{"id":39812,"date":"2016-03-31T10:00:09","date_gmt":"2016-03-31T13:00:09","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=39812"},"modified":"2016-03-31T06:48:30","modified_gmt":"2016-03-31T09:48:30","slug":"o-mito-da-ideia-do-progresso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/o-mito-da-ideia-do-progresso\/","title":{"rendered":"O mito da ideia do progresso a partir de megaprojeto na regi\u00e3o de Ilh\u00e9us"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/progresso_mito.jpg\" rel=\"attachment wp-att-39813\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-39813\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/progresso_mito-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/progresso_mito-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/progresso_mito.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Recentemente, Emilio Gusm\u00e3o defendeu Mestrado (ESCAS \u2013 IP\u00ca) sobre o \u201cmito do progresso\u201d e a \u201csedu\u00e7\u00e3o\u201d que leva a m\u00eddia a acreditar e alardear os benef\u00edcios de uma obra como o Porto Sul, projetado para a regi\u00e3o de Ilh\u00e9us, Bahia. Um megaprojeto como esse traz d\u00favidas de toda sorte, desde as raz\u00f5es escusas que podem alimentar interesses financeiros de alguns, at\u00e9 o porqu\u00ea de a maioria das pessoas acreditarem que uma grande obra representa muito mais ganhos do que perdas. O hist\u00f3rico de empreendimentos parecidos, cujos resultados foram nefastos para a pr\u00f3pria regi\u00e3o, mostra impactos socioambientais graves, sendo que alguns nunca nem sa\u00edram do papel.<\/p>\n<p>O Porto Sul pode trazer danos irrevers\u00edveis para a sociedade local, que se ilude com a ideia de que a obra trar\u00e1 empregos e um desenvolvimento extraordin\u00e1rio, o que \u00e9 muito mais imagin\u00e1rio do que real, segundo dados de especialistas que estudaram a quest\u00e3o a fundo. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s perdas da natureza local, uma das mais ricas em biodiversidade do planeta, essas ser\u00e3o inimagin\u00e1veis, tanto no mar quanto em terra, mas isso parece irrelevante para quem defende a obra.<\/p>\n<p>Todavia, meu ponto n\u00e3o \u00e9 o Porto Sul sobre o qual j\u00e1 escrevi duas mat\u00e9rias em <a href=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/tag\/porto-sul\/\" target=\"_blank\">((o))eco<\/a>, e sim a reflex\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao que leva o ser humano a almejar algo grandioso como se fosse a melhor forma de se atingir felicidade, sem perceber que a verdadeira riqueza est\u00e1 na vida que nos rodeia.<\/p>\n<p>\u00c9 n\u00edtido o anseio de muitos quererem obter empregos ou enormes riquezas, mesmo que historicamente os bem-sucedidos tenham sido poucos e, em muitos casos, como consequ\u00eancia da explora\u00e7\u00e3o de outros seres humanos e da natureza. No caso do pr\u00f3prio sul da Bahia, o exemplo dos cacauicultores e mesmo de outras culturas mostra que o lucro pode ser significativo, mas ficou sempre concentrado em poucos donos de terras, ao mesmo tempo em que a maioria da popula\u00e7\u00e3o vivia indignamente. Alguns conhecedores dessa hist\u00f3ria, professores na regi\u00e3o, como Rui Rocha ou Jorge Chiapetti, entre outros, relatam que a \u00e9poca \u00e1urea do cacau colapsou por conta da praga conhecida como \u201cvassoura de bruxa\u201d. Mas Chiapetti aponta que esse n\u00e3o foi o \u00fanico motivo, pois a lavoura era subsidiada pelo cr\u00e9dito governamental que quando foi interrompido causou grandes impactos na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Todavia, a mem\u00f3ria de riqueza que predomina \u00e9 dessa \u00e9poca, como se a fartura tivesse sido para todos. Outras atividades, como o turismo, se instalaram depois da baixa do cacau. Hoje, a economia da regi\u00e3o se concentra principalmente no setor terci\u00e1rio, ou seja, com\u00e9rcio e servi\u00e7os. H\u00e1 pesquisas recentes que mostram aumento do PIB, e por mais que este n\u00e3o represente um indicador de diminui\u00e7\u00e3o das desigualdades, o fato \u00e9 que a economia da regi\u00e3o de 1999 a 2009 n\u00e3o esteve estagnada. Mas, a ilus\u00e3o de que o apogeu foi com o cacau ficou no imagin\u00e1rio popular como um s\u00edmbolo de um tempo para o qual muitos desejam retornar. A maioria n\u00e3o parece lembrar ou querer lembrar como era verdadeiramente a realidade, cultivando uma imagem fict\u00edcia, ao inv\u00e9s de prezarem o que t\u00eam hoje.<\/p>\n<p>O que isso tem a ver com conserva\u00e7\u00e3o? A maioria dos empreendimentos no Brasil e mesmo em outras partes do mundo, principalmente os de grande porte, s\u00e3o vendidos como fontes de benef\u00edcios para as popula\u00e7\u00f5es locais, mesmo que nem sempre sejam pautados na verdade. E a m\u00eddia tem uma enorme parcela de responsabilidade de averiguar e divulgar os fatos. Por\u00e9m, muitos meios de comunica\u00e7\u00e3o enxugaram seus quadros de profissionais, o que dificulta a divulga\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o produzida por especialistas com conhecimentos espec\u00edficos em determinados temas. Al\u00e9m disso, a velocidade com que as noticias se propagam, aumentam os desafios de informar com consist\u00eancia o que ocorre e o que est\u00e1 por vir com projetos como o Porto Sul na Bahia, por exemplo.<\/p>\n<p>E, um fato novo nesse cen\u00e1rio \u00e9 que o mercado e as redes sociais tiraram o monop\u00f3lio da informa\u00e7\u00e3o dos jornalistas. Hoje qualquer pessoa produz informa\u00e7\u00e3o. Ou seja, a produ\u00e7\u00e3o da not\u00edcia foi democratizada, o que pode soar como algo bom. Mas isso vem gerando crise nos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, que reduziram a disponibilidade de reportagens investigativas, aquelas mais apuradas e aprofundadas. Al\u00e9m disso, o mercado atual exige velocidade e inser\u00e7\u00e3o nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social. \u00c9 necess\u00e1rio sair na frente, publicar primeiro. Esses fatores causam perda na qualidade da informa\u00e7\u00e3o e o p\u00fablico acaba tendo acesso a quantidade, mas muitas vezes a conte\u00fados pouco confi\u00e1veis. E o que \u00e9 surpreendente, como mostra o estudo do Em\u00edlio Gusm\u00e3o, um grande n\u00famero de comunicadores traz a mesma ilus\u00e3o do seu leitor ou ouvinte, ao acreditar que obras fara\u00f4nicas trar\u00e3o emprego, renda e bem-estar para as pessoas locais, o que n\u00e3o \u00e9 o que deve acontecer com o Porto Sul.<\/p>\n<p>Essa linha de pensamento nos remete a Schumacher, que j\u00e1 em 1973, em seu livro <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Small_Is_Beautiful\" target=\"_blank\">Small is Beautiful<\/a> (O Pequeno \u00e9 Belo), defendia ideias que se tornaram em princ\u00edpios da sustentabilidade. Por exemplo, consumir e valorizar o que \u00e9 produzido localmente deve ser incentivado por reduzir o gasto de energia e estimular a economia regional.<\/p>\n<p>Mas, o desafio tem sido o de apaziguar ou reprimir a gan\u00e2ncia humana que, ao inv\u00e9s de almejar o que \u00e9 bom para a coletividade, insiste em querer se beneficiar individualmente em todas as frentes do que faz ou almeja fazer. Gandhi expressou esse pensamento de uma outra maneira quando disse: \u201cO mundo \u00e9 grande o suficiente para satisfazer as necessidades de todos, mas sempre ser\u00e1 muito pequeno para a gan\u00e2ncia de alguns\u201d.<\/p>\n<p>Recentemente, um cientista, advogado e defensor de causas ambientais, James Gustave (Gus) Speth (fundador do <a href=\"http:\/\/www.wri.org\/\" target=\"_blank\">World Resource Institute<\/a>), admitiu que n\u00e3o \u00e9 por meio da ci\u00eancia que o ser humano vai chegar a um outro est\u00e1gio de exist\u00eancia. S\u00e3o necess\u00e1rios valores como empatia, cooperativismo e eu adicionaria um senso de celebra\u00e7\u00e3o da vida que ajuste os ponteiros, passando do querer \u201cter\u201d para o \u201cser\u201d em sua grandiosa dimens\u00e3o. O que disse Gus Speth e que rodou recentemente nas redes sociais:<\/p>\n<blockquote><p>N\u00f3s cientistas n\u00e3o sabemos fazer isso. Eu costumava pensar que os mais graves problemas ambientais eram a perda da biodiversidade, o colapso dos ecossistemas e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Eu pensava que com 30 anos de boa ci\u00eancia n\u00f3s resolver\u00edamos esses problemas. Mas, eu estava errado. Os problemas ambientais mais s\u00e9rios s\u00e3o ego\u00edsmo, gan\u00e2ncia e apatia&#8230; e para lidar com eles precisamos de uma transforma\u00e7\u00e3o espiritual e cultural \u2013 e n\u00f3s, cientistas, n\u00e3o sabemos fazer isso.<\/p><\/blockquote>\n<p>Um senso de maravilhamento pela vida talvez ajudasse a reverter os processos de destrui\u00e7\u00e3o do mundo natural, como foi poeticamente descrito por Rachel Carson em um pequeno livro <a href=\"http:\/\/www.amazon.com\/The-Sense-Wonder-Library-Edition\/dp\/1433207222\" target=\"_blank\"><i>Sense of Wonder<\/i><\/a> (1965), bem menos conhecido que sua valiosa contribui\u00e7\u00e3o para o ambientalismo, <i><a href=\"http:\/\/www.saraiva.com.br\/primavera-silenciosa-3042918.html\" target=\"_blank\">Primavera Silenciosa<\/a><\/i>. Carson mostra a uma crian\u00e7a que a natureza tem muito a ensinar e \u00e9 uma fonte de inspira\u00e7\u00e3o infinita para aprendermos a valorizar o que existe no planeta e no cosmos.<\/p>\n<p>Eu estou no rol dos que sonham com transforma\u00e7\u00f5es dessa grandeza. Recentemente, em uma fala p\u00fablica (TED X S\u00e3o Paulo), soei mais uma vez como ut\u00f3pica. Mas, para mim \u00e9 da utopia que surgem as ideias que podem mudar o mundo. \u00c9 da n\u00e3o concord\u00e2ncia do que est\u00e1 estabelecido e do que consideramos injusto ou errado que emergem iniciativas diferentes e transformadoras. \u00c9 preciso desenvolvermos valores com pr\u00e1ticas condizentes a uma nova vis\u00e3o de mundo que seja inclusiva, sustent\u00e1vel e reflita esse novo pensar.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o continuada e a comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam papeis important\u00edssimos ao abrirem portas rumo a caminhos mais promissores e reais. Por isso considero o alerta do agora Mestre Em\u00edlio Gusm\u00e3o de grande relev\u00e2ncia, quando chama a aten\u00e7\u00e3o para a sedu\u00e7\u00e3o que exerce o \u201cmito do progresso\u201d nas escolhas do ser humano, que ainda quer ter mais e mais, muitas vezes trazendo desastres irrepar\u00e1veis para si e para tudo ao seu redor. O comunicador tem uma responsabilidade ainda maior do que o p\u00fablico em geral pela sua influ\u00eancia no destino da sociedade, principalmente quando as quest\u00f5es que aborda est\u00e3o relacionadas \u00e0 sustentabilidade planet\u00e1ria.<\/p>\n<p><em>Obs: este artigo reflete muitas ideias trocadas durante a defesa de Em\u00edlio Gusm\u00e3o com sua banca, composta por Jorge Chiapetti, Claudio Padua e eu, Suzana Padua. Agrade\u00e7o a todos!<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recentemente, Emilio Gusm\u00e3o defendeu Mestrado (ESCAS \u2013 IP\u00ca) sobre o \u201cmito do progresso\u201d e a<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":39813,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/progresso_mito.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/progresso_mito-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/progresso_mito-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/progresso_mito.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/progresso_mito.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/progresso_mito.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/progresso_mito.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/progresso_mito.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/progresso_mito.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/progresso_mito.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Recentemente, Emilio Gusm\u00e3o defendeu Mestrado (ESCAS \u2013 IP\u00ca) sobre o \u201cmito do progresso\u201d e a","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39812"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39812"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39812\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/39813"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39812"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39812"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39812"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}