{"id":40704,"date":"2016-04-24T14:00:47","date_gmt":"2016-04-24T17:00:47","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=40704"},"modified":"2016-04-23T17:50:57","modified_gmt":"2016-04-23T20:50:57","slug":"estudo-possibilita-conhecer-e-preservar-diversidade-genetica-da-seringueira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/estudo-possibilita-conhecer-e-preservar-diversidade-genetica-da-seringueira\/","title":{"rendered":"Estudo possibilita conhecer e preservar diversidade gen\u00e9tica da seringueira"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/seringueira.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-40705\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/seringueira-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/seringueira-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/seringueira.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>A diversidade gen\u00e9tica da seringueira (<i>Hevea brasiliensis<\/i>) \u2013 a \u00fanica esp\u00e9cie de planta cultivada para produ\u00e7\u00e3o comercial de borracha natural no mundo, nativa da floresta amaz\u00f4nica \u2013 poder\u00e1 ser finalmente conhecida e preservada.<\/p>\n<p>Um grupo de pesquisadores brasileiros, de diferentes universidades e institui\u00e7\u00f5es de pesquisa no pa\u00eds, em colabora\u00e7\u00e3o com colegas do Centre de Coop\u00e9ration Internationale en Recherche Agronomique pour le D\u00e9veloppement (Cirad), da Fran\u00e7a, descreveu a diversidade gen\u00e9tica da seringueira a partir da an\u00e1lise de mais de mil exemplares da planta dispon\u00edveis em bancos p\u00fablicos de germoplasma (patrim\u00f4nio gen\u00e9tico) na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, eles criaram uma cole\u00e7\u00e3o com quase 100 \u00e1rvores que representa toda a diversidade gen\u00e9tica dessa popula\u00e7\u00e3o da planta.<\/p>\n<p>Resultado de um <b><a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/56875\/avaliacao-da-variabilidade-alelica-estrutura-populacional-e-desequilibrio-de-ligacao-no-germoplasma\/\">projeto apoiado<\/a><\/b>\u00a0pela FAPESP, o estudo foi publicado na revista <i>PLoS One<\/i>.<\/p>\n<p>\u201cEssa cole\u00e7\u00e3o de quase 100 \u00e1rvores poder\u00e1 viabilizar programas de melhoramento gen\u00e9tico da seringueira n\u00e3o somente no Brasil, mas em qualquer outro lugar no mundo interessado em cultiv\u00e1-la, e proteger o germoplasma da planta\u201d, disse Anete Pereira de Souza, professora do Instituto de Biologia e pesquisadora do Centro de Biologia Molecular e Engenharia Gen\u00e9tica (CBMEG) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenadora do estudo, \u00e0 <b>Ag\u00eancia FAPESP<\/b>.<\/p>\n<p>Os pesquisadores analisaram e caracterizaram com marcadores moleculares (pequenas regi\u00f5es do DNA que variam de um indiv\u00edduo para outro) 1.117 exemplares de seringueiras coletados durante expedi\u00e7\u00f5es de coleta realizadas nos \u00faltimos 35 anos na regi\u00e3o de Madre de Dios, no Peru, e nos estados do Acre, Rond\u00f4nia, Mato Grosso, Par\u00e1 e Amazonas, e conservados no Brasil e na Guiana Francesa.<\/p>\n<p>Cerca de 500 exemplares analisados foram coletados durante uma expedi\u00e7\u00e3o realizada em 1995 pela Embrapa e o Instituto de Pesquisa da Borracha da Mal\u00e1sia (RRIM) nos estados do Par\u00e1 e do Amazonas, e mantidos em uma \u00e1rea experimental da Embrapa Cerrado em Planaltina, a 40 quil\u00f4metros de Bras\u00edlia. At\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o tinham sido descritos, multiplicados ou usados em programas de melhoramento gen\u00e9tico.<\/p>\n<p>Os outros exemplares analisados s\u00e3o provenientes de coletas realizadas nos estados do Acre, Mato Grosso e Rond\u00f4nia em 1974 e 1981 pelo Institut de Recherche sur le Caoutchouc, da Fran\u00e7a, a Embrapa e a Comiss\u00e3o Internacional para Pesquisa e Desenvolvimento da Borracha (IRRDB, em ingl\u00eas) e guardados em cole\u00e7\u00f5es diferentes.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise dos dados gen\u00e9ticos dos exemplares da planta mostrou que as popula\u00e7\u00f5es de seringueira podem pertencer a dois grupos distintos, de acordo com suas \u201csemelhan\u00e7as\u201d gen\u00e9ticas.<\/p>\n<p>O primeiro grupo \u00e9 composto pela popula\u00e7\u00e3o da planta proveniente do estado do Mato Grosso. J\u00e1 o segundo grupo \u00e9 integrado pelas popula\u00e7\u00f5es de seringueira origin\u00e1rias dos estados do Acre, Rond\u00f4nia, Amazonas e Par\u00e1 e da regi\u00e3o de Madre de Dios, no Peru.<\/p>\n<p>As seringueiras cultivadas na \u00c1sia, por exemplo \u2013 aonde chegaram no in\u00edcio do s\u00e9culo XX \u2013, s\u00e3o semelhantes \u00e0s do Mato Grosso, indicou o estudo.<\/p>\n<p>Uma das raz\u00f5es para isso, segundo os pesquisadores, \u00e9 que as primeiras seringueiras cultivadas no Sudeste Asi\u00e1tico foram provenientes das mais de 70 mil sementes da planta recolhidas pelo bot\u00e2nico ingl\u00eas Sir Henry Alexander Wickham (1846 \u2013\u00a01928) em 1876, perto do rio Tapaj\u00f3s, no Par\u00e1, cuja nascente est\u00e1 no estado do Mato Grosso.<\/p>\n<p>As sementes coletadas por Wickham \u2013 em um dos primeiros casos de biopirataria de que se tem not\u00edcia no mundo \u2013 foram enviadas para a Inglaterra e germinaram no Jardim Bot\u00e2nico Real de Kew, em Londres.<\/p>\n<p>As poucas mudas obtidas ap\u00f3s a germina\u00e7\u00e3o foram enviadas para a Mal\u00e1sia \u2013 atualmente o maior pa\u00eds produtor de borracha natural no mundo \u2013 e deram origem a todas as planta\u00e7\u00f5es de seringueira no Sudeste Asi\u00e1tico, relatam os pesquisadores no artigo.<\/p>\n<p>\u201cA Mal\u00e1sia est\u00e1 usando ainda um germoplasma de seringueira que foi levado do Brasil no s\u00e9culo XIX\u201d, afirmou Souza.<\/p>\n<p>Os pesquisadores tamb\u00e9m identificaram por meio dos marcadores moleculares um total de 408 alelos (variantes de um mesmo gene) nos mais de mil exemplares de seringueiras analisadas \u2013 319 dos quais compartilhados entre os grupos e 89 exclusivos de diferentes grupos.<\/p>\n<p>Com base nisso, eles compilaram uma cole\u00e7\u00e3o de 99 \u00e1rvores que preserva toda a diversidade de alelos das mais de mil plantas analisadas.<\/p>\n<p>\u201cEssa cole\u00e7\u00e3o \u2018compacta\u2019 de 99 \u00e1rvores cont\u00e9m todos os alelos presentes nas mais de mil seringueiras estudadas e ser\u00e1 mais f\u00e1cil de ser conservada\u201d, estimou Souza.<\/p>\n<p><b> Patrim\u00f4nio gen\u00e9tico em risco<\/b><\/p>\n<p>De acordo com a pesquisadora, as tentativas de se criar e conservar o germoplasma de seringueira no Brasil nos \u00faltimos 40 anos foram marcadas por uma s\u00e9rie de percal\u00e7os.<\/p>\n<p>Metade das sementes coletadas em 1981 na expedi\u00e7\u00e3o realizada pela IRRDB e a Embrapa ficou com o Brasil e foi plantada na Amaz\u00f4nia. A outra metade seguiu para a Costa do Marfim, na \u00c1frica, e para Mal\u00e1sia, onde est\u00e1 conservada at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>As sementes plantadas na Amaz\u00f4nia, entretanto, foram dizimadas pelo mal-das-folhas, causado pelo fungo <i>Microcyclus ulei<\/i>, que provoca a queima das folhas e leva a planta \u00e0 morte.<\/p>\n<p>A praga j\u00e1 havia causado o exterm\u00ednio da maior planta\u00e7\u00e3o de seringueiras mantida por uma empresa na Amaz\u00f4nia, na cidade de Fordl\u00e2ndia, \u00e0s margens do rio Tapaj\u00f3s, no Par\u00e1. A cidade come\u00e7ou a ser constru\u00edda em 1927 por Henry Ford (1863 \u20131947) com o objetivo de produzir l\u00e1tex para a fabrica\u00e7\u00e3o dos pneus usados nos carros fabricados por sua ind\u00fastria automobil\u00edstica.<\/p>\n<p>\u201cInfelizmente, n\u00e3o se aprendeu a li\u00e7\u00e3o de Fordl\u00e2ndia e o germoplasma da seringueira coletado na expedi\u00e7\u00e3o de 1981 e plantado na Amaz\u00f4nia foi totalmente perdido\u201d, disse Souza. \u201cFelizmente, a outra metade do germoplasma coletado est\u00e1 na Mal\u00e1sia\u201d, disse Souza.<\/p>\n<p>J\u00e1 o material coletado em 1995, na expedi\u00e7\u00e3o realizada pela Embrapa e pelo RRIM foi dividido entre a Mal\u00e1sia e o Brasil.<\/p>\n<p>A metade das sementes que ficou com o Brasil foi plantada em uma \u00e1rea experimental da Embrapa Cerrado em Planaltina, pr\u00f3xima \u00e0 Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Em 2004, entretanto, a \u00e1rea foi invadida por militantes de um movimento popular que atearam fogo no banco de germoplasma de seringueira por acharem que se tratava de uma fazenda.<\/p>\n<p>\u201cNossa preocupa\u00e7\u00e3o era n\u00e3o ter mais germoplasma de seringueira no Brasil porque as \u00e1reas onde haviam as seringueiras mais preciosas \u2013 que est\u00e3o em Rond\u00f4nia, Mato Grosso e Acre \u2013 estavam sendo devastadas pelo avan\u00e7o do desmatamento\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Por meio de um <b><a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/23667\/construcao-de-um-mapa-genetico-molecular-com-microssatelites-e-mapeamento-de-locos-ligados-a-toleran\/\">projeto apoiado<\/a><\/b>\u00a0pela FAPESP, tamb\u00e9m realizado em colabora\u00e7\u00e3o com colegas franceses, os pesquisadores brasileiros come\u00e7aram a analisar o germoplasma de seringueira que restou na Embrapa Cerrado.<\/p>\n<p>\u201cOs pesquisadores da Embrapa Cerrado fizeram o m\u00e1ximo que podiam e conseguiram recuperar boa parte do germoplasma incendiado\u201d, disse Souza.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, em 2014, quando os pesquisadores estavam finalizando o estudo, o governo do Distrito Federal anunciou que destinaria a \u00e1rea, com 2,1 mil hectares, para a constru\u00e7\u00e3o de cerca de 4 mil apartamentos populares.<\/p>\n<p>\u201cPor sorte conseguimos um acordo com os franceses que tinham uma c\u00f3pia desse material conservado na Guiana Francesa\u201d, contou Souza.<\/p>\n<p>O Cirad tamb\u00e9m mantinha por mais de 20 anos um programa de melhoramento de seringueira em uma fazenda no estado do Mato Grosso que pertenceu \u00e0 fabricante francesa de pneus Michelin.<\/p>\n<p>A fazenda, entretanto, foi vendida em 2011 para produ\u00e7\u00e3o de soja. \u201cFelizmente foi feito um acordo entre o Cirad e a empresa que comprou a fazenda, que se comprometeu em manter a \u00e1rea onde est\u00e1 conservado o germoplasma da seringueira por dez anos\u201d, disse Souza.<\/p>\n<p>A institui\u00e7\u00e3o francesa prop\u00f4s recentemente doar as \u00e1rvores mantidas na fazenda para o Instituto Agron\u00f4mico (IAC) iniciar um programa internacional de melhoramento de seringueira no Centro de Seringueira e Sistemas Agroflorestais (CAPSA), inaugurado recentemente pela institui\u00e7\u00e3o de pesquisa em Votuporanga, no interior de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>\u201cCom esse centro de pesquisa e o programa internacional de melhoramento de seringueira teremos condi\u00e7\u00f5es de solicitar para a Mal\u00e1sia uma c\u00f3pia do germoplasma coletado em 1981, que tem um valor incalcul\u00e1vel porque as sementes foram apanhadas em \u00e1reas onde hoje n\u00e3o h\u00e1 mais floresta\u201d, estimou Souza.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do CBMEG e do Cirad, participaram do estudo pesquisadores da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), da Ag\u00eancia Paulista de Tecnologia dos Agroneg\u00f3cios (Apta), da Embrapa Cerrados e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Ilha Solteira.<\/p>\n<p>Entre os pesquisadores participantes do estudo est\u00e1 Paulo de Souza Gon\u00e7alves, da Embrapa e do IAC, que realiza estudos sobre seringueira h\u00e1 45 anos e participou, em 1981, das coletas de sementes da planta na Amaz\u00f4nia em colabora\u00e7\u00e3o com colegas franceses e do IRRDB.<\/p>\n<p>\u201cFoi a extrema dedica\u00e7\u00e3o dele \u00e0 coleta, melhoramento e conserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio gen\u00e9tico da seringueira que nos inspirou e motivou a realizar esse estudo\u201d, disse Souza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A diversidade gen\u00e9tica da seringueira (Hevea brasiliensis) \u2013 a \u00fanica esp\u00e9cie de planta cultivada 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