{"id":38720,"date":"2016-03-12T11:27:28","date_gmt":"2016-03-12T14:27:28","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=38720"},"modified":"2016-03-12T11:27:28","modified_gmt":"2016-03-12T14:27:28","slug":"desperdicio-de-alimentos-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/desperdicio-de-alimentos-2\/","title":{"rendered":"Desperd\u00edcio de alimentos"},"content":{"rendered":"<h1><img loading=\"lazy\" class=\"irc_mi\" src=\"http:\/\/www.diarioonline.com.br\/img\/noticias\/original\/destaque-260241-desperdicio-aq.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"400\" \/>Frutas e legumes jogados no lixo poderiam salvar o planeta da amea\u00e7a da fome<\/h1>\n<h2>Cerca de um ter\u00e7o da comida do mundo vai parar no lixo. Com tudo que jogamos fora, daria para alimentar 2 bilh\u00f5es de pessoas<\/h2>\n<div class=\"text-event\">\n<p>Tristram Stuart tem 24 horas para preparar uma boa refei\u00e7\u00e3o para 50 pessoas \u2013 definir o card\u00e1pio, conseguir os ingredientes e, depois, receber os convidados em um local que lhe \u00e9 pouco familiar. Para complicar o que mais parece uma competi\u00e7\u00e3o de reality show, os <strong>alimentos <\/strong>devem vir de produtores e vendedores que iriam descart\u00e1-los.<\/p>\n<p>Apressado em Nova York, ap\u00f3s visitar um s\u00edtio em Nova Jersey de onde recolheu 35 quilos de abobrinhas que os produtores haviam considerado retorcidas demais para a venda, Stuart salta do carro e se enfia em uma padaria de Greenwich Village. Alto e loiro, com elegante sotaque brit\u00e2nico, n\u00e3o hesita ao fazer o seu discurso de dez segundos: \u201cSou de uma organiza\u00e7\u00e3o que luta contra o <strong>desperd\u00edcio de alimentos<\/strong>, e faremos um banquete com a comida que iria ser jogada fora. Voc\u00eas t\u00eam algo que poderia nos servir?\u201d A padaria n\u00e3o tinha nada para contribuir, mas o atendente lhe deu, como pr\u00eamio de consola\u00e7\u00e3o, dois cookies de chocolate que estavam quebrados.<\/p>\n<p>A parada seguinte \u00e9 no mercado da Union Square, onde um chefe envolve peixes em quadrados de massa de brioche antes de cort\u00e1-los em semic\u00edrculos. \u201cPosso ficar com os restos de massa?\u201d, pergunta Stuart, com seu sorriso mais simp\u00e1tico. O chefe recusa \u2013 j\u00e1 tem um destino para a massa. Inabal\u00e1vel, Stuart percorre o mercado e, no final, consegue folhas de beterraba, brotos de trigo e ma\u00e7\u00e3s que acabariam no lixo.<\/p>\n<p>Dezoito horas mais tarde, dezenas de chefes de cozinha, de especialistas em reaproveitamento de comida a ativistas do movimento, conversam a respeito de suas preocupa\u00e7\u00f5es enquanto provam o tempur\u00e1 de ab\u00f3bora, os bolinhos de nabo e tofu e o macarr\u00e3o parafuso preparados pela chefe Celia Lam. Ainda que o pr\u00f3prio Stuart mal tivesse posto a m\u00e3o na massa, foi gra\u00e7as a ele \u2013 e sem nenhuma reuni\u00e3o formal \u2013 que meia d\u00fazia de pessoas havia se disposto a bolar um menu, reunir os ingredientes coletados e, depois, preparar, cozinhar e servir uma refei\u00e7\u00e3o em troca de pouco mais que a oportunidade de conhecer e se relacionar com uma das personagens mais instigantes do momento no movimento internacional de combate ao desperd\u00edcio de alimentos.<\/p>\n<p>EM TODAS AS CULTURAS, o <strong>desperd\u00edcio de comida<\/strong> choca o senso moral. Afinal, por volta de 800 milh\u00f5es de pessoas ao redor do mundo est\u00e3o passando <strong>fome<\/strong>. No entanto, de acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO, na sigla em ingl\u00eas), continuamos a jogar fora uma quantidade de comida \u2013 em \u00e2mbito mundial, 1,3 bilh\u00e3o de toneladas por ano \u2013 suficiente para alimentar mais que o dobro das pessoas que hoje sofrem de falta de alimentos. Para onde est\u00e1 indo toda essa comida? Nos pa\u00edses em desenvolvimento, boa parte se perde ap\u00f3s a colheita, devido \u00e0 falta de armaz\u00e9ns adequados, de estradas e de sistemas de refrigera\u00e7\u00e3o. Por outro lado, os pa\u00edses desenvolvidos desperdi\u00e7am mais comida em etapas posteriores na cadeia de suprimentos, sobretudo quando os varejistas encomendam, servem ou exibem produtos demais, ou quando os consumidores ignoram as sobras no fundo da geladeira ou atiram ao lixo alimentos ainda v\u00e1lidos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/msalx.viajeaqui.abril.com.br\/2016\/02\/29\/1214\/5tY2z\/mm8423_150902_0741.jpeg?1456940552\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"395\" \/> <em>Todo ano, cerca de 2,5 milh\u00f5es de toneladas de frutas e legumes nem sequer s\u00e3o colhidas ou postas \u00e0 venda, por motivos est\u00e9ticos, nos Estados Unidos. A empresa Imperfect, da Calif\u00f3rnia, compra os produtos de apar\u00eancia fora do normal e os entrega, a pre\u00e7o mais baixo, para associados. Redes varejistas na Uni\u00e3o Europeia tamb\u00e9m adotaram com \u00eaxito a pr\u00e1tica de oferecer com descontos frutas e legumes de apar\u00eancia estranha. \u201cTrata-se de mudar os crit\u00e9rios est\u00e9ticos, n\u00e3o o paladar\u201d, comenta Ron Clark, fundador da Imperfect &#8211; Foto: Brian Finke<\/em><\/p>\n<p>A perda da comida tem ainda um forte impacto ambiental. A produ\u00e7\u00e3o de alimentos que ningu\u00e9m vai consumir contribui para igual desperd\u00edcio de recursos, como \u00e1gua, fertilizantes, pesticidas, sementes, combust\u00edveis e terras \u2013 em quantidades que n\u00e3o s\u00e3o nada insignificantes. E tais n\u00fameros assustadores nem sequer incluem as perdas ocorridas em fazendas, barcos de pesca e abatedouros. Se o desperd\u00edcio de comida fosse um pa\u00eds, seria o terceiro maior emissor de gases de efeito estufa no mundo, tendo \u00e0 frente somente a China e os Estados Unidos.<\/p>\n<p><strong>Feios. E bons<\/strong><\/p>\n<p>OITENTA QUIL\u00d4METROS ao norte de Lima, no Peru, no vilarejo agr\u00edcola de Huaral, Stuart toma um gole de suco na companhia de Luis Garibaldi, cuja agroempresa, o Fundo Maria Luisa, \u00e9 a maior produtora de tangerinas do pa\u00eds. Ele dispara suas demandas: quanto voc\u00eas exportam? Qual propor\u00e7\u00e3o \u00e9 descartada? Por que motivo? O que acontece com as frutas que n\u00e3o s\u00e3o usadas?<\/p>\n<p>\u201cSetenta por cento da safra\u201d, diz Garibaldi, \u201c\u00e9 vendida \u00e0 Uni\u00e3o Europeia e aos pa\u00edses da Am\u00e9rica do Norte. Mas cerca de 30% n\u00e3o t\u00eam o tamanho, a cor ou a do\u00e7ura adequados ou apresentam marcas, machucados, arranh\u00f5es, queimaduras, fungos ou aranhas.\u201d Quase todos esses frutos rejeitados s\u00e3o vendidos em mercados locais, rendendo para Garibaldi apenas um ter\u00e7o do que proporcionam as frutas exportadas.<\/p>\n<p>Dali seguimos 300 quil\u00f4metros rumo ao sul. Tudo \u00e9 ocre e poeirento at\u00e9 entrarmos em vales verdejantes com planta\u00e7\u00f5es irrigadas \u2013 vi\u00e1veis gra\u00e7as a investimentos externos, acordos comerciais favor\u00e1veis, m\u00e3o de obra barata, clima quente e um aqu\u00edfero que j\u00e1 foi copioso. Na regi\u00e3o de Ica, Stuart conversa com um produtor que todos os anos abandona nos campos milh\u00f5es de talos de aspargos finos ou curvos demais ou com a ponta dos brotos um pouco aberta demais para serem exportados. Em seguida, outro fazendeiro diz a ele que descarta mais de mil toneladas de tangelos ligeiramente imperfeitos e uma centena de toneladas de grapefruit.<\/p>\n<p><strong>Concursos de beleza para frutas e verduras<\/strong><\/p>\n<p>Os crit\u00e9rios de classifica\u00e7\u00e3o foram adotados h\u00e1 muito tempo com o objetivo de dar a cultivadores e compradores uma linguagem comum para a avalia\u00e7\u00e3o dos produtos e para a resolu\u00e7\u00e3o de disputas. Tamb\u00e9m podem contribuir para a redu\u00e7\u00e3o da perda de alimentos. Quando podem classificar aspargos ou tangerinas usando uma tipologia clara, os cultivadores t\u00eam mais condi\u00e7\u00f5es de achar mercados aos produtos de \u201csegunda\u201d. As redes de supermercados sempre tiveram a liberdade de impor os seus pr\u00f3prios crit\u00e9rios; por\u00e9m, nos \u00faltimos anos, os estabelecimentos mais requintados passaram a gerir as se\u00e7\u00f5es de frutas e legumes como se fossem concursos de beleza: ma\u00e7\u00e3s redondas e brilhantes, aspargos retil\u00edneos e com brotos rijos.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 a apar\u00eancia impec\u00e1vel faz o consumidor abrir a carteira\u201d, diz Rick Stein, vice-presidente do setor de alimentos frescos no Instituto de Marketing de Alimentos. Parte dos produtos que n\u00e3o conseguem esse efeito acaba sendo doada a entidades beneficentes ou processada e usada nas bandejas com pratos prontos oferecidas na rotisserie do supermercado, mas em muitos pa\u00edses do mundo a maioria dos alimentos frescos excedentes nos pontos de venda n\u00e3o chega a ser doada nem reciclada. Stuart aplaude as recentes campanhas de supermercados americanos e europeus voltadas para a venda com desconto de frutas e legumes \u201cimperfeitos\u201d, mas ele preferiria uma solu\u00e7\u00e3o mais abrangente. \u201cSeria bem melhor simplesmente afrouxar os crit\u00e9rios\u201d, diz ele, examinando um mar de frutas c\u00edtricas peruanas \u2013 com as mais diversas imperfei\u00e7\u00f5es \u2013, que n\u00e3o contam com nenhum mercado secund\u00e1rio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/msalx.viajeaqui.abril.com.br\/2016\/02\/29\/1214\/5tY2z\/mm8423_150902_1269_final.jpeg?1456761756\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"395\" \/> <em> Em Paris, legumes descartados por serem feios s\u00e3o usados em um cozido para 6 100 adeptos da luta contra o desperd\u00edcio &#8211; Foto: Brian Finke<\/em><\/p>\n<p>DURANTE SETE DIAS, Stuart perambula por campos cultivados e galp\u00f5es de empacotamento, mostra-se incans\u00e1vel em seus questionamentos, coleta dados e prova os produtos rejeitados. Mesmo dormindo menos que o necess\u00e1rio, com a barba por fazer e, \u00e0s vezes, curtindo uma ressaca \u2013 de que vale conhecer um pa\u00eds novo e n\u00e3o experimentar o que se fermenta no local? \u2013, Stuart n\u00e3o dispersa. Em meio ao tr\u00e1fego e \u00e0 polui\u00e7\u00e3o, combina um encontro com um deputado peruano que est\u00e1 tentando derrubar normas fiscais que tornam mais vantajoso jogar fora o alimento do que do\u00e1-lo. Enquanto somos sacudidos de um lado ao outro na estrada cheia de curvas, ele n\u00e3o para de digitar suas demandas em um laptop. Em seguida, prop\u00f5e aos colegas a cria\u00e7\u00e3o, em Lima, de um \u201csop\u00e3o dan\u00e7ante\u201d \u2013 uma refei\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria feita de comida descartada, semelhante ao banquete de Nova York \u2013, a ser realizado dali a quatro dias para um grupo de 50 a 100 pessoas.<\/p>\n<p>A ideia leva-o a disparar uma sequ\u00eancia de liga\u00e7\u00f5es para os conhecidos mais recentes. \u201cVoc\u00ea \u00e9 o m\u00e1ximo\u201d, exclama ele, escandindo as s\u00edlabas. \u201cVoc\u00ea acha que a gente poderia&#8230; Sei que \u00e9 um absurdo da minha parte pedir isso&#8230;\u201d Qual \u00e9 o objetivo do sop\u00e3o dan\u00e7ante, al\u00e9m de <strong>reaproveitar alimentos<\/strong>? Chamar aten\u00e7\u00e3o para o problema e estreitar os la\u00e7os comunit\u00e1rios. Por mais vago que seja isso, no fim a coisa funciona. Ao mesmo tempo que recolhiam a comida, preparavam e serviam os pratos, chefes de cozinha de todas as partes, de Lima a Londres, entraram em contato com organiza\u00e7\u00f5es beneficentes interessadas em aproveitar os excedentes dos restaurantes; empres\u00e1rios da Calif\u00f3rnia bolaram esquemas para impedir que frutas de apar\u00eancia estranha acabassem em aterros sanit\u00e1rios; grupos da sociedade civil levaram adiante planos para a cria\u00e7\u00e3o de uma rede de reaproveitamento de comida no Qu\u00eania; e um cervejeiro belga foi convencido a transformar p\u00e3o velho em cerveja consum\u00edvel.<\/p>\n<p>O sop\u00e3o dan\u00e7ante em Lima parece uma ideia maluca, considerando que Stuart est\u00e1 distante cinco horas da capital peruana, visitando uma planta\u00e7\u00e3o de bananas na Col\u00f4mbia, n\u00e3o disp\u00f5e de sal\u00e3o nem de cozinha, tampouco de recursos ou alimentos. Mas, pelo que se viu no passado, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que tudo d\u00ea certo.<\/p>\n<p>HOJE COM 38 ANOS, Stuart nasceu em Londres, o ca\u00e7ula de tr\u00eas irm\u00e3os. S\u00f3 vivia parte do tempo na cidade, mas, aos 14 anos, passou a morar em tempo integral com o pai numa \u00e1rea rural de East Sussex, onde a sua fam\u00edlia tinha uma grande casa na Floresta Ashdown, que serviu de modelo para a mata no Ursinho Puff. Do outro lado do vale ficava aquela que fora a fazenda dos seus av\u00f3s, uma imensa propriedade, com tantos empregados que, durante a Segunda Guerra Mundial, deu para formar um time de cr\u00edquete capaz de enfrentar o time do vilarejo pr\u00f3ximo. Simon, o pai de Stuart, crescera ali, e as hist\u00f3rias que contava sobre a prosperidade da fazenda haviam encantado o filho ca\u00e7ula.<\/p>\n<p>Simon Stuart foi um talentoso professor de ingl\u00eas e um extraordin\u00e1rio naturalista. \u201cJamais conseguir\u00edamos aprender tudo o que ele sabia\u201d, lembra o filho. \u201cPor isso, meus irm\u00e3os e eu tivemos de dividir as tarefas. Um ficou com as aves; o outro, com as lib\u00e9lulas; e eu me concentrei nos cogumelos.\u201d (Ao jantar uma pizza de 22 d\u00f3lares, de cogumelos silvestres, na noite anterior ao banquete em Nova York, Stuart n\u00e3o poupou o gar\u00e7om. \u201cO card\u00e1pio de voc\u00eas \u00e9 uma m&#8212;-. Eu costumo catar comida no mato. Sei como s\u00e3o os cogumelos de l\u00e1. Estes vieram de uma loja!\u201d)<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/msalx.viajeaqui.abril.com.br\/2016\/02\/29\/1214\/5tY2z\/mm8423_150902_0338_final.jpeg?1456941715\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"395\" \/> <em> Em Apartad\u00f3, na Col\u00f4mbia, o ativista Tristram Stuart examina bananas pequenas, compridas ou curvas demais para os padr\u00f5es do mercado europeu. Os produtores da regi\u00e3o descartam todos os anos milh\u00f5es de toneladas de frutas utiliz\u00e1veis &#8211; Foto: Brian Finke<\/em><\/p>\n<p>Morando a quil\u00f4metros do vilarejo mais pr\u00f3ximo, o pai mantinha uma horta grande, e Stuart contribuiu para a cria\u00e7\u00e3o de porcos e galinhas. Em troca do esterco, Simon cedia ao filho um pouco das verduras. \u201cPortanto, eu tinha ovos e carne, e sa\u00eda com os meus fur\u00f5es para ca\u00e7ar coelhos e cervos\u201d, conta Stuart. A despensa estava quase sempre abastecida. Stuart tinha come\u00e7ado a vender ovos e carne de porco aos pais dos colegas da escola, mas se deu conta de que a compra de ra\u00e7\u00e3o animal o levaria \u00e0 fal\u00eancia. Criou ent\u00e3o uma \u201crota da lavagem\u201d: coletando batatas disformes e bolos estragados do com\u00e9rcio local e da cantina da escola. Com isso, criou uma leitoa, a Gudrun, e viu na pr\u00e1tica quanta comida aproveit\u00e1vel era descartada todo dia no vilarejo.<\/p>\n<p>A consci\u00eancia de Stuart em rela\u00e7\u00e3o ao meio ambiente tornou-se cada vez mais agu\u00e7ada. Aos 12 anos, escreveu um ensaio comparando a queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis ao h\u00e1bito de fumar cigarros \u2013 ambos autodestrutivos e viciantes. Mais tarde, viveu parte do ano em uma fazenda de cria\u00e7\u00e3o de gado na Fran\u00e7a, antes de ir para a Universidade de Cambridge, onde estudou literatura inglesa e sofreu um violento choque ao viver em condi\u00e7\u00f5es que nem de longe lembravam o para\u00edso agroecol\u00f3gico em que havia crescido. A comida na faculdade era preparada \u201csem a menor preocupa\u00e7\u00e3o com as normas de sustentabilidade\u201d, conta. Por isso, juntou-se a outros ativistas no campus, que dividiam com ele a comida descartada pelos supermercados em ca\u00e7ambas. Tamb\u00e9m consumia cidra produzida a partir de ma\u00e7\u00e3s de estranhos, compartilhava os miolos, os ba\u00e7os e as orelhas assados dos leit\u00f5ezinhos gerados por Gudrun, e \u2013 ao descobrir o qu\u00e3o eram saborosos \u2013 ainda passou a ingerir os caramujos recolhidos nos quintais dos amigos.<\/p>\n<p>Stuart chegou a se interessar por teatro, embora, no final, tenha ficado claro que a arte iria \u201cprejudicar o meu objetivo mais importante, que \u00e9 o de salvar o planeta.\u201d Ele j\u00e1 tinha suficiente consci\u00eancia de si e de seu potencial de convencimento. Nessa altura, nem as redes de supermercados nem os \u00f3rg\u00e3os governamentais tinham qualquer tipo de pol\u00edtica relativa ao desperd\u00edcio de alimentos. Mas isso estava a ponto de mudar.<\/p>\n<p>Em 2002, as explora\u00e7\u00f5es de ca\u00e7ambas de lixo por Stuart haviam despertado aten\u00e7\u00e3o suficiente para ajud\u00e1-lo a produzir um document\u00e1rio sobre os excedentes de comida perdidos para um programa na BBC, e para que ativistas do mundo todo o procurassem para inclu\u00ed-lo em projetos de <strong>reaproveitamento de alimentos<\/strong>. (Na \u00e9poca ele estava morando em Londres.) Com bastante dados sobre os pontos da cadeia de produ\u00e7\u00e3o e consumo em que havia mais perda de comida, e os motivos precisos desse desbaratamento, Stuart chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que at\u00e9 seria poss\u00edvel fazer algo a respeito. Assim foram lan\u00e7adas as sementes do seu livro Waste (\u201cDesperd\u00edcio\u201d), no qual investigava as causas e o preju\u00edzo ambiental da dissipa\u00e7\u00e3o alimentar ao redor do globo.<\/p>\n<p>O livro foi um sucesso de cr\u00edtica, mas Stuart sabia muito bem que, devido \u00e0 sua \u00eanfase em dados, ele n\u00e3o seria lido por milh\u00f5es \u2013 e precisava desesperadamente desses milh\u00f5es de pessoas para levar adiante a sua causa. \u201cDa\u00ed surgiu a campanha <em>Feeding the 5,000 <\/em>(\u2018Alimentando os 5 Mil\u2019)\u201d, conta ele, aludindo \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o de Jesus, em Jo\u00e3o 6:12: \u201cRecolhei os peda\u00e7os que sobraram para que nada se perca\u201d. Lan\u00e7ado em 2009, o<em> Feeding the 5,000<\/em> se tornaria o evento principal da iniciativa de Stuart \u2013 um banquete p\u00fablico e gratuito preparado apenas com comida descartada. Tais reuni\u00f5es j\u00e1 foram realizadas em mais de 30 cidades. Milhares de pessoas compartilham a mesa com enorme repercuss\u00e3o na imprensa e nas redes sociais, ampliando o clamor p\u00fablico. Logo Stuart estava fazendo palestras e criticando os elementos mais poderosos do setor aliment\u00edcio, muitos dos quais ele conseguiu colocar na defensiva com as suas atitudes pol\u00eamicas. As redes de supermercados o consideravam \u201cuma pedra no sapato\u201d, diz ele. \u201cE sou mesmo.\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/msalx.viajeaqui.abril.com.br\/2016\/02\/29\/1214\/5tY2z\/mm8423_150902_0561_final.jpeg?1456942313\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"395\" \/> <em> No vale de Salinas, na Calif\u00f3rnia, todos os anos os produtores jogam fora milhares de toneladas de verduras que n\u00e3o resistem ao transporte por caminh\u00e3o atrav\u00e9s do pa\u00eds &#8211; Foto: Brian Finke<\/em><\/p>\n<p>De onde vem essa formid\u00e1vel confian\u00e7a que Stuart tem em si mesmo? Nessa quest\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil exagerar: ele \u00e9 ambicioso, agressivo e narcisista. Mas tamb\u00e9m \u00e9 eloquente, divertido e muito bem informado sobre o tema que mais o preocupa. \u201cBasta ele abrir a boca e a gente j\u00e1 se disp\u00f5e a ajudar\u201d, diz Dana Gunders, uma especialista em desperd\u00edcio de comida. \u201cEle \u00e9 muito bom, n\u00e3o s\u00f3 para despertar nos outros essa paix\u00e3o mas para que a mantenham viva, alistando-se no ex\u00e9rcito mobilizado para enfrentar o problema.\u201d<\/p>\n<p>STUART APROVEITA toda oportunidade para se nutrir com os alimentos menos desej\u00e1veis \u2013 reduzindo assim o volume de comida em lix\u00f5es e se colocando como modelo positivo a ser imitado. Na primeira manh\u00e3 em que passa no Peru, o caf\u00e9 da manh\u00e3 \u00e9 uma por\u00e7\u00e3o de sangue de galinha congelado. \u201cNunca tinha experimentado isso antes\u201d, se vangloria ele, satisfeito. No almo\u00e7o, prova com deleite uma cobaia \u2013 um roedor t\u00edpico dos Andes. No segundo dia, pede tripa de boi. No outro, l\u00edngua de boi e muito pisco.<\/p>\n<p>A dieta proteica parece revigorar Stuart para as suas conversas em planta\u00e7\u00f5es e galp\u00f5es de processamento ao redor de n\u00fameros \u2013 quilos, toneladas, cont\u00eaineres, paletes, percentuais descartados, recuperados, abandonados nos campos. \u00c9 enorme a sua capacidade de digerir tantas min\u00facias. \u201cQuero poder dizer aos europeus que a predile\u00e7\u00e3o deles por aspargos com ponta fechada equivale \u00e0 inutiliza\u00e7\u00e3o de tantos milh\u00f5es de hectares de terras, tantos milh\u00f5es de litros de \u00e1gua e tantos milh\u00f5es de quilos de fertilizante.\u201d<\/p>\n<p><strong>Como alimentar mais 9 bilh\u00f5es de pessoas at\u00e9 2050?<\/strong><\/p>\n<p>Com os governos alarmados com a perspectiva de alimentar mais de 9 bilh\u00f5es de pessoas at\u00e9 2050, uma argumenta\u00e7\u00e3o corrente prev\u00ea a necessidade de um aumento na ordem de 70% a 100% da produ\u00e7\u00e3o global de alimentos. Todavia, a agricultura j\u00e1 representa uma das maiores amea\u00e7as ao equil\u00edbrio ambiental do planeta. Em termos globais, ela responde por 70% da retirada de \u00e1gua doce, por 80% do desmatamento nas regi\u00f5es tropicais e subtropicais, e por 30% a 35% das emiss\u00f5es de gases do efeito estufa resultantes de atividades humanas. Com o crescimento demogr\u00e1fico e, nos pa\u00edses emergentes, com o maior consumo de carne e latic\u00ednios \u2013 cuja produ\u00e7\u00e3o requer enorme quantidade de cereais e outros recursos em troca de um ganho cal\u00f3rico pequeno \u2013, esse impacto s\u00f3 tende a piorar. No entanto, talvez n\u00e3o seja mais t\u00e3o necess\u00e1ria a convers\u00e3o de mata nativa em planta\u00e7\u00f5es, de acordo com alguns especialistas. Se diminuirmos o desperd\u00edcio, adotarmos uma dieta com menos carne e latic\u00ednios, desviarmos menos vegetais para a produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis e aumentarmos a produtividade em regi\u00f5es cujo desempenho est\u00e1 abaixo do normal, ent\u00e3o talvez sejamos capazes de nutrir mais de 9 bilh\u00f5es de pessoas com uma dieta saud\u00e1vel, sem destruir mais as florestas tropicais e os campos naturais.<\/p>\n<p>Stuart nunca perde de vista esse horizonte mais amplo, mas sabe muito bem que as mudan\u00e7as de paradigma ocorrem aos poucos. Por isso agora est\u00e1 de p\u00e9 no deserto, atr\u00e1s do galp\u00e3o de empacotamento em Ica, tentando convencer Luis Torres, o gerente-geral da Shuman Produce Peru. Sem dispor de mercado local que absorva os produtos que n\u00e3o consegue exportar, Torres \u00e9 obrigado, todos os anos, a jogar fora 1 500 toneladas de cebolas que s\u00e3o pequenas demais ou insuficientemente redondas. Mas ele reluta em responsabilizar os seus clientes por tal preju\u00edzo. \u201cSe eu reclamar, a rede de supermercados vai comprar de outro produtor\u201d, diz ele, dando de ombros. \u201cSou um sujeito pragm\u00e1tico. N\u00e3o tenho como mudar as regras.\u201d Diante dele, com as pernas afastadas e os bra\u00e7os cruzados, Stuart replica: \u201cMas eu posso fazer isso\u201d.<\/p>\n<p>TR\u00caS ANOS ATR\u00c1S, Stuart passou uma semana circulando pelo interior do Qu\u00eania, correndo atr\u00e1s de ingredientes para um jantar formal em Nair\u00f3bi, no qual o Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) iria destacar o problema das perdas alimentares. A 150 quil\u00f4metros da capital, conheceu um produtor que, devido aos padr\u00f5es cosm\u00e9ticos europeus, tinha de rejeitar 40 toneladas semanais de vagem, br\u00f3colis, ervilha e feijoca \u2013 comida suficiente para alimentar 250 mil pessoas. Antes que decorresse um ano, Stuart e uma equipe de cinegrafistas voltou ao Qu\u00eania e constatou que os produtores estavam abandonando nos campos e nos galp\u00f5es de empacotamento quase metade da safra, com os cultivadores de vagens perdendo ainda mais por serem obrigados a cortar ambas as pontas e o cabo das vagens remanescentes. Igualmente rotineiro, da parte dos supermercados, era o cancelamento de encomendas no \u00faltimo instante, sem qualquer tipo de compensa\u00e7\u00e3o aos produtores. Depois que a organiza\u00e7\u00e3o Feedback divulgou as imagens de vagens rejeitadas e acusou as grandes redes de transferirem os seus custos aos produtores, os comerciantes brit\u00e2nicos tornaram-se mais receptivos \u00e0 ideia de mudar tais pr\u00e1ticas. Por fim, concordaram em arcar com o custo do cancelamento das encomendas e em aumentar o tamanho das embalagens, o que permitiu que as vagens fossem aparadas apenas numa das pontas. Com isso, menos alimentos e menos recursos s\u00e3o agora desperdi\u00e7ados.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio publicado pela Feedback em 2015 sobre as vagens quenianas foi apenas mais uma conquista em um ano marcante. No final de 2015, a ONU e os Estados Unidos haviam se comprometido a reduzir pela metade a perda de alimentos at\u00e9 2030. N\u00e3o foram explicitados os detalhes das medidas que v\u00e3o permitir esse objetivo ambicioso. Mas pa\u00edses e empresas come\u00e7aram a discutir e adotar normas padronizadas para quantificar esse desperd\u00edcio. Se o objetivo for alcan\u00e7ado, haver\u00e1 uma economia de comida suficiente para alimentar pelo menos 1 bilh\u00e3o de pessoas.<\/p>\n<p>EM UMA NEBULOSA TARDE de quinta-feira de setembro, Stuart cruza a passos largos um campo no norte da Fran\u00e7a. Enfia a m\u00e3o em um monte de terra e extrai v\u00e1rias batatas de pele fina, que, pequenas, haviam passado pelas garras da colheitadeira mec\u00e2nica. Durante hora e meia, ele e um grupo de catadores vasculham a terra fofa. A meta \u00e9 juntar meia tonelada de batatas para o <em>Feeding the 5,000 <\/em>que vai ser realizado, no domingo seguinte, no local central do ativismo c\u00edvico de Paris, a majestosa Place de la R\u00e9publique.<\/p>\n<\/div>\n<p>Fonte: National Geographic Brasil &#8211;\u00a0 <span class=\"post-source\"><i>Elizabeth Royte<\/i><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frutas e legumes jogados no lixo poderiam salvar o planeta da amea\u00e7a da fome Cerca<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Frutas e legumes jogados no lixo poderiam salvar o planeta da amea\u00e7a da fome Cerca","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38720"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=38720"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38720\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=38720"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=38720"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=38720"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}