{"id":42013,"date":"2016-05-15T09:17:01","date_gmt":"2016-05-15T12:17:01","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=42013"},"modified":"2016-05-15T09:17:01","modified_gmt":"2016-05-15T12:17:01","slug":"desastre-ambiental-no-pantanal-de-ms-afeta-curso-de-rio-e-vida-de-moradores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/desastre-ambiental-no-pantanal-de-ms-afeta-curso-de-rio-e-vida-de-moradores\/","title":{"rendered":"Desastre ambiental no Pantanal de MS afeta curso de rio e vida de moradores"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/rio_taquari.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-42014\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/rio_taquari-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/rio_taquari-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/rio_taquari.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>O Pantanal de MS sofre as consequ\u00eancias de um desastre ambiental. Com o assoriamento, um dos principais rios da regi\u00e3o, o Taquari, rompe suas margens e deixa milhares de hectares de terra permanentemente debaixo d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o acontece o ir e vir das \u00e1guas, a enchente e as secas, essenciais para manter a vida no Pantanal. E as consequ\u00eancias s\u00e3o enormes.<\/p>\n<p>Na fazenda Santa Gertrudes, em Corumb\u00e1-MS, no meio do Pantanal, 4 mil cabe\u00e7as de gado est\u00e3o em 5 mil hectares de terra. Mas 80% da \u00e1rea est\u00e1 alagada. e o rebanho precisa ser retirado com urg\u00eancia. S\u00e3o 3 dias s\u00f3 pra retirar da parte inundada.<\/p>\n<p>Essa retirada do gado \u00e9 uma pr\u00e1tica bem comum no Pantanal, mas s\u00f3 no per\u00edodo das chuvas, quando grande parte da \u00e1rea fica alagada. Mas n\u00e3o \u00e9 o que est\u00e1 acontecendo. Estamos numa \u00e9poca de seca e a fazenda est\u00e1 debaixo d\u2019agua.<\/p>\n<p>O criador Luciano de Barros aproveita o tempo seco para engordar os animais. Mas assim, com tanta \u00e1gua, n\u00e3o tem pastagem que resista. \u201cS\u00e3o as melhores \u00e1reas de pastagem na \u00e9poca da seca. Nesta \u00e9poca \u00e9 auge de seca e n\u00f3s estamos com isso aqui tudo cheio d\u2019agua\u201d.\u00a0Ele conta que o risco \u00e9 o gado morrer de fome, sem ter o que comer.<\/p>\n<p>Essa \u00e1gua toda \u00e9 do rio Taquari. Ele tem 800km de extens\u00e3o: come\u00e7a no estado do MT, percorre todo o MS, at\u00e9 chegar ao rio Paraguai. O que est\u00e1 acontecendo \u00e9 que, no Pantanal, as margens do rio se rompem e formam novos leitos. \u00c9 o que os pantaneiros chamam de arrombamentos. As \u00e1reas ficam permanentemente alagadas.\u00a0At\u00e9 mesmo uma fazenda que fica 25km distante do rio, foi atingida pelos leitos do arrombamento.<\/p>\n<p>Os problemas que o Taquari sofre no Pantanal s\u00e3o uma consequ\u00eancia do que acontece desde a sua nascente, no munic\u00edpio de Alto Taquari-MT.<\/p>\n<p>Ali, onde o rio nasce, em uma grande \u00e1rea de v\u00e1rzea est\u00e3o varias vertentes \u2013 pequenas nascentes que v\u00e3o fomar o rio. E j\u00e1 no seu come\u00e7o, o Taquari sofre suas primeiras press\u00f5es: Uma ferrovia passa sobre essas pequenas nascentes; em todo o entorno, h\u00e1 planta\u00e7\u00f5es; e o canal por onde a \u00e1gua das vertentes corre, vai em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1rea urbana do munic\u00edpio, a apenas 3 km de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O gestor ambiental Nilo Pe\u00e7anha coordena um cons\u00f3rcio de munic\u00edpios que trabalha pela recupera\u00e7\u00e3o do rio e alerta para os perigos na nascente: \u201cj\u00e1 aqui em cima, a quest\u00e3o das planta\u00e7\u00f5es, a aplica\u00e7\u00e3o de defensivos agr\u00edcolas, \u00e0s vezes excessivo. E a questao da ferrovia, que corta a pr\u00f3pria nascente.\u201d<\/p>\n<p>Na divisa de MT e MS est\u00e1 o Parque das Nascentes da Bacia do Taquari, uma \u00e1rea de conserva\u00e7\u00e3o. Os afluentes que descem os canions se encontram com o rio Taquari que passa ao norte do Parque. Nessa \u00e1rea, o Taquari cai de uma altituide de 800 metros para 360 metros acima do n\u00edvel do mar. Essa queda brusca facorece o poder de eros\u00e3o, caracter\u00edstica natural do Taquari. Um processo que foi acelerado nas \u00faltimas d\u00e9cadas, principlamente pela ocupa\u00e7\u00e3o do solo pela pecu\u00e1ria, como explica Pe\u00e7anha: \u201co que o rio demoraria 100, 500 anos pra fazer, de repente passa a fazer em poucas d\u00e9cadas. O gado, no processo de descer para beber \u00e1gua no fundo do vale, ele cria aquelas trilhas, isso acaba canalizando a \u00e1gua da chuva, e come\u00e7a um processo de eros\u00e3o; at\u00e9 criar vo\u00e7orocas e at\u00e9 desestabilizar e atingir as nascentes\u201d.<\/p>\n<p>Algumas vo\u00e7orocas s\u00e3o gigantes, e est\u00e3o at\u00e9 mesmo nas redondezas do Parque das Nascentes.\u00a0Em Alcin\u00f3polis-MS, o t\u00e9cnico agropecu\u00e1rio Edilson Gomes trabalha na recupera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas degradadas. Uma dessas \u00e1reas tem uma vo\u00e7oroca de 1 km de extens\u00e3o, que chega a 80 metros de profundidade, em alguns pontos. \u201cFizemos as curvas de n\u00edvel para evitar que a \u00e1gua dos pastos viessem para a vo\u00e7oroca. E a adequa\u00e7\u00e3o da estrada, porque era um canal que levava a \u00e1gua para a vo\u00e7oroca.\u201d, conta Edilson.<\/p>\n<p>Pe\u00e7anha explica o que ocorre com o rio quando passa pelo munic\u00edpio de Coxim, onde ele recebe as \u00e1guas do seu maior afluente, o rio Coxim: &#8220;Desse trecho de Coxim, at\u00e9 150km adentrando o pantanal, \u00e9 o que n\u00f3s chamamos de m\u00e9dio Taquari. \u00c9 a parte onde ele deposita a maior quantidade de sedimentos.\u00a0Porque ele entra na plan\u00edcie, perde um pouco de declividade e de energia de transporte. Ent\u00e3o esse material j\u00e1 come\u00e7a a depositar no leito do rio.\u201d<\/p>\n<p>O Taquari desce com tantos sedimentos, que uma caracter\u00edstica dele fica ainda mais forte: \u00e9 um rio de cumieira, como explica o bi\u00f3logo Carlos Padovani:\u00a0 \u201cem geral, quande parte dos rios est\u00e3o no fundo de um vale. O Taquari est\u00e1 numa cumieira, est\u00e1 na por\u00e7\u00e3o mais alta da plan\u00edcie. Ent\u00e3o, nesta situa\u00e7\u00e3o, ele tende realmente a extravasar nos ponto mais vulner\u00e1veis.\u201d<\/p>\n<p>Um dos maiores canais que se abriram foi o arrombamento do Caronal na regi\u00e3o conhecida como Paiagu\u00e1s. Caronal \u00e9 uma refer\u00eancia ao nome da primeira fazenda invadida pela \u00e1gua. L\u00e1, a \u00e1gua do arrombamento que tomou conta n\u00e3o somente a fazenda Caronal, mas v\u00e1rias outras propriedades, se espalha pelos campos.<\/p>\n<p>A equipe de reportagem adentrou de barco a \u00e1rea do Caronal. At\u00e9 mesmo as pequenas embarca\u00e7\u00f5es t\u00eam difciculdade para passar pelos bancos de areia e pelo caminho tomado de vegeta\u00e7\u00e3o aqu\u00e1tica. Enquanto estas florescem, a vegeta\u00e7\u00e3o terrestre n\u00e3o aguenta tanta \u00e1gua e morre. \u201cAqui mesmo esse p\u00e9 de Ip\u00ea, \u00e9 centen\u00e1rio. E morreu tudo com a \u00e1gua&#8230; umedeceu, eles j\u00e1 morre tudo\u201d diz o Sr.\u00a0Ram\u00e3o Duarte, barqueiro que conhece bem a regi\u00e3o do Caronal. \u201cEu fico triste porque eu conheci isso aqui quando era tudo seco, eu vinha de carro de Corumb\u00e1 at\u00e9 aqui.&#8221;<\/p>\n<p>O mato alto e o terreno encharcado impossibilita a equipe de chegar mais perto da sede. Mas de cima, \u00e9 poss\u00edvel ver a casa da fazenda, abandonada.<\/p>\n<p>70 km distante do Caronal, est\u00e1 a casa do Sr Cacildo Androlage, dono de uma das \u00fanicas fazendas que ainda n\u00e3o foram tomadas pela \u00e1gua. Mas durante o ano inteiro, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel chegar de at\u00e9 l\u00e1 de barco.<\/p>\n<p>Aos 87 anos, ele resiste em deixar a fazenda. Vive ilhado, mesmo em per\u00edodos sem chuva.<br \/>\nA luta do filho, Cl\u00e9vis, \u00e9 para tirar o pai de l\u00e1. Ele, a m\u00e3e e os 7 irm\u00e3os se mudaram. \u201cN\u00f3s deixamos aqui s\u00f3 algumas cabel\u00e7as de gado. Que \u00e9 pro pai distrair com ele, entendeu? N\u00f3s conseguimos tirar tudo, menos o pai&#8221;.<\/p>\n<p>O Sr. Cacildo guarda boas lembran\u00e7as do lugar, que n\u00e3o pretende abandonar: \u201cCriava o gado manso, o gado de leite&#8230; era bonito aqui&#8221;.<\/p>\n<p>E, apesar de admitir ter medo que a \u00e1gua entre na casa, ele \u00e9 firme em sua decis\u00e3o: \u201ceu j\u00e1 acostumei aqui. Tem amor no lugar, vizinhos muito bons. E pra mim, que j\u00e1 trabalhei tanto, forcejei a minha vida&#8230; pra sair sem nada&#8230; t\u00e1 certo ou errado?\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Pantanal de MS sofre as consequ\u00eancias de um desastre ambiental. 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