{"id":4449,"date":"2014-08-08T15:00:50","date_gmt":"2014-08-08T15:00:50","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=4449"},"modified":"2014-08-08T12:22:22","modified_gmt":"2014-08-08T12:22:22","slug":"pesquisa-detecta-bacterias-e-fungos-em-625-de-passarinhos-traficados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/pesquisa-detecta-bacterias-e-fungos-em-625-de-passarinhos-traficados\/","title":{"rendered":"Pesquisa detecta bact\u00e9rias e fungos em 62,5% de passarinhos traficados"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/canario_terra.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-4450\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/canario_terra.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" \/><\/a>As campanhas educativas para desestimular a compra de animais silvestres comercializados ilegalmente ganharam um refor\u00e7o em seus argumentos com um estudo conclu\u00eddo recentemente na Faculdade de Medicina Veterin\u00e1ria e Zootecnia (FMVZ) da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>A pesquisa \u201cCaracteriza\u00e7\u00e3o da microbiota intestinal bacteriana e f\u00fangica em passeriformes silvestres confiscados do tr\u00e1fico que ser\u00e3o submetidos a programas de reloca\u00e7\u00e3o\u201d, desenvolvida com Aux\u00edlio \u00e0 Pesquisa da FAPESP, encontrou microrganismos com potencial patog\u00eanico \u2013 que podem apresentar risco \u00e0 sa\u00fade humana e animal \u2013 em 62,5% de 253 amostras de material coletado na cloaca (\u00f3rg\u00e3o por onde as aves eliminam as fezes e a urina e p\u00f5em os ovos) de 34 esp\u00e9cies de passarinhos silvestres resgatadas do tr\u00e1fico de animais e encaminhadas ao Departamento de Parques e \u00c1reas Verdes de S\u00e3o Paulo (Depave) para avalia\u00e7\u00e3o, reabilita\u00e7\u00e3o e reloca\u00e7\u00e3o no ambiente.<\/p>\n<p>Segundo dados da Rede Nacional de Combate ao Tr\u00e1fico de Animais Silvestres (Renctas), as aves s\u00e3o o principal alvo do com\u00e9rcio ilegal de animais. Os passeriformes silvestres (p\u00e1ssaros nativos com pequenas dimens\u00f5es como sabi\u00e1s, can\u00e1rios, curi\u00f3s, entre outros) s\u00e3o os mais traficados, seguidos por papagaios, araras e demais g\u00eaneros.<\/p>\n<p>Estima-se que 90% das aves capturadas para tr\u00e1fico morram antes de chegar ao destino final. Quando resgatadas por \u00f3rg\u00e3os fiscalizadores, muitas j\u00e1 se encontram com a sa\u00fade debilitada por causa de condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias inadequadas na captura, no transporte e na manuten\u00e7\u00e3o em cativeiro.<\/p>\n<p>\u201cA pesquisa de alguns microrganismos como Salmonella spp., Cryptococcus spp. e Candida spp. \u00e9 prevista na lista de exames sanit\u00e1rios recomendados pela Instru\u00e7\u00e3o Normativa 179 do Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renov\u00e1veis]\u201d, disse Priscilla Anne Melville, do Departamento de Medicina Veterin\u00e1ria Preventiva e Sa\u00fade Animal da FMVZ, respons\u00e1vel pelo estudo. \u201cNo entanto, quisemos fazer um estudo mais abrangente para descobrir quais outros pat\u00f3genos podem ser carreados por esses animais.\u201d<\/p>\n<p>O trabalho contou com a participa\u00e7\u00e3o dos pesquisadores da FMVZ\/USP Nilson Roberti Benites, Paulo Eduardo Brand\u00e3o, Andr\u00e9 Becker Sim\u00f5es Saidenberg, Patr\u00edcia Braconaro e Eveline Zuniga e das veterin\u00e1rias do Depave Adriana Joppert da Silva, Tha\u00eds Sanches e Ticiana Zwarg.<\/p>\n<p>De acordo com os pesquisadores, o material coletado na cloaca das aves \u00e9 mais preciso como indicador da microbiota intestinal do que as fezes, j\u00e1 que, em condi\u00e7\u00f5es normais, os microrganismos presentes ali s\u00e3o oriundos somente do trato intestinal. J\u00e1 a an\u00e1lise das fezes pode levar a falsos resultados pela contamina\u00e7\u00e3o do material por bact\u00e9rias presentes no ambiente.<\/p>\n<p>Segundo Melville, exames de verifica\u00e7\u00e3o de ocorr\u00eancia e frequ\u00eancia de fungos e bact\u00e9rias mostraram que em 158 (62,5%) das 253 amostras havia presen\u00e7a de microrganismos. Em 123 delas (77,84%) havia somente bact\u00e9rias; em outras quatro somente fungos; e em 31 fungos e bact\u00e9rias.<\/p>\n<p>\u201cForam isolados ao menos 15 g\u00eaneros de bact\u00e9rias, tr\u00eas g\u00eaneros de leveduras e quatro g\u00eaneros de fungos filamentosos. Alguns deles apresentam potencial zoon\u00f3tico, ou seja, podem causar doen\u00e7as em humanos e em animais e alguns desses apresentaram resist\u00eancia a determinados antimicrobianos\u201d, disse Melville \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Microrganismos mais encontrados<\/p>\n<p>Foram encontradas 13 esp\u00e9cies de Staphylococcus spp. em 38 amostras. O g\u00eanero Micrococcus spp. foi localizado em 29 amostras, enquanto Klebsiella spp. e Escherichia coli estavam em 27 amostras, cada.<\/p>\n<p>Em testes de suscetibilidade a diferentes antibi\u00f3ticos e quimioter\u00e1picos, essas bact\u00e9rias apresentaram multirresist\u00eancia a determinados antimicrobianos. Foram encontradas ainda as bact\u00e9rias Enterococcus spp. (em 11 amostras); Enterobacter spp. (10); Streptococcus spp. (8) e Citrobacter spp. (7).<\/p>\n<p>\u201cCada microrganismo tem suas peculiaridades e causa doen\u00e7as espec\u00edficas. As bact\u00e9rias Escherichia coli, por exemplo, podem estar associadas a dist\u00farbios gastrointestinais. Esp\u00e9cies de Staphylococcus podem estar associadas a infec\u00e7\u00f5es cut\u00e2neas, sinusites, artrites e pneumonias. A transmiss\u00e3o se d\u00e1 principalmente por meio do contato com as fezes do animal, com posterior ingest\u00e3o acidental ou mesmo inala\u00e7\u00e3o de material contaminado\u201d, afirmou a pesquisadora.<\/p>\n<p>Alguns microrganismos encontrados no estudo ainda n\u00e3o haviam sido mencionados em trabalhos semelhantes. Entre eles, h\u00e1 a Rhodotorula spp. (levedura oportunista que pode causar doen\u00e7a em paciente imunossuprimido), Edwardsiella (bact\u00e9ria associada a meningites e gastroenterites, entre outras) e Pasteurella multocida (agente associado \u00e0 c\u00f3lera avi\u00e1ria).<\/p>\n<p>O estudo confirmou a presen\u00e7a de fungos filamentosos e leveduras encontrados em estudos anteriores, de outros autores, tais como Candida spp. (fungo associado a dist\u00farbios gastrointestinais e respirat\u00f3rios), Penicillium spp. (fungo associado a doen\u00e7as como ceratites, endocardites, entre outras), Mucor spp. (fungo que pode acometer pacientes imunossuprimidos, causando infec\u00e7\u00f5es no trato respirat\u00f3rio e gastrointestinal, no sistema nervoso ou na pele), Aspergillus spp. (fungo que acomete principalmente o trato respirat\u00f3rio de aves), e Trichosporon spp. (pat\u00f3genos oportunistas que podem acometer pacientes imunossuprimidos).<\/p>\n<p>A pesquisa revelou ainda que \u00e9 baixo o risco de transmiss\u00e3o de microrganismos sugeridos para investiga\u00e7\u00e3o pela Instru\u00e7\u00e3o Normativa do Ibama como Salmonella spp., Cryptococcus spp. (ausentes nas amostras) e Candida spp. (baixa ocorr\u00eancia).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 baixo o risco de transmiss\u00e3o para humanos, pelas aves avaliadas, de bact\u00e9rias E.coli como a Escherichia coli enteropatog\u00eanica (EPEC), Escherichia coli patog\u00eanica avi\u00e1ria (APEC) e Escherichia coli uropatog\u00eanica (UPEC). Por outro lado, h\u00e1 risco de transmiss\u00e3o intra ou interesp\u00e9cies ou introdu\u00e7\u00e3o no ambiente de E.coli multirresistentes a antimicrobianos.<\/p>\n<p>Bact\u00e9rias resistentes<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o da microbiota intestinal das aves antes do processo de soltura \u00e9 importante, pois pode esclarecer sobre poss\u00edveis riscos relativos \u00e0 presen\u00e7a de resist\u00eancia bacteriana aos antimicrobianos. \u201cAo serem eliminadas no ambiente, as bact\u00e9rias multirresistentes a antimicrobianos podem se multiplicar e infectar diferentes hospedeiros, disseminando a resist\u00eancia antimicrobiana entre as bact\u00e9rias\u201d, explicou Melville.<\/p>\n<p>\u201cIsso pode levar ao desencadeamento de doen\u00e7as de dif\u00edcil tratamento, j\u00e1 que a resist\u00eancia antimicrobiana reduz as possibilidades terap\u00eauticas. Por outro lado, muitas bact\u00e9rias podem se tornar resistentes a um antimicrobiano, mesmo sem nunca terem tido contato com o mesmo\u201d, disse a pesquisadora.<\/p>\n<p>O alerta deve ser considerado principalmente quando se leva em conta que grande parte dos indiv\u00edduos que adquirem animais traficados mant\u00e9m as aves como animais de estima\u00e7\u00e3o em suas resid\u00eancias.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas devem ter ci\u00eancia que podem ser contaminadas por determinados agentes bacterianos, virais e f\u00fangicos transportados pelos animais traficados, especialmente os grupos de risco \u2013 idosos, crian\u00e7as e pessoas imunossuprimidas ou que s\u00e3o submetidas a algum tratamento imunossupressor\u201d, disse Melville.<\/p>\n<p>Saidenberg esclareceu que, mesmo em liberdade, aves podem hospedar microrganismos com potencial para causar doen\u00e7as na pr\u00f3pria esp\u00e9cie, em outros animais e em humanos. No entanto, em geral, observa-se um equil\u00edbrio entre o microrganismo e o hospedeiro como parte de um processo de coevolu\u00e7\u00e3o e que tamb\u00e9m atua sobre o controle populacional.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de determinado microrganismo n\u00e3o representa obrigatoriamente que a doen\u00e7a se manifeste. \u201cNo entanto, quando s\u00e3o traficadas, esse equil\u00edbrio pode ser alterado em raz\u00e3o dos elevados n\u00edveis de estresse, das p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de higiene e alimenta\u00e7\u00e3o inadequada a que s\u00e3o submetidos os animais, o que pode acarretar o desencadeamento de doen\u00e7as infecciosas causadas por microrganismos com os quais estavam anteriormente em equil\u00edbrio\u201d, disse Saidenberg.<\/p>\n<p>Legisla\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Embora a legisla\u00e7\u00e3o brasileira determine que animais silvestres s\u00f3 possam ser criados se adquiridos de criadores autorizados e que possuam documenta\u00e7\u00e3o de comprova\u00e7\u00e3o de origem, somente em S\u00e3o Paulo, a Pol\u00edcia Militar Ambiental apreendeu ou resgatou mais de 187 mil animais silvestres do tr\u00e1fico de animais nos \u00faltimos 10 anos.<\/p>\n<p>De 2006 a 2012, 82% dos animais confiscados do tr\u00e1fico eram aves. Segundo dados do Ibama, a maioria dos p\u00e1ssaros silvestres comercializados ilegalmente vem das regi\u00f5es Norte, Nordeste e Centro-Oeste e os estados com o maior mercado consumidor est\u00e3o na regi\u00e3o Sudeste: S\u00e3o Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>As esp\u00e9cies apreendidas em maior quantidade no per\u00edodo do estudo foram pixarro (Saltator simillis), can\u00e1rio-da-terra (Sicalis flaveola), galo-de-campina (Paroaria dominicana), coleirinho-paulista (Sporophila caerulescens), azul\u00e3o (Cyanoloxia brissoni) e p\u00e1ssaro-preto (Gnorimopsar chopi), segundo os pesquisadores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As campanhas educativas para desestimular a compra de animais silvestres comercializados ilegalmente ganharam um refor\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4450,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/canario_terra.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/canario_terra.jpg",150,96,false],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/canario_terra.jpg",300,192,false],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/canario_terra.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/canario_terra.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/canario_terra.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/canario_terra.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/canario_terra.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/canario_terra.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/canario_terra.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"As campanhas educativas para desestimular a compra de animais silvestres comercializados ilegalmente ganharam um refor\u00e7o","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4449"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4449"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4449\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4450"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4449"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4449"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4449"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}