual cen\u00e1rio&#8221;<\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quais seriam as pol\u00edticas p\u00fablicas adequadas para reverter o atual quadro de paisagem de Cerrado no Paran\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mauro Parolin \u2013<\/strong> Uma a\u00e7\u00e3o que j\u00e1 foi feita no passado e que poderia ser retomada \u00e9 \u201catingir\u201d o bolso de cada habitante. Por exemplo, aquele morador que plantar <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=4233&amp;secao=382\" target=\"_blank\"><strong>esp\u00e9cies do Cerrado<\/strong><\/a> em sua casa poderia ter uma redu\u00e7\u00e3o no valor do <strong>IPTU<\/strong>. Se o munic\u00edpio criasse uma pol\u00edtica de considerar as esp\u00e9cies do <strong>Cerrado de Campo Mour\u00e3o<\/strong> como <strong>Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Cultural<\/strong> \u2013 e isso \u00e9 poss\u00edvel, pois o pr\u00f3prio nome da cidade, Campo Mour\u00e3o, j\u00e1 vem dessa ideia de que aqui tinha um campo, logo, a nossa vegeta\u00e7\u00e3o \u00e9 um patrim\u00f4nio hist\u00f3rico -, seria poss\u00edvel encontrar maneiras de mudar o atual cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a legisla\u00e7\u00e3o poderia prever algumas esp\u00e9cies imunes a cortes. Isso ajudaria a garantir a perman\u00eancia delas. S\u00f3 temos 32 esp\u00e9cies de <em>Stryphnodendron adstringens<\/em> em <strong>Campo Mour\u00e3o<\/strong> e apenas 250 plantas de buti\u00e1; foi o que sobrou. Ent\u00e3o, se fizermos uma pol\u00edtica de deixar essas plantas imunes a cortes, j\u00e1 ajudaria, mas n\u00e3o adianta apenas ter a lei e n\u00e3o ter a fiscaliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse sentido que falo que as pol\u00edticas t\u00eam que ser voltadas para preserva\u00e7\u00e3o do nosso <strong>Cerrado<\/strong>, ou seja, \u00e9 preciso criar formas e instrumentos em que a popula\u00e7\u00e3o se sinta compensada pelo fato de estar preservando e, de outro lado, \u00e9 necess\u00e1rio ter uma fiscaliza\u00e7\u00e3o mais efetiva da preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Por Patricia Fachin<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO Paran\u00e1 \u00e9 o \u00faltimo estado onde h\u00e1 ocorr\u00eancia de Cerrado no Brasil e na<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"\u201cO Paran\u00e1 \u00e9 o \u00faltimo estado onde h\u00e1 ocorr\u00eancia de Cerrado no Brasil e na","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44922"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44922"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44922\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44922"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44922"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44922"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}