{"id":37998,"date":"2016-02-29T16:00:26","date_gmt":"2016-02-29T19:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=37998"},"modified":"2016-02-29T16:09:43","modified_gmt":"2016-02-29T19:09:43","slug":"entrevista-especial-com-wagner-costa-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entrevista-especial-com-wagner-costa-ribeiro\/","title":{"rendered":"Entrevista especial com Wagner Costa Ribeiro"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u201cDe fato, um desafio importante significa repensar o significado da vida: o que queremos da nossa vida, da nossa organiza\u00e7\u00e3o social? Para que vivemos?\u201d, provoca o ge\u00f3logo.<\/strong><\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/i67.tinypic.com\/2h3pfdd.jpg\" alt=\"\" width=\"320\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><em>Imagem:<\/em> <em><a href=\"http:\/\/www.eltribuno.info\">www.eltribuno.info<\/a><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>O <strong>consumo exagerado<\/strong>, que anseia sempre o novo e descarta com facilidade quaisquer objetos, \u00e9 o comportamento que tem predominado na sociedade. Com o aumento da capacidade de produ\u00e7\u00e3o em nome do lucro, a oferta de produtos de toda ordem se amplia cada vez mais e, no sentido oposto, os recursos naturais j\u00e1 d\u00e3o sinais de esgotamento. Essas s\u00e3o algumas das caracter\u00edsticas do tempo em que vivemos e que os estudiosos t\u00eam denominado de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/550842-antropoceno-a-humanidade-como-uma-forca-planetaria\" target=\"_blank\"><strong>Antropoceno<\/strong><\/a>. Trata-se de uma era em que a capacidade de interven\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana no ambiente recebe o foco das aten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Conforme ressalta, em entrevista por telefone \u00e0 <strong>IHU On-Line<\/strong>, o ge\u00f3grafo e professor <strong>Wagner Costa Ribeiro<\/strong>, a import\u00e2ncia e grande diferen\u00e7a do <strong>Antropoceno<\/strong> em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s eras anteriores \u00e9 que \u201cpela primeira vez na hist\u00f3ria geol\u00f3gica da natureza \u2013 das eras \u2013 se assumiu a esp\u00e9cie humana como principal for\u00e7a motriz de transforma\u00e7\u00e3o tanto da biosfera quanto da litosfera e atmosfera\u201d.<\/p>\n<p>As <strong>transforma\u00e7\u00f5es no ambiente<\/strong> se intensificam na medida em que o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico desenvolve, especializa e potencializa <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=6037&amp;secao=469\" target=\"_blank\">o poder dos humanos<\/a> de manejar os elementos da natureza de acordo com seus interesses. No entanto, a <strong>explora\u00e7\u00e3o<\/strong> indiscriminada do planeta j\u00e1 apresenta as contas das consequ\u00eancias que come\u00e7am a ser pagas pelos que vivem o presente, mas ser\u00e3o cobradas com veem\u00eancia dos que ainda est\u00e3o por vir se o estilo de vida da sociedade n\u00e3o for repensado.<\/p>\n<p>Para o ge\u00f3logo, \u201cesse \u00e9 um debate de car\u00e1ter \u00e9tico que n\u00f3s devemos come\u00e7ar cada vez mais a aprofundar. Apesar de j\u00e1 se ter come\u00e7ado a falar sobre esse tema, as discuss\u00f5es ainda s\u00e3o muito incipientes. Trata-se da quest\u00e3o do <strong>direito geracional<\/strong>, que de algum modo nasceu com a preocupa\u00e7\u00e3o com a sustentabilidade, que em linhas gerais significa deixar para as gera\u00e7\u00f5es futuras as condi\u00e7\u00f5es atuais do planeta. Aos poucos estamos vendo que ser\u00e1 imposs\u00edvel manter esse ritmo intenso de uso de recursos naturais\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/510485-rio20-e-o-poder-da-mobilizacao-social-entrevista-especial-com-wagner-ribeiro\" target=\"_blank\"><strong>Wagner Costa Ribeiro<\/strong><\/a> \u00e9 graduado em Geografia, mestre e doutor em Geografia Humana pela Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 USP. Atualmente \u00e9 professor do Departamento de Geografia e dos Programas de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Geografia Humana e Ci\u00eancia Ambiental da USP. Obteve a livre doc\u00eancia tamb\u00e9m na USP e realizou estudos de p\u00f3s-doutorado na Universidad de Barcelona \u2013 UB, na Espanha. Tamb\u00e9m coordena o Grupo de Pesquisa de Ci\u00eancias Ambientais do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados da USP. Entre suas obras, destaca-se <strong>A ordem ambiental internacional<\/strong> (S\u00e3o Paulo: Contexto, 2001).<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/i65.tinypic.com\/264hlzl.jpg\" alt=\"\" width=\"220\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><em>Foto: <a href=\"http:\/\/www.imagens.usp.br\">www.imagens.usp.br<\/a><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong> IHU On-Line &#8211; O que as \u00faltimas pesquisas que t\u00eam sido feitas indicam sobre o Antropoceno? J\u00e1 se pode afirmar que de fato o mundo entrou mesmo em uma nova \u00e9poca geol\u00f3gica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Wagner Costa Ribeiro \u2013<\/strong> O primeiro a anunciar e popularizar a ideia do <strong>Antropoceno<\/strong> como nova era geol\u00f3gica foi o <strong>Pr\u00eamio Nobel de Qu\u00edmica<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/noticias-anteriores\/11635-a-terra-entrou-numa-nova-era-geologica-o-antropoceno\" target=\"_blank\"><strong>Paul Crutzen<\/strong><\/a>, em 2002. Em 2008, a <strong>Sociedade Geol\u00f3gica do Reino Unido<\/strong>, em uma reuni\u00e3o, acabou afirmando a exist\u00eancia do <strong>Antropoceno<\/strong>, portanto n\u00e3o h\u00e1 mais controv\u00e9rsias em rela\u00e7\u00e3o a estarmos ou n\u00e3o diante de uma <strong>nova era geol\u00f3gica<\/strong>. A quest\u00e3o \u00e9 procurar identificar o que caracterizaria esse novo momento a ponto de merecer um novo r\u00f3tulo ou t\u00edtulo. J\u00e1 temos algumas caracter\u00edsticas que nos permitem dizer que de fato estamos em outro momento. Agora, o primeiro aspecto a deixar muito claro \u00e9 que, pela primeira vez na hist\u00f3ria geol\u00f3gica da natureza \u2013 das eras \u2013, se assumiu a esp\u00e9cie humana como principal for\u00e7a motriz de transforma\u00e7\u00e3o tanto da biosfera quanto da litosfera e da atmosfera.<\/p>\n<p>Se analisarmos do ponto de vista da exist\u00eancia da sociedade, corresponde ao <strong>per\u00edodo da moderniza\u00e7\u00e3o<\/strong>, que vai do final do s\u00e9culo XIX at\u00e9 hoje. Logo, temos em torno de 130 ou 140 anos nessa nova era geol\u00f3gica, que \u00e9 marcada por algumas caracter\u00edsticas bastante importantes, e s\u00e3o todas elas caracter\u00edsticas humanas:<\/p>\n<p>&#8211; a primeira \u00e9 o incremento tecnol\u00f3gico importante a partir da <strong>m\u00e1quina a vapor<\/strong>, que faz com que o uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis cres\u00e7a muito &#8211; teremos a\u00ed, no primeiro momento, o carv\u00e3o;<\/p>\n<p>&#8211; depois temos a inven\u00e7\u00e3o do <strong>motor a explos\u00e3o<\/strong>, inclusive com o uso de outro combust\u00edvel de matriz f\u00f3ssil, que \u00e9 justamente o petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>E o que representa ter m\u00e1quinas como as que s\u00e3o movidas a vapor ou as que s\u00e3o movidas a partir da queima de combust\u00edvel, como \u00e9 o caso do motor a explos\u00e3o? N\u00f3s incrementamos a nossa for\u00e7a motriz, nossa for\u00e7a de transforma\u00e7\u00e3o da superf\u00edcie terrestre. Assim, uma tarefa que era feita por muitos homens em muito tempo, passa a ser feita com uma simples m\u00e1quina, e isso faz com que tenhamos uma capacidade muito maior de transforma\u00e7\u00e3o da superf\u00edcie terrestre.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 de fato uma caracter\u00edstica fundamental do chamado <strong>Antropoceno<\/strong>, ou seja, do ponto de vista das ci\u00eancias sociais corresponde \u00e0 <strong>moderniza\u00e7\u00e3o<\/strong> e tem grandes implica\u00e7\u00f5es na organiza\u00e7\u00e3o social. Assim, ap\u00f3s a inven\u00e7\u00e3o dos motores, teremos, por exemplo, a emerg\u00eancia da sociedade capitalista, e bem mais tarde, na segunda metade do s\u00e9culo XX \u2013 para alguns \u00e9 um pouco antes, mas eu prefiro demarcar depois da <strong>Segunda Guerra Mundial<\/strong> \u2013 teremos a <strong><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/520363-quando-o-consumo-excessivo-degrada-o-meio-ambiente\" target=\"_blank\">sociedade de consumo<\/a><\/strong> em escala bastante abrangente.<\/p>\n<p>Depois, a partir dos anos 1980 e, principalmente, a partir dos \u00faltimos anos, com a sa\u00edda da pobreza de uma parte expressiva da popula\u00e7\u00e3o de pa\u00edses como <strong>Brasil<\/strong>, <strong>China<\/strong> e <strong>\u00cdndia<\/strong>, houve um incremento desse consumo e se passou a ter outra caracter\u00edstica importante do <strong>Antropoceno<\/strong>: um consumo bastante elevado, que faz com a demanda sobre os recursos naturais aumente drasticamente. Esta \u00e9 outra caracter\u00edstica importante do Antropoceno: o uso intensivo de<strong> recursos naturais<\/strong>.<\/p>\n<p>Se analisarmos as reservas de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/545654-exportacao-de-minerio-e-a-opcao-brasileira-pela-crise-permanente-entrevista-especial-com-bruno-milanez\" target=\"_blank\">min\u00e9rio<\/a> de Ferro, por exemplo, e comparar o uso que se tinha at\u00e9 o s\u00e9culo XIX com o que se usou no s\u00e9culo XX e mesmo agora no XXI \u00e9 poss\u00edvel perceber que o incremento de consumo desse tipo de material \u00e9 muito maior. Essa atitude faz com que a superf\u00edcie terrestre seja muito alterada.<\/p>\n<p>A partir dessas interven\u00e7\u00f5es humanas temos diversas implica\u00e7\u00f5es, como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, por exemplo, pois grande parte do uso dos combust\u00edveis f\u00f3sseis acaba gerando carbono e isso se concentra na atmosfera, fazendo com tenhamos consequ\u00eancias para al\u00e9m da superf\u00edcie terrestre.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o os sinais geol\u00f3gicos que indicam que estamos numa nova \u00e9poca e quais s\u00e3o as caracter\u00edsticas centrais desse per\u00edodo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Wagner Costa Ribeiro \u2013<\/strong> Os <strong>sinais geol\u00f3gicos<\/strong> vir\u00e3o das a\u00e7\u00f5es dos humanos. Por exemplo, j\u00e1 est\u00e3o ocorrendo interven\u00e7\u00f5es na <strong>superf\u00edcie marinha<\/strong>. \u00c9 um dado que devemos ressaltar, porque n\u00e3o se trata apenas da extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, como \u00e9 o caso do <strong>Brasil<\/strong>, mas tamb\u00e9m em alguns pa\u00edses, como <strong>Papua-Nova Guin\u00e9<\/strong> e <strong>Austr\u00e1lia<\/strong>, j\u00e1 teve in\u00edcio a <strong>minera\u00e7\u00e3o<\/strong> na superf\u00edcie marinha. Ou seja, al\u00e9m de alterar a superf\u00edcie terrestre, passaremos a mexer tamb\u00e9m nas profundezas marinhas, o que pode trazer consequ\u00eancias muito s\u00e9rias, j\u00e1 que teremos uma altera\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica do fundo marinho e isso pode afetar, por exemplo, toda a microfauna local, pode liberar gases para atmosfera, que est\u00e3o armazenados de alguma maneira, assim como pode trazer consequ\u00eancias ainda n\u00e3o muito bem conhecidas.<\/p>\n<p>Portanto, a nossa <strong>caracter\u00edstica de interven\u00e7\u00e3o<\/strong>, nossa capacidade motriz aumentou muito. O nosso movimento de pin\u00e7a, que \u00e9 o primeiro elemento que faz com que tenhamos a capacidade de capturar algo, que era feito simplesmente com o polegar e o opositor, hoje ganhou uma for\u00e7a motriz infinitamente maior; temos capacidade tecnol\u00f3gica de produzir m\u00e1quinas que fazem com que esse movimento simples de coletar algo ocorra, por exemplo, no caso do pr\u00e9-sal, a 7 mil metros a partir do fundo do mar.<\/p>\n<p>Isso mostra que temos uma enorme <strong>capacidade de extra\u00e7\u00e3o<\/strong>, o que \u00e9 de fato muito preocupante, porque estamos extraindo recursos, muitos dos quais n\u00e3o s\u00e3o reaproveitados e, principalmente, \u00e9 uma heran\u00e7a de processos naturais que algumas gera\u00e7\u00f5es do planeta Terra est\u00e3o usando sem se preocupar com as gera\u00e7\u00f5es futuras. Esse \u00e9 um debate de car\u00e1ter \u00e9tico que n\u00f3s devemos come\u00e7ar cada vez mais a aprofundar. Apesar de j\u00e1 se ter come\u00e7ado a falar sobre esse tema, as discuss\u00f5es ainda s\u00e3o muito incipientes. Trata-se da quest\u00e3o do <strong>direito geracional<\/strong>, que de algum modo nasceu com a preocupa\u00e7\u00e3o com a sustentabilidade, que em linhas gerais significa deixar para as gera\u00e7\u00f5es futuras as condi\u00e7\u00f5es atuais do planeta. Aos poucos estamos vendo que ser\u00e1 imposs\u00edvel manter esse ritmo intenso de uso de recursos naturais.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/i63.tinypic.com\/ifdilw.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><i><i>As mudan\u00e7as no campo s\u00e3o &#8220;um\u00a0exemplo bastante singelo<br \/>\ndo quanto n\u00f3s incrementamos a nossa capacidade<br \/>\nde altera\u00e7\u00e3o do ambiente&#8221;. Cr\u00e9ditos das Imagems:<br \/>\nvirtualmuseu.blogspot.com.br e\u00a0capitaldocampo.com.br.<\/i><\/i><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong> IHU On-Line &#8211; O que distingue o Antropoceno do Holoceno?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Wagner Costa Ribeiro \u2013<\/strong> O que distingue de fato \u00e9 a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/543393-o-crescimento-das-atividades-antropicas-e-o-fluxo-metabolico-entropico\" target=\"_blank\"><strong>a\u00e7\u00e3o humana<\/strong><\/a> como a principal for\u00e7a motriz de <strong>transforma\u00e7\u00e3o da superf\u00edcie terrestre,<\/strong> inclusive com implica\u00e7\u00f5es na atmosfera e na biosfera. H\u00e1 10 mil anos, no final da primeira revolu\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, nossa capacidade de revolver a terra estava baseada no arado, ent\u00e3o era muito menor. Hoje n\u00f3s temos, por exemplo, m\u00e1quinas agr\u00edcolas que n\u00e3o s\u00f3 revolvem a terra, mas que tamb\u00e9m plantam; e outras que al\u00e9m de cultivar, praticamente embalam o produto.<\/p>\n<p>As diferen\u00e7as ficam claras se fizermos uma compara\u00e7\u00e3o entre um arado puxado por um homem ou eventualmente um animal e uma m\u00e1quina dessas, que tem at\u00e9 oito palhetas funcionando ao mesmo tempo, com um apenas oper\u00e1rio dando conta de uma vasta \u00e1rea. Esse parece um exemplo bastante singelo, mas muito claro, do quanto n\u00f3s incrementamos a nossa <strong>capacidade de altera\u00e7\u00e3o do ambiente<\/strong> e isso est\u00e1 associado ao processo de <strong>moderniza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica<\/strong>; portanto, antes de mais nada, \u00e9 um processo hist\u00f3rico. A grande diferen\u00e7a do Antropoceno \u00e9 admitir a esp\u00e9cie humana, portanto admitir a hist\u00f3ria, a sociedade como a for\u00e7a motriz de processos de altera\u00e7\u00e3o da natureza em larga escala.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Na pr\u00e1tica, alguma mudan\u00e7a no nosso estilo de vida \u00e9 necess\u00e1ria pelo fato de estarmos entrando nessa nova era?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Wagner Costa Ribeiro \u2013<\/strong> Essa \u00e9 quest\u00e3o central. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que temos de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/521131--pais-tera-que-repensar-modelo-de-consumo-afirma-ambientalista\" target=\"_blank\">mudar nosso estilo de vida<\/a>. O<strong> planeta terra \u00e9 finito<\/strong>, ele tem uma certa capacidade de fornecer elementos naturais, e se tivermos cada vez mais demanda sobre essa mesma base, ou seja, se temos um volume de min\u00e9rio de ferro, determinado volume de bauxita, de petr\u00f3leo, de \u00e1gua e de fontes energ\u00e9ticas, \u00e9 evidente que se aumentar a press\u00e3o sobre essa quantidade, que \u00e9 fixa, n\u00f3s teremos conflito.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o por acaso, organismos multilaterais, como o <strong>Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente \u2013 PNUMA<\/strong>, criaram \u00f3rg\u00e3os para discutir conflitos ambientais. De fato, temos que mudar o estilo de vida, porque esse modelo de crescimento da produ\u00e7\u00e3o sem limites n\u00e3o pode continuar, \u00e9 um engano, \u00e9 uma ilus\u00e3o achar que continuaremos produzindo sem limita\u00e7\u00f5es. A\u00e7\u00f5es como <strong>reciclagem<\/strong> e reaproveitamento de materiais n\u00e3o s\u00e3o mais um modismo ecol\u00f3gico, passam a ser uma necessidade para a pr\u00f3pria manuten\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o da sociedade de consumo contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tempos, todos n\u00f3s que trabalhamos com as quest\u00f5es socioambientais h\u00e1 muitos anos ganhamos um aliado muito importante, eu diria at\u00e9 inesperado, que foi o <strong>Papa Francisco<\/strong>. O Papa, com sua <strong>Enc\u00edclica<\/strong> [<a href=\"https:\/\/medium.com\/instituto-humanitas-unisinos\/laudato-si-sobre-o-cuidado-da-casa-comum-d08ccd9d4dc7#.x33xomnud\" target=\"_blank\">Carta Enc\u00edclica Laudato Si&#8217; do Papa Francisco sobre o cuidado da casa comum<\/a>], lan\u00e7ada no ano passado, de maneira bastante contundente e com uma penetra\u00e7\u00e3o maior do que muitos pesquisadores, deixou claro que n\u00f3s teremos de alterar, sim, o nosso estilo de vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel manter essa sociedade pouco inteligente, que faz um enorme esfor\u00e7o cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico para gerar um objeto, e, poucos meses depois &#8211; quando muito um ano depois &#8211; o descarta sem a menor necessidade, para fazer com que as pessoas comprem um novo. \u00c9 o que ocorre, por exemplo, com aparelhos de telefone celular, computadores, tablets e outros eletr\u00f4nicos; nesses casos, o <strong>apelo da inova\u00e7\u00e3o<\/strong> \u00e9 utilizado para fomentar a venda, a qual, se verificarmos na ess\u00eancia, apresenta uma diferen\u00e7a pouco expressiva, mas refor\u00e7a a ideia de que sempre se deve buscar algo novo, que de fato nem \u00e9 t\u00e3o novo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, esse \u00e9 de fato um desafio importante e que significa repensar o <strong>significado da vida<\/strong>: o que queremos da nossa vida, da nossa organiza\u00e7\u00e3o social? Para que vivemos? Algumas pessoas, infelizmente, vivem para ter, para consumir, para comprar, e isso efetivamente n\u00e3o satisfaz. J\u00e1 h\u00e1 v\u00e1rios trabalhos de psicologia de massa acerca do <strong>consumo<\/strong> que mostram que determinado n\u00edvel de consumo e de renda faz com que as pessoas n\u00e3o tenham mais no consumo em si uma forma de realiza\u00e7\u00e3o pessoal, sendo preciso buscar outros elementos, e a\u00ed as escolhas s\u00e3o as mais diversas. N\u00e3o entrarei nesse campo, mas h\u00e1 quem v\u00e1 para o campo das drogas, da viol\u00eancia, ou ent\u00e3o da religi\u00e3o, dos esportes radicais etc.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma busca de sentido para vida, porque a sociedade do consumo efetivamente \u00e9 muito ingrata, pois gera sempre a frustra\u00e7\u00e3o. Por exemplo, voc\u00ea acabou de comprar um aparelho ou instrumento tecnol\u00f3gico que deseja e pouco tempo depois voc\u00ea se sente frustrado porque o mesmo fabricante que vendeu aquilo diz: \u201cagora isso n\u00e3o vale mais, o que vale \u00e9 esse novo\u201d. E essa <strong>frustra\u00e7\u00e3o permanente<\/strong> tem gerado muita inquieta\u00e7\u00e3o, muito mercado de trabalho para o pessoal da sa\u00fade mental. N\u00e3o por acaso, a \u00e1rea da sa\u00fade mental cresce e as doen\u00e7as mentais crescem em escala muito preocupante, porque essa frustra\u00e7\u00e3o permanente deve ser cessada. \u00c9 preciso, portanto, reorganizar a vida, pens\u00e1-la a partir do que significa estar vivo no planeta terra e do que podemos usufruir, n\u00e3o apenas da base material.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa, evidentemente, abandonar a base material. Ningu\u00e9m est\u00e1 dizendo que n\u00e3o \u00e9 mais para ter computador, nem telefone celular, mas talvez n\u00e3o seja necess\u00e1rio trocar de aparelhos celulares e computadores a cada seis meses, como ocorre em alguns lugares do mundo, em especial nas camadas mais abastadas.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Algumas not\u00edcias informam que um dado em aberto entre os pesquisadores que estudam o Antropoceno \u00e9 definir qual \u00e9 a data formal do seu in\u00edcio. Como est\u00e1 essa discuss\u00e3o e qual data indica melhor o in\u00edcio dessa nova era geol\u00f3gica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Wagner Costa Ribeiro \u2013<\/strong> Essa discuss\u00e3o \u00e9 pol\u00eamica. Eu diria que a <strong>Revolu\u00e7\u00e3o Industrial<\/strong> \u00e9 o grande marco e corresponde ao que na hist\u00f3ria se chama de<strong> processo de moderniza\u00e7\u00e3o<\/strong>. Acredito que a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial \u00e9 o grande marco, que \u00e9 quando passamos a ter uma for\u00e7a motriz bastante ampliada; ou seja, como j\u00e1 disse anteriormente, foi desenvolvida a m\u00e1quina a vapor e depois incrementada ainda mais por uma m\u00e1quina com motor a explos\u00e3o, com uma capacidade de produ\u00e7\u00e3o e de extra\u00e7\u00e3o de recursos naturais bastante ampliada.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, esse \u00e9 realmente o grande marco, mas \u00e9 um marco das ci\u00eancias da sociedade e, muitas vezes, os colegas das ci\u00eancias da natureza n\u00e3o s\u00e3o muito sens\u00edveis a esse tipo de argumento. N\u00e3o s\u00e3o todos os pesquisadores, evidentemente, mas eu diria que alguns ainda n\u00e3o s\u00e3o sens\u00edveis e t\u00eam alguma dificuldade em assimilar essa ideia. Mas parece razo\u00e1vel esse pensamento se tivermos em conta que o <strong>Antropoceno<\/strong> \u00e9 marcado pela <strong>a\u00e7\u00e3o humana<\/strong> em larga escala, e isso come\u00e7ou com a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial.<\/p>\n<p>Portanto, se fosse para marcar um ponto, apesar de que acho isso pouco \u00fatil na hist\u00f3ria \u2013 confesso a voc\u00ea, pois n\u00e3o vejo necessidade em precisar -, mas eu diria que a partir da <strong>Revolu\u00e7\u00e3o Industrial<\/strong> n\u00f3s tivemos de fato uma acelera\u00e7\u00e3o muito intensa dessa transforma\u00e7\u00e3o da superf\u00edcie terrestre.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>\u201cO Antropoceno \u00e9 marcado pela a\u00e7\u00e3o humana em larga escala, que come\u00e7a com a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial\u201d<\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; A discuss\u00e3o sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tem algum peso nessa nova era geol\u00f3gica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Wagner Costa Ribeiro<\/strong> \u2013 Essa \u00e9 outra quest\u00e3o extremamente importante, que tem algumas interpreta\u00e7\u00f5es poss\u00edveis: uma interpreta\u00e7\u00e3o apresenta o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/530282-cortes-profundos-nas-emissoes-de-gases-sao-para-ja\" target=\"_blank\"><strong>IPCC<\/strong><\/a> [Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7a do Clima], que, ao contr\u00e1rio do que alguns dizem, estaria mostrando dados que n\u00e3o apresentam claramente a gravidade das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Ent\u00e3o \u00e9 uma cr\u00edtica ao IPCC, que, segundo esse grupo, n\u00e3o estaria apresentando claramente a gravidade das <strong>mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/strong> e estaria, de alguma maneira, atenuando um pouco os problemas.<\/p>\n<p>A outra posi\u00e7\u00e3o \u00e9 minorit\u00e1ria e critica o <strong>IPCC<\/strong> dizendo que n\u00e3o h\u00e1 mudan\u00e7a clim\u00e1tica e nem aquecimento global. J\u00e1 a vis\u00e3o do IPCC diz que temos de controlar at\u00e9 <strong>2 graus<\/strong> Celsius, que \u00e9 bastante conhecida. Nesse debate, destas tr\u00eas vis\u00f5es, posso dizer que n\u00f3s temos cada vez mais evid\u00eancias de que as <strong>condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas<\/strong> do planeta, pelos menos na escala local, est\u00e3o mudando bastante.<\/p>\n<p>Eu posso falar um pouco da cidade onde moro, <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/540289-extremos-climaticos-devem-ocorrer-com-mais-frequencia-e-intensidade-em-sao-paulo\" target=\"_blank\"><strong>S\u00e3o Paulo<\/strong><\/a>. J\u00e1 tenho 53 anos e S\u00e3o Paulo n\u00e3o \u00e9 mais a terra da garoa de quando eu tinha entre oito e dez anos de idade. Houve uma <strong>mudan\u00e7a no microclima<\/strong>, mas isso tem a ver com mudan\u00e7a clim\u00e1tica? Necessariamente, n\u00e3o. N\u00f3s tivemos um processo de intensifica\u00e7\u00e3o da urbaniza\u00e7\u00e3o e n\u00e3o s\u00f3 em S\u00e3o Paulo, mas tamb\u00e9m em v\u00e1rias outras metr\u00f3poles no mundo, fazendo com que as condi\u00e7\u00f5es locais tenham uma altera\u00e7\u00e3o bastante expressiva. Portanto \u00e9 uma caracter\u00edstica do <strong>Antropoceno<\/strong>, ou seja, n\u00f3s mudamos a superf\u00edcie terrestre de maneira radical.<\/p>\n<p>Aquela massa de ar frio que chegava tinha um ambiente florestado, mas muitas vezes ela n\u00e3o encontra mais essas condi\u00e7\u00f5es e segue por uma superf\u00edcie mais aquecida, tendo uma precipita\u00e7\u00e3o muito mais intensa. Com isso \u00e9 poss\u00edvel explicar por que <strong>S\u00e3o Paulo<\/strong> n\u00e3o \u00e9 mais a terra da garoa. Mas como se explica a seca que tivemos agora? A\u00ed n\u00e3o \u00e9 mais a escala local, temos que pensar processos de ordem mais ampla, de press\u00e3o atmosf\u00e9rica.<\/p>\n<p>\u00c9 a mesma coisa que estamos vendo junto a <strong>Manaus<\/strong>, no munic\u00edpio de <strong>Presidente Figueiredo<\/strong>, com uma seca bem aguda. Ou seja, estamos tendo <strong>fen\u00f4menos extremos<\/strong> com maior recorr\u00eancia, e isso, segundo o pr\u00f3prio IPCC e v\u00e1rios pesquisadores que se dedicam a analisar a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, seria de fato uma indica\u00e7\u00e3o de que na escala mais ampla, para al\u00e9m da escala local, n\u00f3s estamos j\u00e1 vivendo processos que t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com essa maior presen\u00e7a dos gases de efeito estufa na atmosfera.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que eu estou dizendo \u00e9 que ainda \u00e9 precoce afirmar que estes eventos extremos s\u00e3o decorr\u00eancia do <strong>aquecimento global<\/strong>, mas n\u00e3o \u00e9 precoce dizer que eles est\u00e3o confirmando algumas proje\u00e7\u00f5es que o <strong>IPCC<\/strong> vem fazendo desde os anos 1980 do s\u00e9culo passado. Nesse caso, acredito que surja um princ\u00edpio muito importante que, ali\u00e1s, est\u00e1 na pr\u00f3pria <strong>Conven\u00e7\u00e3o da Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica<\/strong>, que \u00e9 de 1992. L\u00e1 j\u00e1 est\u00e1 claro o princ\u00edpio da precau\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 este princ\u00edpio? Na d\u00favida, enquanto n\u00e3o houver a certeza cient\u00edfica, \u00e9 preciso tomar a\u00e7\u00f5es de precau\u00e7\u00e3o para evitar o acirramento de um problema, e isso devemos ter em mente quando falamos de mudan\u00e7a clim\u00e1tica: n\u00f3s n\u00e3o temos certeza, mas se as previs\u00f5es se confirmarem, as perspectivas s\u00e3o muito dif\u00edceis.<\/p>\n<p>Diante disso, j\u00e1 que n\u00e3o conseguimos controlar a emiss\u00e3o da energia solar, j\u00e1 que n\u00e3o conseguimos controlar a emiss\u00e3o de <strong>gases de efeito estufa<\/strong> de um vulc\u00e3o \u2013 alguns pesquisadores defendem que o vulc\u00e3o emite muito mais gases que toda a esp\u00e9cie humana -, temos que controlar a nossa parte, que implica, justamente, em restringir o uso de <strong>combust\u00edveis f\u00f3sseis<\/strong>, mudar pr\u00e1ticas agr\u00edcolas etc. \u00c9 nesse ponto que estamos.<\/p>\n<p>Acabamos de assistir a uma reuni\u00e3o em <strong>Paris<\/strong>, agora em dezembro, onde os avan\u00e7os finalmente apareceram. Nas cr\u00edticas, alguns dizem que o acordo firmado no encontro \u00e9 insuficiente e outros dizem que foi o pacto poss\u00edvel. Eu, que trabalho com esses assuntos h\u00e1 alguns anos, fiquei satisfeito com o que foi <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/550272-acordo-de-paris-avanco-nas-metas-mas-fragilidade-na-implementacao-entrevista-especial-com-carlos-rittl\" target=\"_blank\">acordado em Paris<\/a> e entendo que estamos em um processo de negocia\u00e7\u00e3o, um processo dif\u00edcil e penoso que implica em <strong>mudan\u00e7a do estilo de vida<\/strong>. A\u00ed voltamos \u00e0 pergunta que voc\u00ea me fez antes: a <strong>mudan\u00e7a clim\u00e1tica<\/strong> vai necessariamente impor mudan\u00e7a no estilo de vida, inclusive modifica\u00e7\u00f5es naquilo que a esp\u00e9cie humana construiu.<\/p>\n<p>N\u00f3s teremos que ter ajustes importantes, por exemplo, em cidades costeiras, e pouco disso tem sido debatido e discutido, especialmente no <strong>Brasil<\/strong>. Em alguns pa\u00edses, j\u00e1 h\u00e1 estudos profundos mostrando o que fazer em caso de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/551923-o-nivel-do-mar-subiu-mais-rapido-no-seculo-xx-do-que-nos-3000-anos-anteriores\" target=\"_blank\"><strong>eleva\u00e7\u00e3o do mar<\/strong><\/a> a 20, 50 ou 100 cent\u00edmetros, por exemplo, baseado em modelos e estudos da costa. Estou falando de casos como a <strong>Espanha<\/strong> e n\u00e3o de pa\u00edses mais centrais. N\u00f3s temos de fato a <strong>mudan\u00e7a clim\u00e1tica<\/strong> ainda como uma incerteza, mas com ind\u00edcios cada vez mais claros de que aquilo que se previa est\u00e1 ocorrendo.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 preciso tomar a\u00e7\u00f5es agora. No caso brasileiro h\u00e1 um agravante, pois temos um hist\u00f3rico social de <strong>desigualdade<\/strong> muito aguda, que faz com que muitas pessoas estejam em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade e isso pode ser agravado ainda mais pela mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Portanto, temos de saldar a d\u00edvida social e ao mesmo tempo fazer uma a\u00e7\u00e3o de <strong>adapta\u00e7\u00e3o<\/strong> para a mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Essa pode ser uma excelente oportunidade para movimentar o pa\u00eds e nos colocar na dire\u00e7\u00e3o da gera\u00e7\u00e3o de emprego e da sa\u00edda dessa <strong>crise conjuntural<\/strong>, apostando, por exemplo, na cria\u00e7\u00e3o de saneamento b\u00e1sico, habita\u00e7\u00e3o de interesse social, revitaliza\u00e7\u00e3o de centros urbanos com moradia social. Enfim, poder\u00edamos gerar muito emprego e muita atividade econ\u00f4mica pensando em oferecer, por exemplo, moradia de menos risco para a popula\u00e7\u00e3o carente do pa\u00eds e, dessa forma, far\u00edamos tamb\u00e9m uma a\u00e7\u00e3o de adapta\u00e7\u00e3o, construindo casas mais resistentes \u00e0s intemp\u00e9ries que podem vir a ocorrer em se confirmando as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; J\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel estimar que mudan\u00e7as geol\u00f3gicas podem ocorrer futuramente por conta do Antropoceno?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Wagner Costa Ribeiro \u2013<\/strong> J\u00e1 est\u00e3o ocorrendo. Se analisarmos, por exemplo, algumas interven\u00e7\u00f5es que ocorrem junto \u00e0 \u00e1rea costeira, alguns portos alteram toda a din\u00e2mica da geomorfologia costeira. Usarei como exemplo um caso concreto: a <strong>praia de Iracema<\/strong>, em <strong>Fortaleza<\/strong> &#8211; capital do Cear\u00e1 e uma das principais metr\u00f3poles do Nordeste brasileiro \u2013, que sofreu s\u00e9rias consequ\u00eancias com a constru\u00e7\u00e3o de um <strong>porto<\/strong>. Ent\u00e3o, temos sim consequ\u00eancias hoje, que n\u00e3o s\u00e3o mais surpreendentes e s\u00e3o muito imediatas.<\/p>\n<p>Outro exemplo: Quantas avenidas de fundo de vale foram constru\u00eddas no <strong>Brasil<\/strong>? O que representa fazer uma avenida de fundo de vale? Haver\u00e1 uma acelera\u00e7\u00e3o da chegada da \u00e1gua no fundo do vale e a consequ\u00eancia \u00e9 o alagamento. Esse fen\u00f4meno tem uma consequ\u00eancia geol\u00f3gica, porque o material ser\u00e1 transportado com mais velocidade; mas tem tamb\u00e9m uma explica\u00e7\u00e3o humana, porque n\u00f3s somos a causa e muitas quem sofre as consequ\u00eancias n\u00e3o \u00e9 quem causa o problema, mas, infelizmente, quem est\u00e1 vivendo junto \u00e0 \u00e1rea de alagamento.<\/p>\n<p>Dessa forma, j\u00e1 temos sim elementos dessas consequ\u00eancias. Por exemplo, se pensarmos na quantidade de <strong>lagos artificiais<\/strong> que j\u00e1 foram constru\u00eddos na superf\u00edcie terrestre, se pensarmos no volume do material que foi retirado para fazer terraplanagem para a constru\u00e7\u00e3o de estradas, temos uma s\u00e9rie de vari\u00e1veis que mostram que alteramos bastante a s<strong>uperf\u00edcie terrestre<\/strong>, afetando a din\u00e2mica geol\u00f3gica. Porque a geologia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o estudo das rochas, abarca uma s\u00e9rie de din\u00e2micas, como o processo de sedimenta\u00e7\u00e3o e o transporte de material, que est\u00e3o sendo bastante afetadas.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>\u201cTemos de saldar a d\u00edvida social e ao mesmo tempo fazer uma a\u00e7\u00e3o de adapta\u00e7\u00e3o para a mudan\u00e7a clim\u00e1tica\u201d<\/h2>\n<\/td>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Que tipo de \u201cpegada, marca geol\u00f3gica\u201d imagina que o homem \u201cp\u00f3s-antropoceno\u201d deixa na Terra?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Wagner Costa Ribeiro \u2013<\/strong> N\u00f3s deixaremos um <strong>aglomerado de material<\/strong>, que ser\u00e1 muito rico para os arque\u00f3logos do futuro, porque n\u00f3s n\u00e3o estamos tendo o cuidado de <strong>separar elementos<\/strong> que a natureza criou separadamente. Darei um exemplo muito simples: muitas pe\u00e7as do vestu\u00e1rio hoje s\u00e3o altamente complexas, combinando algod\u00e3o com tecido origin\u00e1rio de petr\u00f3leo e adicionando metais; \u00e9 s\u00f3 analisarmos qualquer cal\u00e7a jeans com acess\u00f3rios ou nylon com alguns enxertos de metal. A combina\u00e7\u00e3o de elementos de fabrica\u00e7\u00e3o de utens\u00edlios j\u00e1 existia no passado, mas eram apenas elementos naturais. O novo agora \u00e9 justamente acrescentar esse material a outros com origem do petr\u00f3leo, tornando-se mais dif\u00edcil separ\u00e1-los depois.<\/p>\n<p>Se observarmos as edifica\u00e7\u00f5es, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente. N\u00f3s introduzimos dentro de paredes dutos met\u00e1licos para transportar energia, dutos de pl\u00e1stico para proteger os dutos met\u00e1licos que transportam energia, enfim, vamos sofisticando os ambientes, misturando materiais. Portanto, essa \u00e9 uma caracter\u00edstica nossa, porque n\u00f3s misturamos, mas n\u00e3o nos preocupamos depois em separar novamente, at\u00e9 para reaproveitamento.<\/p>\n<p>Dessa forma, a <strong>pegada<\/strong> que deixaremos ser\u00e1 um grande <strong>aglomerado de materiais misturados<\/strong>, ou seja, estamos misturando aquilo que natureza levou anos para deixar organizado, separado. Estamos nos apropriando disso e embaralhando esse material, e isso ter\u00e1 consequ\u00eancias: umas delas \u00e9 a de que acabaremos com os elementos naturais, e outra poder\u00e1 ser de que, no futuro, se quiser se <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/533572-ciclo-de-vida-do-produto-logistica-reversa-e-ecodesign-artigo-de-roberto-naime\" target=\"_blank\">reaproveitar<\/a> esse material, haver\u00e1 um enorme trabalho para come\u00e7ar a juntar um pouquinho do min\u00e9rio de ferro que est\u00e1 em cada pe\u00e7a, um pouquinho de bauxita que est\u00e1 em outras pe\u00e7as etc.<\/p>\n<p>Isso j\u00e1 est\u00e1 ocorrendo, visto que alguns pa\u00edses j\u00e1 come\u00e7aram hoje a fazer prospec\u00e7\u00e3o em antigos lix\u00f5es para buscar material de qualidade. Portanto, talvez j\u00e1 tenhamos alguma indica\u00e7\u00e3o de que \u00e9 preciso utilizar de outra maneira essa oferta que a natureza nos deixou como heran\u00e7a. Ningu\u00e9m garante que somos os \u00fanicos usu\u00e1rios desse estoque de material que a natureza nos deixou, por isso temos de pensar que quem est\u00e1 por vir tamb\u00e9m tem o direito de usar esse material.<\/p>\n<p>Fonte: IHU On-Line<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDe fato, um desafio importante significa repensar o significado da vida: o que queremos da<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"\u201cDe fato, um desafio importante significa repensar o significado da vida: o que queremos da","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37998"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37998"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37998\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37998"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37998"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37998"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}