{"id":386,"date":"2014-05-24T13:41:39","date_gmt":"2014-05-24T13:41:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rguedesphotos.com\/espacoecologiconoar\/?p=386"},"modified":"2014-06-01T16:27:51","modified_gmt":"2014-06-01T16:27:51","slug":"crise-alimentar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/crise-alimentar\/","title":{"rendered":"Crise alimentar"},"content":{"rendered":"<h2 align=\"justify\">\u201cErradicar a fome n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma necessidade imperiosa, se queremos ter um futuro\u201d<\/h2>\n<div align=\"justify\"><em>Por Reda\u00e7\u00e3o do IHU On-Line<\/em><\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/fomecapa.jpg\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/fomecapa-300x286.jpg\" alt=\" \" width=\"300\" height=\"286\" \/><\/a><\/p>\n<p align=\"justify\"><em>\u201cA crise alimentar provocou, em 2008, revoltas em mais de 50 pa\u00edses. Hoje, o aumento nos pre\u00e7os dos alimentos est\u00e1 novamente contribuindo para a instabilidade pol\u00edtica no mundo\u201d, afirma o diretor da C\u00e1tedra de Estudos sobre a Fome e a Pobreza \u2013 CEHAP da Universidade de C\u00f3rdoba, Espanha, Jos\u00e9 Esquinas-Alc\u00e1zar.<\/em><\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cA fome e a pobreza s\u00e3o o caldo de cultivo no qual crescem problemas que tanto preocupam o Ocidente, como a migra\u00e7\u00e3o ilegal e a viol\u00eancia internacional. Quando, em consequ\u00eancia da fome e da pobreza, o valor da vida humana em muitos pa\u00edses pobres \u00e9 quase desprez\u00edvel e quando o risco de embarcar num barco \u00e9 menor que o de ficar em casa, a decis\u00e3o est\u00e1 tomada\u201d, destaca o professor Jos\u00e9 Esquinas-Alc\u00e1zar.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cA FAO anunciou, em 2007, que o aumento dos pre\u00e7os de alimentos poderia levar a um aumento nos conflitos globais. De fato, a crise alimentar provocou, somente em 2008, revoltas em mais de 50 pa\u00edses e a consequente queda de v\u00e1rios governos. Hoje, o aumento nos pre\u00e7os dos alimentos est\u00e1 novamente contribuindo para a instabilidade pol\u00edtica em diferentes partes do mundo\u201d, complementa.<\/p>\n<p align=\"justify\">O pesquisador lembra que mesmo o F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial de Davos incluiu h\u00e1 alguns anos a inseguran\u00e7a alimentar entre os riscos mais graves \u00e0 humanidade, pois n\u00e3o afeta mais apenas aqueles que sofrem diretamente com o flagelo da fome. Por estarmos em um mundo interconectado pela informa\u00e7\u00e3o e pela tecnologia, em que o capital e a divis\u00e3o do trabalho se organizam em escala global, no qual somos todos interdependentes um dos outros e dependentes da natureza, a seguran\u00e7a alimentar se torna um dos principais pilares da paz e da seguran\u00e7a mundial. \u201cNossos destinos est\u00e3o unidos, e o destino \u00e9 comum: ou nos salvamos todos ou podemos perecer juntos. O que no passado n\u00e3o soubemos fazer ou quer\u00edamos fazer movidos pela caridade ou pela solidariedade, hoje teremos que fazer, mesmo que seja por ego\u00edsmo inteligente\u201d, frisa ele na entrevista a seguir, concedida por e-mail \u00e0 IHU On-Line.<\/p>\n<p align=\"justify\">Jose Esquinas-Alc\u00e1zar \u00e9 doutor em Engenharia Agr\u00f4noma pela Universidade Polit\u00e9cnica de Madri, na Espanha, al\u00e9m de mestre em Horticultura e doutor em Gen\u00e9tica pela Universidade da Calif\u00f3rnia, Estados Unidos. Trabalhou na Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura \u2013 FAO por 30 anos, lidando com temas como recursos gen\u00e9ticos, biodiversidade agr\u00edcola, coopera\u00e7\u00e3o internacional, \u00e9tica na alimenta\u00e7\u00e3o e agricultura. Atualmente \u00e9 professor titular da Universidade Polit\u00e9cnica de Madri e diretor da C\u00e1tedra de Estudos sobre a Fome e a Pobreza \u2013 CEHAP da Universidade de C\u00f3rdoba, Espanha.<\/p>\n<p align=\"justify\">O professor Jos\u00e9 Esquinas-Alc\u00e1zar far\u00e1 a confer\u00eancia de abertura no XV Simp\u00f3sio Internacional IHU. Alimento e Nutri\u00e7\u00e3o no contexto dos Objetivos de Desenvolvimento do Mil\u00eanio, \u00e0s 18h30min desta segunda-feira, 05-05-2014. Tamb\u00e9m presidir\u00e1 a mesa-redonda Sociobiodiversidade: A riqueza planet\u00e1ria para a Seguran\u00e7a alimentar e nutricional, \u00e0s 9 horas do dia 06-05-2014.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Confira a entrevista:<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>IHU On-Line \u2013 Por que ainda morrem 40 mil pessoas por dia no mundo em consequ\u00eancia da fome? N\u00e3o produzimos uma quantidade suficiente para alimentar a popula\u00e7\u00e3o mundial ou \u00e9 a distribui\u00e7\u00e3o de alimentos que \u00e9 feita de maneira desequilibrada?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Jos\u00e9 Esquinas-Alc\u00e1zar <\/strong>&#8211; O que realmente \u00e9 paradoxal e indignante \u00e9 que a fome n\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia, como acreditam muitos, da falta de alimentos. Hoje, segundo dados da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura \u2013 FAO, h\u00e1 alimentos no mundo para alimentar folgadamente a popula\u00e7\u00e3o mundial. Os alimentos est\u00e3o no mercado internacional, mas n\u00e3o chegam \u00e0s mesas nem \u00e0s bocas dos que t\u00eam fome. Em outras palavras, o problema n\u00e3o \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, mas o acesso aos mesmos. O problema \u00e9, essencialmente, de \u00edndole pol\u00edtica. Isto foi reconhecido explicitamente h\u00e1 mais de 50 anos por um grande presidente dos Estados Unidos. Em 1963, John F. Kennedy, em seu discurso no primeiro Congresso Mundial de Alimentos, disse: \u201cEm nossa gera\u00e7\u00e3o temos os meios e a capacidade de eliminar a fome da face da Terra. Necessitamos, para tanto, apenas de vontade pol\u00edtica\u201d. Se h\u00e1 50 anos j\u00e1 existiam os meios e a capacidade para acabar com a fome, imagine hoje! No entanto, continua faltando vontade pol\u00edtica para isso.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Os dados falam:<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">No mesmo dia em que morrem de fome 40 mil pessoas, por exemplo, o mundo gasta quatro bilh\u00f5es de d\u00f3lares em armamentos, ou seja, 100 mil d\u00f3lares por morto, o que teria permitido alimentar o morto, ao pre\u00e7o dos alimentos nos pa\u00edses em que morrem, durante mais de 100 anos. Em 1953, outro grande presidente norte-americano, Dwight D. Eisenhower, em seu discurso \u201cOportunidades para a paz\u201d, denunciava: \u201cCada fuzil fabricado, cada barco de guerra constru\u00eddo, cada bomba que se joga, significam, em \u00faltima inst\u00e2ncia, um roubo daqueles que t\u00eam fome e n\u00e3o t\u00eam comida\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Observemos tamb\u00e9m como se encontraram rapidamente fundos ingentes para que os bancos pudessem fazer frente \u00e0 atual crise financeira; 2% dos fundos empregados desde 2010 no mundo, para salvar bancos, teriam bastado para resolver o problema da fome no mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O or\u00e7amento ordin\u00e1rio da FAO, a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas cujo objetivo principal \u00e9 acabar com a fome no mundo, para dois anos \u00e9 o equivalente ao que dois pa\u00edses desenvolvidos gastam com comida para cachorros e gatos em uma semana. O or\u00e7amento ordin\u00e1rio da FAO de 10 anos \u00e9 o equivalente ao que o mundo gasta em armamentos em apenas um dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Observe a energia, decis\u00e3o e efic\u00e1cia com que a humanidade e, sobretudo, os pa\u00edses desenvolvidos enfrentaram recentemente pandemias muito menos mortais que a fome, mas contagiosas, como a gripe avi\u00e1ria, a febre su\u00edna ou, mais recentemente, a gripe A. No entanto, o n\u00famero de mortos pela gripe A, no mundo, durante estes anos foi da ordem de 17 mil pessoas; menos da metade dos que morrem em um s\u00f3 dia de fome.<\/p>\n<p align=\"justify\">Embora seja verdade que a fome n\u00e3o \u00e9 contagiosa, ela \u00e9 sumamente perigosa. A fome constitui uma bomba-rel\u00f3gio, que pode explodir a qualquer momento e n\u00e3o podemos permitir-nos a miopia pol\u00edtica de ignorar isso.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>IHU On-Line \u2013 Que estrat\u00e9gias de coopera\u00e7\u00e3o e \u00e9tica podem ser desenvolvidas para eliminar a fome?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Jos\u00e9 Esquinas-Alc\u00e1zar &#8211;<\/strong> As estrat\u00e9gias aplicadas no s\u00e9culo passado baseadas nas receitas \u00fanicas, no produtivismo, no mercado mundial e na padroniza\u00e7\u00e3o demonstraram sua falta de efic\u00e1cia. Permita-me desenvolver alguns pontos para um novo enfoque, baseado na experi\u00eancia e na \u00e9tica:<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>1) N\u00e3o existem solu\u00e7\u00f5es \u00fanicas, nem receitas universais<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A situa\u00e7\u00e3o de cada pa\u00eds, considerando sua hist\u00f3ria e cultura, suas condi\u00e7\u00f5es edafoclim\u00e1ticas [relacionadas ao clima, relevo, humidade do ar, tipo de solo, vento e precipita\u00e7\u00e3o pluvial] e socioecon\u00f4micas, a evolu\u00e7\u00e3o da sua popula\u00e7\u00e3o, ou seu grau e tipo de desenvolvimento, s\u00e3o diferentes e, portanto, diferentes devem ser as solu\u00e7\u00f5es para os seus problemas agr\u00edcolas e alimentares.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tentar impor um \u00fanico tipo de agricultura \u00e9 irrespons\u00e1vel e irrealista, e, al\u00e9m disso, com frequ\u00eancia chegou a situa\u00e7\u00f5es de n\u00e3o sustentabilidade ecol\u00f3gica e degrada\u00e7\u00e3o social. A diversidade de sistemas agr\u00edcolas deve ser protegida e incentivada como um valor positivo e um importante amortecedor em \u00e9pocas de mudan\u00e7as.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>2) Reconhecimento do valor dos diferentes usos da agricultura<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A agricultura n\u00e3o pode ser considerada como mero exerc\u00edcio econ\u00f4mico. A agricultura, al\u00e9m de produzir alimentos \u2013 ra\u00e7\u00e3o, fibras, biocombust\u00edveis, medicamentos e plantas ornamentais \u2013, tem outras fun\u00e7\u00f5es essenciais: social, ambiental, de estabilidade cultural, etc., de dif\u00edcil contabilidade econ\u00f4mica e que muitas vezes s\u00e3o consideradas como \u201cexternalidades\u201d do sistema. Esta \u00e9 uma das causas pelas quais os pre\u00e7os e os \u201cvalores\u201d dos produtos agr\u00edcolas n\u00e3o necessariamente se correspondem. Isso constitui tamb\u00e9m uma importante dificuldade para avaliar a rela\u00e7\u00e3o custos\/benef\u00edcios das atividades agr\u00e1rias e da efic\u00e1cia comparativa entre os diferentes tipos de agricultura. Faz-se necess\u00e1rio, por isso, introduzir em nosso sistema econ\u00f4mico os indicadores, corre\u00e7\u00f5es e elementos necess\u00e1rios para poder integrar nas an\u00e1lises e avalia\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas todos os custos e benef\u00edcios, incluindo, naturalmente, os n\u00e3o \u201cmonet\u00e1rios\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>3) Investimento em agricultura e coopera\u00e7\u00e3o internacional<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Segundo o Banco Mundial, o crescimento do setor agr\u00edcola elimina ao menos duas vezes mais a pobreza do que fazem id\u00eanticos n\u00edveis de crescimento em qualquer outro setor econ\u00f4mico. \u00c9 importante, portanto, investir em agricultura para combater a fome e a marginaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. N\u00e3o esque\u00e7amos que a agricultura segue sendo o principal setor produtivo nos \u00faltimos anos nos pa\u00edses mais pobres do mundo, o qual emprega mais de 65% da sua popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa e \u00e9 respons\u00e1vel, em m\u00e9dia, por mais de 25% do Produto Interno Bruto \u2013 PIB.<\/p>\n<p align=\"justify\">No entanto, a participa\u00e7\u00e3o da agricultura na Assist\u00eancia Oficial ao Desenvolvimento \u2013 AOD reduziu-se de 29%, em 1980, para 3% em 2006, e agora se situa em torno de 5%.<\/p>\n<p align=\"justify\">A hist\u00f3ria tamb\u00e9m nos diz que pa\u00edses como a \u00cdndia ou o Vietn\u00e3, que protegeram seu desenvolvimento agr\u00edcola dos mercados internacionais, conseguiram redu\u00e7\u00f5es substanciais na pobreza agr\u00edcola.<\/p>\n<p align=\"justify\">Investir para conseguir a independ\u00eancia de alimentos foi, justamente, o enfoque que, a partir de 1945, ajudou a Europa do p\u00f3s-guerra a conseguir a soberania alimentar em menos de 20 anos. Cada pa\u00eds deveria dotar-se dos meios para alimentar a si mesmo. Isto significa que \u00e9 essencial que a agricultura se converta em uma prioridade internacional e os pa\u00edses mais pobres sejam ajudados a garantir a seguran\u00e7a e a independ\u00eancia de seu pr\u00f3prio abastecimento de alimentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">A FAO considera que, com o objetivo de alcan\u00e7ar o n\u00edvel de investimento em agricultura necess\u00e1rio para enfrentar a situa\u00e7\u00e3o atual de fome e m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio que:<\/p>\n<p align=\"justify\">a) A parte da AOD destinada \u00e0 agricultura chegue aos 44 bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano, voltando, assim, ao n\u00edvel inicial que permitiu, na d\u00e9cada de 1970, evitar a fome na \u00c1sia e na Am\u00e9rica Latina;<\/p>\n<p align=\"justify\">b) Os gastos or\u00e7ament\u00e1rios destinados \u00e0 agricultura em pa\u00edses de baixos ingressos e com d\u00e9ficit de alimentos \u2013 que, atualmente, representam cerca de 5% \u2013 deveriam ser aumentados para atingir um m\u00ednimo de 10%;<\/p>\n<p align=\"justify\">c) O investimento privado nacional e estrangeiro, pr\u00f3ximo, atualmente, dos 140 bilh\u00f5es de d\u00f3lares anuais, deveria subir para 200 bilh\u00f5es de d\u00f3lares ao ano.<\/p>\n<p align=\"justify\">Estes n\u00fameros podem parecer altos, mas recordemos que os pa\u00edses da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico \u2013 OCDE proporcionam uma ajuda equivalente a cerca de 365 bilh\u00f5es de d\u00f3lares anuais aos seus agricultores.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>4) Combater a especula\u00e7\u00e3o nos pre\u00e7os agr\u00edcolas. Regula\u00e7\u00e3o do mercado de alimentos na Bolsa de Valores<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Uma s\u00e9rie de estudos atribui \u00e0 especula\u00e7\u00e3o at\u00e9 30% do aumento dos pre\u00e7os dos cereais no mercado internacional, em 2008. A especula\u00e7\u00e3o exacerbada pelas medidas de liberaliza\u00e7\u00e3o dos mercados de futuros de produtos agr\u00edcolas em um contexto de crise econ\u00f4mica e financeira permitiu a transforma\u00e7\u00e3o dos instrumentos de arbitragem do risco em produtos financeiros especulativos que substituem outros investimentos menos rent\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\">Este problema exige solu\u00e7\u00f5es \u00e9ticas e urgentes, entre as quais deve-se considerar a possibilidade de tirar os alimentos da Bolsa de Valores. Tamb\u00e9m com o objetivo de reduzir a especula\u00e7\u00e3o, \u00e9 importante evitar os monop\u00f3lios e monitorar as grandes cadeias de alimenta\u00e7\u00e3o. Para reduzir a volatilidade dos pre\u00e7os e enfrentar a especula\u00e7\u00e3o nos mercados de futuros de produtos agr\u00edcolas, pode contribuir a introdu\u00e7\u00e3o de novas medidas de transpar\u00eancia e regulamenta\u00e7\u00e3o que permitam aos poderes p\u00fablicos influir nos pre\u00e7os dos alimentos b\u00e1sicos. Assim como aumentar o armazenamento de produtos agr\u00edcolas e alimentares e sua libera\u00e7\u00e3o na medida em que os pre\u00e7os disparem.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>5) Biocombust\u00edveis<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Atualmente, as subven\u00e7\u00f5es e prote\u00e7\u00f5es alfandeg\u00e1rias a favor dos biocombust\u00edveis t\u00eam o efeito de desviar cerca de 120 milh\u00f5es de toneladas de cereais do consumo humano para o setor dos transportes. Para reduzir esse impacto, \u00e9 importante e urgente regular e desacelerar, ao menos temporariamente, a produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis, especialmente aqueles de primeira gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>6) Reduzir a dist\u00e2ncia das cadeias alimentares com a finalidade de reduzir custos energ\u00e9ticos e econ\u00f4micos<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Para isso, pode contribuir a aproxima\u00e7\u00e3o entre os centros de produ\u00e7\u00e3o e de consumo, promovendo o aumento da produ\u00e7\u00e3o local e o consumo de produtos locais e estacionais.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>IHU On-Line \u2013 Em entrevista ao jornalista Gumersindo Lafuente, publicada pelo jornal El Pa\u00eds em junho de 2011, disseste que \u201ca caridade deve ser substitu\u00edda pelo ego\u00edsmo inteligente\u201d. De que forma esta declara\u00e7\u00e3o est\u00e1 relacionada com a preserva\u00e7\u00e3o da Terra?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Jos\u00e9 Esquinas-Alc\u00e1zar<\/strong> \u2013 A fome e a pobreza s\u00e3o o caldo de cultivo no qual crescem problemas que tanto preocupam o Ocidente, como a migra\u00e7\u00e3o ilegal e a viol\u00eancia internacional. Quando, em consequ\u00eancia da fome e da pobreza, o valor da vida humana em muitos pa\u00edses pobres \u00e9 quase desprez\u00edvel e quando o risco de embarcar num barco \u00e9 menor que o de ficar em casa, a decis\u00e3o est\u00e1 tomada.<\/p>\n<p align=\"justify\">A FAO anunciou, em 2007, que o aumento dos pre\u00e7os de alimentos poderia levar a um aumento nos conflitos globais. De fato, a crise alimentar provocou, somente em 2008, revoltas em mais de 50 pa\u00edses e a consequente queda de v\u00e1rios governos. Hoje, o aumento nos pre\u00e7os dos alimentos est\u00e1 novamente contribuindo para a instabilidade pol\u00edtica em diferentes partes do mundo, incluindo o Meio Leste. Em 2009, o relat\u00f3rio do F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial de Davos incluiu pela primeira vez a inseguran\u00e7a alimentar como um risco importante para a humanidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">Num mundo t\u00e3o inter-relacionado e interdependente como o atual, a fome passou de flagelo para os que a sofrem a um perigo para toda a humanidade. Sem seguran\u00e7a alimentar n\u00e3o h\u00e1, nem poder\u00e1 haver nunca, paz, nem seguran\u00e7a mundial.<\/p>\n<p align=\"justify\">Atualmente, no s\u00e9culo XXI, erradicar a fome em nossa pequena Aldeia Global n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma necessidade imperiosa, se queremos ter um futuro. Estamos em uma pequena astronave, a aeronave Terra. Estamos a\u00ed, literalmente, dando voltas, com recursos limitados e perec\u00edveis; com uma interdepend\u00eancia cada vez maior. Se vier a acontecer que essa astronave ou essa nave ou esse barco sofra um buraco, tanto faz se o buraco se deu na \u00cdndia, na \u00c1frica, no Brasil, nos Estados Unidos ou na Espanha; todos afundaremos. Nossos destinos est\u00e3o unidos, o destino \u00e9 comum: ou nos salvamos todos ou podemos perecer juntos. O que no passado n\u00e3o soubemos fazer ou quer\u00edamos fazer movidos pela caridade ou pela solidariedade, hoje teremos que fazer, mesmo que seja por ego\u00edsmo inteligente.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>IHU On-Line \u2013 Como filho de agricultores, que import\u00e2ncia concede \u00e0s pequenas propriedades camponesas na luta contra a fome?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Jos\u00e9 Esquinas-Alc\u00e1zar &#8211;<\/strong> N\u00e3o foi por acaso que este ano de 2014 tenha sido declarado pela ONU como o Ano Internacional da Agricultura Familiar. A maior parte dos alimentos que consumimos no mundo procede da agricultura familiar, que \u00e9, em geral, uma agricultura baseada em pequenas propriedades.<\/p>\n<p align=\"justify\">Como dissemos anteriormente, existem hoje alimentos mais que suficientes para alimentar a humanidade; entretanto, os famintos n\u00e3o t\u00eam acesso aos mesmos. Os alimentos est\u00e3o dispon\u00edveis no mercado internacional, mas isso n\u00e3o \u00e9 suficiente para que cheguem aos que passam fome, especialmente em tempos de carestia alimentar e grande volatilidade dos pre\u00e7os dos alimentos, j\u00e1 que a fome e a pobreza andam muitas vezes de m\u00e3os dadas. A falta de acesso deve-se \u00e0 escassez de alimentos produzidos em n\u00edvel local, por um lado, e \u00e0 falta de recursos para comprar os alimentos procedentes de onde h\u00e1 excedentes, por outro. Os sistemas tradicionais de luta contra a fome, atrav\u00e9s dos programas de distribui\u00e7\u00e3o de alimentos e assist\u00eancia humanit\u00e1ria, proporcionam alimentos ou fundos para obt\u00ea-los no mercado internacional. No entanto, a efic\u00e1cia destas medidas tem sido muito limitada por tratar-se de solu\u00e7\u00f5es a curto prazo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Se levarmos em conta que a maior parte (70%) da popula\u00e7\u00e3o faminta vive em zonas rurais, promover a produ\u00e7\u00e3o in situ parece ser a solu\u00e7\u00e3o mais eficiente e talvez a \u00fanica duradoura. Requerem-se melhorias na produ\u00e7\u00e3o em n\u00edvel local para proporcionar um aumento das op\u00e7\u00f5es para os agricultores de pequena escala e as comunidades rurais, e para melhorar a qualidade, assim como a quantidade, dos alimentos dispon\u00edveis. Isso significa apoiar os pequenos agricultores e suas comunidades no desenvolvimento e melhoria dos seus pr\u00f3prios sistemas agr\u00edcolas. Infelizmente, a assist\u00eancia t\u00e9cnica ao pequeno agricultor e a pesquisa internacional para melhorar a produ\u00e7\u00e3o nos sistemas agr\u00edcolas tradicionais de baixos insumos, incluindo a melhoria gen\u00e9tica dos cultivos marginais e variedades locais adaptados a estes sistemas, foram muito escassas e, muitas vezes, inexistentes.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Sistemas agr\u00edcolas tradicionais<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A FAO, no seu relat\u00f3rio \u201cOs caminhos para o \u00eaxito\u201d (nov. 2009) , assinala que uma das melhores e mais rent\u00e1veis vias para sair da pobreza e da fome no meio rural \u00e9 apoiar os pequenos camponeses. Cerca de 85% das propriedades agr\u00edcolas no mundo t\u00eam menos de dois hectares, e os pequenos agricultores e suas fam\u00edlias representam cerca de dois bilh\u00f5es de pessoas, um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p align=\"justify\">Al\u00e9m disso, os pequenos agricultores s\u00e3o a base da soberania alimentar e esta deve ser considerada parte essencial da seguran\u00e7a alimentar. Para n\u00e3o criar-se uma depend\u00eancia dos pre\u00e7os agr\u00edcolas internacionais, n\u00e3o se pode fomentar sistematicamente o desmantelamento dos sistemas agr\u00edcolas tradicionais. Com frequ\u00eancia, \u00e9 preciso apoiar seu desenvolvimento e uma evolu\u00e7\u00e3o paulatina que permita aumentar sua produtividade e sua capacidade de se adaptar \u00e0s necessidades cambiantes do meio e \u00e0 sociedade nas quais se desenvolver\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na sequ\u00eancia, damos um exemplo ilustrativo das consequ\u00eancias do desmantelamento dos sistemas agr\u00edcolas tradicionais:<\/p>\n<p align=\"justify\">Em Benin, o desenvolvimento de grandes cultivos de algod\u00e3o para satisfazer a demanda do Ocidente levou ao deslocamento de milh\u00f5es de pequenos agricultores produtores de alimentos, que venderam suas terras para passar a ser diaristas, muitos deles nas novas planta\u00e7\u00f5es de algod\u00e3o. Isto, no entanto, n\u00e3o foi percebido como um problema, j\u00e1 que as di\u00e1rias recebidas lhes permitiram comprar alimentos procedentes do mercado internacional a bom pre\u00e7o e, por isso, muitas vezes em maior quantidade que aqueles que produziam antes em suas pequenas propriedades. No entanto, o aumento dos pre\u00e7os internacionais dos alimentos nos \u00faltimos anos deixou-os numa situa\u00e7\u00e3o de indig\u00eancia e fome sem precedentes. Agora, j\u00e1 n\u00e3o podem voltar \u00e0 sua agricultura tradicional, j\u00e1 que, com a venda das suas terras, criaram uma situa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia praticamente irrevers\u00edvel .<\/p>\n<p align=\"justify\">Muitas vezes, os processos desencadeados com a venda das terras e o desmantelamento dos sistemas agr\u00edcolas nacionais passam a ser irrevers\u00edveis. Ao perder a capacidade de produzir seus alimentos, os pa\u00edses podem hipotecar sua pr\u00f3pria soberania.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>IHU On-Line \u2013 Em que etapa est\u00e3o os debates no Conselho de Direitos Humanos das Na\u00e7\u00f5es Unidas acerca de uma poss\u00edvel Declara\u00e7\u00e3o Universal Sobre os Direitos dos Camponeses?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Jos\u00e9 Esquinas-Alc\u00e1zar &#8211;<\/strong> Em outubro de 2012, o Conselho de Direitos Humanos da ONU decidiu criar um grupo de trabalho intergovernamental de composi\u00e7\u00e3o aberta encarregado de negociar, finalizar e apresentar ao Conselho de Direitos Humanos um projeto de declara\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre os direitos dos camponeses e de outras pessoas que trabalham nas zonas rurais.<\/p>\n<p align=\"justify\">O grupo de trabalho intergovernamental, presidido pela embaixadora da Bol\u00edvia na ONU, em Genebra, em sua primeira reuni\u00e3o, em julho de 2013, considerou um primeiro rascunho da declara\u00e7\u00e3o e fez coment\u00e1rios sobre o mesmo. Atualmente, o rascunho est\u00e1 sendo modificado em consulta com os pa\u00edses, com o objetivo de apresentar um novo rascunho na segunda reuni\u00e3o negociadora do grupo de trabalho, prevista para novembro de 2014.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>IHU On-Line \u2013 Qual \u00e9 o impacto do capital internacional sobre a biodiversidade agr\u00edcola e os recursos gen\u00e9ticos? Por que os dois \u00faltimos s\u00e3o importantes?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Jos\u00e9 Esquinas-Alc\u00e1zar &#8211;<\/strong> O capital internacional e as grandes companhias de produ\u00e7\u00e3o de sementes est\u00e3o promovendo um tipo de agricultura industrial baseada na uniformidade, onde um pequeno grupo de variedades vegetais e ra\u00e7as animais uniformes e homog\u00eaneos est\u00e3o substituindo em todo o mundo uma enorme diversidade de esp\u00e9cies alimentares. Alguns acordos internacionais com o com\u00e9rcio, certifica\u00e7\u00e3o de sementes e direitos de propriedade intelectual, assim como a pr\u00f3pria legisla\u00e7\u00e3o nacional de muitos pa\u00edses, est\u00e3o contribuindo para este desatino.<\/p>\n<p align=\"justify\">A Diversidade Biol\u00f3gica Agr\u00edcola (DBA) e mais concretamente os Recursos Gen\u00e9ticos para a Agricultura e a Alimenta\u00e7\u00e3o (RGAA), tamb\u00e9m conhecidos com \u201couro verde\u201d, constituem a despensa da humanidade, a mat\u00e9ria-prima sobre a qual se baseia o desenvolvimento agr\u00edcola e a produ\u00e7\u00e3o de alimentos. Sem o uso da diversidade gen\u00e9tica existente dentro de cada esp\u00e9cie animal ou vegetal, n\u00e3o seria poss\u00edvel o combate das pragas e doen\u00e7as das plantas cultivadas e dos animais de granja, o aumento da sua produtividade, sua adapta\u00e7\u00e3o a condi\u00e7\u00f5es adversas do ambiente (por exemplo, excessivo frio ou calor, seca ou umidade), nem a melhoria das suas caracter\u00edsticas nutritivas, e se perderia a capacidade destas esp\u00e9cies de se adaptar \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Quando se perde a DBA de uma esp\u00e9cie agr\u00edcola, priva-se a esp\u00e9cie da sua capacidade de evolu\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o ao ambiente, e o ser humano do material b\u00e1sico onde selecionar o material desejado; as consequ\u00eancias podem ser catastr\u00f3ficas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Um exemplo conhecido e sumamente ilustrativo \u00e9 a fome que estremeceu a Europa na metade do s\u00e9culo XIX e que provocou a morte por fome de milh\u00f5es de pessoas. O que muitos ignoram \u00e9 que a sua causa foi a destrui\u00e7\u00e3o em massa dos cultivos de batatas europeias, atacadas por um fungo, o Phytophtorainfestans, para o qual n\u00e3o se encontrava resist\u00eancia devido \u00e0 uniformidade extrema das batatas cultivadas no continente. O problema foi resolvido gra\u00e7as \u00e0 resist\u00eancia \u00e0 doen\u00e7a encontrada no Peru, centro de origem e diversidade da batata.<\/p>\n<p align=\"justify\">Outro exemplo mais recente \u00e9 o do ataque do Helmintosporiusmaydes, que destruiu os milhos comerciais uniformes do sul dos Estados Unidos no come\u00e7o da d\u00e9cada de 1970. O problema foi resolvido gra\u00e7as aos genes de resist\u00eancia encontrados nas variedades heterog\u00eaneas de milhos africanos.<\/p>\n<p align=\"justify\">O n\u00famero de casos, embora nem sempre t\u00e3o tr\u00e1gicos, se multiplicou durante os \u00faltimos anos em muitos cultivos, e a solu\u00e7\u00e3o passou quase sempre pela identifica\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia \u00e0s doen\u00e7as e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es adversas entre as variedades heterog\u00eaneas tradicionais que seguem sendo cultivadas pelos pequenos agricultores, sobretudo nos pa\u00edses em desenvolvimento. Uma vez identificada esta resist\u00eancia, os cientistas podem incorpor\u00e1-la \u00e0s variedades comerciais atrav\u00e9s de cruzamentos.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Recursos gen\u00e9ticos<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Ao longo do \u00faltimo s\u00e9culo, houve uma enorme perda de diversidade gen\u00e9tica dentro das chamadas \u201cprincipais esp\u00e9cies aliment\u00edcias\u201d. Centenas de milhares de variedades heterog\u00eaneas de plantas cultivadas ao longo de gera\u00e7\u00f5es foram substitu\u00eddas por um reduzido n\u00famero de variedades comerciais modernas e enormemente uniformes.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00f3 nos Estados Unidos j\u00e1 desapareceram mais de 90% das \u00e1rvores frut\u00edferas e esp\u00e9cies hort\u00edcolas que ainda se cultivavam no come\u00e7o do s\u00e9culo XX, e t\u00e3o somente algumas poucas s\u00e3o conservadas em bancos de genes. No M\u00e9xico, s\u00f3 se conhecem, atualmente, 20% das variedades documentadas em 1920. Na Rep\u00fablica da Coreia, apenas 26% das variedades locais cultivadas em hortas e pomares familiares em 1985 continuavam sendo utilizadas em 1993. Em geral, pode-se dizer que, em n\u00edvel mundial, entre 80% e 95% das variedades conhecidas para os cultivos mais importantes no in\u00edcio do s\u00e9culo XX se perderam para sempre.<\/p>\n<p align=\"justify\">Al\u00e9m disso, em n\u00edvel de esp\u00e9cie estamos ignorando e desaproveitando a maior parte da diversidade biol\u00f3gica agr\u00edcola existente. Segundo a FAO, estima-se que, ao longo da hist\u00f3ria da humanidade, foram utilizadas cerca de 10 mil esp\u00e9cies para a alimenta\u00e7\u00e3o humana e a agricultura. Atualmente, n\u00e3o mais de 120 esp\u00e9cies cultivadas de plantas nos proporcionam 90% da alimenta\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica humana, e t\u00e3o somente quatro esp\u00e9cies vegetais (batata, arroz, milho e trigo) e tr\u00eas esp\u00e9cies animais (gado, su\u00edno e frango) nos proporcionam mais da metade.<\/p>\n<p align=\"justify\">As sistem\u00e1ticas a\u00e7\u00f5es internacionais para frear a perda de recursos gen\u00e9ticos e assegurar a coopera\u00e7\u00e3o internacional nesta mat\u00e9ria come\u00e7aram na FAO nos anos 1970. Em 1983, a Confer\u00eancia da FAO criou a Comiss\u00e3o Intergovernamental de Recursos Gen\u00e9ticos para a Agricultura e a Alimenta\u00e7\u00e3o \u2013 CRGAA.<\/p>\n<p align=\"justify\">Atualmente, a comiss\u00e3o conta com 170 pa\u00edses membros e \u00e9 o f\u00f3rum intergovernamental permanente para a discuss\u00e3o e negocia\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es relacionadas aos RGAA. Nesta comiss\u00e3o, foi negociado nos anos 1990 e aprovado em 2001 o Tratado Internacional sobre Recursos Gen\u00e9ticos para a Agricultura e a Alimenta\u00e7\u00e3o, acordo que, at\u00e9 o momento, foi ratificado pelos parlamentares de 136 pa\u00edses.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>IHU On-Line \u2013 Nesta perspectiva, comente, por favor, o epis\u00f3dio no qual um campon\u00eas lhe cedeu um punhado de sementes de mel\u00f5es que, mais tarde descobriu-se, eram resistentes ao fungo que amea\u00e7ava as demais esp\u00e9cies do fruto no mundo. O que estes epis\u00f3dios nos ensinam?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Jos\u00e9 Esquinas-Alc\u00e1zar &#8211;<\/strong> A diversidade gen\u00e9tica que permitiu salvar a batata na Europa no s\u00e9culo XIX e o milho nos Estados Unidos no s\u00e9culo XX n\u00e3o estava ali por acaso. Era o produto da sele\u00e7\u00e3o realizada por milhares de gera\u00e7\u00f5es de pequenos agricultores tradicionais; eles seguem sendo ainda hoje, no mundo que muitas vezes os ignora e \u00e0s vezes os v\u00ea como uma carga social devotada ao passado, os aut\u00eanticos guardi\u00f5es da maior parte da diversidade biol\u00f3gica agr\u00edcola com que ainda podemos contar; aqueles que continuam desenvolvendo, conservando e colocando \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de outros agricultores, dos aperfei\u00e7oadores profissionais e, inclusive, dos modernos biotecn\u00f3logos, a mat\u00e9ria-prima necess\u00e1ria para enfrentar condi\u00e7\u00f5es ambientais cambiantes e necessidades humanas imprevis\u00edveis. S\u00e3o estes simples camponeses os que seguem tendo as chaves do futuro alimentar da humanidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ilustrarei isso com o exemplo dos mel\u00f5es e outros casos significativos:<\/p>\n<p align=\"justify\">Em julho de 1970, nas Hurdens, no cora\u00e7\u00e3o da Espanha rural, um agricultor anci\u00e3o, que seguia com seu asno, encontrou-se com um jovem estudante que recolhia sementes de mel\u00e3o. O velho agricultor perguntou ao jovem estudante o que estava fazendo, e o rapaz lhe explicou que queria coletar os mel\u00f5es aut\u00f3ctones da Espanha antes que desaparecessem. \u201cVem ver meus mel\u00f5es \u2013 disse o agricultor. Nunca ficam doentes\u201d. O estudante acompanhou o idoso at\u00e9 sua propriedade. O velho agricultor deu-lhe algumas sementes, que o jovem levou para fazer an\u00e1lises em laborat\u00f3rio. As sementes continham um gene resistente a um fungo do mel\u00e3o, que posteriormente foi transferido para outros mel\u00f5es, beneficiando os agricultores de todo o mundo. Eu era esse jovem estudante, mas n\u00e3o sei quem era o anci\u00e3o. \u00c9 como tantos milh\u00f5es de homens e mulheres. Ningu\u00e9m lhes agradece, mas eles s\u00e3o os possuidores da sabedoria capaz de produzir e conservar suas sementes e suas tradi\u00e7\u00f5es para as futuras gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">O tempo e a experi\u00eancia me mostraram que n\u00e3o se tratava de um caso isolado. Em 1983, coletando quinoa, um dos cultivos mais importantes da agricultura tradicional andina, na Bol\u00edvia, encontramos na granja de um agricultor, em uma zona onde predomina a quinoa amarela, um tipo de quinoa escura, cujas plantas tinham um aspecto doentio e cuja produtividade parecia muito baixa. Comentamos com este agricultor que estas plantas estavam doentes e talvez por isso produzissem pouco gr\u00e3o e de cor escura. Ele nos respondeu que n\u00e3o, que \u201cesta variedade \u00e9 assim\u201d. Embora n\u00e3o tenhamos ficado muito convencidos, a cena se repetiu nos campos de outros agricultores vizinhos. O \u00faltimo nos confirmou que \u201cesta variedade produzia muito pouco\u201d. E quando lhe perguntamos por que a cultivava mesmo assim, ele respondeu que era muito boa para curar a tuberculose. N\u00e3o demos muito cr\u00e9dito ao coment\u00e1rio, mas coletamos algumas amostras que foram enviadas com as outras a alguns laborat\u00f3rios para an\u00e1lise. Quando, alguns meses depois, obtivemos os resultados das an\u00e1lises, soubemos que aquela quinoa negra, supostamente doente, tinha um conte\u00fado em prote\u00ednas e, sobretudo, em amino\u00e1cidos essenciais muito superiores \u00e0s outras quinoas cultivadas na zona.<\/p>\n<p align=\"justify\">O n\u00famero de exemplos \u00e9 infind\u00e1vel. Uma variedade local de trigo coletada na Turquia pelo Dr. Harlan em 1948 no campo de um pequeno agricultor, e ignorada depois durante muitos anos, foi uma fonte de resist\u00eancia a fungos em todo o mundo. Algumas variedades tradicionais de alfafa encontradas no Ir\u00e3 permitiram introduzir resist\u00eancia a nematoides em muitas variedades comerciais de outros pa\u00edses. Uma variedade de trigo encontrada em zonas remotas do Jap\u00e3o, em 1946, passou a ser a base da chamada \u201crevolu\u00e7\u00e3o verde\u201d em todo o mundo um quarto de s\u00e9culo depois, gra\u00e7as aos seus genes de nanismo que permitiram maiores doses de adubo nitrogenado. Uma ra\u00e7a tradicional de su\u00ednos chinesa permitiu aumentar a fertilidade de muitas ra\u00e7as europeias. A resist\u00eancia \u00e0 mal\u00e1ria nas vacas do sul dos Estados Unidos procede de uma ra\u00e7a local do norte de Roma.<\/p>\n<p align=\"justify\">O trabalho essencial dos agricultores tradicionais no desenvolvimento, conserva\u00e7\u00e3o e disponibilidade da diversidade biol\u00f3gica agr\u00edcola foi formalmente reconhecido pelo Tratado Internacional de Recursos Fitogen\u00e9ticos da FAO, cujo artigo 9, \u201cDireitos do Agricultor\u201d, define os agricultores como guardi\u00f5es dos recursos gen\u00e9ticos e lhes assinala direitos.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>IHU On-Line \u2013 Gostaria de acrescentar algo mais?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Jos\u00e9 Esquinas-Alc\u00e1zar &#8211;<\/strong> Sim, creio que a quest\u00e3o da fome e da conserva\u00e7\u00e3o dos recursos naturais da Terra n\u00e3o pode ser tratada de maneira isolada. \u00c9 preciso integrar a crise alimentar ao contexto das demais facetas da crise global em que nos encontramos imersos e cujo combate s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel associando-a ao desenvolvimento de um mundo melhor, solid\u00e1rio e sustent\u00e1vel, onde o objetivo n\u00e3o seja simplesmente \u201co crescimento econ\u00f4mico\u201d, mas \u201ca felicidade\u201d, e onde o motor do processo n\u00e3o seja o \u201cconsumo\u201d e a \u201csobre-explora\u00e7\u00e3o\u201d dos recursos naturais, mas a rela\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica entre e com todos os componentes do ecossistema Terra. Um mundo no qual o crescimento material n\u00e3o seja sin\u00f4nimo de desenvolvimento e onde a ci\u00eancia, as tecnologias, o mercado e, inclusive, a democracia, n\u00e3o sejam deuses infal\u00edveis que devemos glorificar, mas meros instrumentos que podem nos ajudar a transformar a nossa casa, a Terra, em um Para\u00edso.<\/p>\n<div align=\"justify\">Fonte: <a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/ambiente\/erradicar-fome-nao-e-uma-opcao-e-uma-necessidade-imperiosa-se-queremos-ter-um-futuro\/\" target=\"_blank\">Envolverde<\/a> &#8211; <em><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/530952-eliminar-a-fome-requer-inteligencia-e-etica-entrevista-especial-com-jose-esquinas-alcaza\" target=\"_blank\">IHU On-Line<\/a><\/em><br \/>\n10.05.2014<\/div>\n<p><span class=\"article_seperator\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cErradicar a fome n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma necessidade imperiosa, se queremos ter um<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"\u201cErradicar a fome n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma necessidade imperiosa, se queremos ter um","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/386"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=386"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/386\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=386"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=386"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=386"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}