{"id":41995,"date":"2016-05-14T21:53:00","date_gmt":"2016-05-15T00:53:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=41995"},"modified":"2016-05-14T21:53:00","modified_gmt":"2016-05-15T00:53:00","slug":"por-uma-ciencia-convivial-a-importancia-da-agroecologia-uma-alternativa-a-agricultura-convencional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/por-uma-ciencia-convivial-a-importancia-da-agroecologia-uma-alternativa-a-agricultura-convencional\/","title":{"rendered":"Por uma \u201cCi\u00eancia Convivial\u201d. A import\u00e2ncia da agroecologia, uma alternativa \u00e0 agricultura convencional"},"content":{"rendered":"<div class=\"headline\">\n<div class=\"headline_info\">\n<h2 class=\"contentheading\">Entrevista especial com Ulrich Loening<\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"texto-aumenta\">\n<div class=\"article_text\">\n<p><strong>&#8220;Uma planta que cresce em seu ambiente natural com uma alimenta\u00e7\u00e3o equilibrada \u00e9 resistente a pragas e doen\u00e7as, porque os organismos causadores de doen\u00e7as n\u00e3o ter\u00e3o facilidade em obter os nutrientes de que precisam. Essa \u00e9 a base da <strong>trofobiose<\/strong>&#8220;, afirma o bioqu\u00edmico.<\/strong><\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/-HPuQjm82PE0\/T4t5thw50GI\/AAAAAAAAAPQ\/W5avCJu0NUs\/s1600\/agroecologia.jpg\" width=\"300\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><em>Imagem:\u00a0projideias.blogspot.com<\/p>\n<p><\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Para o professor doutor em Bioqu\u00edmica <strong>Ulrich Loening<\/strong>, desde que o ser humano vislumbrou a necessidade de grandes produ\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas, a Terra come\u00e7ou a ser alterada. \u201cDesde as primeiras <strong>revolu\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas<\/strong> de 10 mil anos atr\u00e1s, a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/29348-lavouras-de-destruicao-entrevista-especial-com-althen-teixeira-filho\" target=\"_blank\"><strong>agricultura<\/strong><\/a> tem perturbado ecologias locais, e agora com intensidade ainda maior\u201d, pontua. Por isso, defende a necessidade de se romper essa l\u00f3gica, estimulando formas de produ\u00e7\u00f5es que respeitem as mais diversas ecologias do planeta. \u00c9 o que o professor enfatiza ao destacar, por exemplo, que \u201cm\u00e9todos de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/539755-agrotoxicos-perspectivas-de-uma-desregulamentacao-na-legislacao-sao-enormes-entrevista-especial-com-fernando-carneiro-\" target=\"_blank\"><strong>agroecologia<\/strong><\/a> visando manter o h\u00famus e os organismos do solo constituem a caracter\u00edstica crucial da abordagem proposta\u201d. Ou seja, uma nova rela\u00e7\u00e3o com a terra, com a produ\u00e7\u00e3o.Entretanto, na entrevista a seguir, concedida por e-mail \u00e0 <strong>IHU On-Line<\/strong>, <strong>Loening<\/strong> problematiza esse rompimento de paradigma, que vai al\u00e9m da introdu\u00e7\u00e3o de outras <strong>t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola<\/strong>. Para ele, a quest\u00e3o de fundo a ser atacada \u00e9 cultural. \u201cPassa a ser uma <strong>mudan\u00e7a na cultura social<\/strong>, um modo de vida que procura n\u00e3o subjugar a natureza\u201d, explica. Parece simples, mas essa sua abordagem muda a perspectiva que se tem hoje com rela\u00e7\u00e3o, por exemplo, \u00e0 ci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cA ci\u00eancia aplicada sobre a qual nossa civiliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 constru\u00edda, tem ra\u00edzes culturais profundas. Agora, para resolver como, onde e se os humanos poder\u00e3o viver na <strong><a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=6050&amp;secao=469\" target=\"_blank\">Terra<\/a><\/strong>, \u00e9 necess\u00e1ria uma atitude cient\u00edfica nova e culturalmente diferente\u201d, defende. Assim, chega \u00e0 sua formula\u00e7\u00e3o de \u201cuma ci\u00eancia que cria <strong>tecnologias ecologicamente apropriadas<\/strong>, que promove a rela\u00e7\u00e3o de conv\u00edvio da sociedade com a natureza, que pode ajudar a superar a antipatia de muitas pessoas contra a ci\u00eancia e, acima de tudo, que pode criar uma rela\u00e7\u00e3o mais convivial entre os seres humanos e a natureza\u201d. \u00c9 a sua \u201c<strong>Ci\u00eancia Convivial<\/strong>\u201d como nova forma de apreender as ecologias do planeta.<\/p>\n<p><strong>Ulrich Loening<\/strong> \u00e9 membro do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o do Centro de Ecologia Humana (Centre for Human Ecology), em Edimburgo, na Esc\u00f3cia. Em 1984, presidiu a entidade e se aposentou em 1995. \u00c9 doutor em Bioqu\u00edmica pela Universidade de Oxford, na Inglaterra. Dedicou-se ao ensino e pesquisa sobre a s\u00edntese de prote\u00ednas e \u00e1cidos nucleicos, nos Departamentos de Bot\u00e2nica e Zoologia, na Universidade de Edimburgo at\u00e9 o final da d\u00e9cada de 80.<\/p>\n<p>Ele desenvolveu v\u00e1rios m\u00e9todos de eletroforese para an\u00e1lise de RNA (em Biologia, o \u00e1cido ribonucleico &#8211; sigla em portugu\u00eas: ARN e em ingl\u00eas, RNA, ribonucleic acid &#8211; \u00e9 o respons\u00e1vel pela s\u00edntese de prote\u00ednas da c\u00e9lula) e seu processamento e transporte para o citoplasma e confirmou a ideia emergente que cloroplastos de plantas evolu\u00edram a partir de simbiose com algas verde-azuladas &#8211; engenharia gen\u00e9tica natural. Se diz um interessado por hist\u00f3ria natural, jardinagem e agricultura desde crian\u00e7a. Por isso, acredita que se envolveu com estudos e pesquisas sobre impactos ecol\u00f3gicos da sociedade.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/www.che.ac.uk\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/Ulcabb4.jpg\" width=\"220\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><em>Foto:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.che.ac.uk\/\">http:\/\/www.che.ac.uk\/<\/p>\n<p><\/a><\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong> IHU On-Line &#8211; No que consiste o conceito de agroecologia? O que revela enquanto modo de vida, para al\u00e9m de sistema ou t\u00e9cnica de produ\u00e7\u00e3o no campo?<\/strong><strong>Ulrich Loening &#8211;<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/539245-agroecologia-a-bola-da-vez\" target=\"_blank\"><strong>Agroecologia<\/strong><\/a> \u00e9 a filosofia e a pr\u00e1tica da agricultura que leva em conta a forma como a granja ou fazenda se encaixa na ecologia da regi\u00e3o. Em contraste com a <strong>agricultura convencional<\/strong>, que tem, na pr\u00e1tica, ignorado ou atalhado processos naturais, a agroecologia tenta aproveitar processos naturais para produzir alimentos para os seres humanos. Ela enverga o ecossistema local em favor dos seres humanos, por\u00e9m n\u00e3o muito. Por isso, passa a ser uma mudan\u00e7a na cultura social, um modo de vida que procura n\u00e3o subjugar a natureza.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como compreender a rela\u00e7\u00e3o entre o solo e a produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica? De que forma \u00e9 poss\u00edvel tratar o solo enquanto organismo vivo, preservando as in\u00fameras formas de vida que nele existem e desenvolver a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ulrich Loening &#8211;<\/strong> Quase se poderia inverter essa pergunta: como conseguir\u00e1 persistir a <strong>agricultura convencional<\/strong> com grande utiliza\u00e7\u00e3o de fertilizantes e <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/554285-brasil-lider-mundial-no-uso-de-agrotoxicos\" target=\"_blank\">pesticidas<\/a>, tendo em vista que ela tem causado perda cont\u00ednua de solos e fertilidade? J\u00e1 desde as primeiras revolu\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas de 10 mil anos atr\u00e1s, a agricultura tem perturbado ecologias locais, e agora com intensidade ainda maior. M\u00e9todos de <strong>agroecologia<\/strong> visando manter o h\u00famus e os organismos do solo constituem a caracter\u00edstica crucial da abordagem proposta.<\/p>\n<p><strong>Mudan\u00e7a na estrutura econ\u00f4mica<\/strong><\/p>\n<p>A <strong>produ\u00e7\u00e3o<\/strong> seria mais sustent\u00e1vel desenvolvendo m\u00e9todos de <strong>agroecologia<\/strong>, mas \u00e9 preciso reconhecer que, no frigir dos ovos, mesmo com essa mudan\u00e7a de matriz produtiva, talvez n\u00e3o seja poss\u00edvel alimentar a popula\u00e7\u00e3o humana, que vem crescendo muito. J\u00e1 agora, a <strong>demanda por alimento<\/strong> no mundo \u00e9 muito maior do que a agricultura convencional consegue atender. Ainda n\u00e3o estamos em estado de crise, j\u00e1 que alimento suficiente vem sendo produzido para alimentar todos, e muitos mais. O problema no momento \u00e9 a distribui\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria e a pobreza. Isso exige primeiro uma mudan\u00e7a nas estruturas econ\u00f4micas, e essa mudan\u00e7a por si mesma j\u00e1 poderia incentivar a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/540031-uma-agricultura-sustentavel-para-alimentar-o-planeta-artigo-de-matteo-giannatasio\" target=\"_blank\"><strong>agricultura<\/strong><\/a> mais sustent\u00e1vel e ecologicamente sadia.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; De que forma \u00e9 poss\u00edvel fazer controle de pragas, desde insetos at\u00e9 ervas daninhas, e produzir alimentos saud\u00e1veis apenas trabalhando o manejo do solo? \u00c9 nisso que se apoia a Teoria da Trofobiose? Que outras perspectivas a Teoria abre?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ulrich Loening &#8211;<\/strong> Uma planta que cresce em seu ambiente natural com uma alimenta\u00e7\u00e3o equilibrada \u00e9 resistente a pragas e doen\u00e7as, porque os organismos causadores de doen\u00e7as n\u00e3o ter\u00e3o facilidade em obter os nutrientes de que precisam. Essa \u00e9 a base da <strong>trofobiose<\/strong>, termo inventado por <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=2606&amp;secao=296\" target=\"_blank\"><strong>Chaboussou<\/strong> <\/a>[1] em seu livro de 1985 [2]. Mas a agricultura de acordo com a <strong>trofobiose<\/strong> n\u00e3o consegue inibir as ervas daninhas. Afinal de contas, ervas daninhas s\u00e3o apenas aquelas plantas que n\u00f3s, incidentalmente, n\u00e3o desejamos, e a natureza n\u00e3o pode distinguir o que n\u00f3s casualmente queremos colher. A interpreta\u00e7\u00e3o da <strong>trofobiose<\/strong> destaca o quanto nossos m\u00e9todos agr\u00edcolas convencionais, pelo menos desde meados do s\u00e9culo 19, se baseiam em insumos qu\u00edmicos que substituem as formas como as plantas se nutrem.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Em que medida a compreens\u00e3o das formas de vida contidas no solo (visto como um espa\u00e7o micro de todo o planeta) pode contribuir com o entendimento mais amplo da biologia humana?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ulrich Loening &#8211;<\/strong> Ap\u00f3s dois s\u00e9culos em que come\u00e7amos a compreender a <strong>ci\u00eancia da agricultura<\/strong>, s\u00f3 recentemente \u00e9 que se est\u00e1 come\u00e7ando a reconhecer o significado da enorme diversidade da vida no solo. Esta nova compreens\u00e3o come\u00e7ou com a descoberta das micorrizas na d\u00e9cada de 1880, fungos que crescem em torno ou dentro de ra\u00edzes de plantas e liberam nutrientes minerais para a planta, a qual, em troca, fornece alimento para os fungos.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o maior <strong>sistema simbi\u00f3tico<\/strong> do mundo e \u00e9 prov\u00e1vel que a vida vegetal na terra n\u00e3o poderia ter evolu\u00eddo sem ele. Agora percebemos que milh\u00f5es de micro-organismos do solo, desconhecidos em sua maioria, tamb\u00e9m ajudam as plantas a crescer de forma saud\u00e1vel. Esse diversificado ecossistema do solo, que tem sido comparado \u00e0s complexidades de uma floresta tropical, tamb\u00e9m afeta diretamente a sa\u00fade humana. De modo semelhante, nosso sistema gastrointestinal tamb\u00e9m cont\u00e9m um vasto &#8220;bioma&#8221;, consideravelmente influenciado de fora.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais os desafios para se romper com uma forma de rela\u00e7\u00e3o mercantil entre o ser humano e a terra, que se materializa da agricultura baseada no modelo de agroneg\u00f3cio, e propor uma rela\u00e7\u00e3o mais ecologicamente integral, valorizando as pequenas propriedades e produ\u00e7\u00e3o mais limpa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ulrich Loening &#8211;<\/strong> Assim que algo \u00e9 bem-sucedido, tende a fixar-se e continuar com seu pr\u00f3prio sucesso. At\u00e9 mesmo o avan\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o exige que formas exitosas de vida sejam passadas de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Apenas quando o sucesso ultrapassa seus limites num pequeno planeta, surgem problemas. \u00c9 dif\u00edcil alterar a maneira como pensamos, uma vez instalados o mito de <strong>Prometeu<\/strong> [3] de obter o fogo (poder) do c\u00e9u e a atitude baconiana [4] que lan\u00e7ou a ci\u00eancia ocidental (&#8220;conhecimento \u00e9 poder&#8221;). Surge a necessidade de <strong>mudan\u00e7a<\/strong> em dire\u00e7\u00e3o a uma<strong> rela\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica<\/strong>. Eu vejo isso como desafio fundamental por excel\u00eancia.<\/p>\n<p>Em n\u00edvel mais pr\u00e1tico, as <strong><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/531968-agricultura-familiar-e-protagonista-na-producao-de-alimentos-saudaveis\" target=\"_blank\">pequenas propriedades<\/a><\/strong> (&#8220;small is beautiful&#8221; \u2013 o pequeno \u00e9 lindo) s\u00e3o parte da resposta e, atualmente, continuam sendo as que produzem a maioria dos alimentos que realmente chegam \u00e0 mesa. Mas as pequenas propriedades tamb\u00e9m precisam ficar intimamente conectadas com sua situa\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, em vez de combat\u00ea-la. Elas precisam basear-se em ciclagem de materiais, com estreitos la\u00e7os dos seres humanos com a granja, que permitem o cultivo &#8220;dedo verde&#8221;. O\/A agricultor\/a, suas ferramentas e m\u00e9todos, e o entorno, todos s\u00e3o parte do ecossistema local. Uma rela\u00e7\u00e3o comercial de grande porte n\u00e3o consegue fazer justi\u00e7a a esse fato, e assim torna-se insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Qual o papel dos governos no est\u00edmulo \u00e0 agroecologia? Como avalia o desempenho de organiza\u00e7\u00f5es civis, como cooperativas, da promo\u00e7\u00e3o desse estilo de vida e produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ulrich Loening &#8211;<\/strong> Pol\u00edticos em geral n\u00e3o entendem de <strong>ecologia humana<\/strong>, talvez nem o consigam. Eles operam baseados no princ\u00edpio de que sistemas financeiros eficazes no curto prazo conseguem satisfazer nossos desejos, e partem do princ\u00edpio de que se algo parece bom, ent\u00e3o mais do mesmo deve ser melhor. Mas nosso mundo, superlotado desse princ\u00edpio, perde sua validade, empresas gigantescas do agroneg\u00f3cio rompem as liga\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas e sociais que as pequenas propriedades produtivas podem ter.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica da maioria dos governos e federa\u00e7\u00f5es, como os <strong>Estados Unidos<\/strong> e a <strong>Uni\u00e3o Europeia<\/strong>, tem sido a de incentivar positivamente grandes fazendas, grandes empresas de suprimentos e cadeias alimentares mais longas e mais complexas. Tais pol\u00edticas s\u00f3 podem levar a um distanciamento maior em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s realidades ecol\u00f3gicas. Isso, por sua vez, faz com que empresas, mais do que os governos, governem o mundo e determinem as pol\u00edticas a serem seguidas. Vemos isso agora nas <strong>negocia\u00e7\u00f5es<\/strong> (a portas fechadas) para o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/539019-ttip-tirem-as-maos-da-comida\" target=\"_blank\"><strong>TTIP<\/strong><\/a> [5], <strong>acordo de com\u00e9rcio internacional<\/strong> proposto entre a Uni\u00e3o Europeia e os Estados Unidos, que amea\u00e7a incentivar grandes corpora\u00e7\u00f5es no sentido de controlar as pol\u00edticas nacionais distantes.<\/p>\n<p>Os governos t\u00eam, claramente, um papel primordial de impedir isso, assim como eles normalmente n\u00e3o t\u00eam deixado que <strong>monop\u00f3lios<\/strong> interfiram no livre com\u00e9rcio. Provavelmente alguma forma de protecionismo \u00e9 necess\u00e1ria, que permita desenvolvimentos locais livres de interfer\u00eancia externa. Obviamente este argumento econ\u00f4mico tem implica\u00e7\u00f5es sociais diretas. A liberdade individual de escolha \u00e9 reprimida por grandes corpora\u00e7\u00f5es, assim como tem sido reprimida por ditaduras totalit\u00e1rias, em algumas partes do mundo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; A continuidade e crescimento da civiliza\u00e7\u00e3o pode ser compat\u00edvel com a sustentabilidade ecol\u00f3gica global? Como articular a ideia local de sustentabilidade com a causa global?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ulrich Loening &#8211;<\/strong> Esta foi a quest\u00e3o abordada e at\u00e9 certo ponto respondida pelo <strong>Relat\u00f3rio sobre os Limites do Crescimento<\/strong> elaborado para o <strong>Clube de Roma<\/strong> em 1972 [6]. A resposta \u00e9 que n\u00e3o, que se continuarmos business as usual, chegaremos a um impasse. \u00c0 medida que a civiliza\u00e7\u00e3o evolui, ela tamb\u00e9m precisa desenvolver-se no sentido de &#8220;adequar suas a\u00e7\u00f5es aos padr\u00f5es da natureza&#8221;, como indicou a <strong>Comiss\u00e3o Brundtland<\/strong> [7] em suas declara\u00e7\u00f5es de abertura em 1987. A pr\u00f3xima grande ideia social e cient\u00edfica trataria de tornar a civiliza\u00e7\u00e3o compat\u00edvel com as <strong>realidades planet\u00e1rias<\/strong> [8]. Resolver essa contradi\u00e7\u00e3o exige uma vis\u00e3o global com a\u00e7\u00e3o local, coisa dif\u00edcil de se conseguir, que em si precisa evitar o sofrimento causado pelas falhas das <strong>grandes corpora\u00e7\u00f5es<\/strong>. Mas agora podemos ver novas atitudes emergindo, com grande n\u00famero de pessoas da maioria dos pa\u00edses ansiando por melhorias.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais os impactos das diferentes civiliza\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas nas formas de vida do planeta? Como isso repercute na agricultura?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ulrich Loening &#8211;<\/strong> \u00c9 not\u00e1vel que a &#8220;ci\u00eancia&#8221; no sentido moderno surgiu na <strong>Europa<\/strong>, e n\u00e3o na <strong>China<\/strong>, apesar de sua antiga civiliza\u00e7\u00e3o, nem em pa\u00edses budistas, embora <strong>Buda<\/strong> [9] tenha aconselhado que &#8220;nada vem de m\u00e3o beijada&#8221;. Agora, esta atitude cient\u00edfica inicialmente europeia passou a permear o mundo inteiro. Talvez seja o momento de a Europa mais uma vez desencadear um novo Esclarecimento [ou Iluminismo] cultural\/cient\u00edfico. Diferentemente de outros tempos, pode-se procurar solu\u00e7\u00f5es e sabedoria entre povos menos aculturados, cuja cultura tenha sobrevivido em alguns lugares. O conceito de &#8220;<em><strong>The Way<\/strong><\/em>&#8221; [10] (livro de <strong>Edward Goldsmith<\/strong> [11]), visando desenvolvimento com <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/543758-o-nexo-entre-natureza-e-esfera-social-e-decisivo-na-laudato-si-entrevista-com-jean-marie-pelt\" target=\"_blank\"><strong>equidade social e ecol\u00f3gica<\/strong><\/a> de antigas ra\u00edzes, pode fornecer um ethos para uma nova s\u00edntese.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; No que consiste a ideia de \u201ctecnologia apropriada\u201d e qual sua rela\u00e7\u00e3o com as formas de vida integrais, como a agroecologia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ulrich Loening &#8211;<\/strong> Tecnologia apropriada muitas vezes tem sido confundida com a &#8220;tecnologia intermedi\u00e1ria&#8221; preconizada por <strong>Schumacher<\/strong> [12]. Eu considero apropriado aquilo que se ad\u00e9qua \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. Excelente exemplo s\u00e3o tecnologias que aproveitam energia do ambiente, que em \u00faltima an\u00e1lise emana do sol e continua emanando, quer a usemos ou n\u00e3o. Se cobrirmos nossas necessidades de energia a partir desse fluxo, ent\u00e3o \u00e9 apropriado. Da mesma forma, a <strong>agricultura<\/strong> que se encaixa nos ciclos da natureza (e n\u00e3o apenas nas esta\u00e7\u00f5es do ano, mas nos fluxos materiais e biol\u00f3gicos) conseguir\u00e1 atuar e funcionar de forma sustent\u00e1vel. Nossa oferta de alimentos deve vir dos fluxos de nutrientes e organismos ao longo do <strong>ecossistema<\/strong>, causando o m\u00ednimo poss\u00edvel de diferen\u00e7as, sejam usados ou n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Deseja acrescentar algo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ulrich Loening &#8211;<\/strong> Sim! Se somar tudo que argumentei acima, e outros estudos n\u00e3o inclu\u00eddos aqui, voc\u00ea s\u00f3 pode chegar a uma conclus\u00e3o: que a <strong>ci\u00eancia<\/strong> aplicada sobre a qual nossa civiliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 constru\u00edda tem ra\u00edzes culturais profundas. Agora, para resolver como, onde e se os humanos poder\u00e3o viver na Terra, \u00e9 necess\u00e1ria uma atitude cient\u00edfica nova e culturalmente diferente. Eu n\u00e3o quero dizer um m\u00e9todo cient\u00edfico novo ou diferente, porque \u00e9 autocriado pelo senso comum l\u00f3gico, mas uma nova abordagem sobre a forma de <strong>aplicar a ci\u00eancia<\/strong> e sobre sua motiva\u00e7\u00e3o. Eu gosto de promover um nome para esta nova ci\u00eancia: &#8220;<strong>Ci\u00eancia Convivial<\/strong>&#8220;. Deriva de \u201ccon-vivo\u201d, que significa &#8220;com vida&#8221; [sic]. <strong>Ci\u00eancia Convivial<\/strong> pode ser usada em muitos sentidos: \u00e9 uma ci\u00eancia que cria tecnologias ecologicamente apropriadas, que promove a rela\u00e7\u00e3o de conv\u00edvio da sociedade com a natureza, que pode ajudar a superar a antipatia de muitas pessoas contra a ci\u00eancia, e, acima de tudo, que pode criar uma <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/507383-em-busca-do-justo-equilibrio-entre-economia-e-natureza\" target=\"_blank\">rela\u00e7\u00e3o<\/a> mais convivial entre os seres humanos e a natureza.<\/p>\n<p><em>Por Jo\u00e3o Vitor Santos | Tradu\u00e7\u00e3o Walter O. Schlupp<\/em><\/p>\n<p>Fonte: <strong>IHU On-Line<\/strong><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista especial com Ulrich Loening &#8220;Uma planta que cresce em seu ambiente natural com uma<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Entrevista especial com Ulrich Loening &#8220;Uma planta que cresce em seu ambiente natural com uma","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41995"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41995"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41995\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41995"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41995"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41995"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}