{"id":39184,"date":"2016-03-20T12:05:58","date_gmt":"2016-03-20T15:05:58","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=39184"},"modified":"2016-03-20T12:05:58","modified_gmt":"2016-03-20T15:05:58","slug":"hidreletricas-causarao-extincoes-diz-estudo-publicado-por-um-grupo-de-pesquisadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/hidreletricas-causarao-extincoes-diz-estudo-publicado-por-um-grupo-de-pesquisadores\/","title":{"rendered":"Hidrel\u00e9tricas causar\u00e3o extin\u00e7\u00f5es, diz estudo publicado por um grupo de pesquisadores"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"author_alias\"><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/cascudo.jpg\" rel=\"attachment wp-att-39185\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-39185\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/cascudo.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/cascudo.jpg 415w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/cascudo-300x192.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 415px) 100vw, 415px\" \/><\/a>Por Cl\u00e1udio Angelo<\/span><\/p>\n<p>O cascudo-zebra (<em>Hypancistrus zebra<\/em>) n\u00e3o \u00e9 empreiteiro nem pol\u00edtico, n\u00e3o est\u00e1 denunciado na Lava Jato e n\u00e3o levou um centavo de propina pela usina de Belo Monte. No entanto, recebeu a pena mais dura de todas pela constru\u00e7\u00e3o da superfaturada hidrel\u00e9trica no Par\u00e1: a morte. Quando o reservat\u00f3rio encher, secando a Volta Grande do Xingu, os pedrais onde esse pequeno peixe ornamental vive ficar\u00e3o rasos e quentes demais para ele. Como s\u00f3 ocorre naquela regi\u00e3o, o cascudo-zebra poder\u00e1 ser extinto na natureza.<\/p>\n<p>O mesmo destino aguarda diversas outras esp\u00e9cies que habitam ambientes \u00fanicos de rios amaz\u00f4nicos que ceder\u00e3o lugar a hidrel\u00e9tricas. \u00c9 o que sugere um estudo publicado no peri\u00f3dico <em>Biodiversity and Conservation<\/em> por um grupo de pesquisadores dos EUA, do Brasil e do Reino Unido.<\/p>\n<p>Segundo o trabalho, que fez uma s\u00edntese da literatura cient\u00edfica dispon\u00edvel sobre hidrel\u00e9tricas e extin\u00e7\u00f5es na Amaz\u00f4nia, as 437 usinas constru\u00eddas, em implanta\u00e7\u00e3o ou em projeto nos nove pa\u00edses amaz\u00f4nicos (90% delas no Brasil) acabar\u00e3o com habitats raros dos rios da regi\u00e3o, como corredeiras e pedrais. Nesses locais existe alta taxa de endemismo, ou seja, de esp\u00e9cies que n\u00e3o existem em nenhum outro lugar do planeta. Como corredeiras e pedrais tamb\u00e9m s\u00e3o os lugares que marcam desn\u00edveis dos rios amaz\u00f4nicos, \u00e9 nessas \u00e1reas que os planejadores do setor hidrel\u00e9trico escolhem fazer barragens, que na maior parte dos casos afogam esses habitats (Belo Monte \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o, pois provocar\u00e1 o efeito oposto).<\/p>\n<p>Isso causa a extin\u00e7\u00e3o de peixes e plantas aqu\u00e1ticas que dependem do pulso sazonal dos rios. E leva junto toda a fauna terrestre associada, como morcegos, aves, roedores e anf\u00edbios.<\/p>\n<p>\u201cEstamos, enquanto brasileiros, decretando o \u00f3bito de 3% a 5% da biota amaz\u00f4nica\u201d, disse ao <em>OC<\/em> o ec\u00f3logo paraense Carlos Peres, professor da Universidade de East Anglia, no Reino Unido. Ele \u00e9 coautor do estudo, liderado por seu ex-aluno Alex Lees, hoje na Universidade Cornell, nos EUA. Peres diz que o setor el\u00e9trico j\u00e1 mapeou todos os rios com potencial hidrel\u00e9trico na Amaz\u00f4nia \u2013 que \u00e9 onde est\u00e1 quase todo o potencial hidrel\u00e9trico remanescente no Brasil. \u201cTodos eles s\u00e3o suscet\u00edveis \u00e0 expans\u00e3o das usinas\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Segundo os pesquisadores, as amea\u00e7as das hidrel\u00e9tricas \u00e0 biodiversidade n\u00e3o se d\u00e3o apenas pelo desmatamento induzido, mas tamb\u00e9m \u2013 e principalmente \u2013 por mudan\u00e7as nos ambientes aqu\u00e1ticos. As barragens causam problemas aos peixes migrat\u00f3rios ao desconectar trechos de rios, e a esp\u00e9cies adaptadas ao ambiente de corredeira, como os cascudos, ao reduzir a velocidade da \u00e1gua, criando o que os cientistas chamam de ambientes \u201cl\u00eanticos\u201d, ou de remanso. Nesses ambientes, a oxigena\u00e7\u00e3o da \u00e1gua \u00e9 mais baixa, o que prejudica algumas esp\u00e9cies muito especializadas para viver ali e favorece esp\u00e9cies mais generalistas, como as invasoras.<\/p>\n<p>As solu\u00e7\u00f5es de mitiga\u00e7\u00e3o de impactos fornecidas pelos empreendedores n\u00e3o conseguem evitar a forma\u00e7\u00e3o desses ambientes l\u00eanticos e <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ciencia\/fe1002200801.htm\">frequentemente falham<\/a> ao atacar a quest\u00e3o da desconex\u00e3o. Na usina de Santo Ant\u00f4nio, no rio Madeira, por exemplo, ficou famosa a \u201ccrise do bagre\u201d \u2013 a antecipada redu\u00e7\u00e3o dos estoques comerciais de grandes peixes, que n\u00e3o conseguiriam transpor a barragem para se reproduzir rio acima. Os empreendedores gastaram milh\u00f5es de reais construindo um canal lateral em forma de escada que simulava o ambiente pedregoso do fundo do rio, s\u00f3 para descobrir que os peixes n\u00e3o a utilizavam \u2013 <a href=\"http:\/\/amazoniareal.com.br\/barragens-do-rio-madeira-impactos-3-peixes\/\">seu instinto era seguir o curso principal do Madeira<\/a>.<\/p>\n<p>No caso de Belo Monte, as principais v\u00edtimas s\u00e3o os peixes que evolu\u00edram em micro-habitats, que s\u00e3o achados em alguns pedrais e n\u00e3o em outros dentro da mesma Volta Grande. \u201cVoc\u00ea tem graus incr\u00edveis de microendemismo\u201d, diz Lees. O cascudo-zebra, por exemplo, s\u00f3 foi descoberto em 1991 e j\u00e1 est\u00e1 criticamente amea\u00e7ado de extin\u00e7\u00e3o. Um dos coautores do novo estudo, Jansen Zuanon, do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia) est\u00e1 neste momento descrevendo uma nova esp\u00e9cie de cascudo ornamental que aparentemente s\u00f3 habita as zonas mais profundas da Volta Grande. As duas esp\u00e9cies podem ser muito impactadas ou extintas com a redu\u00e7\u00e3o da vaz\u00e3o do rio naquela \u00e1rea.<\/p>\n<p>Em alguns casos, cap\u00edtulos inteiros da hist\u00f3ria da vida na Terra podem estar em risco. \u00c9 o caso das alfaces d\u2019\u00e1gua (<em>Podostemaceae<\/em>), plantas que dependem dos ciclos de cheia e seca dos rios encachoeirados da Amaz\u00f4nia. Essas plantas formam uma \u201cradia\u00e7\u00e3o adaptativa\u201d, ou seja, v\u00e1rias esp\u00e9cies surgiram muito rapidamente a partir de um mesmo ancestral. Todas as esp\u00e9cies end\u00eamicas de <em>Podostemaceae<\/em> est\u00e3o amea\u00e7adas nos s\u00edtios de hidrel\u00e9tricas.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3prios estudos de impacto das usinas t\u00eam revelado esp\u00e9cies novas, como um sapo que acena em vez de cantar \u2013 porque ningu\u00e9m conseguiria ouvir o canto em meio ao som das corredeiras. Os cientistas temem que algumas plantas e animais sejam perdidas antes de serem descritas.<\/p>\n<p>\u201cO que n\u00f3s vemos no notici\u00e1rio s\u00e3o preocupa\u00e7\u00f5es com esp\u00e9cies carism\u00e1ticas de fauna de grande porte e com seres humanos. Mas as grandes perdas s\u00e3o de peixes e grandes invertebrados\u201d, afirma Lees, um brit\u00e2nico que trabalhou durante seis anos no Museu Paraense Em\u00edlio Goeldi, em Bel\u00e9m, antes de se mudar para os EUA. \u201cMe incomoda que n\u00e3o haja muitos estudos focando em extin\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>Lees, Peres e colegas apontam o paradoxo de que v\u00e1rias das esp\u00e9cies amea\u00e7adas pelas usinas s\u00e3o protegidas por lei contra ca\u00e7a e comercializa\u00e7\u00e3o, por estarem na lista vermelha do Ibama \u2013 mas h\u00e1 mecanismos legais para permitir sua extirpa\u00e7\u00e3o completa por projetos de hidrel\u00e9tricas, sob os r\u00f3tulos de \u201cinteresse social\u201d e \u201cutilidade p\u00fablica\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNos EUA, a Lei de Esp\u00e9cies Amea\u00e7adas veda qualquer projeto, por mais estrat\u00e9gico que seja, se h\u00e1 uma esp\u00e9cie amea\u00e7ada no caminho\u201d, diz Carlos Peres. \u201cNo Brasil n\u00f3s estamos presidindo o processo de extin\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias esp\u00e9cies.\u201d<\/p>\n<p><strong>\u201cEnergia limpa\u201d<\/strong><\/p>\n<p>As hidrel\u00e9tricas geram a maior parte da eletricidade do pa\u00eds hoje, e sua expans\u00e3o \u00e9 defendida pelo governo como \u00fanica op\u00e7\u00e3o para gerar energia \u201climpa\u201d e \u201cfirme\u201d \u2013 embora <a href=\"http:\/\/www.observatoriodoclima.eco.br\/recessao-e-chance-de-repensar-futuras-hidreletricas-na-amazonia-diz-engenheiro\/\">d\u00favidas venham sendo levantadas <\/a>sobre as premissas que baseiam a expans\u00e3o das barragens. A <a href=\"http:\/\/www.itamaraty.gov.br\/images\/ed_desenvsust\/BRASIL-iNDC-portugues.pdf\">INDC<\/a>, o plano clim\u00e1tico do Brasil para 2025 e 2030, prev\u00ea que 66% da matriz seja hidrel\u00e9trica, o que incluiria a constru\u00e7\u00e3o das pol\u00eamicas usinas do complexo Tapaj\u00f3s, no Par\u00e1.<\/p>\n<p>Peres e colegas defendem um freio de arruma\u00e7\u00e3o a essa expans\u00e3o, sob pena de os cen\u00e1rios aventados pelo estudo se concretizarem. Segundo eles, todo o processo de licenciamento de usinas deveria ser revisto, incorporando a avalia\u00e7\u00e3o ambiental estrat\u00e9gica de toda a bacia \u2013 algo que o governo promete desde 2006, mas que nunca aconteceu de verdade no licenciamento de usinas, que come\u00e7a depois que a decis\u00e3o de construir j\u00e1 foi tomada. \u201cO licenciamento \u00e9 um processo sem dentes, para ingl\u00eas ver\u201d, diz Peres.<\/p>\n<p>Relat\u00f3rios de impacto ambiental precisam ser melhorados, e \u201cem muitos casos, esses projetos precisam ser cancelados\u201d, afirma o pesquisador paraense. Para ele, a amea\u00e7a de extin\u00e7\u00e3o a uma esp\u00e9cie end\u00eamica deveria ser raz\u00e3o para cancelar uma hidrel\u00e9trica. A demanda adicional de energia poderia ser suprida com novas renov\u00e1veis e, para a Amaz\u00f4nia, com pequenas centrais hidrel\u00e9tricas. \u201cComo maior pa\u00eds tropical do mundo e lideran\u00e7a em biodiversidade, o Brasil deveria se comportar de outra forma.\u201d<\/p>\n<p>Procuradas pelo <em>OC<\/em>, a EPE (Empresa de Pesquisa Energ\u00e9tica), que planeja a expans\u00e3o hidrel\u00e9trica, e a Norte Energia, propriet\u00e1ria da usina de Belo Monte, n\u00e3o se manifestaram at\u00e9 o fechamento deste texto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cl\u00e1udio Angelo O cascudo-zebra (Hypancistrus zebra) n\u00e3o \u00e9 empreiteiro nem pol\u00edtico, n\u00e3o est\u00e1 denunciado<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":39185,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/cascudo.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/cascudo-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/cascudo-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/cascudo.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/cascudo.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/cascudo.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/cascudo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/cascudo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/cascudo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/cascudo.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Cl\u00e1udio Angelo O cascudo-zebra (Hypancistrus zebra) n\u00e3o \u00e9 empreiteiro nem pol\u00edtico, n\u00e3o est\u00e1 denunciado","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39184"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39184"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39184\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/39185"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39184"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39184"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39184"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}