{"id":39599,"date":"2016-03-27T10:36:56","date_gmt":"2016-03-27T13:36:56","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=39599"},"modified":"2016-03-27T10:36:56","modified_gmt":"2016-03-27T13:36:56","slug":"genetica-ajuda-a-delimitar-populacoes-de-especie-ameacada-de-extincao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/genetica-ajuda-a-delimitar-populacoes-de-especie-ameacada-de-extincao\/","title":{"rendered":"Gen\u00e9tica ajuda a delimitar popula\u00e7\u00f5es de esp\u00e9cie amea\u00e7ada de extin\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/tartaruga_marinha.jpg\" rel=\"attachment wp-att-39600\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-39600\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/tartaruga_marinha-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/tartaruga_marinha-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/tartaruga_marinha.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>S\u00e3o animais discretos na \u00e1gua e em terra parecem vulner\u00e1veis demais, quando se arrastam pela areia em busca de onde depositar os ovos. No mar, as tartarugas-de-pente est\u00e3o em casa e, deslizando debaixo d\u2019\u00e1gua, podem migrar de uma \u00e1rea de reprodu\u00e7\u00e3o nas ilhas Seychelles, no oceano \u00cdndico, para alimentar-se no Atl\u00e2ntico, na regi\u00e3o de Fernando de Noronha. S\u00e3o pontos com latitudes muito pr\u00f3ximas, mas para chegar de um a outro \u00e9 preciso contornar a \u00c1frica, o que elas parecem fazer quase como se fossem do quarto \u00e0 cozinha, mesmo que raramente. A geneticista Sarah Vargas, professora da Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo (Ufes), quer entender melhor esses trajetos, em parte para indicar \u00e1reas que possam ajudar a evitar a extin\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, considerada criticamente amea\u00e7ada pela Uni\u00e3o Internacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza (IUCN, na sigla em ingl\u00eas). O trabalho da pesquisadora j\u00e1 trouxe uma boa not\u00edcia: essas tartarugas, famosas por desovar no lugar onde nasceram, parecem ter alguma flexibilidade em suas rotas, de acordo com artigo que ser\u00e1 destacado na capa de uma das pr\u00f3ximas edi\u00e7\u00f5es da revista <em>Journal of Heredity<\/em>.<\/p>\n<p>No ano que passou na Austr\u00e1lia no laborat\u00f3rio da evolucionista Nancy Fitz-Simmons, \u00e0 \u00e9poca na Universidade de Canberra, Sarah analisou o DNA de amostras de pele dessas tartarugas recolhidas em 13 pontos de nidifica\u00e7\u00e3o (onde p\u00f5em os ovos) diferentes dos oceanos \u00cdndico e Pac\u00edfico, regi\u00e3o conhecida como Indo-Pac\u00edfico: no Ir\u00e3, na Ar\u00e1bia Saudita, nas ilhas Seychelles, nas ilhas Chagos, na Mal\u00e1sia, na Austr\u00e1lia e nas ilhas Salom\u00e3o. \u201cAs popula\u00e7\u00f5es dessa regi\u00e3o n\u00e3o estavam caracterizadas\u201d, conta a brasileira, que naquele momento fazia doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais sob orienta\u00e7\u00e3o do geneticista Fabr\u00edcio Santos. \u201cQuando amostramos tartarugas presas em redes de pesca no Atl\u00e2ntico, n\u00e3o temos como saber de onde vieram se n\u00e3o conhecermos o maior n\u00famero poss\u00edvel de popula\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>Como estudar a ecologia desses animais \u00e9 uma tarefa que oferece mais desafios do que satisfa\u00e7\u00f5es (transmissores de r\u00e1dio, que permitem segui-las, podem se descolar da carapa\u00e7a em poucos meses), a gen\u00e9tica acaba sendo o recurso poss\u00edvel. Em 2015, j\u00e1 professora da Ufes, Sarah voltou \u00e0 Austr\u00e1lia como bolsista de p\u00f3s-doutorado do programa Ci\u00eancia sem Fronteiras, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq), e passou 10 meses na Universidade de Sidney analisando os dados no laborat\u00f3rio do evolucionista computacional Simon Ho. Os resultados derrubaram o dogma de que as tartarugas necessariamente voltam \u00e0 praia natal para a pr\u00f3pria reprodu\u00e7\u00e3o, ao mostrar que h\u00e1 uma mistura gen\u00e9tica entre linhagens maternas com origens distintas, e tamb\u00e9m indicaram que a separa\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es \u00e9 mais complexa do que se pensava.<\/p>\n<p>Como no oceano n\u00e3o h\u00e1 barreiras geogr\u00e1ficas \u00f3bvias, a dist\u00e2ncia entre \u00e1reas de reprodu\u00e7\u00e3o \u00e9 tida como a principal separa\u00e7\u00e3o entre popula\u00e7\u00f5es \u2013 500 quil\u00f4metros (km) seriam suficientes para garantir a diferencia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica. Mas n\u00e3o \u00e9 bem o que apareceu nos dados. Nem sempre, pelo menos. As tartarugas que nidificam em duas \u00e1reas na costa iraniana separadas por cerca de 200 km parecem ser de popula\u00e7\u00f5es separadas, mas cada uma delas est\u00e1 em contato reprodutivo com a Ar\u00e1bia Saudita, do outro lado do golfo P\u00e9rsico. \u201cAchamos que \u00e9 porque cada um dos pontos no Ir\u00e3 est\u00e1 mais pr\u00f3ximo da Ar\u00e1bia Saudita do que um do outro\u201d, explica Sarah. O contr\u00e1rio tamb\u00e9m surpreendeu: duas \u00e1reas na Austr\u00e1lia separadas por 800 km s\u00e3o homog\u00eaneas do ponto de vista gen\u00e9tico. \u201cN\u00e3o deveria haver troca gen\u00e9tica entre essas duas popula\u00e7\u00f5es porque uma delas tem o pico de desova no ver\u00e3o e outra no inverno e na primavera\u201d, diz Sarah. \u201cEssa distin\u00e7\u00e3o temporal deveria funcionar como uma barreira reprodutiva.\u201d A explica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 que a separa\u00e7\u00e3o entre essas popula\u00e7\u00f5es \u00e9 recente e ainda n\u00e3o est\u00e1 refletida no DNA mitocondrial, o tipo de material gen\u00e9tico analisado no estudo, que funciona como um testemunho da hist\u00f3ria mais antiga.<\/p>\n<p>Os resultados permitem identificar oito \u00e1reas, entre os 13 pontos amostrados, que precisam estar representadas em unidades regionais de manejo de conserva\u00e7\u00e3o para garantir a manuten\u00e7\u00e3o das linhagens distintas das tartarugas dessa esp\u00e9cie no Indo-Pac\u00edfico. Agora Sarah pretende caracterizar popula\u00e7\u00f5es do delta do Parna\u00edba, entre o Piau\u00ed e o Maranh\u00e3o, tanto da tartaruga-de-pente (<em>Eretmochelys imbricata<\/em>) como da tartaruga-de-couro (<em>Dermochelys coriacea<\/em>), para saber de onde v\u00eam e h\u00e1 quanto tempo est\u00e3o na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Outros estudos, como o feito pela ocean\u00f3loga Maira Proietti, professora da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) e publicado em 2014 na <em>PLoS One<\/em>, mostram que boa parte das tartarugas-de-pente que se alimentam em \u00e1guas brasileiras tem origem dom\u00e9stica, principalmente da Bahia e do Rio Grande do Norte \u2013 mas sem excluir trocas com o Caribe e a \u00c1frica. O grupo analisou amostras de 157 tartarugas jovens coletadas em \u00e1reas de alimenta\u00e7\u00e3o no Caribe e no Brasil \u2013 incluindo a regi\u00e3o costeira do Rio Grande do Sul ao Cear\u00e1 e os arquip\u00e9lagos de Fernando de Noronha e S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo, respectivamente, a cerca de 350 km e mil km da costa \u2013 e detectou uma certa homogeneidade, embora seja poss\u00edvel discernir uma estrutura gen\u00e9tica associada \u00e0s correntes marinhas. \u201cAs correntes parecem influenciar como esses animais se dispersam no oceano\u201d, conta Maira, que comparou os dados gen\u00e9ticos ao rastreamento de boias de deriva lan\u00e7adas ao mar por projetos internacionais.<\/p>\n<p>Para duas das amostras n\u00e3o foi poss\u00edvel identificar a popula\u00e7\u00e3o de origem. \u201c\u00c9 muito importante caracterizarmos mais \u00e1reas para aumentar a resolu\u00e7\u00e3o na an\u00e1lise\u201d, pondera a pesquisadora. Ela n\u00e3o descarta que as tartarugas em quest\u00e3o tenham vindo de \u00e1reas distantes, como as estudadas por Sarah. Maira ressalta a import\u00e2ncia de se mapear a conex\u00e3o entre as \u00e1reas, j\u00e1 que os impactos ecol\u00f3gicos em um local podem afetar os animais muito longe dali.<\/p>\n<p>A gen\u00e9tica pode ser a base para tra\u00e7ar planos de manejo, importantes n\u00e3o s\u00f3 pela prote\u00e7\u00e3o das tartarugas em si, que no Brasil \u00e9 feita de maneira cuidadosa pelo projeto Tamar, mas pela import\u00e2ncia ecol\u00f3gica desses animais. As tartarugas-de-pente se alimentam de esponjas, an\u00eamonas, lulas e camar\u00f5es, e ao controlar a popula\u00e7\u00e3o desses organismos ajudam a manter a sa\u00fade de recifes de coral. Apesar de ainda haver alguma explora\u00e7\u00e3o da tartaruga-de-pente no mundo tanto para uso do casco como para alimento, al\u00e9m da captura acidental em redes de pesca e ingest\u00e3o de lixo marinho, a legisla\u00e7\u00e3o as protege. Legalmente, j\u00e1 n\u00e3o se pode fazer pentes com suas carapa\u00e7as.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o animais discretos na \u00e1gua e em terra parecem vulner\u00e1veis demais, quando se arrastam pela<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":39600,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/tartaruga_marinha.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/tartaruga_marinha-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/tartaruga_marinha-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/tartaruga_marinha.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/tartaruga_marinha.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/tartaruga_marinha.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/tartaruga_marinha.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/tartaruga_marinha.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/tartaruga_marinha.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/tartaruga_marinha.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"S\u00e3o animais discretos na \u00e1gua e em terra parecem vulner\u00e1veis demais, quando se arrastam pela","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39599"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39599"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39599\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/39600"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39599"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39599"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39599"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}