{"id":38444,"date":"2016-03-08T08:00:44","date_gmt":"2016-03-08T11:00:44","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=38444"},"modified":"2016-03-07T20:29:22","modified_gmt":"2016-03-07T23:29:22","slug":"janeiro-e-fevereiro-foram-os-meses-mais-quentes-da-historia-e-efeito-el-nino-pode-nao-ser-o-culpado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/janeiro-e-fevereiro-foram-os-meses-mais-quentes-da-historia-e-efeito-el-nino-pode-nao-ser-o-culpado\/","title":{"rendered":"Janeiro e fevereiro foram os meses mais quentes da hist\u00f3ria e efeito El Ni\u00f1o pode n\u00e3o ser o culpado"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/efeito_el_nino.jpg\" rel=\"attachment wp-att-38445\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-38445\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/efeito_el_nino-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/efeito_el_nino-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/efeito_el_nino.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Aconteceu. Os dois primeiros meses de 2016 alcan\u00e7aram temperaturas que quebraram os recordes at\u00e9 hoje alcan\u00e7ados. Medi\u00e7\u00f5es feitas pela Nasa d\u00e3o conta de que janeiro foi o m\u00eas mais quente de toda a hist\u00f3ria. Medi\u00e7\u00f5es preliminares de sat\u00e9lite compilados por Eric Holthaus, meteorologista que trabalha para o site Slate e \u00e9 tamb\u00e9m colunista do Wall Street Journal, d\u00e3o conta de que fevereiro se desviou tamb\u00e9m do padr\u00e3o de aquecimento e esquentou 1,15 a 1,4 grau Celsius mais do que a temperatura no per\u00edodo pr\u00e9 Revolu\u00e7\u00e3o Industrial.<\/p>\n<p>E mais: na quinta-feira (2), segundo artigo publicado por Holthaus (<a href=\"http:\/\/www.slate.com\/blogs\/future_tense\/2016\/03\/01\/february_2016_s_shocking_global_warming_temperature_record.htm%21\">leia aqui em ingl\u00eas) <\/a>, o Hemisf\u00e9rio Norte teria alcan\u00e7ado um marco at\u00e9 maior do que os 2 graus Celsius de aquecimento global t\u00e3o temido pelos ambientalistas. \u00c9 bom lembrar que em dezembro, em Paris, 194 na\u00e7\u00f5es deram \u201csim\u201d a um Acordo Clim\u00e1tico, considerado hist\u00f3rico, que se prop\u00f5e a deixar a Terra apenas 1,5 grau Celsius mais quente at\u00e9 o fim do s\u00e9culo.<\/p>\n<p>\u201cEsta marca tem sido h\u00e1 muito tempo cravada como uma esp\u00e9cie de marco acima da qual as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas podem se tornar perigosas para a humanidade. E agora entramos nela, embora por um breve per\u00edodo. Mas chegamos a ela muito mais rapidamente do que pod\u00edamos imaginar. \u00c9 um momento marcante para a nossa esp\u00e9cie\u201d, escreve Eric Holthaus.<\/p>\n<p>E, a julgar tamb\u00e9m pelos alertas dos bi\u00f3logos, as outras esp\u00e9cies n\u00e3o estar\u00e3o em melhor momento. A mudan\u00e7a do clima \u00e9 uma das maiores causas da perda da biodiversidade e uma das obriga\u00e7\u00f5es da Conven\u00e7\u00e3o sobre Diversidade Biol\u00f3gica (CDB) \u00e9 identificar e, ao menos tentar, tratar essas amea\u00e7as.<\/p>\n<p>O Polo \u00c1rtico \u00e9 o lugar que est\u00e1 chamando mais a aten\u00e7\u00e3o dos estudiosos no momento, porque tem alcan\u00e7ado temperaturas que chegam de 30 a 35 graus acima da m\u00e9dia. Segundo depoimento do diretor do Centro de Dados Nacional de Neve e Gelo dos Estados Unidos, Mark Serreze \u00e0 reportagem publicada pelo jornal brit\u00e2nico <a href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/environment\/2016\/mar\/04\/is-el-nino-or-climate-change-behind-the-run-of-record-temperatures\">\u201cThe Guardian\u201d, <\/a>o calor tem transformado o \u00c1rtico numa regi\u00e3o cujas mudan\u00e7as ele caracteriza como \u201cabsurdas\u201d.<br \/>\n\u201cO calor tem sido incans\u00e1vel ao longo de toda a temporada. Eu tenho estudado o clima no \u00c1rtico nos \u00faltimos 35 anos e nunca vi nada semelhante\u201d, disse ele.<\/p>\n<p>Muitos t\u00eam atribu\u00eddo ao El Ni\u00f1o (fen\u00f4meno que causa o aquecimento das \u00e1guas do Pac\u00edfico) a responsabilidade pelo aquecimento, que de 2014 para c\u00e1 s\u00f3 tem aumentado. No entanto, o jornal brit\u00e2nico entrevistou o professor Michael Mann, diretor do Centro de Ci\u00eancia do Sistema Terrestre Penn State, que questiona esta rela\u00e7\u00e3o assim t\u00e3o direta entre o El Ni\u00f1o e as fortes ondas de calor. Ele pesquisou dados sobre alta de temperaturas no passado e avaliou o impacto do fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>\u201cAssim como eu, outros colegas fizeram esse estudo e chegamos \u00e0 conclus\u00e3o de que o El Ni\u00f1o \u00e9 respons\u00e1vel por menos do que 0.1 graus Celsius desse aquecimento anormal. Ou seja: mesmo sem a ajuda dele, ter\u00edamos recorde de temperatura em 2015, que foi de 0.9 graus Celsius acima da m\u00e9dia do s\u00e9culo XX\u201d, disse o professor.<\/p>\n<p>Outro pesquisador entrevistado pela equipe do jornal brit\u00e2nico, Will Steffen, conselheiro do Conselho do Clima na Austr\u00e1lia, em parte concorda. Mas lembra que h\u00e1 muitos registros significativos sobre o impacto do El Ni\u00f1o. De qualquer maneira, diz ele, n\u00e3o d\u00e1 para fechar os olhos \u00e0s consequ\u00eancias que o fen\u00f4meno causa, de imediato, na vida das pessoas.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o podemos minimizar a import\u00e2ncia do El Ni\u00f1o para o sofrimento humano\u201d, disse ele.<\/p>\n<p>\u00c9, n\u00e3o podemos. Nesse sentido, basta dar um giro r\u00e1pido pelas \u00faltimas not\u00edcias e vamos encontrar \u2013 infelizmente sem nenhuma dificuldade &#8211; os tais casos de sofrimento humano causados pelo El Ni\u00f1o. H\u00e1 cinco dias, por exemplo, o Peru, pa\u00eds banhado pelo Pac\u00edfico, notificou a morte de oito crian\u00e7as e existem fortes ind\u00edcios de que os pequenos, todos com menos de 2 anos, tenham sido v\u00edtimas do forte calor na regi\u00e3o, que todos classificam de \u201canormal\u201d (<a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/mundo\/noticia\/2016\/03\/calor-por-conta-de-el-nino-causa-morte-de-8-criancas-no-norte-do-peru.html\">leia aqui) <\/a>.<\/p>\n<p>Diretor municipal de Sa\u00fade da cidade peruana de Piura, C\u00e9sar Mor\u00f3n disse ao jornal \u201cEl Comercio\u201d que o n\u00famero de mortes de crian\u00e7as n\u00e3o \u00e9 comum e que o quadro cl\u00ednico tem sido o mesmo: febre, diarreia, desidrata\u00e7\u00e3o e convuls\u00f5es. A regi\u00e3o registrou sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica de 46 graus e isso, para os moradores, \u00e9 calor insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>Como sabem os que me acompanham neste espa\u00e7o, de fato o que mais me afeta quando o assunto gira em torno das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u00e9 o impacto que tuf\u00f5es, furac\u00f5es, ondas de calor, seca e enchentes causam nas pessoas. Aqueles que t\u00eam recursos conseguem fugir. Sobra para quem n\u00e3o tem essa escolha, o pior. Perdem o pouco que tinham e ainda passam a viver \u00e0 custa do estado, tornando-se refugiados do clima. Em 2014, calcula-se que houve 19,3 milh\u00f5es de refugiados clim\u00e1ticos no mundo segundo o \u00faltimo relat\u00f3rio do Centro de Monitoramento de Deslocados Internos (IDMC). Entre 2008 e 2015 registraram-se em m\u00e9dia 26,4 milh\u00f5es de deslocados por ano, o que representa quase uma pessoa por segundo (<a href=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/pt-br\/noticias-socioambientais\/cresce-o-numero-de-refugiados-no-mundo-em-funcao-do-clima%20\">leia aqui) <\/a>.N\u00e3o ser\u00e1 apenas a redu\u00e7\u00e3o do uso de combust\u00edvel f\u00f3ssil que vai resolver a situa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 est\u00e1 mais do que na hora de fazer pol\u00edticas, hoje, voltadas para quem vive o problema na pele.<\/p>\n<p>Em fevereiro de 2014, a ONG alem\u00e3 Germanwatch reuniu num DVD um material bastante extenso sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, incluindo 16 casos de pessoas que s\u00e3o v\u00edtimas das mudan\u00e7as do clima. O material \u00e9 voltado a professores, equipes de organiza\u00e7\u00f5es dedicadas a capacitar pessoas e jornalistas. Tenho aqui nos meus arquivos, recebi de uma viagem que fiz<a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/natureza\/blog\/nova-etica-social\/post\/rumo-berlim-alemanha-busca-ideias-para-se-adaptar-mudancas-climaticas.htm%21\"> \u00e0 Alemanha para<\/a> ser informada sobre os avan\u00e7os do pa\u00eds em dire\u00e7\u00e3o a fontes renov\u00e1veis de energia .<\/p>\n<p>Entre os casos listados no DVD est\u00e1 o de Ben Namakin, jovem que nasceu em Kiribati, na\u00e7\u00e3o-ilha do Pac\u00edfico fadada a ficar submersa em \u00e1guas salgadas por conta do aumento dos oceanos. Namakin hoje trabalha na Micronesia, em Pohnpei, como professor, e capacita jovens sobre quest\u00f5es ligadas ao meio ambiente. Ele conta, em primeira pessoa:<\/p>\n<p>\u201cDurante minha inf\u00e2ncia em Kiribati n\u00f3s nunca tivemos enchentes severas. Havia tempestades, mas elas n\u00e3o eram assim t\u00e3o fortes. \u00c0 medida que o n\u00edvel do mar foi se elevando, as mar\u00e9s foram ficando mais altas. E a \u00e1gua salgada foi invadindo tudo, afetando a qualidade da \u00e1gua para consumo, das planta\u00e7\u00f5es. Por exemplo, temos uma \u00e1rvore chamada Pandanu que usamos para tudo, desde construir casas at\u00e9 fazer medicamento, mas ela est\u00e1 acabando por causa do avan\u00e7o da \u00e1gua salgada. Em 2006 tivemos uma enchente que afetou at\u00e9 o cemit\u00e9rio e as pessoas, por sua pr\u00f3pria conta e risco, tiveram que abrir novas tumbas para seus entes que estavam enterrados, dessa vez mais para dentro da Ilha\u201d.<\/p>\n<p>Namakin conta ainda que o fato de ter vivido t\u00e3o de perto essa realidade o transformou numa esp\u00e9cie de militante contra o aquecimento global. Ele foi \u00e0 Confer\u00eancia do Clima em Montreal, em 2005 e sempre que pode tem arregimentado jovens para sua causa.<\/p>\n<p>Aos 72 anos, outro depoente para o material da ONG alem\u00e3 foi Simon Oleekatalik, que mora na Pen\u00ednsula de Nunavut, no extremo norte do Canad\u00e1, terra do povo Inuit. Ele conta que seus pais sabiam distinguir um gelo bom para construir iglus, coisa imposs\u00edvel hoje, com camadas cada vez mais finas e pouco resistentes.<\/p>\n<p>\u201cAntigamente, no inverno, quando os dias s\u00e3o curtos, havia muito mais neve no ch\u00e3o. Hoje o clima est\u00e1 assim: um dia est\u00e1 muito frio, mas no outro j\u00e1 est\u00e1 mais quente. Parece que os tempos do ano com dias claros est\u00e3o mais frios do que no inverno\u201d.<\/p>\n<p>Uma das quest\u00f5es mais complicadas para o povo Inuit \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o com os ursos polares. O governo canadense permite que cacem um por ano, mas Simon conta que a carne desses bichos, antes farta e gordurosa, hoje oferece muito menos nutrientes. E, como est\u00e3o cada vez mais buscando alimentos, os ursos polares andam catando o que comer nas cidades, causando p\u00e2nico \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que estamos vivendo hoje nos for\u00e7a a desprezar o \u00f3bvio ou o senso comum, ou mesmo padr\u00f5es antes r\u00edgidos quando o assunto \u00e9 o clima.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aconteceu. 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