{"id":44605,"date":"2016-06-27T12:00:51","date_gmt":"2016-06-27T15:00:51","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=44605"},"modified":"2016-06-26T21:52:28","modified_gmt":"2016-06-27T00:52:28","slug":"sherlock-holmes-da-caca-ilegal-usa-dna-para-desvendar-trafico-de-marfim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/sherlock-holmes-da-caca-ilegal-usa-dna-para-desvendar-trafico-de-marfim\/","title":{"rendered":"Sherlock Holmes da ca\u00e7a ilegal usa DNA para desvendar tr\u00e1fico de marfim"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/sherlocke.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-44606\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/sherlocke-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/sherlocke-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/sherlocke.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Samuel K. Wasser, de 62 anos, zo\u00f3logo da Universidade de Washington, \u00e9 um Sherlock Holmes do com\u00e9rcio de vida selvagem. Com modernas ferramentas bioqu\u00edmicas e sapatos de couro \u00e0 moda antiga, ele investiga os comerciantes por tr\u00e1s do mercado de animais ca\u00e7ados ilegalmente. Seu trabalho \u00e9 financiado pela Funda\u00e7\u00e3o Paul G. Allen, pelo Departamento de Estado e pelo Escrit\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Drogas e Crimes.<\/p>\n<p><strong>P: Qual \u00e9 sua profiss\u00e3o verdadeira?<\/strong><\/p>\n<p><strong>R: <\/strong>Sou bi\u00f3logo conservacionista e professor, al\u00e9m de conduzir pesquisas cient\u00edficas. Entre as coisas que meu laborat\u00f3rio faz est\u00e1 a an\u00e1lise for\u00eansica de DNA para determinar a origem do marfim de um elefante apreendido por for\u00e7as da lei internacional.<\/p>\n<p>Se as autoridades alfandeg\u00e1rias de Cingapura ou do Vietn\u00e3 interceptarem um grande carregamento de marfim \u2013 vamos dizer mais de meia tonelada \u2013 vindo de ca\u00e7a, serei chamado para ver o que podemos aprender a partir de sua an\u00e1lise. Recentemente, o pessoal do meu laborat\u00f3rio come\u00e7ou a aplicar o que aprendemos sobre o com\u00e9rcio de marfim aos pangolins.<\/p>\n<p><strong>P: Pangolins?<\/strong><\/p>\n<p><strong>R: <\/strong>Eles s\u00e3o mam\u00edferos africanos e asi\u00e1ticos do tamanho de um cachorro cocker spaniel. Provavelmente est\u00e3o entre os animais mais ca\u00e7ados do mundo. S\u00e3o mortos por sua carne e por suas escamas, que os asi\u00e1ticos acreditam possuir valor medicinal. Eles est\u00e3o severamente amea\u00e7ados.<\/p>\n<p><strong>P: Como voc\u00ea se tornou um detetive da vida selvagem?<\/strong><\/p>\n<p><strong>R: <\/strong>\u00c9 uma longa hist\u00f3ria. No final dos anos 1970 e por toda a d\u00e9cada de 1980, estive no Parque Nacional Mikumi, na Tanz\u00e2nia, estudando a competi\u00e7\u00e3o entre as f\u00eameas de babu\u00ednos. Como parte dessa pesquisa, desenvolvi a tecnologia para extrair horm\u00f4nios das fezes dos babu\u00ednos. Era \u00fatil para medir seu n\u00edvel de estresse, fertilidade e nutri\u00e7\u00e3o sem ter necessariamente que mexer com os animais.<\/p>\n<p>Enquanto fazia isso, a ca\u00e7a para a retirada de marfim estava explodindo na \u00c1frica. Durante esses anos, mais de 700 mil elefantes foram abatidos. Trabalhava em uma \u00e1rea protegida e, mesmo assim, em todos os lugares via carca\u00e7as de elefantes. Comecei a pensar: &#8220;Deus, se pudesse aplicar os testes dos babu\u00ednos na conserva\u00e7\u00e3o dos elefantes seria maravilhoso&#8221;.<\/p>\n<p>Descobrir como fazer isso levou muitos anos. No entanto, em 1997, meu laborat\u00f3rio e outros colegas publicaram artigos mostrando como extrair DNA das fezes. Como as fezes de elefantes s\u00e3o grandes e f\u00e1ceis de achar, isso me permitiu mapear a gen\u00e9tica dos animais por todo o continente.<\/p>\n<p>Um ano depois, conseguimos obter DNA de marfim. Agora eu podia comparar o DNA das presas apreendidas com o mapa gen\u00e9tico. Finalmente, foi poss\u00edvel usar a ci\u00eancia para mostrar onde o contrabando havia se originado.<\/p>\n<p><strong>P: Qu\u00e3o preciso \u00e9 o seu teste?<\/strong><\/p>\n<p><strong>R:<\/strong> Eu posso pegar uma presa de qualquer lugar da \u00c1frica e rastrear suas origens em um per\u00edmetro de at\u00e9 300 quil\u00f4metros de onde o elefante foi morto, frequentemente d\u00e1 para saber at\u00e9 a reserva ou parque.<\/p>\n<p>Isso nos deu uma nova compreens\u00e3o de como o mercado de marfim funciona. A partir da\u00ed aprendemos que bandos organizados de ca\u00e7adores aparecem para matar v\u00e1rias vezes nos mesmos lugares. Eles operam em regi\u00f5es com v\u00e1rios elefantes, onde podem se mover facilmente sem ser pegos e onde \u00e9 poss\u00edvel tirar as presas do pa\u00eds, o que implica, frequentemente, algum tipo de corrup\u00e7\u00e3o de alto n\u00edvel.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 um tipo de intelig\u00eancia que voc\u00ea pode usar. Quando sabemos que o contrabando de marfim vem de um lugar espec\u00edfico, isso nos mostra onde a pr\u00f3xima ca\u00e7a ser\u00e1. Algumas vezes d\u00e1 para fazer com que parem mandando guardas armados.<\/p>\n<p>No entanto, os ca\u00e7adores muitas vezes est\u00e3o mais bem armados. Eles possuem AK-47s, \u00f3culos noturnos e de vez em quando at\u00e9 helic\u00f3pteros.<\/p>\n<p>\u00c9 um grande crime organizado. A Interpol diz que o com\u00e9rcio de vida selvagem \u00e9 o quarto maior tipo de crime transnacional, depois de armas, drogas e tr\u00e1fico humano.<\/p>\n<p><strong>P: Quais s\u00e3o os lugares mais usados para a ca\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p><strong>R: <\/strong>A ca\u00e7a ilegal acontece em toda a \u00c1frica. Na \u00faltima d\u00e9cada, todas as grandes apreens\u00f5es de marfim que analisei mostraram que 22 por cento do total veio dos elefantes das florestas do Gab\u00e3o e do Congo, e 78 por cento de uma \u00e1rea centralizada na Tanz\u00e2nia. Entre 2002 e 2007, identificamos a Z\u00e2mbia como outro local procurado para a ca\u00e7a ilegal.<\/p>\n<p>Saber disso pode ter impacto na pol\u00edtica. Por exemplo, em 2007 e 2010, a Tanz\u00e2nia e a Z\u00e2mbia pediram para ingressar na ag\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas que regula o com\u00e9rcio de produtos da vida selvagem \u2013 chamada Cites \u2013 para conseguir permiss\u00e3o para vender o marfim que possuem estocado. Seus diplomatas afirmavam que os pa\u00edses estavam trabalhando rigorosamente para diminuir a ca\u00e7a ilegal.<\/p>\n<p>Os relat\u00f3rios for\u00eansicos do nosso grupo e os de colegas mostraram que grandes quantidades de contrabando vinham da Tanz\u00e2nia e, naquele momento, da Z\u00e2mbia. Assim, os dois pedidos foram negados.<\/p>\n<p><strong>P: Suas investiga\u00e7\u00f5es ajudam na hora de acusar ca\u00e7adores e contrabandistas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>R: <\/strong>At\u00e9 agora, consegui uma condena\u00e7\u00e3o importante na \u00c1frica com o uso de evid\u00eancia baseada em DNA. A pessoa foi acusada de ser o maior comerciante de marfim da \u00c1frica Ocidental. Ele foi preso no Togo. Invadiram seu armaz\u00e9m, e analisei as amostras.<\/p>\n<p>Mostrei que as presas vieram de v\u00e1rios pa\u00edses, e um colega determinou que o marfim era de animais mortos havia pouco tempo. Ele pegou a senten\u00e7a mais severa do Togo: dois anos de pris\u00e3o e uma multa. Mas j\u00e1 est\u00e1 livre.<\/p>\n<p><strong>P: A venda de marfim \u00e9 legal nos Estados Unidos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>R: <\/strong>V\u00e1rios estados baniram a venda de marfim \u2013 Nova York, Calif\u00f3rnia, Washington. E apenas uma semana atr\u00e1s o governo federal promulgou uma proibi\u00e7\u00e3o quase total para a venda de marfim entre os estados. Isso significa que algu\u00e9m que est\u00e1 no Kentucky n\u00e3o pode vender marfim legalmente para algu\u00e9m que est\u00e1 na Virg\u00ednia.<\/p>\n<p>No entanto, pode vender marfim permitido para um comprador no Kentucky. Al\u00e9m disso, existem algumas exce\u00e7\u00f5es para a proibi\u00e7\u00e3o: instrumentos musicais, m\u00f3veis e armas de fogo que usem menos de 200 gramas de marfim, pe\u00e7as antigas. Os ca\u00e7adores com licen\u00e7as podem trazer dois trof\u00e9us de elefantes ao pa\u00eds todos os anos.<\/p>\n<p>Eu sou da opini\u00e3o de que precisamos de uma lei que diga: N\u00e3o \u00e9 permitido vender, ponto. Porque os buracos podem ser um problema. Se voc\u00ea vai para o Hava\u00ed, as lojas est\u00e3o cheias de marfins brancos. Quando voc\u00ea pergunta se \u00e9 legal, o vendedor diz: &#8220;\u00c9 antigo&#8221;.<\/p>\n<p><strong>P: As situa\u00e7\u00f5es que encontra no trabalho pesam para voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>R: <\/strong>N\u00e3o faz muito tempo, eu havia acabado de voltar de Cingapura, onde tinha avaliado uma apreens\u00e3o de 4,6 toneladas de marfim. Em tr\u00eas dias corridos, havia lavado, pesado, alinhado e testado amostras representativas das sobras de cerca de mil elefantes mortos.<\/p>\n<p>Existem provavelmente apenas uns 400 mil animais ainda vivos na \u00c1frica. Algumas dessas presas eram t\u00e3o pequenas que n\u00e3o pesavam nem meio quilo \u2013 beb\u00eas.<\/p>\n<p>Quando cheguei a Seattle, havia uma comemora\u00e7\u00e3o porque o pessoal da Paul Allen tinha conseguido aprovar uma iniciativa para banir as vendas de marfim no estado de Washington. Eu olhei para todas aquelas pessoas bacanas naquele sal\u00e3o bebendo vinho e pensei: &#8220;Voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam nem ideia do qu\u00e3o terr\u00edvel \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o&#8221;. E tive que ir embora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Samuel K. 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