{"id":43801,"date":"2016-06-15T13:00:19","date_gmt":"2016-06-15T16:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=43801"},"modified":"2016-06-14T20:21:31","modified_gmt":"2016-06-14T23:21:31","slug":"organismo-marinho-mostra-por-que-o-ser-humano-nao-esta-no-topo-da-evolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/organismo-marinho-mostra-por-que-o-ser-humano-nao-esta-no-topo-da-evolucao\/","title":{"rendered":"Organismo marinho mostra por que o ser humano n\u00e3o est\u00e1 no topo da evolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p class=\"sumario__interior\"><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/evolucao_humana.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-43802\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/evolucao_humana-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/evolucao_humana-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/evolucao_humana.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>\u201cS\u00f3 o acaso pode ser interpretado como uma mensagem. Aquilo que acontece por necessidade, aquilo que \u00e9 esperado e que se repete todos os dias, n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o uma coisa muda. Somente o acaso tem voz\u201d, escreveu Milan Kundera em <em>A Insustent\u00e1vel Leveza do Ser<\/em>. E tem algo que fala, ou melhor, grita, numa praia de Badalona, perto de Barcelona: a que \u00e9 dominada pela <a href=\"http:\/\/www.pontdelpetroli.org\/\" target=\"_blank\">Ponte do Petr\u00f3leo<\/a>. Por esse dique de 250 metros, que penetra no mar Mediterr\u00e2neo, eram descarregados produtos petrol\u00edferos at\u00e9 o final do s\u00e9culo XX. E a seus p\u00e9s se levanta desde 1870 a f\u00e1brica do An\u00eds del Mono, o licor em cujo r\u00f3tulo aparece <a href=\"http:\/\/www.anisdelmono.es\/historia\/\" target=\"_blank\">um s\u00edmio com cara de Charles Darwin<\/a> em refer\u00eancia \u00e0 teoria da evolu\u00e7\u00e3o, que gerava pol\u00eamica na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Hoje, a Ponte do Petr\u00f3leo \u00e9 um belo mirante com uma est\u00e1tua de bronze dedicada ao macaco com rosto darwinista. E, por um acaso que fala, entre seus frequentadores se encontra uma equipe de bi\u00f3logos evolutivos do <a href=\"http:\/\/www.ub.edu\/genetica\/indexen.htm\" target=\"_blank\">departamento de Gen\u00e9tica da Universidade de Barcelona<\/a>. Os cientistas caminham pela passarela sobre o oceano e lan\u00e7am um cubo para fisgar um animal marinho, o <em>Oikopleura dioica<\/em>, de apenas tr\u00eas cent\u00edmetros, mas que possui boca, \u00e2nus, c\u00e9rebro e cora\u00e7\u00e3o. Parece insignificante, mas, como Darwin, faz estremecer o discurso das religi\u00f5es. Coloca o ser humano no lugar que lhe corresponde: com o resto dos animais.<\/p>\n<p class=\"sumario__interior\">\u201cTemos sido mal influenciados pela religi\u00e3o, pensando que est\u00e1vamos no topo da evolu\u00e7\u00e3o. Na verdade, estamos no mesmo n\u00edvel que o dos outros animais\u201d, diz o bi\u00f3logo Cristian Ca\u00f1estro. Ele e o colega Ricard Albalat dirigem <a href=\"http:\/\/evodevogenomics-unibarcelona.weebly.com\/\" target=\"_blank\">um dos \u00fanicos tr\u00eas centros cient\u00edficos do mundo<\/a> dedicados ao estudo do <em>Oikopleura dioica<\/em>. Os outros dois est\u00e3o na Noruega e no Jap\u00e3o. O centro espanhol \u00e9 uma salinha fria, com centenas de exemplares praticamente invis\u00edveis colocados em recipientes de \u00e1gua, num canto da Faculdade de Biologia da Universidade de Barcelona.<\/p>\n<p>\u201cA vis\u00e3o at\u00e9 agora era que, ao evoluir, ganh\u00e1vamos em complexidade, adquirindo genes. Era o que se pensava quando os primeiros genomas foram sequenciados: de mosca, de minhoca e do ser humano. Mas vimos que n\u00e3o \u00e9 assim. A maioria de nossos genes est\u00e1 tamb\u00e9m nas medusas. Nosso ancestral comum os possu\u00eda. N\u00e3o que tenhamos ganhado genes; eles \u00e9 que perderam. A complexidade gen\u00e9tica \u00e9 ancestral\u201d, diz Ca\u00f1estro.<\/p>\n<p>Em 2006, o bi\u00f3logo pesquisava o papel de um derivado da vitamina A, o \u00e1cido retinoico, no desenvolvimento embrion\u00e1rio. Essa subst\u00e2ncia indica \u00e0s c\u00e9lulas de um embri\u00e3o o que t\u00eam que fazer para se transformar num corpo adulto. O \u00e1cido retinoico ativa os genes necess\u00e1rios, por exemplo, para formar as extremidades, o cora\u00e7\u00e3o, os olhos e as orelhas dos animais. Ca\u00f1estro estudava esse processo no <em>Oikopleura<\/em>. E ficou de boca aberta.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><a class=\"enlace\" title=\"ampliar foto\"> <img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"Uma f\u00eamea de 'Oikopleura dioica' cheia de ovos.\" src=\"http:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2016\/06\/13\/ciencia\/1465783505_295391_1465785861_sumario_normal.jpg\" srcset=\"      http:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2016\/06\/13\/ciencia\/1465783505_295391_1465785861_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w,   http:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2016\/06\/13\/ciencia\/1465783505_295391_1465785861_sumario_normal_recorte2.jpg 720w  , http:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2016\/06\/13\/ciencia\/1465783505_295391_1465785861_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Uma f\u00eamea de 'Oikopleura dioica' cheia de ovos.\" width=\"640\" height=\"345\" \/> <span class=\"boton_ampliar\">ampliar foto<\/span> <\/a><figcaption class=\"foto-pie\">Uma f\u00eamea de &#8216;Oikopleura dioica&#8217; cheia de ovos. <span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">Ca\u00f1estro &amp; Albalat Lab<\/span> <\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\">\u201cOs animais utilizam uma grande quantidade de genes para sintetizar o \u00e1cido retinoico. Percebi que no <em>Oikopleura dioica<\/em> faltava um desses genes. Depois vi que faltavam outros. N\u00e3o encontramos nenhum\u201d, recorda. Esse animal de tr\u00eas mil\u00edmetros fabrica seu cora\u00e7\u00e3o, de maneira inexplic\u00e1vel, sem \u00e1cido retinoico. \u201cSe voc\u00ea v\u00ea um carro se mover sem rodas, nesse dia sua percep\u00e7\u00e3o sobre as rodas muda\u201d, diz Ca\u00f1estro.<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p class=\"sumario__interior\">O \u00faltimo ancestral comum entre n\u00f3s e esse min\u00fasculo habitante do oceano viveu h\u00e1 cerca de 500 milh\u00f5es de anos. Desde ent\u00e3o, o <em>Oikopleura<\/em> perdeu 30% dos genes que nos uniam. E fez isso com sucesso. Se voc\u00ea entrar em qualquer praia do mundo, ali estar\u00e1 ele rodeando o seu corpo. Na batalha da sele\u00e7\u00e3o natural, os <em>Oikopleura<\/em> ganharam. Sua densidade atinge 20.000 indiv\u00edduos por metro c\u00fabico de \u00e1gua em alguns ecossistemas marinhos. S\u00e3o perdedores, mas s\u00f3 de genes.<\/p>\n<p>Albalat e Ca\u00f1estro acabam de publicar na revista especializada <em>Nature Reviews Genetics<\/em> um artigo que analisa a perda de genes como motor da evolu\u00e7\u00e3o. Seu texto despertou interesse mundial. Foi recomendado pela <a href=\"http:\/\/f1000.com\/prime\/about\/whatis\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=http:\/\/f1000.com\/prime\/about\/whatis&amp;source=gmail&amp;ust=1465920352320000&amp;usg=AFQjCNFLKcU3Y2Dv96ExsJ9N4x-MBRLCXQ\">F1000Prime<\/a>, uma publica\u00e7\u00e3o internacional que aponta os melhores artigos sobre biologia e medicina. O trabalho come\u00e7a com uma frase do imperador romano Marco Aurelio, fil\u00f3sofo estoico: \u201cA perda nada mais \u00e9 do que mudan\u00e7a, e a mudan\u00e7a \u00e9 um prazer da natureza\u201d.<\/p>\n<p>Os dois bi\u00f3logos afirmam que a perda de genes pode inclusive ter sido essencial para a origem da esp\u00e9cie humana. \u201cO chimpanz\u00e9 e o ser humano compartilham mais de 98% do seu genoma. Talvez tenhamos que procurar as diferen\u00e7as nos genes que foram perdidos de maneira diferente durante a evolu\u00e7\u00e3o dos humanos e dos demais primatas. Alguns estudos sugerem que a perda de um gene fez com que a musculatura de nossa mand\u00edbula ficasse menor, o que permitiu aumentar o volume do nosso cr\u00e2nio\u201d, diz Albalat. Talvez, perder genes nos tornou mais inteligentes que o resto dos mortais.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_4\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><a class=\"enlace\" title=\"ampliar foto\"> <img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"Pesquisadores do laborat\u00f3rio de Cristian Ca\u00f1estro e Ricard Albalat.\" src=\"http:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2016\/06\/13\/ciencia\/1465783505_295391_1465786276_sumario_normal.jpg\" srcset=\"      http:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2016\/06\/13\/ciencia\/1465783505_295391_1465786276_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w,   http:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2016\/06\/13\/ciencia\/1465783505_295391_1465786276_sumario_normal_recorte2.jpg 720w  , http:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2016\/06\/13\/ciencia\/1465783505_295391_1465786276_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Pesquisadores do laborat\u00f3rio de Cristian Ca\u00f1estro e Ricard Albalat.\" width=\"640\" height=\"425\" \/> <span class=\"boton_ampliar\">ampliar foto<\/span> <\/a><figcaption class=\"foto-pie\">Pesquisadores do laborat\u00f3rio de Cristian Ca\u00f1estro e Ricard Albalat. <span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">UB<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Em 2012, um estudo do geneticista norte-americano <a href=\"https:\/\/macarthurlab.org\/people\/\" target=\"_blank\">Daniel MacArthur<\/a> mostrou que, em m\u00e9dia, qualquer pessoa saud\u00e1vel tem <a href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC3299548\/\" target=\"_blank\">20 genes desativados<\/a>. E isso aparentemente n\u00e3o importa. Albalat e Ca\u00f1estro, do Instituto de Pesquisa da Biodiversidade (<a href=\"http:\/\/www.ub.edu\/irbio\/ESindex.php\" target=\"_blank\">IRBio<\/a>) da Universidade de Barcelona, citam dois exemplos muito estudados. Em algumas pessoas, os genes que codificam as prote\u00ednas <a href=\"http:\/\/politica.elpais.com\/politica\/2015\/10\/22\/actualidad\/1445516001_770969.html\" target=\"_blank\">CCR5<\/a> e DUFFY foram anulados por muta\u00e7\u00f5es. S\u00e3o as prote\u00ednas usadas, respectivamente, pelo v\u00edrus HIV e o parasita causador da mal\u00e1ria para entrar nas c\u00e9lulas. A perda desses genes torna os humanos resistentes a essas doen\u00e7as.<\/p>\n<p>No laborat\u00f3rio de Ca\u00f1estro e Albalat, h\u00e1 um cartaz que imita o do filme <em>C\u00e3es de Aluguel<\/em> (\u201cReservoir Dogs\u201d, em ingl\u00eas)<em>,<\/em> de Quentin Tarantino: os cientistas e outros membros de sua equipe aparecem vestidos com camisa branca e gravata preta. A montagem se chama <a href=\"http:\/\/evodevogenomics-unibarcelona.weebly.com\/lab-pictures.html\" target=\"_blank\"><em>Reservoir Oiks<\/em><\/a>, em alus\u00e3o ao <em>Oikopleura<\/em>. Os dois bi\u00f3logos acreditam que o organismo marinho permitir\u00e1 formular e responder perguntas novas sobre nosso manual de instru\u00e7\u00f5es comum: o genoma.<\/p>\n<p>O c\u00e9rebro do <em>Oikopleura<\/em> tem cerca de 100 neur\u00f4nios e o dos humanos, 86 bilh\u00f5es. Mas somos muito mais semelhantes do que \u00e0 primeira vista. Entre 60% e 80% das fam\u00edlias de genes humanos t\u00eam um claro representante no genoma do <em>Oikopleura.<\/em> \u201cEsse animal nos permite estudar quais genes humanos s\u00e3o essenciais\u201d, diz Albalat. Em outras palavras: por que algumas muta\u00e7\u00f5es s\u00e3o irrelevantes e outras provocam efeitos terr\u00edveis em nossa sa\u00fade.<\/p>\n<p>Os seres vivos possuem um sistema celular que repara as muta\u00e7\u00f5es surgidas no DNA. O <em>Oikopleura<\/em> <em>doica<\/em> perdeu 16 dos 83 genes ancestrais que regulam esse processo. Essa incapacidade para a autorrepara\u00e7\u00e3o poderia explicar sua perda extrema de genes, segundo o artigo da <em>Nature Reviews Genetics<\/em>.<\/p>\n<p>O olhar de Ca\u00f1estro se ilumina quando ele fala dessas aus\u00eancias. Os genes costumam atuar em grupo para levar a cabo uma fun\u00e7\u00e3o. Se de um grupo conhecido de oito genes faltam sete no <em>Oikopleura<\/em>, pois a fun\u00e7\u00e3o foi perdida, a perman\u00eancia do oitavo gene pode revelar uma segunda fun\u00e7\u00e3o essencial que teria passado despercebida. Esse gene seria como um cruzamento de estradas. Desmantelada uma rodovia, ele sobrevive porque \u00e9 fundamental em outra. \u201cEssa segunda fun\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava no ancestral comum e pode ser importante nos humanos\u201d, diz Ca\u00f1estro.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o existem animais superiores ou inferiores. Nossas pe\u00e7as de Lego s\u00e3o basicamente as mesmas, embora com elas possamos construir coisas diferentes\u201d, afirma. Pense no seu lugar no mundo da pr\u00f3xima vez que mergulhar no mar. Essa neve branca que flutua na \u00e1gua e pode ser vista contra a luz s\u00e3o os excrementos do <em>Oikopleura<\/em>.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cS\u00f3 o acaso pode ser interpretado como uma mensagem. 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