{"id":38675,"date":"2016-03-11T21:37:33","date_gmt":"2016-03-12T00:37:33","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=38675"},"modified":"2016-03-11T21:38:35","modified_gmt":"2016-03-12T00:38:35","slug":"entendendo-o-passado-sem-aclarar-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entendendo-o-passado-sem-aclarar-o-futuro\/","title":{"rendered":"Entendendo o passado, sem aclarar o futuro"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_194646\" class=\"wp-caption alignright\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-194646\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/aguaonu.jpg\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/aguaonu-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/aguaonu.jpg 768w\" alt=\"Fundo do A\u00e7ude Carnaubal que abastecia a cidade de Crate\u00fas, no Cear\u00e1. Foto: Fernando Fraz\u00e3o\/ Ag\u00eancia Brasil (05\/03\/2015)\" width=\"340\" height=\"227\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Fundo do A\u00e7ude Carnaubal que abastecia a cidade de Crate\u00fas, no Cear\u00e1. Foto: Fernando Fraz\u00e3o\/ Ag\u00eancia Brasil (05\/03\/2015)<\/p>\n<\/div>\n<p><em>Muitas not\u00edcias nos jornais e na televis\u00e3o t\u00eam tratado nos \u00faltimos dias da quest\u00e3o da \u00e1gua na Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo (20 milh\u00f5es de habitantes) ou no munic\u00edpio da capital (11,96 milh\u00f5es). O foco \u00e9 o anunciado fim pr\u00f3ximo da escassez, com muitas obras que aumentaram o volume captado, at\u00e9 no Sul do Estado, e transposto para a capital a elevados custos.<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Por Washington Novaes*<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Sempre \u00e9 interessante verificar o que se pensava h\u00e1 uma d\u00e9cada dos temas hoje centrais \u2013 embora o escritor Pedro Nava advirta que a experi\u00eancia \u00e9 como o farol de um autom\u00f3vel virado para tr\u00e1s: ilumina o trajeto percorrido, mas n\u00e3o aclara o futuro. Mesmo porque, como t\u00eam afirmado outros pensadores, a velocidade das tecnologias e da informa\u00e7\u00e3o hoje mostra que o que levava um s\u00e9culo para acontecer agora acontece em uma d\u00e9cada; o que levava uma d\u00e9cada pode acontecer em um ano; e pode at\u00e9 n\u00e3o acontecer nada, porque a in\u00e9rcia de administradores p\u00fablicos e da pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o paralisa todos, com frequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Revendo textos publicados neste espa\u00e7o h\u00e1 uma d\u00e9cada ou pouco mais pelo autor destas linhas mostra, por exemplo, como ainda continuam presentes temas como corrup\u00e7\u00e3o em obras p\u00fablicas, inadequa\u00e7\u00e3o de megaempreendimentos, insist\u00eancia em projetos j\u00e1 condenados por tecnologias modernas ou pela Justi\u00e7a. \u00c9 o caso, por exemplo, do projeto de transposi\u00e7\u00e3o de \u00e1guas do Rio S\u00e3o Francisco (tratado neste espa\u00e7o em 24\/11\/2006) para outras \u00e1reas do Semi\u00e1rido, quando as \u00e1guas do grande rio j\u00e1 n\u00e3o bastam sequer para atender \u00e0s regi\u00f5es historicamente supridas \u2013 porque a devasta\u00e7\u00e3o do Cerrado baixou muito o fluxo para o S\u00e3o Francisco, porque os custos da transposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o param de crescer, etc. Recursos h\u00eddricos foram tema muito frequente em 2006.<\/p>\n<p>Um exemplo desses temas de uma d\u00e9cada atr\u00e1s (5\/5\/2006) \u00e9 o esquecido Cerrado, \u201cprimo pobre dos biomas brasileiros\u201d, ou \u201cuma floresta de cabe\u00e7a para baixo\u201d, como dizia o s\u00e1bio escritor Carmo Bernardes \u2013 porque, ao contr\u00e1rio da Floresta Amaz\u00f4nica, o Cerrado tem a maior parte de sua biomassa debaixo da terra; e porque ali, no subsolo, nascem 14% das \u00e1guas brasileiras, que chegam com seu fluxo a todas as grandes bacias \u2013 amaz\u00f4nica, do Paran\u00e1 e do S\u00e3o Francisco. Agora, afirma o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, o Cerrado s\u00f3 tem estocada \u00e1gua equivalente a tr\u00eas anos dos seus fluxos; uma estiagem forte pode ter consequ\u00eancias graves.<\/p>\n<p>Outro exemplo \u00e9 o da usina nuclear de Angra 3 (tamb\u00e9m tratado aqui em 24\/11\/2006) \u2013 caso em que especialistas no mundo todo n\u00e3o se cansam de advertir para o alt\u00edssimo risco de acidentes em usinas nucleares, com custos desastrosos (inclusive em vidas humanas), e para as evid\u00eancias de desvio de recursos de alto porte. Mas a obra continua a\u00ed, frequentando os meios de comunica\u00e7\u00e3o. Uma terceira evid\u00eancia \u00e9 a defasagem da matriz energ\u00e9tica brasileira, que, no momento em que o mundo se volta para as energias renov\u00e1veis (mais eficazes, mais baratas em grande parte), insiste em termoel\u00e9tricas de alto custo, hidrel\u00e9tricas em meio ao bioma amaz\u00f4nico (inconvenientes, problem\u00e1ticas); e muito mais, principalmente a insist\u00eancia no consumo de combust\u00edveis f\u00f3sseis, caros e altamente poluidores, afetando o clima (objeto de v\u00e1rios artigos no mesmo ano).<\/p>\n<p>J\u00e1 h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, tema muito presente foi o da inadequa\u00e7\u00e3o dos crit\u00e9rios de avalia\u00e7\u00e3o do estado do mundo em v\u00e1rias \u00e1reas (15\/8\/2006 e outras datas), influenciados apenas por premissas econ\u00f4micas, sem olhar para aspectos sociais e culturais. Lembravam-se, na ocasi\u00e3o, as palavras do economista Celso Furtado, para quem grande parte das hip\u00f3teses globais das quais partem economistas s\u00e3o \u201cequivocadas\u201d, porque formuladas \u201ca partir da observa\u00e7\u00e3o do comportamento dos agentes que controlam os centros principais do poder; n\u00e3o interessa saber se aqueles que o exercem derivam sua autoridade do consenso, das maiorias ou da intera\u00e7\u00e3o de formatos sociais que se controlam mutuamente (\u2026) e por isso as decis\u00f5es podem ser equivocadas, inadequadas ou em desacordo com os interesses sociais\u201d. E a partir desses pressupostos, \u201cexamina o economista os crit\u00e9rios sobre investimentos ou de avalia\u00e7\u00e3o do produto interno bruto (PIB) que n\u00e3o levam em considera\u00e7\u00e3o recursos e servi\u00e7os naturais. (\u2026) Como ignorar o custo da destrui\u00e7\u00e3o dos recursos naturais n\u00e3o renov\u00e1veis, do solo, das florestas, da polui\u00e7\u00e3o das \u00e1guas?\u201d.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que Celso Furtado assim descrevia o panorama, lembrava-se tamb\u00e9m a ironia de Jos\u00e9 Lutzemberger, que dizia n\u00e3o haver nada melhor para o crescimento do PIB que um terremoto, que n\u00e3o leva em conta a destrui\u00e7\u00e3o e contabiliza toda a reconstru\u00e7\u00e3o. Depois disso, citava-se no artigo o economista J. K. Galbraith, para quem \u201cnos anos \u00e0 frente deve haver algum procedimento pelo qual a ONU fortalecida suspenda a soberania de pa\u00edses cujos governos estejam destruindo seus povos.\u201d Mas ele tamb\u00e9m n\u00e3o acertou, at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p>E assim vai esse olhar retrospectivo, mergulhando em muitas quest\u00f5es sem resposta adequada at\u00e9 hoje. As quest\u00f5es planet\u00e1rias da \u00e1gua, por exemplo (7\/4\/2006), que come\u00e7avam quando se lembra que 10% da humanidade ainda n\u00e3o recebe \u00e1gua tratada de boa qualidade e 2,5 bilh\u00f5es de pessoas n\u00e3o disp\u00f5em de saneamento b\u00e1sico. Que mudou?<br \/>\nOs n\u00fameros est\u00e3o a\u00ed, com os avan\u00e7os no setor equivalendo apenas aos aumentos da popula\u00e7\u00e3o. No Brasil tamb\u00e9m os problemas continuam praticamente nos mesmo n\u00edveis: 10% sem \u00e1gua, quase 40% sem liga\u00e7\u00e3o das suas casas com as redes de esgotos.<\/p>\n<p>E as quest\u00f5es do aqu\u00edfero, esse gigantesco dep\u00f3sito de \u00e1guas subterr\u00e2neas (mais de 40 trilh\u00f5es de metros c\u00fabicos), mas que enfrenta quest\u00f5es delicadas, embora j\u00e1 abaste\u00e7a, por exemplo, cerca de 400 cidades s\u00f3 no Estado de S\u00e3o Paulo (Ribeir\u00e3o Preto \u00e9 uma delas, que s\u00f3 recebe \u00e1guas subterr\u00e2neas). No pa\u00eds das \u00e1guas (12% das \u00e1guas superficiais do planeta), temos problemas como esses.<\/p>\n<p>Pedro Nava tem raz\u00e3o.<em> (O Estado de S. Paulo\/ #Envolverde)<\/em><\/p>\n<p><em>* <strong>Washington Novaes<\/strong> \u00e9 jornalista.<\/em><\/p>\n<p>Fonte: Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fundo do A\u00e7ude Carnaubal que abastecia a cidade de Crate\u00fas, no Cear\u00e1. 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