{"id":4458,"date":"2014-08-08T15:27:49","date_gmt":"2014-08-08T15:27:49","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=4458"},"modified":"2014-08-08T15:29:22","modified_gmt":"2014-08-08T15:29:22","slug":"natureza-sinaliza-para-o-final-do-jogo-da-mudanca-climatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/natureza-sinaliza-para-o-final-do-jogo-da-mudanca-climatica\/","title":{"rendered":"Natureza sinaliza para o tempo final do jogo da mudan\u00e7a clim\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p><em><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/crise_climatica.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-4459\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/crise_climatica.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" \/><\/a>Este texto \u00e9 uma resenha de tr\u00eas obras:<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Antarctica: An Intimate Portrait of a Mysterious Continent<\/em><\/strong><br \/>\n<em> [Ant\u00e1rtida: Retrato \u00cdntimo de um Continente Misterioso]<\/em><br \/>\n<em> De Gabrielle Walker. Houghton Mifflin Harcourt, 388 p\u00e1ginas<\/em><\/p>\n<p><em><strong>What We Know: The Reality, Risks and Response to Climate Change<\/strong><\/em><br \/>\n<em> [O que Sabemos: Realidade, Riscos e Resposta \u00e0 Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica]<\/em><br \/>\n<em> Um relat\u00f3rio do Painel de Ci\u00eancia Clim\u00e1tica da Sociedade Norte-americana para o Progresso da Ci\u00eancia], 28 p\u00e1ginas, Mar\u00e7o de 2014<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Climate Change Impacts in the United States: The Third National Climate Assessment<\/strong><\/em><br \/>\n<em> [Os Impactos da Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica nos Estados Unidos: Terceira Avalia\u00e7\u00e3o Clim\u00e1tica Nacional<\/em><br \/>\n<em> Um relat\u00f3rio do Programa de Pesquisas Globais dos EUA, 829 p\u00e1ginas, Maio de 2014<\/em><\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Podemos estar chegando ao final do jogo da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. As pe\u00e7as, tecnol\u00f3gicas e talvez pol\u00edticas, finalmente est\u00e3o posicionadas para uma a\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e poderosa capaz de nos libertar dos combust\u00edveis f\u00f3sseis. Infelizmente, os jogadores tamb\u00e9m podem optar por simplesmente mover os pe\u00f5es para frente e para tr\u00e1s durante algumas d\u00e9cadas, o que seria fatal. Mais triste ainda \u00e9 constatar que a natureza est\u00e1 nos avisando todos os dias de que o tempo est\u00e1 se esgotando. Todo o jogo est\u00e1 praticamente em xeque.<\/p>\n<p>Vamos come\u00e7ar na Ant\u00e1rtida, o continente com a menor densidade demogr\u00e1fica e praticamente intocado pelos humanos. Em seu livro sobre a regi\u00e3o, Gabrielle Walker descreve muito bem as atividades recentes na vasta placa de gelo, desde as constantes descobertas de novas formas de vida marinha at\u00e9 a busca fren\u00e9tica de meteoritos, que s\u00e3o relativamente f\u00e1ceis de achar na brancura do gelo. Se voc\u00ea \u00e9 um daqueles curiosos sobre como \u00e9 sentir um inverno de 70 graus negativos, a hist\u00f3ria te dar\u00e1 uma ideia. Gabrielle cita Sarah Krall, que trabalhou no centro de controle a\u00e9reo do continente, coordenando voos e servindo como \u201ca voz da Ant\u00e1rtida\u201d. Desde seu primeiro encontro com a paisagem, Krall diz que ficou apaixonada:<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o conseguia conter a minha empolga\u00e7\u00e3o\u2026 Era t\u00e3o majestoso, t\u00e3o belo. Achei que seria sem gra\u00e7a, mas n\u00e3o foi essa a express\u00e3o que surgiu em minha mente. A Ant\u00e1rtida era simplesmente esplendorosa.&#8221;<\/p>\n<p>Ao descrever sua caminhada ao redor da borda do Monte \u00c9rebo, o vulc\u00e3o mais ativo do extremo do sul do planeta, Krall acrescentou: \u201c\u00c9 visceral. Esta terra faz com que eu me sinta pequena. N\u00e3o diminu\u00edda, e sim pequena. Eu gosto disso.\u201d<\/p>\n<p>No entanto, em outro sentido, a Ant\u00e1rtida \u00e9 onde percebemos o quanto somos grandes &#8212; n\u00e3o como indiv\u00edduos, mas como esp\u00e9cie. H\u00e1 tempos, os cientistas perceberam que estamos enchendo a atmosfera com di\u00f3xido de carbono ao queimarmos carv\u00e3o, g\u00e1s e petr\u00f3leo. Um instrumento nas encostas do vulc\u00e3o Mauna Loa, no Hava\u00ed, foi criado para medir a abund\u00e2ncia desse g\u00e1s, e descobriu um ac\u00famulo maior de CO\u00b2 a cada ano. Por\u00e9m, essa medi\u00e7\u00e3o n\u00e3o diz muito sobre o passado. Para entender o perigo que enfrentamos, \u00e9 preciso saber como o planeta respondeu ao carbono na atmosfera no passado distante. Se voc\u00ea pegar um n\u00facleo central de uma placa de gelo, as min\u00fasculas bolhas de ar presas em cada camada podem dar uma boa ideia das quantidades sucessivas de CO\u00b2. E n\u00e3o h\u00e1 como negar que os n\u00facleos de gelo mais longos podem ser coletados na Ant\u00e1rtida.<\/p>\n<p>Walker faz um relato interessante das dificuldades em perfurar o gelo glacial, recuperar n\u00facleos intactos e mant\u00ea-los congelados para estudo. Quando a m\u00e1quina congela durante o processo, a equipe de perfura\u00e7\u00e3o europeia solta \u201cbombas de conhaque\u201d pelo buraco para descongelar o mecanismo. A recompensa pelo esfor\u00e7o despendido \u00e9<\/p>\n<p>um cilindro perfeito e transparente com cerca de tr\u00eas metros, com grandes laterais de cristal e a visibilidade de uma janela. Algo nunca visto por olhos humanos. Era a parte mais antiga do n\u00facleo de gelo cont\u00ednuo mais antigo da Terra. Coloquei meu rosto perto dele, cuidadosamente para n\u00e3o toc\u00e1-lo, segurando minha respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando a equipe finalmente recolheu suas brocas, havia obtido o registro clim\u00e1tico do mundo de aproximadamente 800.000 anos, atrav\u00e9s de muitas eras do gelo e per\u00edodos interglaciais. E o que descobriram era simples e invari\u00e1vel:<\/p>\n<p>Mesmo quando nosso clima estava em algum em outro per\u00edodo &#8212; alguma forma diferente de equilibrar as v\u00e1rias influ\u00eancias sutis que comp\u00f5em o vento, o tempo e o calor que experimentamos &#8212; a temperatura e os gases do efeito estufa sempre caminhavam de m\u00e3os dadas. Uma temperatura mais alta sempre vinha com um n\u00edvel mais alto de CO\u00b2. E tamb\u00e9m o contr\u00e1rio: temperatura mais baixa significava um n\u00edvel mais baixo de CO\u00b2.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, em toda a hist\u00f3ria impressa nesse cilindro, nunca houve um n\u00edvel t\u00e3o alto de CO\u00b2 na atmosfera quanto hoje. De acordo com Walker, \u201cem todo o registro [do n\u00facleo de gelo], o valor mais alto de CO\u00b2 era cerca de 290 partes por milh\u00e3o de partes de ar. Hoje estamos com 400 e continua aumentando.\u201d Isso quer dizer que a Ant\u00e1rtida, por ser imaculada, proporciona o melhor vislumbre poss\u00edvel do momento geol\u00f3gico bizarro que vivemos hoje.<\/p>\n<p>Mas, \u00e9 claro, a Ant\u00e1rtida n\u00e3o \u00e9 mais imaculada. Os efeitos humanos sobre a atmosfera e o clima podem de fato ser lidos com mais facilidade no Polo Sul do que em qualquer outro lugar da Terra. E os resultados s\u00e3o verdadeiramente horripilantes. Para simplificar, as imensas placas de gelo est\u00e3o come\u00e7ando a se movimentar a uma velocidade incr\u00edvel. Ns estreita Pen\u00ednsula da Ant\u00e1rtida, que aponta para a Am\u00e9rica do Sul, e onde a maioria dos turistas visitam a Ant\u00e1rtida, o degelo est\u00e1 ocorrendo t\u00e3o ou mais r\u00e1pido do que em qualquer outro lugar do planeta. Foi nesse local que um grande peda\u00e7o da plataforma de gelo Larsen B se desprendeu em 2002.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a pen\u00ednsula cont\u00e9m quantidades relativamente pequenas de gelo; a maior parte da \u00e1gua doce do mundo est\u00e1 presa nas placas de gelo gigantes da Ant\u00e1rtida Oriental e Ocidental. Os cientistas, conservadores por natureza, chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que esses dep\u00f3sitos gigantes estiveram relativamente est\u00e1veis, pelo menos durante os \u00faltimos mil anos: N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil derreter um quil\u00f4metro ou dois de gelo, especialmente quando a temperatura do ar raramente, ou nunca, sobe acima do ponto de congelamento. No entanto, como Walker deixa claro ao final de seu relato, os pesquisadores est\u00e3o cada vez mais preocupados com a estabilidade da Ant\u00e1rtida Ocidental especificamente.<\/p>\n<p>Geleiras enormes est\u00e3o se desprendendo da placa de gelo da Ant\u00e1rtida Ocidental para o Mar de Amundsen no Pac\u00edfico Sul. Talvez seja a parte mais remota do continente mais remoto e, para piorar as coisas, a parte mais interessante desse continente est\u00e1 embaixo d\u2019\u00e1gua. Por isso, os cientistas est\u00e3o enviando rob\u00f4s subaqu\u00e1ticos aut\u00f4nomos, os autonomous subs, para estudar a geologia e est\u00e3o usando sat\u00e9lites para estudar as mudan\u00e7as na altura do gelo. O trabalho n\u00e3o estava conclu\u00eddo quando Walker convocou a imprensa para o lan\u00e7amento de seu livro, mas seu relato fornece toda a base de que voc\u00ea precisa para entender o que pode ter sido o an\u00fancio mais triste j\u00e1 feito na era do aquecimento global.<\/p>\n<p>Em meados de maio deste ano, dois documentos foram publicados na Science e na Geophysical Research Letters, deixando claro que as grandes geleiras voltadas para o Mar de Amundsen n\u00e3o estavam mais efetivamente \u201csustentadas\u201d. Descobriu-se que a geologia da regi\u00e3o tem forma de tigela: abaixo das geleiras, o terreno inclina para dentro, ou seja, a \u00e1gua pode e est\u00e1 invadindo a \u00e1rea abaixo delas. A \u00e1gua est\u00e1 literalmente comendo a partir de baixo e liberando as geleiras dos pontos onde estavam presas ao solo. Essa \u00e1gua \u00e9 mais quente, pois nossos oceanos est\u00e3o aquecendo continuamente. De acordo com os cientistas, esse colapso em c\u00e2mera lenta, que ocorrer\u00e1 durante v\u00e1rias d\u00e9cadas, \u00e9 \u201cirrevers\u00edvel\u201d agora; j\u00e1 \u201cpassou do ponto sem volta\u201d.<\/p>\n<p>Isso significa que tr\u00eas metros de eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar est\u00e3o sendo acrescentados \u00e0s previs\u00f5es anteriores. N\u00e3o sabemos quando isso ocorrer\u00e1 e com que rapidez, apenas sabemos que isso ocorrer\u00e1.1 E n\u00e3o ser\u00e1 s\u00f3 isso. Poucos dias ap\u00f3s o an\u00fancio sobre a Ant\u00e1rtida, outros cientistas descobriram que a maioria das placas de gelo da Groenl\u00e2ndia apresentam uma geologia subjacente parecida, com a possibilidade de derretimento pela \u00e1gua aquecida. Outro estudo publicado naquela semana mostrou que a fuligem de enormes inc\u00eandios florestais, mais frequentes como resultado do aquecimento global, est\u00e1 ajudando a derreter a placa de gelo da Groenl\u00e2ndia, um ciclo incrivelmente vicioso.<\/p>\n<p>De certa maneira, nada disso \u00e9 realmente novidade. Um dos principais glaci\u00f3logos, Jason Box, do GEUS (Geological Survey of Denmark and Greenland \u2013 Pesquisa Geol\u00f3gica da Dinamarca e Groel\u00e2ndia), calculou, com base no registro paleoclim\u00e1tico, que os n\u00edveis atmosf\u00e9ricos atuais de gases do efeito estufa provavelmente s\u00e3o suficientes para produzir uma eventual eleva\u00e7\u00e3o de 21 metros no n\u00edvel do mar.2 Mas uma coisa \u00e9 saber que a arma est\u00e1 engatilhada, e outra \u00e9 ver a bala sendo disparada; as not\u00edcias sobre a Ant\u00e1rtida representam um momento decisivo. Isso n\u00e3o significa que devemos desistir de nossos esfor\u00e7os para redu\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a clim\u00e1tica: na verdade, de acordo com os cientistas, significa que devemos aument\u00e1-los muito, pois ainda podemos afetar a velocidade dessas mudan\u00e7as e, com isso, o n\u00edvel de caos que elas produzem. Enfrentar o problema no decorrer de s\u00e9culos ser\u00e1 mais f\u00e1cil do que em apenas algumas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m podemos limitar as v\u00e1rias outras formas de danos al\u00e9m da eleva\u00e7\u00e3o no n\u00edvel do mar (desde a intensidade das secas at\u00e9 a praga de insetos portadores de doen\u00e7as), se limitarmos muito as emiss\u00f5es de carbono agora. Por\u00e9m, as not\u00edcias da Ant\u00e1rtida sinalizam, de uma vez por todas, que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel \u201cparar o aquecimento global\u201d. N\u00e3o h\u00e1 uma maneira de resfriar as \u00e1guas aquecidas que est\u00e3o derretendo as geleiras. A f\u00edsica n\u00e3o vai nos dar uma tr\u00e9gua. A partir de agora, todos os nossos esfor\u00e7os precisam ser dedicados a impedir um cen\u00e1rio pior.<\/p>\n<p>O drama anunciado em maio sobre as descobertas na Ant\u00e1rtida foi o cl\u00edmax de um ano com um crescente rufar de tambores do mundo cient\u00edfico. Durante esse per\u00edodo, os pesquisadores tentaram, com insist\u00eancia cada vez maior, transmitir a mensagem ao p\u00fablico e aos pol\u00edticos. Em mar\u00e7o, a Sociedade Norte-americana para o Progresso da Ci\u00eancia emitiu um manifesto bem direto com o t\u00edtulo \u201cWhat We Know\u201d (O que sabemos), que come\u00e7a assim:<\/p>\n<p>A grande quantidade de provas em documentos sobre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica causada por seres humanos significa custos consider\u00e1veis e riscos futuros extraordin\u00e1rios para a sociedade e os sistemas naturais.<\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o segue afirmando que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u201cp\u00f5e em risco o bem-estar das pessoas de todos os pa\u00edses\u201d.<\/p>\n<p>Algumas semanas depois disso, a Casa Branca publicou sua Avalia\u00e7\u00e3o Clim\u00e1tica Nacional (National Climate Assessment), \u201cImpactos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica nos Estados Unidos\u201d, em um site (Globalchange.gov), no qual \u00e9 poss\u00edvel ver como cadestado ou regi\u00e3o do pa\u00eds est\u00e1 sendo afetado pelo aumento da temperatura. A inova\u00e7\u00e3o da avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 retratar o dano resultante da mudan\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o como uma amea\u00e7a remota, mas como uma realidade atual:<\/p>\n<p>Antes considerada um problema para um futuro distante, hoje a mudan\u00e7a clim\u00e1tica faz parte do presente\u2026 Os americanos est\u00e3o percebendo as mudan\u00e7as ao redor.<\/p>\n<p>E \u00e9 claro que a mudan\u00e7a do clima \u00e9 a respons\u00e1vel: por exemplo, no momento, metade dos Estados Unidos est\u00e1 em estado de seca, e a seca da Calif\u00f3rnia \u00e9 a pior desde pelo menos o s\u00e9c. XVI, com inc\u00eandios por todos os lados como prova.<\/p>\n<p>A Avalia\u00e7\u00e3o Clim\u00e1tica Nacional importa mais por sua mensagem impl\u00edcita do que por seu conte\u00fado: ela sugere que o governo de Obama finalmente levar\u00e1 a s\u00e9rio, pelo menos retoricamente, a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Isso marca uma mudan\u00e7a. Nas primeiras semanas do primeiro mandato de Barack Obama, funcion\u00e1rios do governo convocaram os l\u00edderes ambientalistas para uma reuni\u00e3o na qual disseram que n\u00e3o discutiriam o aquecimento global: em grupos focais, era mais popular falar sobre \u201ctrabalhos sustent\u00e1veis\u201d. E eles mantiveram sua promessa infame: nas palestras fracassadas da Confer\u00eancia sobre Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica de Copenhague em 2009 (o maior fiasco da pol\u00edtica externa dos anos de Obama) e na tentativa fracassada no Congresso norte-americano de limitar a emiss\u00e3o de carbono no ano seguinte, a Casa Branca mal sussurrou a palavra \u201cclima\u201d.<\/p>\n<p>Na campanha para a reelei\u00e7\u00e3o, em 2012, eles literalmente conseguiram evitar mencionar esse assunto (copiando a postura de Mitt Romney), at\u00e9 que o Furac\u00e3o Sandy tornou isso imposs\u00edvel, nos \u00faltimos antes do pleito. Enquanto realizava a campanha, durante o ano mais quente da hist\u00f3ria norte-americana, com uma seca devastando o centro do pa\u00eds, a equipe de Obama mantinha um sil\u00eancio sepulcral. E quando o presidente falava sobre energia, ele fazia de tudo para deixar claro que apoiava o carbono, em qualquer forma poss\u00edvel. Por exemplo, em cima dos tubos de um oleoduto em Cushing, Oklahoma, ele afirmou:<\/p>\n<p>Sob meu governo, os Estados Unidos est\u00e3o produzindo mais petr\u00f3leo hoje do que em qualquer outro momento nos \u00faltimos oito anos. Isso \u00e9 importante saber. Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, orientei a abertura de milh\u00f5es de hectares para explora\u00e7\u00e3o de g\u00e1s e petr\u00f3leo em 23 estados diferentes. Estamos abrindo mais de 75% de nossas poss\u00edveis reservas de petr\u00f3leo no oceano. Quadruplicamos o n\u00famero de equipamentos de perfura\u00e7\u00e3o, estabelecendo um recorde. Constru\u00edmos uma quantidade suficiente de tubula\u00e7\u00e3o nova para g\u00e1s e petr\u00f3leo capaz de dar a volta na Terra e um pouco mais.<\/p>\n<p>Realmente, quando Obama deixar seu cargo, os Estados Unidos ter\u00e3o ultrapassado a Ar\u00e1bia Saudita e a R\u00fassia como os maiores produtores de petr\u00f3leo e g\u00e1s do planeta. O pa\u00eds estar\u00e1 usando menos carv\u00e3o em suas usinas, mas estamos exportando mais. Estas a\u00e7\u00f5es resultaram em lucros tremendos para as empresas de petr\u00f3leo e g\u00e1s, mas n\u00e3o est\u00e3o de acordo com a nova realidade f\u00edsica. Mesmo quando houve um enorme clamor do p\u00fablico, por exemplo, a onda de coment\u00e1rios p\u00fablicos contr\u00e1rios ao oleoduto Keystone, o presidente titubeou. Realmente, os funcion\u00e1rios seniores sabem qu\u00e3o obscuro tem sido esse recorde. O jornalista Mark Hertsgaard, escrevendo para o Harper\u2019s, cita uma s\u00e9rie de confidentes de Obama admitindo que suas a\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram suficientes para atingir as metas internacionais, muito menos para deixar um legado clim\u00e1tico s\u00f3lido.<\/p>\n<p>Ainda assim, parece que algumas mudan\u00e7as est\u00e3o ocorrendo. No in\u00edcio de junho, o presidente prop\u00f4s novos regulamentos para usinas a carv\u00e3o, com o objetivo de reduzir suas emiss\u00f5es em at\u00e9 um ter\u00e7o at\u00e9 2030. Esses regulamentos foram fortes o suficiente para disparar o alarme republicano de que o presidente estava iniciando uma \u201cguerra contra o carv\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que fazer mais do que George W. Bush com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 apenas pouco, tamb\u00e9m \u00e9 irrelevante. Neste caso, a pergunta \u00fatil \u00e9: o que a ci\u00eancia exige? Pelo fato de aprendermos durante o mandato de Obama que o \u00c1rtico est\u00e1 derretendo rapidamente e que o oceano est\u00e1 se acidificando a uma velocidade incr\u00edvel, e com base nos boletins mais recentes sobre o Polo Sul citados por mim, precisamos de muito mais. Defender as mudan\u00e7as com rela\u00e7\u00e3o ao carv\u00e3o anunciadas recentemente pela Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental \u00e9, provavelmente, o m\u00e1ximo que Obama pode fazer com o Congresso atual, mas ser\u00e1 necess\u00e1rio tirar proveito dessas a\u00e7\u00f5es com uma diplomacia inspirada a fim de garantir que a \u201cpr\u00f3xima Copenhague\u201d \u2014 uma sess\u00e3o global de negocia\u00e7\u00f5es, marcada para Paris em dezembro de 2015, n\u00e3o seja outro fiasco.<\/p>\n<p>Para colocar press\u00e3o sobre todos os negociadores, o Secret\u00e1rio Geral da ONU, Ban Ki-moon, convidou l\u00edderes mundiais para uma reuni\u00e3o sobre o clima que ser\u00e1 realizada em Nova York, em setembro. Essa reuni\u00e3o provavelmente repetir\u00e1 os discursos enfadonhos sobre o destino das gera\u00e7\u00f5es futuras. Por\u00e9m, tendo em vista o hist\u00f3rico de vinte e cinco anos de futilidades diplom\u00e1ticas, muitos de n\u00f3s que tentaram exigir alguma a\u00e7\u00e3o aproveitar\u00e3o para promover, no cen\u00e1rio de Nova York e com a inunda\u00e7\u00e3o do furac\u00e3o Sandy ainda fresca na mem\u00f3ria, o que pode vir a ser o maior protesto de rua da hist\u00f3ria do movimento clim\u00e1tico.<\/p>\n<p>O objetivo tornar mais claro o sentido de urg\u00eancia para medidas contra a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e influir nas negocia\u00e7\u00f5es. J\u00e1 h\u00e1 pelo menos alguns sinais do aumento da consci\u00eancia sobre esse problema mundial. Cada novo desastre parece convencer cada vez mais a opini\u00e3o p\u00fablica sobre a necessidade de a\u00e7\u00e3o, assim como a perspectiva preocupante de um El Ni\u00f1o em larga escala come\u00e7ar na metade do inverno no hemisf\u00e9rio sul, trazendo consigo seus prov\u00e1veis desastres clim\u00e1ticos.<\/p>\n<p>A comunidade financeira come\u00e7ou a questionar o valor em longo prazo dos estoques de combust\u00edvel f\u00f3ssil. Institui\u00e7\u00f5es com um grande volume de dota\u00e7\u00f5es, como a Universidade de Stanford, come\u00e7aram o processo de venda de alguns de seus t\u00edtulos em empresas de carv\u00e3o. De acordo com os analistas, caso o mundo tome alguma atitude relacionada \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica, muitas das reservas nas quais essas empresas baseiam seu valor teriam que ser deixadas debaixo da terra. \u201cEste \u00e9 um dos debates mais acelerados que j\u00e1 vi em meus trinta anos no mercado de a\u00e7\u00f5es\u201d, disse Kevin Bourne, um diretor administrativo do Financial Times Stock Exchange, ao Financial Times durante o outono, no dia em que a Blackrock, a maior gestora de ativos do mundo, lan\u00e7ou um fundo de \u00edndice livre de combust\u00edveis f\u00f3sseis. No entanto, sabemos que ser\u00e1 necess\u00e1rio um movimento muito mais forte e barulhento, e principalmente global, para pressionar os personagens principais a executar a\u00e7\u00f5es proporcionais ao tamanho do perigo.<\/p>\n<p>Comecei esta resenha com a met\u00e1fora de um jogo de xadrez, mas o futebol tamb\u00e9m serve, pelo poder das for\u00e7as agora desencadeadas. Como civiliza\u00e7\u00e3o, estamos a 44 minutos do segundo tempo e perdendo de um a zero. Sair tocando a bola de p\u00e9 em p\u00e9, mesmo que permane\u00e7amos no campo de ataque, simplesmente n\u00e3o vai ser suficiente para ganhar o jogo. Temos que fazer lan\u00e7amentos longos e improv\u00e1veis.<\/p>\n<p>A boa not\u00edcia \u00e9 que \u00e0s vezes essas jogadas arriscadas funcionam. Na tarde em que a not\u00edcia assustadora sobre a Ant\u00e1rtida foi anunciada, uma estat\u00edstica nos encheu de esperan\u00e7a, vinda da Alemanha. L\u00e1, o \u00fanico pa\u00eds que levou a s\u00e9rio a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e trabalhou para mudar sua infraestrutura de energia, um novo recorde de energia renov\u00e1vel foi estabelecido. Naquela mesma tarde, a Alemanha havia gerado 74% de suas necessidades el\u00e9tricas de fontes renov\u00e1veis.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito ainda a aprender sobre como armazenar a energia do vento e do sol para dias nublados e sem vento. Precisamos de redes melhores para fazer com que esse sistema de energia funcione perfeitamente, e elas n\u00e3o ser\u00e3o baratas. Por\u00e9m, se um pa\u00eds localizado em uma latitude muito mais ao norte pode fazer uma economia moderna funcionar com energia proveniente de cima, n\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis provenientes de baixo, todos n\u00f3s podemos nos sentir encorajados. Isso pode ser feito. O recurso que conseguiu essa fa\u00e7anha na Alemanha foi a vontade pol\u00edtica, que \u00e9 infinitamente renov\u00e1vel. Se pudermos coloc\u00e1-la em movimento.<\/p>\n<p>\u2013<\/p>\n<ol>\n<li>Tr\u00eas metros \u00e9 aproximadamente o n\u00edvel da onda de tempestade do Furac\u00e3o Sandy no Porto de Nova York. Ela transformou grande parte da baixa Manhattan em uma Veneza passageira; imagine isso com a nova realidade. \u21a9<\/li>\n<li>Confira Chris Mooney, \u201cHumans Have Already Set in Motion 69 Feet of Sea Level Rise\u201d (Os humanos j\u00e1 colocaram em movimento 21 metros de eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar), Mother Jones, 31 de janeiro de 2013<\/li>\n<\/ol>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o Eduardo Sukys<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto \u00e9 uma resenha de tr\u00eas obras: Antarctica: An Intimate Portrait of a Mysterious<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4459,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/crise_climatica.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/crise_climatica.jpg",150,96,false],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/crise_climatica.jpg",300,192,false],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/crise_climatica.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/crise_climatica.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/crise_climatica.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/crise_climatica.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/crise_climatica.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/crise_climatica.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/crise_climatica.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Este texto \u00e9 uma resenha de tr\u00eas obras: Antarctica: An Intimate Portrait of a Mysterious","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4458"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4458"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4458\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4459"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4458"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4458"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4458"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}